Universo da obra
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HEROIDA
THESEO A ARIADNA
Inconstante Ariadna ambiciosa, Que, por cubrir a fea aleivosia, Depois de ser perjura, és a queixosa.
Essas asperas queixas, que me envia Teu falso coração, formosa ingrata, Já não são como as queixas d'algum dia.
Tudo a fiel memória me retrata. Fui a tua Esperança, o teu Conforto: Agora sou o Roubador, Pirata.
Quizera o Ceo que me chorassem morto, (Por não sentir as penas, que hoje sinto) Antes de ver da infausta Creta o porto.
Achei de sangue humano farto, e tinto Homem, e Touro o Monstro, que espalhava Morte, e terror no cego Labyrintho.
Vi lançar-se da torre, que habitava, O Artifice engenhoso; e como aos ares Sobre as azas de cera se entregava.
Filho infeliz, que deste o nome aos mares, Quanto inveja Theseo a tua sorte, Depois de ter chegado aos pátrios Lares!
Temeste (eu não o nego) a minha morte, Mudavel Ariadna! o laço estreito De hum novo, e puro amor julguei mais forte.
Da tua bella mão o fio aceito, Que me serve de guia: encontro, e luto Co formidável Monstro peito a peito.
Livrei a Pátria do fatal tributo; Mas o prêmio maior desta victoria Era gozar do nosso amor o fruto.
Que breve, oh Deoses, foi a minha gloria! Já sobre a Náo Cecropida nos vemos, E eu me julgo feliz: doce memória!
Reina a calma no mar; e nos perdemos De vista a Creta: geme felizmente, E espuma o sal batido por cem remos.
Quatro vezes da Noite descontente Rasgou a branca Aurora o véo sombrio, Abrindo as áureas portas do Oriente.
Quando vimos o bosque, e a foz do rio Alegre, e socegado, os Marinheiros Conheceram de longe a verde Chio.
Pizámos logo os montes, e os outeiros, Offerecendo aos Deoses tutelares Huma branca novilha, e dous cordeiros.
No bosque inda fumavam os altares: Tu dormias: as nuvens se amontoam, E principiam a engrossar-se os mares.
Corro a firmar as âncoras: já soam Das ondas os rochedos açoitados, E os ventos, e os trovões o Mundo atroam.
Faltou a amarra: a meu pezar os Fados (Que tristissimos Fados!) me levaram Co as negras tempestades conjurados.
Sabe o Ceo que fadigas me custaram Então as tuas lagrimas, e penas, Que as minhas cá de longe acompanharam.
Sem leme já, sem mastro, e sem antenas, Vão ludibrio dos mares, e dos ventos As tristes praias avistei de Athenas.
Ariadna occupou meus pensamentos: Meu coração a teve sempre á vista Para mais avivar os meus tormentos.
Que fruto logras de huma tal conquista, Theseo amante, filho sem ventura? Quem haverá que a tanta dor resista!
O velho Egeo, que os Immortaes conjura Por ver alegre o fim dos meus perigos, Teve no mar funesta sepultura.
Entre applausos da Pátria, e dos Amigos O triste coração suspira, e sente O puro amor, e seus farpões antigos.
Por dar-te hum novo Reino impaciente, Espero que, depondo furor tanto, Neptuno aplane as águas c'o tridente.
Duas Náos tenho promptas; mas em tanto Espalha a Fama por diversas partes, Que o moço Bacho te enxugara o pranto.
Que ambiciosa ao ver os estandartes Do alegre Indiano, e seus cabellos louros, Fácil com elle o meu amor repartes.
Se Reino, ou Fama, ou Gloria entre os vindouros Busca a tua ambição n'hum Ser divino, Eu sou Theseo: Athenas tem thesouros.
Egeo sahio do Reino Neptunino: Na fatídica Náo aventureiro Eu vi o rosto irado ao Ponto Euxino.
Não foi Jason, nem Hercules primeiro Combater c'os Dragões... tu suspiraste, Vendo encher o meu nome o Mundo inteiro.
Inda me lembra o dia, que apertaste Co a minha a tua mão: dos nossos laços Por testemunha o mesmo Ceo chamaste.
Tu não viste correr longos espaços, Que desculpam o frio esquecimento; E chego a ver-te alhea n'outros braços?
He esta a fé devida ao juramento? Responde ingrata, desleal, mais dura Do que a rocha, e mais vária do que o vento.
Saiam do seio da lagoa escura, Que o mesmo Jove de offender recea, Negras Fúrias, que o meu temor conjura.
Empunhe a ingrata o tyrso, e sobre a arêa D'huma praia deserta os Tigres dome, Com que o seu novo amante se recrea.
Com tanto que o amor, que me consome, Em ódio se converta... ah que eu deliro, E não posso esquecer-me do seu nome!
Ventos, que me obrigastes ao retiro, Levai minha ternissima saudade; Conheça embora a ingrata que eu suspiro.
Possam servir de exemplo em toda a idade Os nossos nomes, despertando a historia Do meu amor, da tua variedade.
Sirva este meu tormento á tua gloria: Pague eu embora a culpa do meu Fado; E roube-me das mãos outro a victoria.
Porque não fui do Monstro devorado! A minha desventura me guardava, Porque fosse depois mais desgraçado.
Frondosos arvoredos, onde estava Ariadna cruel, quando dormia, E a meu pezar a onda me levava:
Vós amarellas flores, tu sombria, Musgosa gruta, onde a infiel descansa, Mostrai-lhe a minha Imagem, noite, e dia.
Eu era o seu amor, sua esperança, O ultimo... o primeiro... ó Ceos! perjura! Quanto me custa esta cruel lembrança!
Não ha mais que esperar da sorte dura. Voai Remorsos a vingar-me: ao menos Rodeai-a no seio da ventura, E turbai os seus dias mais serenos.
LISBOA NA REGIA OFFICINA TYPOGRAFICA ANNO MDCCLXXIV Com licença da Real Meza Censoria.
Leia gratuitamente Heroida Theseo a Ariadna, de Manuel Inácio da Silva Alvarenga, poema em domínio público publicado em 1774. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte validada pela BBM/USP, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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