Leia agora
Gupeva

Universo da obra

Gupeva

Capítulo 3 · Gupeva

Capítulo III

3 de 5 ≈ 10 min de leitura

— Muitas luas se hão passado, mancebo, – continuou o cacique, em voz magoada, – muitas luas já, e tantas que nem vos sei dizer. Era uma tarde, bela como foi a de hoje; mais bela talvez, porque era então a lua das flores, e eu dela me recordo como se fora hoje...

Sim, era uma tarde de enlevadora beleza; nela havia sedução, e poesia, nela havia amor, e saudade. Sabeis vós o que nós outros chamamos – lua das flores? É aquela em que um sol brando, e animador, rompendo as nuvens já menos densas, vem beijar os prados, que se aveludam, enamorar a flor, que se adorna de louçanias, vivificar os campos, que se revestem de primoroso ornato, afagar o homem, que se deleita com a beleza da natureza. É a lua em que os pássaros afinam seus cantos melodiosos, é a lua em que a cecém mimosa embalsama as margens dos nossos rios, em que as campinas se esmaltam de flores odorosas, em que o coração ama, em que a vida é mais suave, em que o homem é mais reconhecido ao seu Criador...

Ele fez uma pequena pausa e continuou:

— Era pois na lua das flores, que à tarde um velho cacique e um mancebo índio, do cume deste mesmo outeiro, lançavam um olhar de saudosa despedida, sobre o navio normando, que levava destas praias uma formosa donzela. Era ela filha desse velho cacique, que com mágoa a via partir para as terras da Europa; mas a formosa Paraguaçu de há muito a havia distinguido entre as demais filhas de caciques; e sua afeição por ela era sincera, e imensa. Paraguaçu seguia para a França, onde devia receber o batismo, tomando por sua madrinha a célebre italiana, Catarina de Médicis, cujo nome tomou na pia batismal, e não podendo separar-se da amiga querida, levava-a consigo, arrancando-a dessarte ao coração de seu pai, e aos sonhos deleitosos do moço índio, que magoado via fugir-lhe a mulher de suas afeições. Épica, Sr., chamava-se essa jovem índia. Épica era o seu nome. A sua ausência não seria prolongada, o velho e o moço não o ignoravam; mas eles a amavam tanto, que foi-lhes preciso chorar. Seria um pressentimento a dor que os afligia? Foi talvez... choraram ambos: entretanto, o velho era um bravo, e o moço já um valente guerreiro.

Ela, entanto, só concebia a dor do velho, as saudades paternas agravavam mais a mágoa. Seu coração ainda virgem desconhecia as delícias e as torturas do amor. O índio, pois, era-lhe indiferente, se é que indiferente se pode entender um homem que estava sempre a seu lado, e que tinha em suas veias o sangue de seu pai. Este mancebo índio era filho de um irmão do velho cacique, e seu íntimo amigo. Destinado desde a infância para esposo de Paraguaçu, este mancebo nunca pôde amar, nem tampouco inspirar-lhe amor. Entretanto Paraguaçu era bela! Ele amava perdidamente sua jovem parenta: Épica era mulher de suas doidas afeições, porém esse amor puro como a luz da estrela da manhã estava todo cuidadosamente guardado no santuário do seu coração; uma palavra, um gesto, não havia maculado ainda a pureza desse sentir mágico, e deleitoso. Épica era pura e inocente como a pomba que geme na floresta, seu coração conservava ainda o descuido enlevador dos dias da infância. Oh! Ela era como a açucena à margem do regato... O velho cacique atentou nas lágrimas do guerreiro jovem; e num transporte afetuoso, apertando-o contra seu coração, apontando para o extremo do horizonte, onde se perdia já o navio, disse-lhe:

— Sê sempre digno de mim, e de teu pai: quando ela voltar será tua.

Oh! O juro.

O moço ajoelhou-se aos pés do irmão de seu pai, e beijou-lhe as mãos com o entusiasmo do reconhecimento...

