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O Brinquedo Raivoso

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O Brinquedo Raivoso

Capítulo 2 · O Brinquedo Raivoso

Capítulo II — Os Trabalhos e os Dias

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Capítulo II

Os Trabalhos e os Dias

OS TRABALHOS E OS DIAS

Como o dono da casa aumentou nosso aluguel, mudamos de bairro, indo para um casarão sinistro da rua Cuenca, nos confins de Floresta.

Deixei de ver Lucio e Enrique, e uma treva amarga de miséria apoderou-se dos meus dias.

Quando completei quinze anos, certa tarde minha mãe me disse:

— Silvio, você precisa trabalhar.

Eu, que lia um livro junto à mesa, ergui os olhos e a encarei com rancor. Pensei: trabalhar, trabalhar sempre. Mas não respondi.

Ela estava de pé diante da janela. A claridade azulada do crepúsculo incidia sobre seus cabelos embranquecidos, sobre a testa amarela, sulcada de rugas, e ela me olhava de esguelha, entre desgostosa e compadecida, enquanto eu evitava encontrar seus olhos.

Insistiu, compreendendo a agressividade do meu silêncio.

— Você tem que trabalhar, entende? Você não quis estudar. Eu não posso sustentar você. É preciso que trabalhe.

Ao falar, mal movia os lábios finos como duas tabuinhas. Escondia as mãos nas dobras do xale negro, que modelava seu pequeno busto de ombros caídos.

— Você tem que trabalhar, Silvio.

— Trabalhar, trabalhar em quê? Pelo amor de Deus... O que a senhora quer que eu faça?... Que eu fabrique o emprego?... A senhora sabe muito bem que procurei trabalho.

Eu falava estremecido de raiva; rancor contra suas palavras teimosas, ódio à indiferença do mundo, à miséria que nos acossava todos os dias, e, ao mesmo tempo, uma pena sem nome: a certeza da própria inutilidade.

Mas ela insistia, como se aquelas fossem as únicas palavras que conhecia.

— Em quê?... Vamos, em quê?...

Aproximou-se maquinalmente da janela e, com um movimento nervoso, ajeitou as pregas da cortina. Como se lhe custasse dizê-lo.

— Em “La Prensa” sempre pedem...

— Sim, pedem lavadores de copos, peões... A senhora quer que eu vá lavar copos?

— Não, mas você tem que trabalhar. O pouco que sobrou dá para Lila terminar os estudos. Nada mais. O que você quer que eu faça?

Ergueu a orla da saia, mostrou uma botina destroçada e disse:

— Olhe estas botinas. Para não gastar com livros, Lila tem que ir todos os dias à biblioteca. O que você quer que eu faça, meu filho?

Agora sua voz era de aflição. Um sulco escuro fendia-lhe a testa desde o cenho até a raiz dos cabelos, e os lábios quase tremiam.

— Está bem, mamãe, vou trabalhar.

Quanta desolação. A claridade azul rebitava na alma a monotonia de toda a nossa vida, que meditava, fétida e taciturna.

De fora vinha o canto triste de uma roda de crianças:

A torre está de guarda.
A torre está de guarda.
Eu quero conquistá-la.

Ela suspirou baixinho.

— O que eu mais queria era que você pudesse escrever.

— Isso não vale nada.

— No dia em que Lila se formar e você publicar...

Sua voz era mansa, fatigada de tristeza.

Sentara-se junto à máquina de costura, e, em seu perfil, sob a linha fina da sobrancelha, o olho era um cesto de sombra com uma centelha branca e triste. Suas pobres costas curvadas, e a claridade azul sobre a lisura dos cabelos, deixavam certo brilho de témpanos.

— Quando penso... — murmurou.

— A senhora está triste, mamãe?

— Não — respondeu.

De repente:

— Quer que eu fale com o senhor Naydath? Você pode aprender a ser decorador. Não gosta do ofício?

— Tanto faz.

— Mas eles ganham muito dinheiro...

Senti o impulso de me levantar, agarrá-la pelos ombros e sacudi-la, gritando em seus ouvidos:

— Não fale de dinheiro, mamãe, por favor!... Não fale... cale-se!...

Ela compreendeu meu silêncio amargo, e sua alma caiu-lhe aos pés. Ficou atônita, ainda menor, mas estremecida pelo rancor que continuava a gritar em meus olhos.

— Não fale de dinheiro, mamãe, por favor... não fale... cale-se!...

