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Capítulo 1 · O Brinquedo Raivoso

Capítulo I — Os Ladrões

Capítulo I Os Ladrões Quando eu tinha catorze anos, iniciou-me nos deleites e afãs da literatura de bandoleiros um velho sapateiro andaluz, que mantinha sua oficina de remendão ao lado de uma casa de ferragens de fachada verde e branca, no vestíbulo de uma casa antiga da rua Rivadavia, entre Sud América e Bolivia.

Decoravam a frente do cubículo as capas policromas dos fascículos que narravam as aventuras de Montbars, o Pirata, e de Wenonga, o Moicano. Nós, os garotos, ao sair da escola, deleitávamo-nos contemplando as gravuras que pendiam à porta, desbotadas pelo sol.

Às vezes entrávamos para comprar meio maço de cigarros Barrilete, e o homem praguejava por ter de abandonar o tamborete para negociar conosco. Era corcunda, encovado de rosto e barbudo, além de um tanto coxo, com uma claudicação estranha: o pé redondo como o casco de uma mula e o calcanhar virado para fora.

Cada vez que o via, lembrava-me deste provérbio que minha mãe costumava repetir: “Guarda-te dos marcados por Deus”.

Ele costumava trocar comigo algumas palavrinhas e, enquanto escolhia uma botina destroçada no meio da confusão de formas e rolos de couro, iniciava-me, com as amarguras de um fracassado, no conhecimento dos bandidos mais famosos das terras de Espanha, ou fazia a apologia de algum freguês generoso, cujos sapatos engraxava e que o favorecia com vinte centavos de gorjeta.

Como era cobiçoso, sorria ao recordar o cliente, e o sorriso sórdido, incapaz de lhe inflar as faces, enrugava-lhe o lábio sobre os dentes enegrecidos.

Tomou simpatia por mim, apesar de ser um rabugento, e, por cinco centavos, alugava-me seus livrões adquiridos em longas assinaturas. Assim, ao me entregar a história da vida de Diego Corrientes, dizia:

—Ezse, que rapá, filho... que rapá... era mai bonito que uma rôza, e os miguelete mataro ele...

A voz do artesão tremia em inflexões roucas:

—Mai bonito que uma rôza... zi ele tinha má zorte...

Refletia um pouco e depois prosseguia:

—Imagina tu... dava pro pobre o que tirava do rico... tinha muié em todo os cortijo... se era mai bonito que uma rôza...

Na água-furtada, que fedia a cola e couro, sua voz despertava um sonho de montes verdejantes. Nos desfiladeiros havia zambras ciganas... Todo um país montanhoso e lascivo surgia diante de meus olhos, convocado pela evocação.

—Se era mai bonito que uma rôza...

E o coxo desafogava sua tristeza amolecendo a sola a marteladas sobre uma chapa de ferro apoiada nos joelhos. Depois, encolhendo os ombros como quem afasta uma ideia inoportuna, cuspia pelo vão de um dente num canto e afiava a sovela na pedra com movimentos rápidos.

Mais tarde acrescentava:

—Tu vai vê que parte mai bonita quando chegá em dona Inezita e na venda do tio Pezuña...

E, percebendo que eu levava o livro, gritava-me, à maneira de advertência:

—Cuida dele, menino, que custa dinhero...

Então, retomando seus afazeres, inclinava a cabeça, coberta até as orelhas por um boné cor de rato, remexia com os dedos sujos de cola dentro de uma caixa e, enchendo a boca de preguinhos, continuava a bater com o martelo:

toc... toc... toc... toc...

Essa literatura, que eu devorava nas numerosas “entregas”, era a história de José María, o Raio da Andaluzia, ou as aventuras de Don Jaime, o Barbudo, e de outros velhacos mais ou menos autênticos e pitorescos nas gravuras que os representavam desta maneira:

Cavaleiros montados em potros magnificamente ajaezados, com costeletas retintas no rosto rosado, o coque de toureiro coberto por um chapéu cordobês de sete reflexos e um bacamarte de boca larga no arção. Em geral, ofereciam com gesto magnânimo uma bolsa amarela de dinheiro a uma viúva com uma criança nos braços, parada ao pé de uma colina verde.

Então eu... sonhava em ser bandido e estrangular corregedores libidinosos; repararia injustiças, protegeria as viúvas e seria amado por donzelas extraordinárias...

Por conseguinte, meu camarada nas aventuras da primeira idade foi Enrique Irzubeta.

Era um pelintra a quem sempre ouvi chamarem pelo edificante apelido de “o falsificador”.

Eis como se estabelece uma reputação e como o prestígio auxilia o principiante na louvável arte de ludibriar o próximo.

Enrique tinha catorze anos quando enganou o proprietário de uma fábrica de caramelos, o que constitui prova evidente de que os deuses já haviam traçado o futuro destino do amigo Enrique. Mas, como os deuses têm o coração ardiloso, não me surpreende, ao escrever minhas memórias, saber que Enrique se hospeda num desses hotéis que o Estado reserva aos audazes e patifes.

A verdade é esta.

Certo fabricante, para estimular a venda de seus produtos, iniciou um concurso com direito a prêmios, destinados àqueles que apresentassem uma coleção de bandeiras, das quais se encontrava um exemplar no invólucro interno de cada caramelo.

A dificuldade consistia, dado que era sobremaneira rara, em encontrar a bandeira da Nicarágua.

Esses certames absurdos, como se sabe, apaixonam os garotos, que, unidos por um interesse comum, calculam todos os dias o resultado daqueles trabalhos e o avanço de suas pacientes investigações.

Enrique prometeu então a seus companheiros do bairro, certos aprendizes de uma carpintaria e os filhos do leiteiro, que falsificaria a bandeira da Nicarágua, desde que um dos rapazes do tambo lhe emprestasse a sua.

O garoto hesitava... vacilava, conhecendo a reputação de Irzubeta, mas Enrique, magnanimamente, ofereceu como garantia dois volumes da História da França, escrita por M. Guizot, para que sua probidade não fosse posta em dúvida.

Assim ficou fechado o trato na calçada daquela rua sem saída, com lampiões pintados de verde nas esquinas, poucas casas e longos muros de tijolos. Sobre distantes terrenos baldios repousava a curva azul-celeste do céu, e somente entristeciam a viela o rumor monótono de uma serra contínua e o mugido das vacas no tambo.

Mais tarde soube que Enrique, utilizando nanquim e sangue, reproduziu a bandeira da Nicarágua com tamanha habilidade que não se distinguia o original da cópia.

Dias depois, Irzubeta exibia uma reluzente espingarda de ar comprimido, que vendeu a um belchior da rua Reconquista. Isso aconteceu nos tempos em que o intrépido Bonnot e o valentíssimo Valet aterrorizavam Paris.

Eu já havia lido os mais de quarenta volumes que o visconde Ponson du Terrail escrevera sobre o filho adotivo de mamãe Fipart, o admirável Rocambole, e aspirava a ser um bandido da mais alta escola.

Pois bem, num dia de verão, no sórdido armazém do bairro, conheci Irzubeta.

A hora ardente da sesta pairava sobre as ruas, e eu, sentado num barril de erva-mate, discutia com Hipólito, que aproveitava o sono do pai para fabricar aeroplanos com armações de bambu. Hipólito queria ser aviador, mas antes precisava resolver o problema da “estabilidade espontânea”. Em outros tempos preocupara-se com a solução do movimento perpétuo e costumava consultar-me acerca do possível resultado de suas cogitações. Hipólito, com os cotovelos apoiados num jornal manchado de toucinho, entre uma vitrine de frios cheia de queijos e as varetas vermelhas da “caixa”, escutava atentissimamente minha tese:

—O mecanismo de um “relógio” não serve para a hélice. Põe um motorzinho elétrico e as pilhas secas na fuselagem.

—Então, como os submarinos...

—Que submarinos? O único perigo é a corrente queimar o motor, mas o aeroplano vai andar mais sossegado e, antes que as pilhas descarreguem, vai demorar um bom tempo.

—Che, e não dá para o motor funcionar com telegrafia sem fio? Você devia estudar essa invenção. Sabe que seria bonito?

Naquele instante Enrique entrou.

—Che, Hipólito, mamãe perguntou se você pode me dar meio quilo de açúcar até mais tarde.

—Não posso, che. O velho disse que, enquanto não acertarem a caderneta...

Enrique franziu ligeiramente o cenho.

—Estranho isso, Hipólito...

Hipólito acrescentou, conciliador:

—Por mim, você sabe... mas é o velho, che.

E, apontando para mim, satisfeito por poder desviar o assunto da conversa, acrescentou, dirigindo-se a Enrique:

—Che, você não conhece o Silvio? É ele o do canhão.

O semblante de Irzubeta iluminou-se com deferência.

—Ah, é o senhor? Meus parabéns. O limpador de esterco do tambo me disse que disparava como um Krupp...

Enquanto ele falava, observei-o.

Era alto e magro. Sobre a testa abaulada, salpicada de sardas, os lustrosos cabelos negros ondulavam-se senhorialmente. Tinha olhos cor de tabaco, ligeiramente oblíquos, e vestia um puído terno marrom, adaptado à sua figura por mãos pouco hábeis nos trabalhos da alfaiataria.

Apoiou-se na borda do balcão, pousando o queixo na palma da mão. Parecia refletir.

Famosa foi a aventura de meu canhão, e agrada-me recordá-la.

Comprei de certos operários de uma companhia de eletricidade um tubo de ferro e várias libras de chumbo. Com esses elementos fabriquei aquilo que chamava de uma colubrina ou “bombarda”. Procedi desta maneira:

Num molde hexagonal de madeira, revestido internamente de barro, introduzi o tubo de ferro. O espaço entre as duas paredes internas foi preenchido com chumbo derretido. Depois de quebrar o invólucro, desbastei o bloco com uma lima grossa, fixando o canhão por meio de cintas de folha de flandres sobre um reparo fabricado com as tábuas mais grossas de um caixote de querosene.

Minha colubrina era bela. Disparava projéteis de duas polegadas de diâmetro, cuja carga eu colocava em sacos de barbante cheios de pólvora.

Acariciando meu pequeno monstro, eu pensava:

—Este canhão pode matar, este canhão pode destruir.

E a convicção de ter criado um perigo obediente e mortal fazia-me perder a razão de alegria.

Os garotos da vizinhança examinaram-no admirados, e aquilo lhes demonstrou minha superioridade intelectual, que desde então prevaleceu nas expedições organizadas para roubar frutas ou descobrir tesouros enterrados nos descampados situados para além do arroio Maldonado, na paróquia de San José de Flores.

O dia em que experimentamos o canhão ficou célebre. Fizemos a experiência no meio de uma moita de cinacina que havia num enorme terreno baldio da rua Avellaneda, antes de chegar a San Eduardo. Um círculo de garotos me rodeava enquanto eu, fingindo-me exaltado, carregava a colubrina pela boca. Depois, para comprovar suas virtudes balísticas, apontamos para o reservatório de zinco que, sobre o muro de uma carpintaria próxima, fornecia-lhe água.

Emocionado, aproximei um fósforo da mecha; uma chamazinha escura cintilou sob o sol e, de repente, um estampido terrível envolveu-nos numa neblina nauseabunda de fumaça branca. Por um instante, ficamos atônitos de maravilhamento: parecia-nos que naquele momento havíamos descoberto um novo continente ou que, por magia, fôramos transformados em senhores da Terra.

De repente, alguém gritou:

—Vamos picar a mula, a polícia...

Não houve tempo material para uma retirada honrosa. Dois guardas aproximavam-se correndo a toda velocidade... hesitamos... e subitamente fugimos aos saltos, abandonando a “bombarda” ao inimigo.

Enrique terminou por dizer:

—Che, se o senhor precisar de informações científicas para suas coisas, tenho em casa uma coleção de revistas chamadas Alrededor del Mundo e posso emprestá-las.

Desde esse dia até a noite do grande perigo, nossa amizade foi comparável à de Orestes e Pílades.

Que novo mundo pitoresco descobri na casa da família Irzubeta!

Gente memorável! Três homens e duas mulheres, e a casa governada pela mãe, uma senhora de cabelos cor de sal e pimenta, olhinhos de peixe e longo nariz inquisidor, e pela avó encurvada, surda e enegrecida como uma árvore tostada pelo fogo.

Com exceção de um ausente, que era oficial de polícia, naquela toca taciturna todos se entregavam a uma doce vadiagem, a ócios que passeavam dos romances de Dumas ao reconfortante sono das sestas e à amável bisbilhotice do entardecer.

A casa era escura, úmida, com um jardinzinho miserável diante da sala. O sol só entrava pela manhã num comprido pátio coberto de telhas esverdeadas.

As inquietações surgiam no começo do mês. Tratava-se então de dissuadir os credores, engambelar os “galegos de m...”, acalmar a fúria da gente plebeia que, sem tato algum, vociferava diante da porta gradeada, exigindo o pagamento das mercadorias ingenuamente entregues a crédito.

O proprietário da toca era um alsaciano gordo chamado Grenuillet. Reumático, septuagenário e neurastênico, acabou acostumando-se à irregularidade dos Irzubeta, que pagavam os aluguéis de vez em quando. Em outros tempos, tentara inutilmente despejá-los da propriedade, mas os Irzubeta eram parentes de juízes antiquados e de outras pessoas da mesma laia do Partido Conservador, razão pela qual se sabiam irremovíveis.

O alsaciano terminou resignado a esperar um novo regime político, e a exuberante desfaçatez daqueles malandros chegava ao extremo de mandarem Enrique solicitar ao proprietário entradas de cortesia para o Casino, onde o homem tinha um filho que exercia o elevado cargo de porteiro.

Ah! E que comentários saborosíssimos, que reflexões cristãs podiam ser ouvidos das comadres que, reunidas em conluio no açougue do bairro, comentavam piedosamente a existência de seus vizinhos.

Dizia a mãe de uma menina feiíssima, referindo-se a um dos jovens Irzubeta que, num arroubo de lubricidade, se exibira obscenamente diante da donzela:

—Veja, senhora, é melhor eu não agarrá-lo, porque vai ser pior do que se um trem passasse por cima dele.

Dizia a mãe de Hipólito, mulher gorda, de rosto branquíssimo e sempre grávida, segurando o açougueiro pelo braço:

—Aconselho o senhor, seu Segundo, a não vender fiado para eles nem de brincadeira. Deram-nos um calote que nem lhe conto.

—Fique tranquila, fique tranquila — resmungava austeramente o homem corpulento, brandindo sua enorme faca em torno de um bofe.

Ah! E os Irzubeta eram muito joviais. Que o diga o padeiro que teve a audácia de indignar-se com a demora de seus devedores.

O homem discutia à porta com uma das moças quando, para sua desgraça, foi ouvido pelo oficial inspetor, que por acaso visitava a casa.

Este, habituado a resolver qualquer questão a pontapés, irritado com a insolência representada pelo fato de o padeiro querer receber o que lhe deviam, expulsou-o da porta a socos. Aquilo não deixou de constituir uma saudável lição de boas maneiras, e muitos preferiram não cobrar. Enfim, a vida tal como era encarada por aquela família tinha mais graça que uma farsa burlesca.

As donzelas, com mais de vinte e seis anos e sem namorado, deleitavam-se com Chateaubriand, definhavam com Lamartine e Cherbuliez. Isso lhes incutia a convicção de fazerem parte de uma “elite” intelectual, e por essa razão designavam a gente pobre com o adjetivo de ralé.

Ralé chamavam o dono do armazém que pretendia cobrar seus feijões; ralé, a dona da loja de tecidos da qual haviam arrancado alguns metros de renda; ralé, o açougueiro que bramia de fúria quando, por entre as venezianas, gritavam-lhe a contragosto que “no mês que vem, sem falta, ele seria pago”.

Os três irmãos, cabeludos e magros, glória dos vadios, tomavam durante o dia abundantes banhos de sol e, ao escurecer, aprumavam-se para ir conquistar namoricos entre as perdidas do subúrbio.

As duas velhas, beatas e resmungonas, discutiam a todo instante por ninharias ou, sentadas em roda na sala vetusta com as filhas que espiavam por trás dos cortinados, entreteciam mexericos. E, como descendiam de um oficial que servira no exército de Napoleão I, muitas vezes, na penumbra que idealizava seus rostos exangues, ouvi-as sonhando com mitos imperialistas, evocando antigos esplendores de nobreza, enquanto, na calçada solitária, o acendedor de lampiões, com sua vara coroada por uma chama violeta, acendia o lampião verde a gás.