— França! França!... – exclamou o tupinambá depois de alguns momentos de amargurado silêncio – pudera eu esmagar-te em meus braços!!!

— Passaram vinte e quatro luas, – continuou serenando-se um pouco, – o mancebo as contara por séculos. Ao fim de cada dia vinha ele ao cimo deste outeiro, e daqui perscrutava os mares nus duma vela que viesse lá das partes do ocidente e, quando caía a noite, volvia triste e desconsolado aos lares do velho cacique. O mísero velho tinha cegado nesse curto espaço, e só da boca do mancebo esperava cada dia a nova feliz que o havia de lançar do fundo das suas trevas, no gozo da felicidade. Assim se passaram muitos dias... mais uma vez a lua veio estender seu lençol de prata sobre a superfície desta imensa baía, e confundir suas saudades às saudades do moço, que a contemplava com melancolia, e ainda assim a suspirada Épica não voltara às praias do seu país. A desesperança começava a lavrar no coração do moço guerreiro. O velho sentia maiores saudades; porém esperava com mais paciência.

Um dia, porém, um navio alvejou ao longe; era ela; seu coração estremeceu de íntima satisfação; no coração do velho cacique o transporte não foi mais vivo. Seus olhos a viram ainda assim; ele mal podia acreditar em tanta ventura. Esse navio tão ansiosamente esperado chegara enfim, e com ele a vida, a felicidade do mancebo. Ao menos assim o acreditava ele, louco de alegria. O anjo dos seus sonhos, o encanto dos seus dias, o ídolo do seu coração, esse navio lhe acaba de restituir. O velho, tateando as trevas de sua noite eterna, correu pela mão do mancebo ao encontro da filha. Era um espetáculo bem tocante ver esse velho guerreiro chorar, e rir de prazer, com a ideia de tornar a abraçar aquela filha mimosa, que tocando-a, jamais a tornaria a ver. Épica, a jovem índia, trajava ricos vestidos à europeia. Apertava-lhe a cintura delgada, e flexível, como a palmeira do deserto, um cinto negro de veludo, e as amplas dobras do seu vestido branco envolviam-lhe o corpo mimoso, delgado, como a haste da açucena à beira-rio. As tranças negras do azeviche, que lhe molduravam as faces aveludadas, eram aqui e ali entremeadas de flores artificiais. Era todo artifício aquele trajar até então desconhecido do moço índio; ele sentiu repugnância em ver aquela, que era tão simples no meio da solidão, ornar-se agora de trajes, que faziam desmerecer sua beleza, e seus encantos...

— Paraguaçu, de volta a sua pátria, – continuou o cacique após breve pausa, – parecia sentir na alma os efeitos desse inexprimível sentimento de suprema felicidade, que deleita, e enlouquece o infeliz proscrito, no dia em que, inda que com as vestes despedaçadas, e a fronte cuspida pelas vagas, uma delas, mais benéfica, o arremessa à praia, onde seus olhos viram a primeira vez a luz. Trazia nos lábios um sorriso, que levava facilmente a compreender o prazer que lhe enchia o coração. Pela mão dessa bela princesa, seguia, débil e abatida, melancólica e desconsolada, a jovem donzela brasiliense. Semelhava ela o lírio, crestado pela ardentia da calma; borboleta, que a luz da vela emurcheceu as asas.

Contraste doloroso havia entre a fronte pálida e abatida da moça índia, e a fronte altiva, e risonha da jovem esposa de Caramuru.

— Perdoai-me, continuou o cacique, se insisto nestas particularidades; o que me resta a contar provar-vos-á que elas não são aqui inúteis.

Um vago, mas doído pensamento, magoou o coração do moço guerreiro, à hora em que essa mulher, que há muito ele criara seu ídolo, lhe aparecia assim melancólica, e triste como a estátua do sofrimento. Que terá ela? Interrogava ele a si mesmo. Terá saudades desse país longínquo, que apenas viu, onde não pode contar um amigo, onde tudo lhe é estranho, linguagem, costumes, rostos e religião?!...