Ficamos ali, imóveis de angústia. Lá fora, a roda de crianças ainda cantava com melodia triste:

A torre está de guarda.
A torre está de guarda.
Eu quero conquistá-la.

— E assim é a vida, e quando eu crescer e tiver um filho também lhe direi: “Você tem que trabalhar. Eu não posso sustentar você”. Assim é a vida.

Uma rajada de frio me sacudiu na cadeira.

Agora, olhando para ela, observando seu corpo tão miúdo, meu coração encheu-se de pena.

Eu julgava vê-la fora do tempo e do espaço, numa paisagem ressequida, a planície parda e o céu metálico de tão azul. Eu era tão pequeno que nem conseguia andar, e ela, açoitada pelas sombras, angustiadíssima, caminhava à beira das estradas, levando-me nos braços, aquecendo meus joelhos contra o peito, apertando todo o meu corpinho contra seu corpo franzino, e pedia às pessoas por mim, e, enquanto me dava o seio, um calor de soluço lhe ressecava a boca, e tirava da própria boca faminta o pão para a minha, e de suas noites tirava o sono para atender às minhas queixas, e, com os olhos resplandecentes, o corpo vestido de roupas miseráveis, tão pequena e tão triste, abria-se como um véu para abrigar meu sono.

Pobre mamãe! E eu teria querido abraçá-la, fazê-la inclinar a cabeça embranquecida sobre meu peito, pedir-lhe perdão por minhas palavras duras, e de repente, no prolongado silêncio que guardávamos, disse-lhe com voz vibrante:

— Sim, vou trabalhar, mamãe.

Baixinho:

— Está bem, meu filho, está bem...

E outra vez a pena profunda selou nossos lábios.

Lá fora, acima da crista rosada de um muro, resplandecia no azul celeste um fulgurante tetragrama de prata.

Don Gaetano tinha sua livraria, ou melhor, sua casa de compra e venda de livros usados, na altura do número 800 da rua Lavalle, num salão imenso, abarrotado de volumes até o teto.

O estabelecimento era mais comprido e tenebroso que o antro de Trofônio.

Para onde quer que se olhasse, havia livros: livros sobre mesas feitas de tábuas apoiadas em cavaletes, livros nos balcões, nos cantos, debaixo das mesas e no porão.

Um portal amplo exibia aos transeuntes o conteúdo da caverna, e nas paredes externas pendiam volumes de histórias para imaginações vulgares, o romance de Genoveva de Brabante e As Aventuras de Musolino. Em frente, como numa colmeia, as pessoas fervilhavam pelo átrio de um cinematógrafo, cuja campainha repicava sem cessar.

No balcão junto à porta atendia a esposa de don Gaetano, uma mulher gorda e branca, de cabelos castanhos e olhos admiráveis por sua expressão de crueldade verde.

— Don Gaetano não está.

A mulher apontou para um sujeito grandalhão que, em mangas de camisa, observava da porta o ir e vir das pessoas. Trazia uma gravata preta amarrada ao pescoço nu, e os cabelos encaracolados sobre a testa tumultuosa deixavam entrever, entre os anéis, a ponta das orelhas. Era um belo tipo, robusto e de pele morena, mas, sob os cílios eriçados, seus olhos grandes, de águas convulsas, inspiravam desconfiança.

O homem pegou a carta de recomendação que eu trazia, leu-a e, depois de entregá-la à esposa, ficou me examinando.

Uma grande ruga fendia-lhe a testa, e por sua atitude vigilante e prazenteira adivinhava-se um homem de natureza desconfiada e trapaceira, ao mesmo tempo meloso, de fingida bondade açucarada e falsa indulgência nas grossas gargalhadas.

— Então você já trabalhou numa livraria?

— Sim, patrão.

— E o outro trabalha muito?

— Bastante.

— Mas não tem tantos livros quanto aqui, não é?

— Ah, claro que não, nem a décima parte.

Depois perguntou à esposa:

— E Mosiú não vem mais trabalhar?

A mulher respondeu em tom áspero:

— São todos iguais, esses piolhentos. Quando estão morrendo de fome e aprendem a trabalhar, vão embora.

Disse isso e apoiou o queixo na palma da mão, deixando à mostra, entre a manga da blusa verde, um trecho do braço nu. Seus olhos cruéis imobilizaram-se na rua movimentadíssima. A campainha do cinematógrafo repicava sem cessar, e um raio de sol, penetrando entre dois muros altos, iluminava a fachada escura do edifício Dardo Rocha.