Como não dispunham de recursos para manter uma criada, e como nenhuma empregada tampouco teria suportado os ímpetos faunescos dos três malandros cabeludos, o mau humor das donzelas irritadiças e os caprichos das bruxas dentuças, Enrique era o imprescindível garoto dos recados, o leva e traz necessário ao bom funcionamento daquela máquina econômica defeituosa. Estava tão acostumado a pedir fiado que sua desfaçatez nesse sentido era inaudita e exemplar. Em seu louvor, pode-se dizer que uma estátua de bronze seria mais suscetível à vergonha do que seu rosto delicado.

Irzubeta ocupava as longas horas livres desenhando, habilidade para a qual não lhe faltavam engenho nem delicadeza, o que não deixa de ser um bom argumento para demonstrar que sempre existiram pelintras dotados de aptidões estéticas. Como eu não tinha nada para fazer, estava frequentemente em sua casa, coisa que não agradava às dignas anciãs, com as quais eu não me importava nem um vintém. Dessa união com Enrique e das prolongadas conversas sobre bandidos e latrocínios nasceu em nós uma singular predisposição para executar barbaridades e um desejo infinito de nos imortalizarmos com o nome de delinquentes.

Dizia-me Enrique, a propósito de uma expulsão de “apaches” emigrados da França para Buenos Aires, que Soiza Reilly entrevistara, acompanhando o artigo com eloquentes fotografias:

—O presidente da República tem quatro “apaches” protegendo suas costas.

Eu ria.

—Deixe de conversa fiada.

—Estou falando sério, e eles são assim.

E abria os braços como um crucificado, para me dar uma ideia da capacidade torácica dos facínoras em questão.

Não me recordo por meio de que sutilezas e desrazões chegamos a nos convencer de que roubar era uma ação meritória e bela; mas sei que, de comum acordo, resolvemos organizar um clube de ladrões, do qual, naquele momento, éramos os únicos associados.

Mais adiante veríamos... E, para começarmos dignamente, decidimos iniciar nossa carreira saqueando casas desabitadas. Acontecia assim:

Depois do almoço, na hora em que as ruas ficavam desertas, saíamos discretamente vestidos para percorrer as ruas de Flores ou Caballito.

Nossas ferramentas de trabalho eram:

Uma pequena chave inglesa, uma chave de fenda e alguns jornais para embrulhar o que fosse furtado.

Onde quer que um cartaz anunciasse uma propriedade para alugar, dirigíamo-nos a pedir informações, com os modos compostos e o semblante compungido. Parecíamos coroinhas de Caco.

Depois que nos entregavam as chaves para conhecermos as condições de habitabilidade da casa oferecida para aluguel, saíamos apressados.

Ainda não esqueci a alegria que experimentava ao abrir as portas. Entrávamos violentamente; ávidos por despojos, percorríamos os cômodos, avaliando com rápidas olhadelas a qualidade do que podia ser roubado.

Quando havia instalação de luz elétrica, arrancávamos fios, soquetes e campainhas, lâmpadas e interruptores, lustres, tulipas e pilhas; do banheiro, levávamos as torneiras, por serem niqueladas, e as da pia da cozinha, por serem de bronze. Só não carregávamos portas e janelas para não nos transformarmos em carregadores.

Trabalhávamos instigados por certa jovialidade dolorosa, com um nó de ansiedade preso na garganta e a rapidez dos transformistas no palco, rindo sem motivo, tremendo por coisa alguma.

Os fios pendiam em farrapos dos tetos descascados pela brusquidão do esforço; pedaços de gesso e argamassa manchavam os pisos empoeirados; na cozinha, os canos de chumbo desfiavam um interminável regato de água e, em poucos segundos, tínhamos a habilidade de deixar a residência pronta para uma reforma dispendiosa.

Depois, Irzubeta ou eu devolvíamos as chaves e desaparecíamos a passos rápidos.

O ponto de reencontro era sempre os fundos da oficina de um encanador, certo exemplar de Cacaseno com cara de lua, avançado em anos, barriga e chifres, pois era sabido que tolerava com paciência franciscana as infidelidades da esposa.

Quando, indiretamente, faziam-no reconhecer o que ele era, replicava com mansidão pascal que sua mulher sofria dos nervos e, diante de argumento de tamanha solidez científica, só restava o silêncio.

Entretanto, quando se tratava de seus interesses, era uma águia.

O perneta examinava meticulosamente nosso embrulho, pesava os fios, testava as lâmpadas para verificar se os filamentos estavam queimados, cheirava as torneiras e, com uma paciência desesperadora, calculava e tornava a calcular, até acabar oferecendo-nos a décima parte do valor que as coisas roubadas tinham pelo preço de custo.

Quando discutíamos ou nos indignávamos, o bom homem levantava as pupilas bovinas, seu rosto redondo sorria com malícia e, sem nos permitir réplica, dando-nos festivas palmadas nas costas, colocava-nos para fora com toda a graça do mundo e o dinheiro na palma da mão.

Mas não se pense que limitávamos nossas façanhas apenas às casas desocupadas. Quem se comparava a nós no exercício das garras?

Vigiávamos continuamente as coisas alheias. Nas mãos tínhamos uma prontidão fabulosa; nos olhos, a agilidade de uma ave de rapina. Sem nos apressarmos e com a velocidade com que um falcão cai sobre uma pomba ingênua, caíamos sobre aquilo que não nos pertencia.

Quando entrávamos num café e havia sobre alguma mesa um talher esquecido ou um açucareiro, e o garçom se distraía, furtávamos ambos; e tanto nos balcões da cozinha quanto em qualquer outro recanto encontrávamos aquilo que julgávamos necessário ao nosso benefício comum.

Não perdoávamos xícara nem prato, facas nem bolas de bilhar, e recordo com nitidez que, numa noite de chuva, num café muito frequentado, Enrique levou tranquilamente um gabão e, em outra noite, eu levei uma bengala com castão de ouro.

Nossos olhos giravam como bolas e se abriam como pratos, investigando o proveito das coisas; assim que distinguíamos o que desejávamos, ali estávamos, sorridentes, despreocupados e tagarelas, com os dedos prontos e o olhar muito atento, para não errarmos o golpe como ladrõezinhos de quinta categoria.

Nos estabelecimentos comerciais exercitávamos também essa habilidade impecável, e era de ver para crer como engambelávamos os rapazotes que atendiam ao balcão enquanto o patrão dormia a sesta.

Com um pretexto qualquer, Enrique levava o rapaz até a vitrine da rua para que lhe informasse o preço de certos artigos e, quando não havia fregueses no estabelecimento, eu abria prontamente uma vitrina e enchia os bolsos com caixas de lápis e tinteiros artísticos. Somente uma vez conseguimos sangrar o dinheiro de uma gaveta sem campainha de alarme e, em outra ocasião, numa loja de armas, levamos uma cartela com uma dúzia de canivetes de aço dourado e cabo de madrepérola.

Quando, ao longo do dia, não conseguíamos nos apoderar de coisa alguma, ficávamos abatidos, tristes com nossa inépcia e desiludidos com o futuro.

Então rondávamos mal-humorados até aparecer alguma coisa em que pudéssemos nos desforrar.

Mas, quando os negócios prosperavam e as moedas eram substituídas pelos saborosos pesos, esperávamos uma tarde de chuva e saíamos de automóvel. Que volúpia era então percorrer, entre cortinas de água, as ruas da cidade! Afundávamos nas almofadas macias, acendíamos um cigarro e, deixando para trás as pessoas apressadas sob a chuva, imaginávamos viver em Paris ou na brumosa Londres. Sonhávamos em silêncio, com um sorriso pousado no lábio condescendente.

Depois, numa confeitaria luxuosa, tomávamos chocolate com baunilha e, saciados, regressávamos no trem da tarde, com as energias duplicadas pela satisfação do prazer proporcionado ao corpo voluptuoso, pelo dinamismo de tudo o que nos rodeava e que, com seus rumores de ferro, gritava em nossos ouvidos:

Adiante, adiante!

