Universo da obra
Universo da obra
IV
Aos
PADRES E IRMÃOS DA COMPANHIA DE JESUS EM PORTUGAL, DE
PIRATININGA, 1555
Residências da Companhia no Brasil.
— A catequese em Piratininga. — Guerras do Gentio. — Os Pagés. — Carijós.
—
Expedição do Padre Aspilcueta Navarro.
— Missão dos Irmãos Pero Corrêa, João de Sousa e Fabiana de Lucena aos
Ibirajáras.
— Volta
de Fabiano
de Lucena.
— Morte de
Pero Corrêa e João de Sousa.
Estamos, Padres e Irmãos caríssimos, em esta índia do Brasil,
debaixo da obediência do nosso Reverendo em Cristo Padre Nóbrega, repartidos em quatro partes: em a cidade do Salvador, onde reside o Governador e o Senhor Bispo, e aí se
tem cuidado de ensinar os meninos. Em a Capitania do Porto
Seguro, donde um Padre nosso visita quatro povoações
com muito trabalho e algumas vezes vai a uma que está daí a
seis léguas, de que se espera muito fruto. Também aí há um Irmão que ensina a doutrina e a ler e escrever aos meninos.
Esta Capitania do Porto Seguro está da cidade do Salvador 60
léguas. Em a Capitania do Espírito Santo há também uma casa
da Companhia, donde por graça do Senhor se faz fruto em o
pregar. Aí há muitos escravos e ensina-se-lhes a doutrina cristã.
Esta Capitania está 120 léguas da cidade do Salvador. Em a capitania de S. Vicente, que está da cidade do Salvador 220 léguas,
há mais gente da Companhia que em nenhuma outra parte, donde
se fez ajuntar o padre Nóbrega muitos meninos filhos de índios,
ensinaram-lhes a doutrina e a ler e escrever. Agora nos hemos
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passado a esta povoação de índios que se chama Piratininga, donde estamos entre os índios. Dia da conversão de São Paulo dissemos a primeira missa em este lugar.
Agora com a ajuda de Nosso Senhor nos ocupamos em a
doutrina destes índios e em rogar ao Senhor que abra a porta
para a conversão de muitas nações de que temos novas e em que
parece se fará muito fruto por não haver entre elas costume de
comer carne humana. Estes índios, entre quem
estamos
agora, nos dão seus filhos para que os doutrinemos e por a manhã,
depois da lição, dizem ladainhas na igreja e á tarde a
Salve;
aprendem as orações em português e em a sua própria língua;
e por graça do Senhor vêem muitos, assim homens como mulheres, os domingos, á missa, e os que são catecúmenos se saem depois
do ofertório. Importunam muito por o santo batismo, mas tem-se
muito aviso de não batizá-los até haver deles muita experiência
para que se tem desta terra. Alguns inocentes hão passado aqui
desta vida batizados, os quais esperamos roguem por nós e por seus
pais a nosso Senhor. Um índio principal que veio aqui de mais
de cem léguas, a converter-se á nossa santa fé, morreu com sinais
de bom cristão, recebida a água do batismo: este nos dizia muitas
vezes que um filho seu inocente, o qual havia falecido batizado,
lhe havia muitas vezes do Céu dito que deixasse os horrores da
gentilidade e por sem dúvida tinha que o havia trazido aqui.
Estes índios têm grandíssimas guerras entre si, umas nações
contra outras, o que é comum em toda a índia do Brasil; e depois
que aqui estamos foram á guerra e um dia antes da batalha fizeram uma cabana, segundo seu costume, onde puseram uma cabaça cheia ao modo de rosto humano, ataviada com plumas. Os
feiticeiros que fazem isto chamam Pagés, para sacrificar-lhe
e
perguntar-lhe do sucesso da guerra, e como chamassem a nossos
catecúmenos, eles responderam que tudo aquilo era grande falsidade e que eles esperavam a vitória de seu Deus; e ao dia seguinte aparecendo grande multidão de inimigos, começaram a desmaiar, e uma mulher já batizada do capelão desta povoação, que
havia ido com seu marido, os começou a animar admoestando-lhes
que fizessem o sinal da cruz em a frente e fazendo-o assim, os
inimigos foram vencidos. Os catecúmenos deram grande sinal de
ser inteira a sua intenção, porque aos inimigos que mataram, que
dantes soíam comer com grandíssimas festas, deixaram enterrados; os quais desenterraram e comeram os mesmos de sua parte,
porque tornaram ao lugar da batalha, como eles costumam, pensando que esses eram dos contrários. Os que fazem estas feitiçarias, que disse são mui apreciados dos índios, persuadem-lhes que
em seu poder está a vida ou a morte; não ousam com tudo isto
aparecer diante de nós outros, porque descobrimos suas mentiras
e maldades.
