Universo da obra
Universo da obra
Atravesso um longo trecho do povoado, que ainda dorme na penumbra. A orla do horizonte empalidece. Cantos roucos de galos erguem-se de todos os quintais. Arvoredos sonolentos debruçam-se sobre velhas cercas, sombrios e relentados, com um fulgor de diamante negro em cada folha. A aragem corta e ligeira névoa adensa-se nas extremidades da rua. Sorvendo até o imo dos pulmões o ar úmido e frio, sinto meu sangue reagir alvoroçadamente, dando-me uma doce impressão de bem-estar. A estrada. Um resto da melancolia da noite ainda se exprime no cricrilar transnoitado dos últimos grilos; em compensação, o hesitante rangido com que as primeiras cigarras ensaiam a música do dia, o crescendo de pios e gorjeios na grande mata do outro lado do rio, anunciam o dia que alvorece. Essa hora exerce sobre mim efeitos contraditórios. Às vezes acabrunha-me, intumesce-me o coração com velhas recordações imprecisas; há em minha alma o renascer de sensações antigas, e que de longínquas jaziam em letargo, como mortas. Para despertá-las basta um quase nada: um reflexo alvacento num alagadiço, um voo ondulante de pássaro, o sussurro da viração nas folhagens... De que me lembro? A que cenas deslembradas de minha vida se prendem essas fugidias sensações? Sabe-o apenas o subconsciente. Nesses instantes a alma tumultua-me; dentro de mim alguém debruça-se à janela do passado e alonga olhos nostálgicos para o que quer que seja que não distingo. Sim! Diviso às vezes, nuns como
toques imprecisos de paisagem entre névoas, minha mãe que com o lenço me acena, certa madrugada de despedida; um perfil de companheiro de infância, uma fita de fumaça imota no ar parado, desnovelando-se sem pressa, que o comboio ao longe continua a estirar, até o cabo de certa interminável várzea, minha conhecida da infância. Saudades, enfim, de pessoas e coisas velhas, ou de pessoas apenas, que as coisas dos antigos tempos como que se personificam e vivem, fitando-nos, como almas chorosas, do fundo de nosso passado. Outras vezes causa-me um recrescer de vitalidade. Sinto-me germinar. Minh’alma desabrocha em aspirações, e julgo-me forte para realizá-las. Parece que todos os triunfos dependem da minha simples vontade. Um “quero” equivale a um “fiat ”. Se estou enfermo, esqueço a lazeira física, todo impessoalizado na consciência da força. Não! meu coração não desequilibra seu ritmo nem os pulmões arfam penosamente; não sou carne, não tenho besta! sou uma ideia que quer, uma energia que atua. O caminho segue a cavaleiro do rio, que deriva à minha direita, encoberto pela vegetação. Às vezes corre tão perto que, arremessando-se uma pedra em sua direitura, se ouve o grulhar das águas deglutindo-a. Flui misterioso e silente, apenas espaço a espaço traindo sua presença o marulho da corrente arrufando-se em coivaras, ou um breve reflexo prateado numa entreaberta das ramarias. E a estrada, sanguejante, com vincos de carros de bois e moldes de cascos de animais, prolonga-se à minha frente, orlada de laçarias bambas de cipós florescidos. Em certo ponto, numa surpresa de colorido, surge uma sempre-lustrosa revestida de flores roxas, alto a baixo, tantas flores que não se lhe vê outra cor; e, no chão, onde roja as dobras da rica túnica, esgarça-se num rastro de pétalas violáceas. Nas vertentes o caminho abaúla-se em facões. Não raro, ladeando a estrada, cruzes negras abrem os braços carcomidos; pecíolos ressequidos coroam o tope de uma ou outra, indicando que a criatura que ali tombou inda não está totalmente
esquecida; e, achegadas aos seus pés, pia oferenda dos viandantes, morouços de pedras soltas. Que alegre tintinabular me canta agora nos ouvidos? Que lírico madrigal, cadente e argentino, vem carrilhonando estrada em fora? Ah, é uma tropa. À frente trota a madrinha, com um colar de campainhas por peitoral. Vem lépida, contente, estimulada pela doce música que suas passadas ferem, orgulhosa talvez dos laços de baeta vermelha que a adornam, como rústica divindade de um culto primitivo. Até ao alto do pau do arrocho, enristado sobre as cargas como uma haste de bandeira, ondula a flâmula ridente de duas tiras escarlates. Embala-me assim a alma com as suaves toadas de minha infância, canta-me essa velha cantiga serrana, simples e sem letra, ó doce aparição das estradas mineiras, poética fantasia de tropeiros roídos de saudades, que, se à noite descantam nos arpejos da viola as suas melancolias de eternos desterrados, de dia sentem que o jornadear é mais suave embalado pelo teu carrilhão sonoro e jovial, doce encantamento para os ouvidos e refrigério para a nostalgia. E, repicando festiva, com o surdo acompanhamento do patear da tropa, a agreste harmonia perde-se a distância. Agora a vetusta porteira, de largos tabuões horizontais. O coice é um tronco, malfalquejado, tendo ao topo uma abertura esculpida em cruz. Ao abrir, ela emite um rangido prolongado e sonoro; e volta silenciosa, para fechar-se em baque poderoso sobre o mourão-batente, o qual retumba pelos grotões como um tiro de peça. Não sei por quê, é grande a força emotiva destes dois sons combinados; quando os últimos ecos se calam, inda noss’alma está a vibrar, ferida profundamente em suas mais íntimas cordas; e à boca vem-nos aquele mesmo ressaibo de vaga saudade, uma melancolia de recordações longínquas; talvez porque sugerem, com a influição do meio, na paz bucólica da natureza, a lembrança de velhos fazendões semiabandonados, onde as horas passam arrastadamente, apenas escandido o seu espesso silêncio pelo baque das porteiras lá fora e pelo fanho bater de horas do velho relógio, alto como um armário, empertigado a um canto do imenso salão de jantar.