Eu disse a Enrique, certo dia:

—Temos que formar uma verdadeira sociedade de rapazes inteligentes.

—A dificuldade é que poucos se parecem conosco — argumentou Enrique.

—Sim, você tem razão, mas alguns haveremos de encontrar.

Poucas semanas depois dessa conversa, graças às diligências de Enrique, associou-se a nós certo Lucio, um imbecil de corpo pequeno e lívido de tanto se masturbar, tudo isso unido a uma cara tão desavergonhada que dava vontade de rir quando se olhava para ele.

Vivia sob a tutela de umas tias velhas e devotas que pouco ou nada se ocupavam dele. Esse palerma tinha uma ocupação predileta de natureza orgânica: comunicar as coisas mais vulgares tomando precauções como se fossem segredos terríveis. Fazia isso olhando de esguelha e movendo os braços à maneira de certos artistas de cinema que interpretam malandros em bairros de muros cinzentos.

—Pouco nos servirá este energúmeno — disse eu a Enrique.

Mas, como trazia para a recente confraria o entusiasmo do neófito, sua decisão entusiástica, ratificada por um gesto rocambolesco, deu-nos esperanças.

Ora, como era de rigor, não podíamos deixar de possuir um local onde nos reunirmos e, por proposta de Lucio, aceita por unanimidade, denominamo-lo “Clube dos Cavalheiros da Meia-Noite”.

O referido clube ficava nos fundos da casa de Enrique, diante de uma latrinazinha de paredes enegrecidas e reboco descascado, e consistia num aposento estreito de madeira empoeirada, de cujo teto de tábuas pendiam compridas teias de aranha. Atirados pelos cantos, havia montes de fantoches inválidos e desbotados, herança de um titereiro fracassado, amigo dos Irzubeta, caixas diversas com soldados de chumbo atrozmente mutilados, fétidos embrulhos de roupa suja e caixotes abarrotados de revistas velhas e jornais.

A porta do cubículo dava para um pátio escuro de tijolos rachados, que nos dias de chuva ressumavam lama.

—Não tem ninguém aí, che?

Enrique fechou o frágil postigo, por cujos vidros quebrados viam-se grandes cachos de nuvens de estanho.

—Estão lá dentro conversando.

Acomodamo-nos da melhor maneira possível. Lucio ofereceu cigarros egípcios, formidável novidade para nós, e, com elegância, riscou o fósforo na sola do sapato. Depois disse:

—Vamos ler o Diário das Sessões.

Para que nada faltasse no referido clube, havia também um Diário das Sessões, no qual se registravam os projetos dos associados, e também um selo, um selo retangular que Enrique fabricara com uma rolha e no qual se podia apreciar o emocionante espetáculo de um coração atravessado por três punhais.

O diário era mantido em turnos; o fim de cada ata era assinado, e cada assinatura recebia o selo correspondente.

Ali podiam ser lidas coisas como estas:

Proposta de Lucio. Para roubar no futuro sem necessidade de gazua, convém tirar em cera virgem os moldes das chaves de todas as casas visitadas.

Proposta de Enrique. Também será feita uma planta da casa de onde forem tirados os moldes das chaves. Essas plantas serão arquivadas com os documentos secretos da Ordem e deverão mencionar todas as particularidades do edifício, para maior comodidade daquele que tiver de operar.

Acordo geral da Ordem. Nomeia-se desenhista e falsificador do Clube o sócio Enrique.

Proposta de Silvio. Para introduzir nitroglicerina num presídio, tome-se um ovo, retire-se-lhe a clara e a gema e, por meio de uma seringa, injete-se o explosivo.

Caso os ácidos da nitroglicerina destruam a casca do ovo, fabrique-se uma camiseta com algodão-pólvora. Ninguém suspeitará que a inofensiva camiseta seja uma carga explosiva.

Proposta de Enrique. O Clube deve dispor de uma biblioteca de obras científicas, para que seus confrades possam roubar e matar de acordo com os mais modernos procedimentos industriais. Além disso, depois de pertencer por três meses ao Clube, cada sócio será obrigado a possuir uma pistola Browning, luvas de borracha e cem gramas de clorofórmio. O químico oficial do Clube será o sócio Silvio.

Proposta de Lucio. Todas as balas deverão ser envenenadas com ácido prússico, e seu poder tóxico será testado cortando-se com um tiro a cauda de um cachorro. O cachorro deverá morrer em dez minutos.

—Che, Silvio.

—O que foi? — disse Enrique.

—Estava pensando numa coisa. Seria preciso organizar clubes em todas as cidades da República.

—Não. O principal — interrompi — é adquirirmos prática para agir amanhã. Não importa agora nos ocuparmos com bobagens.

Lucio aproximou um embrulho de roupa suja que lhe servia de otomana. Prossegui:

—O aprendizado de gatuno tem esta vantagem: dá sangue-frio à pessoa, que é o mais necessário para o ofício. Além disso, a prática do perigo contribui para formarmos hábitos de prudência.

Enrique disse:

—Deixemos a retórica e vamos tratar de um caso interessante. Aqui, nos fundos do açougue, há um gringo que todas as noites guarda o automóvel e vai dormir num quartinho que aluga num casarão da rua Zamudio. O muro da casa dos Irzubeta é contíguo aos fundos do açougue. O que você acha, Silvio, de fazermos o magneto e a buzina evaporarem?

—Sabe que isso é grave?

—Não há perigo, che. Pulamos o muro. O açougueiro dorme como uma pedra. Só precisamos usar luvas.

—E o cachorro?

—E para que você acha que eu conheço o cachorro?

—Acho que vai dar uma confusão danada.

—O que você acha, Silvio?

—Não gosto.

—Mas perceba que conseguiremos mais de cem mangos pelo magneto.

—O negócio é bonito, mas perigoso.

—Você topa, Lucio?

—A imprensa?... Claro... visto minhas calças velhas, para não rasgar o “terno”...

—E você, Silvio?

—Eu escapo assim que a velha dormir.

—E a que horas nos encontramos?

—Olhe, che, Enrique. Não gosto do negócio.

—Por quê?

—Não gosto. Vão suspeitar de nós. Os fundos... O cachorro que não late... se calhar deixamos rastros... Não gosto. Você sabe que não recuso coisa alguma, mas não gosto. É perto demais, e a polícia tem faro.

—Então não se faz.

Sorrimos como se acabássemos de escapar de um perigo.

Assim vivíamos dias de emoção sem igual, desfrutando o dinheiro dos latrocínios, aquele dinheiro que tinha para nós um valor especial e até parecia falar-nos numa linguagem expressiva.

As cédulas pareciam mais significativas com suas imagens coloridas; as moedas de níquel tilintavam alegremente nas mãos que faziam com elas jogos de malabarismo. Sim, o dinheiro adquirido à força de trapaças afigurava-se-nos muito mais valioso e sutil, imprimia em nós uma representação de valor máximo, parecia sussurrar aos ouvidos um elogio sorridente e uma malícia instigadora. Não era o dinheiro vil e odioso que se abomina porque precisa ser ganho em trabalhos penosos, mas um dinheiro agilíssimo, uma esfera de prata com duas pernas de gnomo e barba de anão, um dinheiro malandro e dançarino, cujo aroma, como o de um vinho generoso, arrastava-nos a divinas pândegas.

Nossas pupilas estavam limpas de inquietação, e eu ousaria dizer que um halo de soberba e audácia aureolava nossas frontes. A soberba de saber que, se nossas ações fossem descobertas, seríamos conduzidos diante de um juiz de instrução. Sentados em torno da mesa de um café, às vezes conversávamos:

—O que você faria diante do juiz criminal?

—Eu — respondia Enrique — falaria com ele sobre Darwin e Le Dantec.

Enrique era ateu.

—E você, Silvio?

—Negaria sempre, mesmo que me cortassem o pescoço.

—E o cassetete de borracha?

Olhávamo-nos espantados. Tínhamos horror ao “cassetete de borracha”, aquele bastão que não deixa marca visível na carne; o bastão de borracha com que se castiga o corpo dos ladrões no Departamento de Polícia quando demoram a confessar seu delito.

Com a ira mal reprimida, respondi:

—A mim eles não pegam. Antes matar.