Enquanto ele assim discorria, a moça aproximou-se de seu pai, e sorrindo-se por entre lágrimas, estreitou-o com ternura filial contra o coração. Foi um prolongado abraço: um profundo suspiro lhe rasgou o peito; e uma só palavra ela não proferiu. E tornava a apertar o velho; e as lágrimas lhe corriam pelas faces; e a moça parecia não se poder separar do pai, que chorava de alegria, sentindo-se abraçar por sua filha querida.

Com indizível ansiedade aguardava o mancebo por uma só palavra da sua querida Épica; mas embalde. Ela parecia toda abstrata, não na contemplação de seu pai, mas numa ideia oculta, que dir-se-ia lhe amargurava a alma. Mas ele, vencendo o pensamento doloroso, que lhe atravessara a mente, aproximando-se dela, em voz de súplica, disse-lhe:

— Épica! Épica, nem uma palavra para o vosso irmão?... – Errou-lhe então nos lábios um mimoso sorriso, duas lágrimas ressaltaram-lhe dos olhos, e rolaram sobre as faces, e ela estendeu-lhe a mão amiga, que o moço beijou com reconhecimento. Essa mão, esse beijo, desfizeram o ponto negro, que assomara de improviso na alma do guerreiro brasiliense, como desfaz o vento a nuvem carregada à hora do meio-dia. Só o extremo do seu amor lhe representara Épica triste, pálida, e desconcertada. Épica era a mesma virgem das florestas, com a diferença única de uma inteligência cultivada pelo trato europeu. Esses trajes, que tanto haviam afligido ao mancebo, davam agora maior realce à beleza daquela que lhe sorria. Sua voz era mais melodiosa, mais doce, pareceu-lhe, ouvindo-a, melhor que a do sabiá, melhor que as notas da perdiz mimosa, que a própria pecuapá gemendo à noite. Ele acreditou que Tupã lhe havia arrebatado um instante para lhe restituir mais sedutora, mais bela, que os próprios anjos que lhe entoam hinos. O índio escutava com enlevo; e cada uma de suas palavras causava-lhe suavíssima impressão. Como Paraguaçu, Épica havia recebido o batismo. Conquanto a jovem princesa do Brasil não poupasse esforços em chamar os homens do seu país ao grêmio da igreja; conquanto sua voz fosse persuasiva, suas palavras insinuantes; todavia foi a voz de Épica que rendeu o moço índio. Ele abraçou o cristianismo, quando soube que Épica era cristã. Oh! Mancebo, – murmurou o tupinambá, – quanto pode o amor, quando ele é santo, como o que há no céu!...

Raiou enfim o dia, em que a donzela brasiliense devia pertencer pelo matrimônio ao homem, que a idolatrava; e ele a levou pela mão aos pés do altar; e um sacerdote cristão abençoou os noivos que estavam ajoelhados, à face de grande multidão. À hora, porém em que Épica pronunciava os votos, a voz alterou-se-lhe; sua mão resfriada estremeceu convulsa na mão do esposo. Ele olhou-a surpreso. Épica era pálida como um cadáver. À última palavra do sacerdote, a moça caiu desalentada.

O tupinambá levantou-se, deu alguns passos rápidos, e incertos. Fulguram-lhe os olhos na escuridão da noite, e um tremor convulso lhe agitou os beiços. Depois foi pouco, e pouco serenando, e reatou o fio de sua narração.

Gupeva

Sinopse

Leia gratuitamente Gupeva, de Maria Firmina dos Reis, narrativa brasileira em domínio público publicada em 1861. Texto indianista preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 5 capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte BLPL/UFSC validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Gupeva

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Gupeva

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Gupeva

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Gupeva Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 3 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Gupeva

Todos os capítulos 5 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir