Universo da obra
Universo da obra
Quando a livraria começou a esvaziar, Marina continuou sentada à mesa, assinando livros para três pessoas que não sabiam encerrar uma conversa. O evento tinha acabado fazia quase vinte minutos, o mediador guardava os cartões de perguntas dentro de uma pasta torta, a moça da produção recolhia garrafas de água pela metade, e o técnico, ajoelhado perto da primeira fileira, enrolava um cabo preto com a concentração de quem já tinha ouvido erotismo demais por uma noite. Ainda havia copos plásticos sobre a mesa, uma caneta sem tampa perto do livro dela, duas cadeiras fora do lugar e um guardanapo amassado preso no fundo de um prato com farelos de bolo seco. Marina escrevia dedicatórias curtas, repetia nomes, sorria quando precisava, e sentia a meia-calça apertar a cintura com uma raiva miúda, dessas que crescem quando ninguém percebe.
O último homem da fila segurava o exemplar contra o peito e esperou todos os outros irem embora para começar sua palestra particular. Falou do corpo na prosa de autoria feminina, explicou uma passagem que ela mesma tinha lido no palco, corrigiu a interpretação de uma personagem que Marina criara aos três da manhã, num apartamento antigo da Bela Vista, com o ventilador fazendo barulho e uma xícara fria ao lado do computador. Ela manteve a caneta sobre a folha de rosto, esperando o nome dele aparecer. O nome não veio. Veio uma citação francesa mal pronunciada, veio uma comparação com uma autora que ele claramente não lera inteira, veio a palavra “transgressão” usada com a delicadeza de uma colher batendo no dente.
— Para quem eu dedico? — Marina perguntou, sem levantar a cabeça.
— Ernesto — ele respondeu, depois de uma pausa ofendida.
Marina escreveu “Para Ernesto, boa leitura”, assinou e fechou o livro antes que ele encontrasse outra entrada para continuar. Ainda assim, Ernesto apoiou os dedos na mesa e tentou falar de “limites do obsceno”, olhando para a boca dela de um jeito que lhe deu vontade de arrancar a própria educação com a unha. Ela respondeu com um aceno pequeno, já pegando a bolsa, já vendo a produtora apagar parte das luzes, já escolhendo a saída lateral pelo canto do olho. Quando Ernesto enfim se afastou, deixou um cheiro doce de perfume barato e página nova. Marina respirou pela boca para não sentir.
Caio estava encostado na parede perto da seção de poesia, com a câmera pendurada no pescoço e o polegar parado sobre a tela. Ele tinha quarenta anos, barba curta, camisa preta dobrada até os antebraços e aquela paciência irritante de homem que sabe esperar sem pedir licença. Marina tinha trinta e seis, dois livros publicados, uma coluna quinzenal e uma memória muito específica da mão dele entrando por baixo da saia dela no elevador de um hotel em Curitiba. Desde aquela madrugada, os dois vinham fazendo uma dança ridícula de mensagens incompletas, encontros em evento, gentilezas públicas e vontade mal guardada. Ele tinha fotografado a mesa inteira naquela noite, só que Marina sabia exatamente quando a lente pousava nela por mais tempo. Sabia também que ele a tinha visto tolerar Ernesto, e isso a irritava quase tanto quanto a excitava.
Ela juntou os próprios livros, tampou a caneta com uma tampa achada perto do microfone e ficou de pé. A meia-calça prendeu na lateral da cadeira. Marina abaixou, soltou o fio com a unha e ouviu Caio se mexer perto da parede. Levantou sem olhar para ele, passou pela mesa com a bolsa no ombro, agradeceu à produtora com dois beijos rápidos e foi em direção à saída. Ao cruzar por Caio, deixou a frase no espaço entre os dois, baixa o bastante para morrer ali.
— Meu quarto é no décimo segundo — ela disse, sem parar de andar.