Quando pronunciávamos essa palavra, os nervos do rosto se distendiam, os olhos permaneciam imóveis, fixos numa ilusória hecatombe distante, e as narinas se dilatavam, aspirando o cheiro da pólvora e do sangue.

—Por isso é preciso envenenar as balas — replicou Lucio.

—E fabricar bombas — continuei. — Nada de piedade. É preciso arrebentá-los, aterrorizar a polícia. Assim que estiverem distraídos, bala... Para os juízes, mandar bombas pelo correio...

Assim conversávamos em torno da mesa do café, sombrios e contentes com nossa impunidade diante das pessoas, das pessoas que não sabiam que éramos ladrões, e um delicioso pavor apertava-nos o coração ao pensarmos com que olhos nos contemplariam as jovens donzelas que passavam, caso soubessem que nós, tão bem-arrumados e jovens, éramos ladrões... ladrões...!

Por volta da meia-noite, reuni-me num café com Enrique e Lucio para acertarmos os últimos detalhes de um roubo que pretendíamos executar.

Escolhendo o canto mais solitário, ocupamos uma mesa junto a uma vidraça.

Uma chuva miúda bicava o vidro, enquanto a orquestra dilacerava o derradeiro bramido de um tango de prisão.

—Você tem certeza, Lucio, de que os porteiros não estão lá?

—Certeza absoluta. Agora são férias e cada um foi para um lado.

Tratávamos nada menos que de despojar a biblioteca de uma escola.

Enrique, pensativo, apoiou a face numa das mãos. A viseira do boné sombreava-lhe os olhos.

Eu estava inquieto.

Lucio olhava ao redor com a satisfação de um homem para quem a vida é amável. Para me convencer de que não havia perigo algum, franziu as sobrancelhas e, confidencialmente, comunicou-me pela décima vez:

—Eu sei o caminho. Com que você está preocupado? Só temos de pular a grade que dá para a rua e para o pátio. Os porteiros dormem numa sala separada, no terceiro andar. A biblioteca fica no segundo, do lado oposto.

—O caso é fácil, isso é evidente — disse Enrique. — O golpe seria bonito se pudéssemos levar o Dicionário Enciclopédico.

—E onde vamos carregar vinte e oito volumes? Você está maluco... a menos que chame um caminhão de mudanças.

Passaram alguns carros com as capotas levantadas, e a intensa claridade dos arcos voltaicos, caindo sobre as árvores, projetava no calçamento longas manchas trêmulas. O garçom serviu-nos café. As mesas ao redor continuavam desocupadas, os músicos conversavam no palco e, do salão de bilhar, chegava o ruído dos tacos com que alguns entusiastas aplaudiam uma carambola complicadíssima.

—Vamos jogar uma partida de tute arrastado?

—Deixe o tute de lado, homem.

—Parece que está chovendo.

—Melhor — disse Enrique. — Essas noites agradavam a Montparnasse e a Thénardier. Thénardier dizia: “Mais fez Jean-Jacques Rousseau”. Aquele Thénardier era um malandro, e essa parte do calão é formidável.

—Ainda está chovendo?

Voltei os olhos para a pracinha.

A água caía obliquamente e, entre duas fileiras de árvores, o vento a ondulava como uma cortina cinzenta.

Olhando o verde dos ramos e das folhagens iluminados pela claridade prateada dos arcos voltaicos, tive a visão de grutas em parques estremecidos, numa noite de verão, pelo rumor das festas plebeias e pelos foguetes vermelhos explodindo no azul. Essa evocação inconsciente entristeceu-me.

Daquela última noite aventurosa, conservo uma memória lúcida.

Os músicos dilaceraram uma peça que, na lousa, trazia o nome de Kiss Me.

No ambiente vulgar, a melodia ondulou seu ritmo trágico e distante. Eu diria que era a voz de um coro de emigrantes pobres no porão de um transatlântico, enquanto o sol afundava nas águas verdes e pesadas.

Recordo como me chamou a atenção o perfil de um violinista de cabeça socrática e calva resplandecente. Sobre o nariz cavalgavam-lhe óculos de lentes escuras, e reconhecia-se o esforço daqueles olhos cobertos pela inclinação forçada do pescoço sobre a estante.

Lucio perguntou-me:

—Você ainda está com Eleonora?

—Não, já terminamos. Ela não quer mais ser minha namorada.

—Por quê?

—Porque não quer.

A imagem, unida ao langor dos violinos, penetrou-me com violência. Era um chamado de minha outra voz ao olhar de seu rosto sereno e doce. Oh! Quanto sua risada, agora distante, me extasiara de tristeza; e, sentado à mesa, falei-lhe em espírito desta maneira, enquanto saboreava uma amargura mais deliciosa que a volúpia:

—Ah! Se eu tivesse podido dizer o quanto amava você, assim, com a música de Kiss Me... dissuadi-la com este pranto... então, talvez... Mas ela também me amou... não é verdade que você me amou, Eleonora?

—Parou de chover... vamos sair.

—Vamos.

Enrique atirou algumas moedas sobre a mesa. Perguntou-me:

—Está com o revólver?

—Sim.

—Não vai falhar?

—Experimentei outro dia. A bala atravessou duas tábuas de andaime.

Irzubeta acrescentou:

—Se tudo correr bem desta vez, compro uma Browning; mas, por via das dúvidas, trouxe um soco-inglês.

—Está sem pontas?

—Não, tem cada ponta que dá medo.

Um policial atravessou o gramado da praça em nossa direção.

Lucio exclamou em voz alta, o suficiente para ser ouvido pelo tira:

—É que o professor de Geografia tem raiva de mim, che, tem raiva de mim!

Depois de cruzarmos a diagonal da pracinha, encontramo-nos diante do muro da escola e ali percebemos que começava a chover outra vez.

Uma fileira de plátanos frondosos rodeava o edifício da esquina, tornando densíssima a escuridão no triângulo. A chuva produzia um ruído singular e musical na folhagem.

Uma grade alta mostrava seus dentes agudos, unindo os dois corpos elevados e sombrios do edifício.

Caminhando lentamente, perscrutávamos as sombras; depois, sem dizer palavra, subi pelas barras, enfiei um pé no aro que ligava cada duas lanças e, com um salto, precipitei-me no pátio, permanecendo alguns segundos na posição em que caíra, isto é, agachado, os olhos imóveis, tocando com as pontas dos dedos os ladrilhos molhados.

—Não há ninguém, che — sussurrou Enrique, que acabava de me seguir.

—Parece que não. Mas o que Lucio está fazendo, que não desce?

Nas pedras da rua, escutamos o choque compassado de ferraduras; depois, ouviu-se outro cavalo andando a passo, e o ruído foi diminuindo nas trevas.

Sobre as lanças de ferro, Lucio mostrou a cabeça. Apoiou o pé numa travessa e deixou-se cair com tamanha sutileza que a sola de seu sapato mal rangeu no mosaico.

—Quem passou, che?

—Um oficial inspetor e um guarda. Fingi que estava esperando o bonde.

—Vamos colocar as luvas, che.

—É verdade, com a emoção eu estava esquecendo.

—E agora, por onde vamos? Isto está mais escuro que...

—Por aqui...

Lucio serviu de guia, eu saquei o revólver e os três nos dirigimos para o pátio coberto pelo terraço do segundo andar.

Na escuridão, distinguia-se vagamente uma colunata.

Subitamente, estremeci com a consciência de tamanha superioridade sobre meus semelhantes que, apertando fraternalmente o braço de Enrique, disse:

—Vamos bem devagar.

E, imprudentemente, abandonei o passo comedido, fazendo ressoar o salto de minhas botinas.

Ao redor do edifício, os passos repercutiram multiplicados.

A certeza de absoluta impunidade contagiou meus camaradas com uma firmeza otimista, e rimos com gargalhadas tão estridentes que, da rua escura, um cão errante latiu três vezes para nós.

Jubilosos por esbofetear o perigo com nossa coragem, teríamos desejado acompanhar aquilo com o toque de clarins de uma fanfarra e a alegria estrondosa de um pandeiro, despertar os homens para demonstrar que júbilo engrandece nossas almas quando violamos a lei e entramos sorrindo no pecado.

Lucio marchava à frente. Virou-se.

—Proponho que assaltemos o Banco de la Nación daqui a alguns dias.

—Você, Silvio, abre os cofres com seu sistema de arco voltaico.

