Universo da obra
Universo da obra
Ao alvorecer do dia rebentou a tempestade há tanto ameaçada. O mar rugia com assustadora fúria, o vento raivoso sibilava por entre as enxárcias do infante de Portugal que, não obstante as ordens recebidas, não podia levantar âncora sem grande perigo de despedaçar-se todo de encontro a algum arrecife. Abrigado no ancoradouro ainda o comandante temia o furor da tempestade. O navio arfava inquieto: joguete das ondas, ele estalava como se houvera de desjuntar-se todo. Um sopro mais violento da tempestade e o pobre lenho seria aniquilado. A chuva desprendia-se em torrentes; o raio sibilava ameaçador; o mar era um lençol negro, e de sinistro aspecto. O mais corajoso tremia; só Alberto parecia insensível à voz do temporal. Sua fronte ardente, seus olhos requeimados pela vigília da noite, seu coração opresso pelo pressentimento de terrível sucesso, inquieto pelo temor de alguma desgraça irremediável, abatido, angustiado pela não aparição de seu louco e infeliz amigo, parecia não compreender a grandeza do perigo que os ameaçava. O mar cuspia-lhe, irritando as faces, o vento insinuava-se, rumorejando, por entre as madeixas de seus negros cabelos, e ele não atendia, nem aos insultos do mar, nem o raivoso perpassar do vento.
Alberto pensava em Gastão. Tinha visto amanhecer sem que Gastão voltasse ao navio: era preciso que já não existisse para assim deixar de cumprir sua promessa!
Alberto comunicou ao comandante seus receios, e o desassossego da sua alma: toda a oficialidade, e toda a marinhagem sentiram interesse pelo jovem francês.
Ao meio-dia a tempestade serenou: o mar tornou-se calmo e pacífico, o vento conteve-se nos seus limites. Agora o azul das nuvens refletia-se nas águas da imensa baía, e as vagas se moviam mansamente, aniladas, e risonhas, como um ligeiro sorriso. Então o comandante deu suas ordens; um escaler bem tripulado recebeu o oficial português, que um momento depois pesquisava ansioso vestígios do seu infeliz colega. Incansável, devassava o moço todos os subúrbios da pequena habitação, incansável, percorria ele todas as sendas, todas as devesas, todos os recônditos lugares daquele vasto terreno; era embalde. Extenuaram de cansaço, ele e um velho marinheiro, que o seguia; enquanto outros investigavam outros lugares. Alberto chegou ao alto do outeiro, onde na noite antecedente deu-se a cena que acabamos de narrar.
Oh! Que doloroso espetáculo!
Sentado no tronco de uma árvore estava um velho tupinambá; brandia em suas mãos um tacape ensanguentado: a seus pés estavam dois cadáveres!... Reclinadas as faces ambas para a terra, Alberto não pôde reconhecer seu amigo, senão pelo uniforme de Marinha, que o sangue tingira, e que as águas, que se desprenderam à noite, haviam ensopado, e enxovalhado. O outro cadáver era o de uma mulher... Bela devia ser ela; porque seus cabelos longos, e ondeados, fáceis aos beijos da viração da tarde, esparsos assim sobre o seu corpo, davam-lhe o aspecto de uma Madalena.
Alberto exclamou: — que horror! e cobriu o rosto com as mãos, caiu por terra.
Depois erguendo-se com ímpeto raivoso e aproximando-se do índio, que imóvel parecia aguardá-lo, disse-lhe, apontando para o seu infeliz amigo:
— Bárbaro!... Por que o assassinaste?
Gupeva, pois era ele, soltou uma gargalhada, estridente, e descomposta, que lhe tornou o aspecto sinistro, e medonho, e disse:
— Ah! Minha filha... não a vedes? – E de novo pôs-se a brincar com o tacape.
— Louco! – murmurou Alberto, – a minha vingança seria um crime.
Os seus companheiros de pesquisa foram-se pouco e pouco reunindo, ele voltou pálido, e com a mágoa no coração para junto do cadáver do desditoso Gastão.
Ninguém curou mais do louco.
Quando iam porém deitar os cadáveres nas sepulturas, e viram o rosto da mulher adormecida ao lado do jovem oficial, voltaram para cima, todos os circunstantes agruparam-se, e curiosos procuravam ver tanta formosura. Alberto, surpreso, exclamou:
— Que extraordinária semelhança!
— Eles não podiam deixar de ser irmãos, – exclamaram unanimemente os companheiros de Alberto.
Ah! Era Épica, era a virgem das florestas, era o anjo dos sonhos mentirosos de Gastão; era ela que acabava de conduzi-lo a Deus, e que ia descer com ele à sepultura. Formosa ainda na palidez de morte, Épica levou Alberto a perdoar os extremos de seu infeliz amigo.
Alberto ajoelhou-se à orla da sepultura, e orou; todos imitaram, e aquelas regiões selvagens guardaram respeitoso silêncio enquanto durou o ato religioso, enquanto a oração subiu da terra ao trono do Senhor.
E quando eles deixaram no sepulcro aqueles que tão extremamente se adoravam, e quando lembraram-se novamente do velho tupinambá, e o olharam, ele tinha a face em terra, e o tacape lhe havia escapado das mãos. Então um velho marinheiro, tocando-o com a ponta do pé, e voltando-lhe o corpo para o lado, disse:
— Está morto!
Leia gratuitamente Gupeva, de Maria Firmina dos Reis, narrativa brasileira em domínio público publicada em 1861. Texto indianista preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 5 capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte BLPL/UFSC validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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