Marina atravessou o saguão do hotel querendo não encontrar ninguém da mesa, querendo o elevador vazio, querendo o cartão funcionar na primeira tentativa. Queria arrancar a meia-calça, lavar da boca o gosto das respostas educadas e tirar do corpo aquela postura de mulher inteligente diante de gente que confundia desejo com tema de dissertação. No espelho do elevador, viu a própria boca sem batom no centro, os brincos pesando nas orelhas, a marca vermelha da bolsa no ombro. Pensou em Caio descendo a rua atrás dela com a câmera, talvez tentando parecer normal na recepção, talvez já duro dentro da calça. Essa imagem a fez sorrir pela primeira vez naquela noite sem obrigação.
No quarto, ela deixou a porta apenas encostada. Tirou os sapatos, jogou a bolsa sobre a poltrona, soltou os brincos e ficou diante da janela, olhando o vidro devolver uma versão escura do próprio corpo. A cidade aparecia em pedaços, faróis subindo a avenida, janelas acesas nos prédios em frente, uma propaganda azul piscando no topo de alguma farmácia. Marina abriu o zíper lateral do vestido até a metade e parou. Queria que ele terminasse. Queria ver se Caio ainda tinha a mesma fome sem o álibi da madrugada, sem bebida demais, sem a desculpa de estarem longe de casa.
Ele bateu duas vezes antes de entrar. Marina não respondeu. A porta abriu, fechou, e os dois ficaram alguns segundos ouvindo o ar-condicionado trabalhar com ruído baixo. Caio deixou a câmera sobre a bancada, tirou a jaqueta e olhou para ela pelo reflexo da janela. Marina viu o esforço dele para não começar errado. Aquilo lhe agradou.
— Antes de qualquer coisa, eu quero você aqui porque eu quero — Marina disse, virando-se para ele. — Se eu mandar parar, para. Se eu mandar continuar, continua.
— Entendi — Caio respondeu, deixando as mãos visíveis ao lado do corpo.
— E sem desaparecer amanhã — ela acrescentou, apontando para ele com o queixo.
— Sem desaparecer — ele disse.
Ela caminhou até ele, segurou o cinto da calça e puxou. O beijo começou sem delicadeza de vitrine. Teve língua, dente, saliva e a mão dela entrando pela camisa dele para sentir a pele quente da barriga. Caio segurou a cintura dela, e Marina deixou por dois segundos, depois prendeu os pulsos dele contra a porta, só para lembrá-lo de que o ritmo ainda era dela. Roçou o quadril no volume da calça, sentiu o pau endurecendo e abriu um sorriso curto. Aquela reação direta, sem metáfora, sem palestra, devolveu parte da noite a ela.
— Abre a calça — ela disse, com a boca perto da dele.
Caio abriu. Marina acompanhou o cinto saindo da fivela, o zíper descendo, a cueca sendo puxada para baixo. O pau dele saltou duro, grosso, com a cabeça já úmida. Ela se ajoelhou sem pressa, segurou pela base e lambeu a ponta, primeiro de leve, depois com a língua inteira. Caio respirou fundo, e Marina colocou na boca, descendo até onde conseguiu, subindo logo depois com a mão fechada no resto. O som do boquete ocupou o quarto com uma indecência simples: saliva, respiração, a garganta dela aceitando um pouco mais, os dedos dela apertando, o corpo dele tentando não empurrar.
— Pode segurar meu cabelo — Marina disse, tirando o pau da boca por um instante. — Se passar, eu falo.
Caio segurou. Ela voltou a chupar com mais vontade, olhando para cima às vezes, satisfeita ao ver o rosto dele perder qualquer ar de fotógrafo observador. Marina gostava de desmontar aquela calma. Gostava de sentir o pau dele endurecer ainda mais quando ela engasgava de propósito, respirava pelo nariz e continuava. A saliva escorria pelos dedos dela. O vestido meio aberto escorregava de um ombro. Quando percebeu que ele estava perto de gozar, apertou a base do pau e parou.