—Bonnot deve estar nos aplaudindo do inferno — disse Enrique.

—Vivam os apaches Lacombe e Valet — exclamei.

—Eureca! — gritou Lucio.

—O que deu em você?

O rapaz respondeu:

—Já sei... Não dizia, Lucio? Precisam erguer uma estátua para você... Já sei. Sabem o que é?

Agrupamo-nos ao redor dele.

—Vocês repararam? Você reparou, Enrique, na joalheria que fica ao lado do Cine Electra?... Estou falando sério, che, não ria. A latrina do cinema não tem teto... lembro muito bem. Dali poderíamos subir aos telhados da joalheria. Compramos entradas à noite e, antes de terminar a sessão, um de nós escapa. Pelo buraco da fechadura, injeta-se clorofórmio com uma pera de borracha.

—É verdade. Sabe, Lucio, que seria um golpe magnífico?... E quem suspeitaria de alguns rapazes? Precisamos estudar o projeto.

Acendi um cigarro e, ao clarão do fósforo, descobri uma escada de mármore.

Lançamo-nos escada acima.

Ao chegarmos ao corredor, Lucio iluminou o lugar com sua lanterna elétrica: um paralelogramo estreito, prolongado de um lado por um corredor escuro. Pregada ao batente de madeira de uma porta, havia uma placa esmaltada cujos caracteres diziam: Biblioteca.

Aproximamo-nos para examiná-la. Era antiga, e suas folhas altas, pintadas de verde, deixavam um vão de uma polegada entre os rodapés e o piso.

Com uma alavanca, seria possível arrancar a fechadura de seus parafusos.

—Vamos primeiro ao terraço — disse Enrique. — As cornijas estão cheias de lâmpadas elétricas.

No corredor, encontramos uma porta que conduzia ao terraço do segundo andar. Saímos. A água estalava nos mosaicos do pátio e, junto a um muro alto coberto de alcatrão, o clarão vívido de um relâmpago revelou uma guarita de madeira, cuja porta de tábuas permanecia entreaberta.

A cada instante, a súbita claridade de um raio descobria um céu violeta e distante, desnivelado por campanários e telhados. O muro alto e alcatroado, com sua aparência carcerária, recortava sinistramente trechos do horizonte. Entramos na guarita. Lucio acendeu novamente a lanterna.

Nos cantos do quartinho, estavam amontoados sacos de serragem, panos de chão, escovas e vassouras novas. O centro era ocupado por um volumoso cesto de vime.

—O que será que há aí dentro?

Lucio levantou a tampa.

—Bombas.

—Deixe ver.

Cobiçosos, inclinamo-nos para o círculo luminoso projetado pela lanterna. Entre a serragem, brilhavam as esferas cristalinas das lâmpadas de filamento.

—Não estarão queimadas?

—Não, senão teriam jogado fora.

Mas, para nos convencermos, examinei diligentemente os filamentos em suas geometrias. Estavam intactos.

Ávidos, roubávamos em silêncio, enchendo os bolsos e, como não nos pareceu suficiente, pegamos um saco de pano, que também enchemos de lâmpadas. Para impedir que tilintassem, Lucio preencheu os espaços com serragem.

Na barriga de Irzubeta, a calça formava uma protuberância enorme. Tantas lâmpadas ele escondera ali.

—Olhem o Enrique, está grávido.

A brincadeira fez-nos sorrir.

Retiramo-nos prudentemente. Como sininhos distantes, soavam as peras de vidro.

Ao pararmos diante da biblioteca, Enrique propôs:

—É melhor entrarmos para procurar livros.

—E com que abriremos a porta?

—Vi uma barra de ferro no quartinho.

—Sabe o que fazemos? Embrulhamos as lâmpadas e, como a casa do Lucio é a mais próxima, ele pode levá-las.

O malandro resmungou:

—Merda! Eu não saio sozinho... não quero ir dormir na cadeia.

Que aparência pecadora a daquele malandro! O botão do colarinho saltara, e sua gravata verde mantinha-se apenas pela metade sobre a camisa de peitilho rasgado. Acrescentem a isso um boné com a viseira sobre a nuca, o rosto sujo e pálido, os punhos da camisa desdobrados sobre as luvas, e terão a desavergonhada figura daquele festivo masturbador enxertado numa tentativa de arrombador profissional.

Enrique, que terminava de alinhar suas lâmpadas, foi buscar a barra de ferro.

Lucio resmungou:

—Enrique é mesmo um safado, não acha? Mandar-me sozinho como isca.

—Não fale bobagem. Daqui até sua casa são só três quarteirões; você poderia ir e voltar em cinco minutos.

—Não gosto.

—Eu já sei que não gosta... Não é novidade nenhuma que você só faz espalhafato.

—E se um policial me encontrar?

—Corra; para que você tem pernas?

Sacudindo-se como um cão-d’água, Enrique entrou.

—E agora?

—Dê aqui, você vai ver.

Envolvi a ponta da alavanca num lenço e a introduzi na fenda, mas percebi que, em vez de pressioná-la em direção ao chão, precisava fazê-lo no sentido contrário.

A porta rangeu, e parei.

—Aperte um pouco mais — sibilou Enrique.

A pressão aumentou, e o alarmante rangido repetiu-se.

—Deixe comigo.

O impulso de Enrique foi tão enérgico que o primeiro rangido explodiu num estampido seco.

Enrique parou... e permanecemos imóveis... atônitos.

—Que animal! — protestou Lucio.

Podíamos ouvir nossas respirações ofegantes. Lucio apagou involuntariamente a lanterna, e isso, unido ao primeiro espanto, reteve-nos em posição de espreita, sem a coragem de fazer um gesto, com as mãos trêmulas e estendidas.

Os olhos perfuravam aquela escuridão; pareciam escutar, recolher os sons insignificantes e derradeiros. Uma hiperestesia aguda parecia dilatar nossos ouvidos, e permanecíamos como estátuas, os lábios entreabertos na expectativa.

—O que fazemos? — murmurou Lucio.

O medo se rompeu.

Não sei que inspiração me impeliu a dizer a Lucio:

—Pegue o revólver e vá vigiar a entrada da escada, mas lá embaixo. Nós vamos trabalhar.

—E quem embrulha as bombas?

—Agora você se interessa pelas bombas?... Vá, não se preocupe.

E o gentil vadio desapareceu depois de atirar o revólver ao ar e apanhá-lo em pleno voo com um cinematográfico gesto de apache.

Enrique abriu cautelosamente a porta da biblioteca.

A atmosfera encheu-se do cheiro de papel velho e, à luz da lanterna, vimos uma aranha fugir pelo chão encerado.

Altas estantes envernizadas de vermelho tocavam o teto, e o cone luminoso movia-se nas escuras prateleiras, iluminando fileiras carregadas de livros.

Majestosas vitrinas acrescentavam um decoro severo àquele ambiente sombrio e, por trás dos vidros, nas lombadas de couro, tecido e cartão, reluziam ornamentos arabescos e títulos dourados nas etiquetas.

Irzubeta aproximou-se dos vidros.

A claridade refletida iluminava-o de lado, e seu perfil de face chupada parecia um baixo-relevo, com a pupila imóvel e o cabelo negro arredondando harmoniosamente o crânio, até perder-se em declive nos tendões da nuca.

Voltando os olhos para mim, disse sorrindo:

—Sabe que há bons livros aqui.

—Sim, e fáceis de vender.

—Quanto tempo faz que estamos aqui?

—Mais ou menos meia hora.

Sentei-me na quina de uma escrivaninha, a poucos passos da porta, no centro da biblioteca, e Enrique me imitou. Estávamos cansados. O silêncio do salão escuro penetrava nossos espíritos, abrindo-os para os grandes espaços da lembrança e da inquietação.

—Diga, por que você terminou com Eleonora?

—Sei lá. Lembra? Ela me dava flores.

—E depois?

—Depois me escreveu algumas cartas. Coisa estranha. Quando duas pessoas se amam, parece que adivinham o pensamento uma da outra. Numa tarde de domingo, ela saiu para dar uma volta no quarteirão. Não sei por que fiz o mesmo, mas na direção contrária e, quando nos encontramos, sem olhar para mim, ela estendeu o braço e me entregou uma carta. Usava um vestido cor-de-rosa chá, e lembro que muitos pássaros cantavam no verde.