Esperamos em a infinita misericórdia de Cristo Nosso Senhor
que assim por os que cá estão, como por os que a santa obediência enviará, se porá remédio á cegueira em que estão tantas nações de índios, e creiam, caríssimos Irmãos, que ainda que em
estas partes há faltas das coisas exteriores, que Nosso Senhor, a
quem as quer assim, por seu amor dá muita alegria interior, o
que se vê bem aqui, que desde Janeiro até agora estamos, sendo
algumas vezes 20 pessoas, em uma casa feita de madeira e palha,
a qual terá de comprido 14 passos e 10 de largo, que nos serve de
escola, dormitório e refeitório, enfermaria e cozinha e despensa e
com recordar-nos que N. Senhor Jesus Cristo nasceu em um pobre presépio, entre dois animais e morreu em outro lugar mui mais
estreito, estamos mui contentes nela e muitas vezes lemos a lição
de gramática no campo.
O principal mantimento desta terra é uma farinha de pau,
que se faz de certas raízes, que se chamam mandioca, as quais são
plantadas e lavradas a este fim, e se se comem cruas ou assadas
ou cozidas matam, porque é necessário deixá-las em água até que
apodreçam, e depois de apodrecidas se fazem em farinha: este é o
principal mantimento, com alguns legumes e folhas de mostarda.
Também os índios nos dão algumas vezes alguma carne de caça e
alguns peixes e muitas vezes Nosso Senhor, de onde menos esperávamos nos socorre, e somos muito obrigados á sua bondade
que em tanta falta das coisas corporais nos dá sanidade e forças.
Estes são os lugares em que estão pessoas da Companhia, e
em outro lugar dos índios estão dois Padres nossos, com outros
Irmãos semeando a palavra de Deus. Esta Piratininga, em que
agora estamos, está 24 graus para o meio-dia e toda está, desde
a primeira habitação dos portugueses, que é em Pernambuco, até
aqui e ainda mais adiante, é de 300 léguas povoada de índios
que têm por sumo deleite comer-se uns aos outros, e muitas vezes vão á guerra e havendo andado mais de 100 léguas, se cativam três ou quatro, se tornam com eles e com grandes festas
e cantares os matam, usando de muitas cerimônias gentílicas, e
assim os comem, bebendo muito vinho, que fazem de raízes, e os
miseráveis dos cativos se têm por mui honrados por morrer morte, que a seu parecer, é mui gloriosa.
Esta nação de índios daqui cremos que se estende muito por
a terra a dentro. Fora destas nações que hei dito, há outra nação
em o Brasil mui estendida que se chama "Carijós"
(Carijós),
mui mais mansa e capaz das coisas de Deus; estes estão já debaixo do poder do Imperador ; temos experiência deles por alguns que tivemos aqui, instruindo-os na fé.
Seguem-se depois destas outras nações inumeráveis por a terra a dentro, para o ocidente, até o Peru, e a maior parte delas há
corrido agora o Padre Aspilcueta, como sabereis por sua carta.
Entre estes, por não se comer carne humana e por ser mais
chegados á razão, esperamos em o Senhor que quando forem visitados se fará maior proveito e mais firme. A estas nações estão
juntas outras muitíssimas de índios que por nome próprio se chamam escravos, e que se estendem até o rio das Amazonas.
O Irmão Pero Corrêa,, que sabe mui bem a língua do
Brasil e tem muita autoridade entre os índios por o muito tempo que gastou em esta terra antes de ser da Companhia, foi com
dois irmãos a ver se poderia abrir caminho a um gênero de
índios que chamam Ibirajáras, dos quais temos notícia são mui
chegados á razão, porque obedecem a um senhor e não têm mais
de uma mulher, nem comem carne humana, nem têm idolatria
nem feitiçaria alguma, e, segundo ouvimos, assim em isto como
em outras coisas se diferenciam muito dos outros índios; e para
descobrir este caminho foi a umas povoações de índios, de onde
nos escreveu que havia sido recebido mui bem e que determina-
vam aqueles índios de fazer uma grande povoação ,para que nossos Irmãos que lá fossem ensiná-los, fizessem com mais facilidade,
e para prova deste seu desejo ser verdadeiro lhe entregaram um
índio cristão a quem já aparelhavam suas miseráveis solenidades
para daí a pouco tempo comê-lo. Também soltaram um Castelhano
que tinham cativo. Deixando, pois, o Padre aqui um Irmão
que os ensinasse, se partiu a seis de Outubro para efetuar o
que disse. Agora hemos sabido umas novas, as quais devem ser de
grandíssima consolação para todos, e se queremos ser agradecidos
devemos de dar á Suma Bondade muitas graças por elas, e por isso
escreverei largo.