— Ainda não — ela disse, levantando-se. — Hoje você goza quando eu quiser.
— Então manda direito — Caio respondeu, com a voz mais baixa.
Marina tirou o vestido pela cabeça e largou no chão. Estava sem sutiã, com uma calcinha preta pequena, já molhada no centro. Caio olhou para a mancha no tecido, e ela abriu um pouco as pernas, sustentando a exposição sem pressa. Ele se aproximou, beijou os seios dela, chupou um mamilo, depois o outro, usando a língua até ela apoiar a mão na porta. Marina segurou a nuca dele, puxou o cabelo de leve e guiou a boca para baixo. Caio entendeu o caminho. Ajoelhou-se, beijou a barriga dela, a marca da meia-calça na cintura, o osso do quadril, a parte interna da coxa. Quando encostou a boca por cima da calcinha, Marina soltou um riso pelo nariz.
— Tira logo essa merda — ela disse.
Ele puxou a calcinha até os tornozelos dela. Marina saiu da peça com um passo e apoiou uma perna sobre a beirada da cama. Caio abriu a buceta dela com os dedos e colocou a boca. A primeira lambida foi lenta o suficiente para irritá-la. Ela segurou o cabelo dele e empurrou o quadril.
— Chupa de verdade — Marina mandou.
Caio chupou. Passou a língua pela entrada, subiu até o clitóris, sugou, voltou com dois dedos, entrou nela enquanto mantinha a boca no ponto que fazia suas pernas perderem firmeza. Marina olhou para baixo e viu o rosto dele entre suas coxas, os dedos entrando e saindo da buceta molhada, a barba roçando a pele. Aquilo a atingiu com uma clareza quase agressiva. Depois de uma noite ouvindo gente falar de obsceno, queria o obsceno ali, ajoelhado, com a boca ocupada e as mãos certas.
Ela puxou Caio para a cama. Subiu no colchão, ajeitou os joelhos ao lado do rosto dele e se virou, montando um 69 sem elegância coreografada, só com pressa e vontade. Pegou o pau dele de novo, molhado da saliva anterior, e colocou na boca enquanto ele enterrava o rosto entre as pernas dela. A posição saiu torta no começo; ela ajustou o joelho, ele segurou sua coxa, e os dois encontraram um ritmo feito de interrupções. Marina chupava, perdia o compasso quando ele sugava o clitóris, voltava ao pau, gemia com a boca cheia, apertava a base para controlar o quanto ele podia se entregar.
— Isso, Caio — ela disse, afastando a boca apenas o necessário. — Chupa minha buceta assim.
Ele enfiou os dedos mais fundo, curvou a mão, encontrou o ponto que arrancou dela um palavrão alto. Marina largou o pau por alguns segundos, apoiou a testa no quadril dele e gozou contra a boca dele, as coxas apertando os lados do rosto, os dedos fechados no lençol. Caio continuou até ela pedir pausa com uma mão empurrando o peito dele. Ela desceu do corpo dele, respirou de lado, depois abriu a gaveta da mesa de cabeceira e pegou uma camisinha.
— Agora me come — Marina disse, jogando a embalagem sobre ele.
Caio colocou a camisinha. Marina deitou de costas, abriu as pernas e puxou-o pelo pescoço para beijá-lo com o gosto dela ainda na boca. Ele esfregou a cabeça do pau na entrada da buceta, espalhando a umidade, e ela segurou o quadril dele com as duas mãos.
— Inteiro — ela disse.
Ele entrou devagar até o fim. Marina fechou os olhos por um segundo, apertou as unhas nas costas dele e moveu o quadril para confirmar que queria mais. Caio começou a meter com força crescente, primeiro medindo as reações dela, depois perdendo a cautela quando ela pediu. A cama bateu na parede duas vezes. Os seios dela balançavam a cada estocada, a boca soltava palavrões sem preocupação com o quarto ao lado, e Caio mantinha uma mão na coxa dela, abrindo mais, buscando um ângulo mais fundo.