Como toda a porteira de antigas estradas, esta é um monumento em que colaboram a mão do homem e a da natureza. Característica e pitoresca. Para cima e para baixo, valos divisórios colmados de um “betume” de raizadas, gramíneas, trapoerabas de florinhas azuis. A restinga de mata que orla em geral toda a beira de valo, ali arqueia as ramagens em túnel sobre a estrada. Unhas-de-vaca de folhas fendidas, angicos rendilhados, bicos-de-pato de bastas e miúdas folhas crescem ao lado dos mourões, entremisturando ao alto as verdes galhadas oblíquas, em tácito concerto para resguardar naquele trecho uma pouca de sombra fresca e preciosíssima. Quando as soalheiras escaldantes zimbram as abundantes invernadas que margeiam o caminho, estorricando os capinzais, sutilizando em ondadas de pó a terra vermelha das estradas, procurando haurir, indessedentáveis, até à última gota de seiva da vegetação causticada, para aquele que andou longo percurso à inclemência do sol a porteira é uma surpresa e uma delícia. A urdidura das copas é impenetrável; das barrancas revestidas da verde cabelugem de avencas e musgos, poreja continuamente um pouco de umidade que não chega para empapar a terra mas sobeja para fazer da temperatura carícia e voluptuosidade para a epiderme. As próprias borboletas comprazem-se nessa nesga de sombra ilhada aí providencialmente; quem passa vê-as no chão úmido, aos enxames, pintalgando a terra, como pétalas soltas espalhadas pelo vento, pétalas de tonalidades vivas, com predominância do amarelo-canário e vermelho de fogo. À chegada do viandante evolam-se e revoluteiam, como torturadas por um pé de vento; mas não fogem; e, esvoaçando às tontas, esperam que o importuno se afaste, para, estetas rústicas — quem sabe! — deleitarem-se em bordar de novo, na grata penumbra, ingênuas fantasias coloridas. Agora, pela manhã frígida, este bosque põe-me um arrepio à flor da pele. As borboletas — preguiçosas! — ainda para aqui não vieram, “a espairecer as suas borboletices”. Das folhagens encharcadas, espaçadamente o orvalho goteja, crivando o chão de pequeninos furos; e, ao estrondear da porteira no batente, precipita-se numa chuva efêmera, rumoreja largamente e cessa de improviso.
Seguem-se duzentas braças de campo. Daqui em diante vai-se sempre subindo, suavemente, por um chão apisoado e enegrecido. O morro é todo encaroçado de cupins, a que as gramíneas põem cerco, num sem-conto de frágeis pendões aprumados. Aqui e ali vingam escalar os cômodos mais baixos, que abafam sob sua invasão, deixando apenas adivinharem-se as convexidades submersas. Quantas vezes, do eirado da velha fazenda do Córrego Fundo, que neste momento demando, durante a estiagem das primeiras chuvas, contemplei, neste campo, o êxodo ascensional das aleluias! Então, de mil furos invisíveis, via borbotar como vaporações turvas, cones de fumo vivo que subia e se espalhava, dando, ao raso do campo, um tom cor de fuligem, fino e vibrátil, que observado de perto era o debater de miríades de asas minúsculas. E divertia-me ver o alvoroço das galinhas de siá Marciana, o pescoço esticado para o ar, cacarejando aflitas, a regalar-se do farto maná que lhes caía do céu sob a forma de inseto. Já do oriente, tangenciando a lombada da serra, e premido sob uma nuvem rosa e ouro, filtra-se o primeiro raio de sol. Pelas barrancas sombrias da estrada, em moitas de barba-de-bode, rebrilha aqui e além oblíquo fio alvíssimo. Recrudesce a vozearia dos pássaros, e asas multiplicam-se nos ares, aos trinços, aos chilros e casquinadas de cristal. Mais abaixo mostra-se enfim uma curva do rio, harmoniosa e suave como uma linha humana. À superfície líquida desfilam nevoaças, aos esquadrões, sopradas pela aragem matinal. Do lado da estrada as águas espraiam-se claras sobre areais; do outro lado, alto e ininterrupto paredão de verdura, exuberante, selvático, como se a correnteza delimitasse as terras habitadas do sertão bruto. E daquele tapume enredado com que a natureza parece entrincheirar-se contra a invasão dos pequeninos civilizados, daquela exuberância quase agressiva, do longe e confuso alarido dos seres da selva, do entrelaçado das copas, do perfume acre de mata virgem que em ondadas a viração
traz, vem-me uma atração conturbadora, a incutir-me o pesar de não ser fera ou jequitibá, para, integrado na natureza, viver a rude e misteriosa vida da floresta. Mas meus olhos fogem à vertigem e atentam numa figura humana acocorada, como um mocho, num cupim. É o Américo, meu amigo, que me espera. Radiante acena-me uma saudação e precipita-se ao meu encontro; alegremente correspondo; e em pouco estreitamo-nos em reforçado abraço. Mais uma centena de passos, e eis-nos chegados à fazenda do Córrego Fundo.
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