Universo da obra
Universo da obra
DE SÃO VICENTE, A 15 DE MARÇO DE 1555
A escola de Piratininga.
— Projetada missão de Nóbrega aos Carijós. — Padre Luiz da Grã. — Morte de Pero Corrêa e João de Sousa.
Creio que sabereis estarmos alguns da Companhia em uma terra de índios, chamada Piratininga, cerca de 30 milhas para o
interior de São Vicente, onde Nosso Senhor favorece, com a sua
glória, a salvação destas almas; e ainda que a gente seja mui desmandada, algumas ovelhas há do rebanho do Senhor.
Temos uma grande escola de meninos índios, bem instruídos em leitura, escrita e em bons costumes, os quais abominam os usos de seus progenitores. São eles a consolação nossa, bem que seus pais já pareçam mui diferentes nos costumes dos de outras terras; pois que não matam, não comem os inimigos, nem bebem da maneira por que dantes o faziam. No outro dia em uma terra vizinha foram
mortos alguns inimigos, e alguns dos quais nossos conversos por lá
andaram, não para comer carne humana, mas por beber e ver a
festa. Quando voltaram não os deixámos entrar na igreja, senão depois de disciplinados; estiveram por isso, e no primeiro de Janeiro
entraram todos na igreja em procissão, batendo-se com a disciplina e só assim os houvéramos aceitado.
Ocupamo-nos aqui em doutrinar este povo, não tanto por este, mas pelo fruto que esperamos de outros, para os quais temos aqui
abertas as portas.
Está conosco um principal dos índios chamados Carijós {carijis), o qual é senhor de uma vasta terra, e veio com muitos dos
seus servidores só à nossa procura, a fim de que corramos às suas
terras, para ensinar, dizendo que vivem como bestas feras, sem conhecer as coisas de Nosso Senhor. Digo-vos, caríssimos Irmãos, que é um mui bom cristão, homem mui discreto e nem parece ter coisa
alguma de índio. Com ele resolveu-se o nosso Padre Manuel ir ou
mandar alguns, e só espera a chegada do Padre Luiz da Grã.
Além desta, outras nações há, inumeráveis e mui melhores, pelo que dizem pessoas que as têm frequentado, principalmente uma, a que chamam Ibirajáras; a esses desejando enviar um, o nosso Padre
Manuel escolheu o Irmão Pero Corrêa, para que fizesse, demais,
outros trabalhos do serviço divino na mesma viagem, e especialmente ajudasse certos Castelhanos que tinham de se passar para o
Paraguai, aos quais o dito Pero Corrêa desse socorro, se os visse em
grande necessidade, de matalotagem, e lhes desse companhia para
irem com segurança. E começou pelos índios dessas paragens, que mui bem receberam a palavra de Cristo e determinaram reunir-se e viver em uma grande terra, onde pudessem mais fácil ser ensinados nas coisas da Fé. Tinham os índios em prisão para comerem, um
Cristão, que era dos Carijós, e pedindo-o Pero Corrêa, logo lhe fizeram entrega sem taxar preço algum e o mesmo obteve acerca de
outro prisioneiro inimigo, o que não é pouco, como sabeis, porquanto nisto põem os Brasis toda a sua honra.
Estávamos a 6 de Outubro de 1554 quando Pero Corrêa com
outro chamado João de Sousa, também nosso, e os dois índios que
tinham livrado, partiram para essas terras dos Carijós e se internaram muitos dias pelas terras mencionadas pregando o Evangelho de Jesus Cristo, nosso Senhor, passando muitos trabalhos, as
mais das vezes fome, não tendo que comer e estando enfermo João de Sousa. Isto seria talvez em Novembro quando apareceu nessas
terras um intérprete dos Castelhanos e outro Português; escreveu-lhes Pero Corrêa para se reunirem todos em um lugar, a fim, de que
conformemente pregassem a mesma coisa, por ser uma só a verdade, do que fizeram pouco caso: todavia, veio visitá-lo o Português e esteve uma noite com os nossos e ouviu Pero Corrêa pregar grandes coisas de Nosso Senhor e também que fizessem a paz com os
outros. O intérprete Castelhano, que grã tempo estivera entre os
Carijós e vivera em seus costumes deles, pregava o contrário, que
fizessem guerra, que os ajudaria; e tais intérpretes, obreiros da iniquidade, soem muitas vezes pregar coisas semelhantes. Ouviu-o também o Português dizer muitas palavras que patenteavam a malícia
daquele coração, e entre outras dizia aos Carijós, que o nosso Irmão Pero Corrêa abria a estrada pela qual haviam de vir os inimigos para matá-los e outras coisas para incitá-los (contra os
padres).