O Padre Manuel da Nóbrega enviou o Irmão Pero Corrêa a
descobrir os Ibirajáras e também havia outra coisa de muita importância que haviam de fazer, que era procurar passada a uns
Castelhanos de qualidade que com suas mulheres, nobres e delicadas, aportaram aqui, indo á cidade do Pargay, que é sujeita
ao Imperador, e como não pudessem ir por terra depois de alguns
anos constrangidos de pobreza, determinaram ir-se por mar até
umas aldeias de índios: o Irmão Pero Corrêa os havia de esperar
para fazer que os índios não lhes fizessem mal: partiu, pois, com
outros dois Irmãos dia de S. Bartolomeu, depois de recebido o Santíssimo Sacramento, e com muitos trabalhos e fomes chegaram a um rio que se chamava Cuparagay, donde se presumia que
haviam de ir os Castelhanos, e em o caminho lhe sucedeu o que disse
atrás; e não achando-os aqui, depois de haver pregado a palavra de
Deus, como havia feito por as aldeias atrás por o caminho, deixou
os índios mui pacíficos, não somente determinados de não fazer
mal aos Castelhanos quando viessem, mas ocupados em fazer-lhes
mantimentos; e assim se partiu adiante, deixando um Irmão para
curar o Castelhano cativo, que disse atrás, que estava maltratado,
e depois de ele sarar, enfermou o Irmão. Os índios ao princípio o
favoreciam; mas aconteceu que mataram um contrário com suas
festas costumadas, e o Irmão assim enfermo como estava trabalhava
com muitas razões a apartá-los disto, dizendo-lhes quantas coisas
Deus Nosso Senhor havia creado em o mar e a terra para seu mantimento, e depois se foi a suas casas e lhes tomou um pedaço de
carne que achou posta ao fumo. Eles lhe tomaram por isso grande
ódio, o enfermo como estava se veio. Louvores ao Senhor que no-lo
restituiu.
O Irmão Pero Corrêa passou adiante com o Irmão João de
Sousa; o demônio persuadiu àqueles índios, havendo mostrado ao
princípio muita benevolência e amor aos Irmãos, e querendo-se eles
já volver, que cressem que iam por espias de outros índios seus inimigos e assim despedindo-se se saíram com eles 10 ou 12 índios
principais, e estando apartados já das povoações, começaram a flechar o Irmão Sousa, que (segundo dizem) se pôs de joelhos louvando ao Senhor, e assim o mataram.
O Irmão Pero Corrêa, vendo isto, lhes começou a falar, e
a resposta deles era flechadas; ele todavia esteve falando com eles
um pedaço, recebendo-as, até que, não podendo mais sofrê-las, deixou o bordão que trazia e se pôs de joelhos, encomendando sua alma
ao Senhor, e assim morreram nossos dois Irmãos: bendito seja o
Senhor. A nós outros muita consolação nos causou sua morte e pedimos outra semelhante ao Senhor, e agora cremos que quer fundar
aqui sua Igreja, pois lavra pedras desta maneira para o fundamento.
Com esta consolação temos misturado assás de dor e de saudade que nos deixa de sua suave conversação. O Irmão Pero Corrêa era um homem dos principais Portugueses que havia em o
Brasil e andava em um navio salteando estes índios, pensando que
em isto fazia grande serviço a Deus, porque os tirava de suas terras e os trazia á lei dos Cristãos, e por ser nobre e mui prudente
era mui temeroso de Deus, e assim foi o primeiro que em esta terra
entrou na Companhia, e em cinco anos que esteve nela aproveitou
muito com a língua, que ele sabia mui bem, e com o bom talento
que Deus Nosso Senhor lhe havia dado e muito crédito que em
esta terra tinha com os índios, até que morreu em serviço de suas
almas; e bem mostraram aqui os índios em lástimas que disseram.
Entre outros prantos foi notável o que fez este principal de Piratininga, que se chama Martim Afonso, que, desde a meia noite até
a manhã, andou ao derredor de suas casas (segundo eles costumam), dizendo lástimas que nós outros ouvimos, scilicet:
"Já
morreu o senhor do falar, aquele que sempre nos falava a verdade,
aquele que com o coração nos amava; já morreu nosso pai, nosso
irmão, nosso amigo", — e outras coisas semelhantes.
O Irmão João de Sousa também foi dos primeiros que aqui
entraram na Companhia, donde nos deu a todos mui bom exemplo; e assim do ofício de cozinheiro, o chamou o Senhor a tão gloriosa morte. Não podemos deixar de nos envergonhar, vendo que
dois Irmãos recebidos no Brasil correram mais que nós outros que
viemos de Portugal. Praza a nosso benigníssimo Jesus dar-nos a
todos sua graça com sua santíssima vontade.
Uma coisa desejamos cá todos e pedimos muito a Nosso Senhor, sem a qual não se poderá fazer fruto no Brasil, que desejamos, e é que esta terra toda seja mui povoada de Cristãos que a tenham sujeita, porque a gente é tão indômita e está tão encarniçada
em comer carne humana e isenta em não reconhecer superior, que
será mui dificultoso ser firme o que se plantar, se não houver
este remédio, o qual continuamente pedem cá os Padres e Irmãos
a Nosso Senhor e estão mui consolados por haver quase certeza que
pela terra a dentro se descobrem muitos metais, porque com isto
se habitará muito esta terra, e estes pobres índios, que tão tiranizados estão do demônio, se converterão a seu Criador. Ele nos tenha sempre a todos de sua mão.
Desta Piratininga.
Leia gratuitamente Aos Padres e Irmãos da Companhia de Jesus em Portugal, de Piratininga, 1555, carta quinhentista de José de Anchieta em domínio público. Texto preparado a partir de Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões, edição de 1933, com notas editoriais separadas do corpo principal, organizado em HTML para leitura online no Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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