—O que ela dizia?

—Coisas tão simples. Que eu esperasse... Entende? Que esperasse até ficar mais velho.

—Sensata.

—E que seriedade, che, Enrique! Se você soubesse. Eu estava ali, junto ao ferro da grade. Anoitecia. Ela não falava... de vez em quando olhava para mim de um jeito... e eu sentia vontade de chorar... e não dizíamos nada um ao outro... O que poderíamos dizer?

—Assim é a vida — disse Enrique. — Mas vamos examinar os livros. E aquele Lucio? Às vezes me dá raiva. Que sujeito preguiçoso!

—Onde estarão as chaves?

—Certamente na gaveta da mesa.

Vasculhamos a escrivaninha e as encontramos numa caixa de penas.

Uma fechadura rangeu, e começamos a investigar.

Tirávamos os volumes e os folheávamos, e Enrique, que entendia um pouco de preços, dizia:

—“Não vale nada” ou “vale”.

—As Montanhas do Ouro.

—É um livro esgotado. Pagam dez pesos em qualquer lugar.

—Evolução da Matéria, de Le Bon. Tem fotografias.

—Este fica para mim — disse Enrique.

—Rouquette. Química Orgânica e Inorgânica.

—Coloque aqui com os outros.

—Cálculo Infinitesimal.

—Isso é matemática superior e deve ser caro. E este?

—Como se chama?

—Charles Baudelaire: Sua Vida.

—Deixe-me ver, passe para cá.

—Parece uma bibliografia. Não vale nada.

Abri o volume ao acaso.

—São versos.

—O que dizem?

Li em voz alta:

Eu te adoro tal qual a abóbada noturna,

ó vaso de tristezas, ó branca taciturna,

Eleonora, pensei, Eleonora.

e avançamos aos assaltos vãos,

como diante de um cadáver, um coro de vermes.

—Che, sabe que isto é belíssimo? Vou levar para casa.

—Está bem. Veja, enquanto embrulho os livros, você cuide das bombas.

—E a luz?

—Traga para cá.

Segui a indicação de Enrique. Trabalhávamos silenciosamente, e nossas sombras agigantadas moviam-se no teto e no piso do aposento, desmesuradas pela penumbra que escurecia os cantos. Familiarizado com a situação de perigo, nenhuma inquietação atrapalhava minha destreza.

Enrique acomodava os volumes sobre a escrivaninha e dava uma olhada em suas páginas. Eu terminara habilmente de embrulhar as lâmpadas quando, no corredor, reconhecemos os passos de Lucio.

Ele apareceu com o semblante transtornado, grossas gotas de suor salpicando-lhe a testa.

—Está vindo um homem... Acabou de entrar... Apaguem.

Enrique olhou-o atônito e apagou mecanicamente a lanterna. Eu, espantado, recolhi a barra de ferro que não me lembro quem abandonara ao lado da escrivaninha. Na escuridão, um cilício de neve apertava-me a testa.

O desconhecido subia a escada, e seus passos eram incertos.

Repentinamente, o espanto chegou ao auge e transfigurou-me.

Eu deixava de ser o menino aventureiro; meus nervos se enrijeceram, meu corpo era uma estátua carrancuda transbordando instintos criminosos, uma estátua erguida sobre membros tensos, agachados na compreensão do perigo.

—Quem será? — suspirou Enrique.

Lucio respondeu-lhe com uma cotovelada.

Agora o escutávamos mais próximo, e seus passos retumbavam em meus ouvidos, transmitindo ao tímpano atentíssimo a angústia do tremor da veia.

De pé, segurava a alavanca com ambas as mãos acima da cabeça, pronto para tudo, disposto a desferir o golpe... E, enquanto escutava, meus sentidos discerniam com maravilhosa prontidão a natureza dos sons, perseguiam-nos até a origem e definiam, por suas estruturas, o estado psicológico de quem os produzia.

Com uma vertigem inconsciente, eu analisava:

Ele se aproxima... não pensa... se pensasse, não pisaria assim... arrasta os pés... se suspeitasse, não tocaria o chão com o salto... acompanharia o corpo com a atitude... seguindo o impulso das orelhas que procuram o ruído e dos olhos que procuram o corpo, caminharia na ponta dos pés... mas ele não sabe... está tranquilo.

De repente, uma voz rouca cantou lá embaixo, com a melancolia dos bêbados:

Maldito o dia em que te conheci,

ai, Macarena, ai, Macarena.

Ele suspeitou... não... mas sim... não... vejamos.

E pensei que meu coração se racharia, tamanha era a força com que lançava o sangue nas veias.

Ao chegar ao corredor, o desconhecido resmungou novamente:

—Enrique — sussurrei. — Enrique...

Ninguém respondeu.

Com um acre fedor de vinho, o vento trouxe o ruído de um arroto.

—É um bêbado — soprou Enrique em meu ouvido. — Se vier até aqui, nós o amordaçamos.

O intruso afastou-se arrastando os pés e desapareceu ao fim do corredor. Numa curva, parou, e nós o escutamos forcejar a maçaneta de uma porta que fechou estrondosamente atrás de si.

—Dessa escapamos por pouco!

—E você, Lucio... por que está tão calado?

—De alegria, irmão, de alegria.

—E como você o viu?

—Eu estava sentado na escada, esperando para ver. De repente, zás, escuto um barulho, espio e vejo a porta de ferro se abrindo. Te la voglio dire. Que emoção!

—Imagine se o sujeito viesse para cima da gente.

—Eu o “apagava” — disse Enrique.

—E agora, o que fazemos?

—O que vamos fazer? Vamos embora, já está na hora.

Descemos na ponta dos pés, sorrindo. Lucio carregava o pacote de lâmpadas. Enrique e eu, dois pesados embrulhos de livros. Não sei por que, na escuridão da escada, pensei no esplendor do sol e ri baixinho.

—Do que está rindo? — perguntou Enrique, mal-humorado.

—Não sei. Será que não encontraremos nenhum policial?

—Não, daqui até em casa não há nenhum.

—Você já disse isso antes.

—Além do mais, com esta chuva!

—Droga!

—O que foi, che, Enrique?

—Esqueci de fechar a porta da biblioteca. Dê-me a lanterna.

Entreguei-a, e Irzubeta desapareceu a passos largos.

Enquanto o esperávamos, sentamo-nos no mármore de um degrau.

Eu tremia de frio na escuridão. A água se espatifava furiosamente contra os mosaicos do pátio. Involuntariamente, minhas pálpebras se fecharam e, por meu espírito, deslizou, num entardecer distante, o semblante suplicante da menina amada, imóvel junto ao choupo negro. E a voz interior, recalcitrante, insistia:

—Eu amei você, Eleonora! Ah! Se soubesse quanto amei você!

Quando Enrique voltou, trazia alguns volumes debaixo do braço.

—E isso?

—É a Geografia, de Malte-Brun. Vou ficar com ela.

—Fechou bem a porta?

—Sim, o melhor que pude.

—Será que ficou direito?

—Não se nota nada.

—Che, e aquele bêbado? Será que fechou a porta da rua à chave?

A observação de Enrique foi acertada. A porta gradeada estava entreaberta, e saímos.

Uma torrente de água corria borbulhando entre as duas calçadas e, embora sua fúria tivesse diminuído, a chuva descia fina, compacta, obstinada. Apesar da carga, a prudência e o medo aceleravam a agilidade de nossas pernas.

—Belo golpe.

—Sim, belo golpe.

—O que acha, Lucio, de deixarmos isto em sua casa?

—E se a polícia for revistar?

—Não diga bobagens. Amanhã mesmo vendemos tudo.

—Quantas bombas trouxemos?

—Trinta.

—Belo golpe — repetiu Lucio. — E em livros?

—Calculei mais ou menos setenta pesos — disse Enrique.

—Que horas são, Lucio?

—Devem ser três.

—Como está tarde!

Não, não era tarde, mas o cansaço, a angústia remota, as trevas e o silêncio, as árvores gotejando sobre nossas costas geladas, tudo fazia com que a noite nos parecesse eterna, e Enrique disse com melancolia:

—Sim, está tarde demais.

Tremendo de frio e cansaço, entramos na casa de Lucio.