Querendo, pois, no tempo marcado da obediência, que era o
Natal, havendo semeado a palavra de Deus naquelas nações que tão bem dispostas estavam, o que fez dizer a Pero Corrêa para o
Português que nunca vira igual, acompanharam-no 10 ou 12 Carijós dos principais até às fronteiras dos seus inimigos. Do que é
testemunha de vista o Português que nomeei acima; o qual assim o
narrou ao padre Manuel e a mim, estando doente em perigo de
vida, já confessado e comungado; pelo que se presume, outra coisa não direi a não ser a verdade. Estando, pois, este intérprete dos Castelhanos e o outro Português em certas terras, viram descer por um rio alguns índios Carijós, movidos como se crê por
aquele intérprete, que os concitava à guerra com muitas mentiras, e que nos tinha em ódio por não lhe darmos uma sua concubina
índia, mataram logo dois índios que vinham com os nossos e depois voltaram-se contra o nosso Irmão João de Sousa, que andava
enfermo, e começaram a atirar-lhe flechas; este, porém, caiu de
joelhos louvando o Senhor e deste modo o mataram. Vendo assim
nosso irmão Pero Corrêa que assim maltratavam a João, começou a arrazoar com os índios, não sabemos sobre que assunto, mas cremos que se tratava de Nosso Senhor. A resposta que lhe davam
eram flechadas e com recebê-las não cessou de clamar por um pouco de tempo, vindo a termos de não mais poder suportar deixou
cair o bordão que trazia e ajoelhou-se encomendando sua alma a
Deus e assim acabaram de matá-lo, despiram-no e deixaram-no no caminho. O mencionado intérprete que tudo moveu foi o mesmo que
estando preso entre os índios, foi libertado pelos da Companhia, sem o que seria morto e comido por aqueles, de modo que pagou com o mal o bem que se lhe fizera; ainda que tenhamos de enco-
mendá-lo a Deus pelo bem que a nossos Irmãos fez, qual o de lhes
deparar a morte, pela obediência e pela pregação do Evangelho de
Jesus Cristo e pela paz e amor de seu próximo; e para que lhes não faltasse em sua coroa esta pedra preciosa, morreram pela verdade e justiça e finalmente pela exaltação da nossa fé, que andavam a pregar.
Bem-aventurados esses que mereceram lavar a estola no sangue do Cordeiro imaculado, dando-lhe a ele e ao próximo a vida, que maior caridade não podiam exercer.
Procuraremos haver os corpos deles ou parte. Não foi pequena consolação essa que nos causou tão gloriosa morte, porque se-
semelhante morte queremos todos e continuamente pedimos ao Senhor. E até cremos, que quer Jesus Cristo fundar aqui uma grande igreja, havendo posto por alicerces estas duas pedras. Quisera a bondade divina que fosse eu a terceira, o que já teria sucedido se o não tivera impedido o meu muito pecado: porque quase me
quis mandar com eles o nosso Padre, bem que não se resolvesse.
Nosso irmão Pero Corrêa entrou na Companhia aqui no Brasil; era dos principais Portugueses que estavam nesta terra e andava em uma nau, por toda a parte, matando índios ou aprisionando-os, parecendo-lhe que fazia um grande serviço a Nosso
Senhor e por sua prudência, edificante bondade e nobreza de sangue era dos que mais temiam a Deus entre os Cristãos que aqui
encontrámos. E logo que a trombeta de Cristo começou a soar pelos da Companhia, foi ele o primeiro que dobrou o colo ao jugo dela; e dizia muitas vezes, e de tal se persuadira, que se queria salvar-se, era mister que todo se desse ao serviço destes índios, até morrer pela
alma deles, não achando nenhuma satisfação com que reparasse o mal que lhes havia feito.
Assim, em cinco anos que esteve em nossa Companhia, pregou
sempre o Evangelho de Cristo aos mesmos índios, por ser dos melhores línguas da terra e de mais autoridade, com grandíssimos trabalhos, por muitos matos e campos e desertos, afadigando-se fielmente na pregação, até que conseguiu o feliz termo que tanto desejava
morrendo em serviço de suas almas.
Sempre entre nós conversou sem ofensa, mui humilde, mui
obediente, sempre desejoso da perfeição, mudando a prudência da
carne, que primeiro tinha, naquela que é verdadeira segundo Cristo.
Pelo seu bom exemplo de vida e pregação na língua desta terra
havia mais edificado do que nenhum outro, de maneira que todo este
povo de S. Vicente, de índios, havia fundado, reformado e ensinado a viver segundo Cristo; e bem o hão mostrado todos porque fizeram em toda a terra geral pranto por ele.
Era coisa de grande compaixão ver as muitas lamentações de
homens e mulheres, que relatavam as suas virtudes, e não é de maravilhar, porque cada um sabia que o lume que tinha e notícia do seu
Criador e Redentor Jesus Cristo, por meio da sua pregação e caridosas exortações, o havia recebido de Deus.
O outro nosso Irmão, João de Sousa, foi dos primeiros que entraram para a Companhia, sendo ainda no mundo no meio da iniquidade; era pessoa santa, jejuava todas as semanas, a quarta-feira, a sexta e o sábado, e não consentia diante de si que se fizesse ofensa a Deus Nosso Senhor. E sendo desprezado daqueles que eram de má
vida, o suportava com muita virtude. E desde que entrou na Companhia a todos excedia na penitência, humildade, simplicidade e caridade. E assim, e detrás das panelas da cozinha, porque era o nosso
cozinheiro, tirou-o o Senhor e o elegeu para tão grande coroa.
Não podemos não nos confundir de ver que os recebidos aqui no
Brasil correram mais do que nós que viemos de Portugal, e foram
dignos de alcançar aquele prêmio, ao qual todos corremos. Praza a
Nosso Senhor de dar-nos graça, que nos conformemos, vivendo com sua santa vontade, de modo que mereçamos receber da sua bondade na morte tal coroa.
De S. Vicente, a 15 de Março de 1555.
Por comissão de nosso Padre Manuel da Nóbrega. Servo indigno da Companhia.
Leia gratuitamente De São Vicente, a 15 de março de 1555, carta quinhentista de José de Anchieta sobre Piratininga, a catequese, os Carijós e a morte de Pero Corrêa e João de Sousa. Texto em domínio público preparado a partir de Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões, edição de 1933, com notas editoriais excluídas do corpo principal, organizado em HTML para leitura online no Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias do Livro como colaboração ao autor e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.