— Me come direito — Marina disse, perto do ouvido dele. — Quero sentir esse pau.
Ele segurou uma perna dela por trás do joelho e empurrou para o lado. A penetração ficou funda o bastante para Marina perder a frase seguinte no meio de um gemido. Ela levou dois dedos à boca dele.
— Molha — ela pediu.
Caio chupou os dedos dela, e Marina guiou a mão dele para trás, até o cuzinho. Ele continuou metendo na buceta enquanto tocava a entrada com cuidado, fazendo círculos pequenos, usando a saliva e a umidade dela. Marina respirou fundo, abriu mais as pernas e olhou para ele sem desviar.
— Devagar — ela disse.
— Eu vou devagar — Caio respondeu.
O dedo entrou aos poucos. Marina segurou os ombros dele, sentindo o pau enchendo a buceta e o dedo abrindo o cuzinho no mesmo ritmo. O prazer veio mais baixo no começo, mais espalhado, depois subiu com violência quando Caio encontrou o compasso certo. Ela pediu mais, pediu que ele falasse, pediu que ele não diminuísse. Caio, suado e ofegante, obedeceu sem tentar parecer bonito.
— Eu gosto da sua buceta — ele disse, metendo fundo. — Gosto de sentir você apertando meu pau. Gosto quando você manda em mim.
Marina gozou de novo com a voz falhando. Não foi um gemido limpo, desses que parecem escritos para alguém ouvir; saiu quebrado, com palavrão no meio, com a mão dela puxando o cabelo dele e o quadril tentando buscar o pau mesmo quando o corpo já pedia descanso. Caio tirou o dedo com cuidado, segurou os dois quadris dela e acelerou. Marina envolveu a cintura dele com as pernas.
— Goza — ela disse, beijando o canto da boca dele. — Goza dentro da camisinha enquanto me fode.
Caio gozou com o rosto no pescoço dela, o corpo travado, a respiração quente contra a pele. Marina manteve as pernas em volta dele até sentir o ritmo dos dois baixar. Depois soltou, passou os dedos pelo cabelo úmido e ficou olhando para a lâmpada do teto, achando ridículo que um quarto de hotel pudesse parecer tão honesto depois de uma noite inteira de frases bem-comportadas.
No banheiro, ela ligou o chuveiro e entrou primeiro. A água bateu nos ombros, desceu pela barriga, ardeu um pouco onde a barba dele tinha marcado a parte interna das coxas. Caio entrou atrás, lavou as mãos, depois passou sabonete nas costas dela com uma atenção que Marina aceitou sem comentar. O silêncio ali não precisava virar frase bonita. Tinha sabonete escorregando, azulejo frio, camisinha amarrada no lixo, uma toalha caída perto da pia e o pau dele começando a endurecer de novo quando ela se virou.
— Você fica até amanhã — Marina disse, tirando água dos olhos com os dedos.
— Fico — Caio respondeu.
— E amanhã você não inventa delicadeza para sumir.
— Não invento.
Marina desligou o chuveiro, pegou uma toalha e olhou para ele de cima a baixo. O cansaço do evento ainda estava nela, só que agora misturado a outra coisa, mais baixa, mais satisfeita, com vontade de continuação. Ela passou por Caio, roçando o corpo molhado no dele de propósito.
— Ótimo — ela disse, abrindo a porta do banheiro. — Deita na cama. Ainda quero usar sua boca mais uma vez.
Romance erótico contemporâneo centrado em Marina, escritora de literatura hot, e Caio, fotógrafo do circuito editorial. A obra acompanha desejo, imagem, autoria e a disputa sobre quem tem direito de narrar o corpo de uma mulher.
Publicado no Aurora/Literunico com leitura em capítulos.
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