—Devagar, che, para não acordar as velhas.

—E onde guardaremos isto?

—Esperem.

A porta girou lentamente nos gonzos. Lucio entrou no quarto e acionou o interruptor.

—Entrem, che. Vou apresentar meu quarto.

Um guarda-roupa num canto, uma mesinha de madeira branca e uma cama. Sobre a cabeceira, um Cristo Negro estendia seus braços piedosos e retorcidos e, dentro de uma moldura, numa atitude dolorosíssima, uma gravura de Lyda Borelli olhava para o teto.

Exaustos, deixamo-nos cair sobre a cama.

Nos semblantes relaxados pelo sono, a fadiga aprofundava a escuridão das olheiras. Nossas pupilas imóveis permaneciam fixas nas paredes brancas, ora próximas, ora distantes, como na óptica fantástica da febre.

Lucio escondeu os pacotes no guarda-roupa e, pensativo, sentou-se à beira da mesa, segurando um joelho entre as duas mãos.

—E a Geografia?

—Vou levar comigo.

O silêncio voltou a cair sobre nossos espíritos molhados, sobre nossos semblantes lívidos, sobre as mãos arroxeadas e entreabertas.

Levantei-me sombrio, sem afastar os olhos da parede branca.

—Dê-me o revólver. Vou embora.

—Acompanho você — disse Irzubeta, erguendo-se da cama.

E, na escuridão, perdemo-nos pelas ruas sem pronunciar palavra, com os rostos severos e as costas encurvadas.

Eu acabava de me despir quando três pancadas frenéticas repercutiram na porta da rua, três pancadas urgentíssimas que me eriçaram os cabelos.

Pensei vertiginosamente:

A polícia me seguiu... a polícia... a polícia...

Minha alma arquejava.

A pancada uivante repetiu-se outras três vezes, com mais ansiedade, mais terror, mais urgência.

Peguei o revólver e, nu, saltei até a porta.

Mal terminei de abrir a folha e Enrique desabou em meus braços. Alguns livros rolaram pelo chão.

—Feche, feche, estão me perseguindo; feche, Silvio — falou Irzubeta com voz rouca.

Arrastei-o para debaixo do teto da galeria.

—O que está acontecendo, Silvio? O que está acontecendo? — gritou minha mãe, assustada, de seu quarto.

—Nada... fique quieta... um guarda estava perseguindo Enrique por causa de uma briga.

No silêncio da noite, que o medo tornava cúmplice da justiça inquisidora, ressoou o silvo do apito de um policial, e um cavalo a galope atravessou a esquina. Outra vez, o terrível som multiplicado repetiu-se em diversos pontos próximos.

Como serpentinas, cruzavam as alturas os chamados estridentes dos guardas.

Um vizinho abriu a porta da rua, ouviram-se vozes conversando e, na escuridão da galeria, Enrique e eu, trêmulos, apertávamo-nos um contra o outro. Por todos os lados, os silvos inquietantes prolongavam-se ameaçadores, numerosos, enquanto, da sinistra corrida para caçar o delinquente, chegava-nos o ruído das ferraduras dos cavalos, os galopes frenéticos, as bruscas paradas sobre os paralelepípedos escorregadios, o recuo dos policiais. E eu tinha o perseguido entre os braços, seu corpo tremendo de pavor contra o meu, e uma misericórdia infinita inclinava-me para aquele adolescente alquebrado.

Arrastei-o até meu tugúrio. Seus dentes batiam. Tremendo de medo, deixou-se cair numa cadeira, e suas pupilas assustadas, ampliadas pelo espanto, fixaram-se no abajur rosado da lâmpada.

Outro cavalo atravessou a rua, mas com tamanha lentidão que pensei que pararia diante de minha casa. Depois, o guarda esporeou a montaria, e os chamados dos apitos, que se tornavam menos frequentes, cessaram por completo.

—Água, dê-me água.

Alcancei-lhe uma garrafa, e ele bebeu avidamente. A água cantava em sua garganta. Um amplo suspiro contraiu-lhe o peito.

Depois, sem afastar a pupila imóvel do abajur rosado, sorriu com o sorriso estranho e incerto de quem desperta de um medo alucinante.

Disse:

—Obrigado, Silvio.

E ainda sorria, a alma ilimitadamente dilatada pelo inesperado prodígio de sua salvação.

—Mas me diga, como aconteceu?

—Veja. Eu vinha pela rua. Não havia ninguém. Ao dobrar a esquina de Sud América, percebi que, debaixo de um foco de luz, um guarda estava olhando para mim. Instintivamente, parei, e ele gritou:

—O que leva aí?

—Nem preciso dizer, saí correndo feito um diabo. Ele correu atrás de mim, mas, como estava de capa, não conseguia me alcançar... Eu o deixava para trás... quando, lá adiante, ouvi outro vindo a cavalo... e o apito, o que me perseguia tocou o apito. Então, fiz toda a força e cheguei até aqui.

—Está vendo... por não ter deixado os livros na casa de Lucio!... Imagine se pegassem você!

—Levariam todos nós para a cadeia. E os livros? Você não perdeu os livros pela rua?

—Não, caíram ali no corredor.

Quando fui buscá-los, tive de explicar a situação para mamãe.

—Não é nada grave. Acontece que Enrique estava jogando bilhar com outro rapaz e, sem querer, rasgou o pano da mesa. O dono quis cobrar e, como ele não tinha dinheiro, começou uma briga.

Estamos na casa de Enrique.

Um raio vermelho penetra pela pequena janela da toca dos fantoches.

Enrique reflete em seu canto, e uma ruga profunda fende-lhe a testa desde a raiz dos cabelos até o cenho. Lucio fuma recostado num monte de roupa suja, e a fumaça do cigarro envolve seu rosto pálido numa neblina. Por cima da latrinazinha, vindo de uma casa vizinha, chega a melodia de uma valsa dedilhada lentamente no piano.

Estou sentado no chão. Um soldadinho sem pernas, vermelho e verde, olha para mim de sua casa de papelão descascado. As irmãs de Enrique discutem lá fora com vozes desagradáveis.

—Então...?

Enrique levanta a cabeça nobre e olha para Lucio.

—Então?

Olho para Enrique.

—E o que você acha, Silvio? — continua Lucio.

—Não há o que fazer. É preciso parar com as bobagens, senão seremos pegos.

—Anteontem à noite, quase fomos apanhados duas vezes.

—Sim, a coisa não poderia ser mais clara.

E Lucio, pela décima vez, relê satisfeito um recorte de jornal:

Hoje, às três horas da madrugada, o agente Manuel Carlés, de serviço na rua Avellaneda com Sud América, surpreendeu um indivíduo em atitude suspeita, que carregava um pacote debaixo do braço. Ao receber voz de prisão, o desconhecido pôs-se a correr, desaparecendo num dos terrenos baldios existentes nas ruas próximas ao local. A delegacia da 38ª seção assumiu o caso.

—Então o clube será dissolvido? — diz Enrique.

—Não. Suspenderá suas atividades por tempo indeterminado — replica Lucio. — Não convém trabalhar agora que a polícia está farejando alguma coisa.

—É verdade; seria uma estupidez.

—E os livros?

—Quantos volumes são?

—Vinte e sete.

—Nove para cada um... mas não podemos esquecer de apagar cuidadosamente os carimbos do Conselho Escolar...

—E as bombas?

Com rapidez, Lucio responde:

—Vejam, che, não quero saber absolutamente nada das bombas. Antes de tentar vendê-las, vou jogá-las na latrina.

—Sim, é verdade, agora é um pouco perigoso.

Irzubeta permanece calado.

—Você está triste, che, Enrique?

Um sorriso estranho torce-lhe a boca; ele encolhe os ombros e, com veemência, erguendo o tronco, diz:

—Vocês desistem, claro. Não é para todos a bota de potro. Mas eu, mesmo que me deixem sozinho, vou continuar.

No muro da toca dos fantoches, o raio vermelho ilumina o perfil macilento do adolescente.

O Brinquedo Raivoso

Sinopse

Tradução brasileira integral de O Brinquedo Raivoso, romance de Roberto Arlt sobre juventude, pobreza, invenção, humilhação e revolta na Buenos Aires moderna. Edição Literunico preparada para a final da Copa do Mundo Literunico.

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