— Quanto você quer ganhar?

— Eu não sei... O senhor é que sabe...

— Bem, veja... Vou lhe dar um peso e meio, casa e comida. Você vai viver melhor que um príncipe. Mas tem uma coisa — e o homem inclinava a cabeça desgrenhada —, aqui não existe horário... O período de mais trabalho é das oito às onze da noite...

— Como assim, até as onze da noite?

— E o que mais você quer? Um rapaz como você pode ficar até as onze da noite olhando as moças bonitas passarem. Isso sim, de manhã nos levantamos às dez.

Lembrando-me da opinião que o homem que me recomendara tinha de don Gaetano, respondi:

— Está bem, mas como eu preciso do dinheiro, o senhor vai me pagar toda semana.

— O quê? Está desconfiando?

— Não, senhora, mas lá em casa precisam, e somos pobres... A senhora há de compreender...

A mulher voltou para a rua seu olhar ultrajante.

— Bem — prosseguiu don Gaetano —, venha amanhã às dez ao apartamento. Moramos na rua Esmeralda.

E, anotando o endereço num pedaço de papel, entregou-o a mim.

A mulher não respondeu ao meu cumprimento. Imóvel, com a face pousada na palma da mão e o braço nu apoiado sobre a lombada dos livros, os olhos fixos na fachada do edifício Dardo Rocha, parecia o gênio tenebroso da caverna dos livros.

Às nove da manhã, parei diante da casa onde morava o livreiro. Depois de bater, abriguei-me da chuva no vestíbulo.

Um velho barbudo, com o pescoço enrolado numa manta verde e o boné enterrado até as orelhas, veio me receber.

— O que deseja?

— Sou o novo empregado.

— Suba.

Lancei-me pelo vão da escada, cujos degraus estavam sujos.

Quando chegamos ao corredor, o homem disse:

— Espere.

Por trás dos vidros da janela que dava para a rua, diante da sacada, via-se a placa de ferro cor de chocolate de uma loja. A garoa escorria lentamente por sua superfície convexa e envernizada. Ao longe, uma chaminé entre dois tanques lançava grandes lençóis de fumaça ao espaço pespontado por agulhas de água.

Repetiam-se as nervosas badaladas dos bondes, e entre o trólebus e os cabos vibravam centelhas violetas; o cacarejo de um galo afônico vinha não sei de onde.

Uma súbita tristeza apoderou-se de mim diante do abandono daquela casa.

Os vidros das portas não tinham cortinas, e os postigos estavam fechados.

Num canto do hall, sobre o chão coberto de poeira, alguém havia esquecido um pedaço de pão duro, e na atmosfera flutuava um cheiro de grude azedo: certa fedentina de sujeira que permanecera úmida por tempo demais.

— Miguel! — gritou a mulher de dentro, com voz desagradável.

— Já vou, senhora.

— O café está pronto?

O velho ergueu os braços e, cerrando os punhos, dirigiu-se à cozinha através de um pátio molhado.

— Miguel.

— Senhora.

— Onde estão as camisas que Eusebia trouxe?

— No baú pequeno, senhora.

— Don Miquel — falou o homem em tom zombeteiro.

— Diga, don Gaetano.

— Como vai, don Miquel?

O velho moveu a cabeça de um lado para o outro, erguendo desconsoladamente os olhos para o céu.

Era alto, magro, de rosto comprido, com barba de três dias nas faces flácidas e uma expressão lastimosa de cachorro escorraçado nos olhos remelentos.

— Don Miquel.

— Diga, don Gaetano.

— Vá comprar um Avanti para mim.

O velho já ia embora.

— Miguel.

— Senhora.

— Traga meio quilo de açúcar em cubos, e faça com que pesem direito.

Uma porta se abriu, e don Gaetano saiu fechando a braguilha com as duas mãos, com um pedaço de pente suspenso nos cabelos eriçados sobre a testa.

— Que horas são?

— Não sei.

Olhou para o pátio.

— Tempo porco — murmurou, e depois começou a se pentear.

Quando don Miguel voltou com o açúcar e os charutos toscanos, don Gaetano disse:

— Traga a cesta. Depois você leva o café para a loja.

E, enterrando na cabeça um seboso chapéu de feltro, pegou a cesta que o velho lhe entregava, passou-a para mim e disse:

— Vamos ao mercado.

— Ao mercado?

Agarrou minha frase no ar.

— Um conselho, che, Silvio. Não gosto de repetir as coisas. Além disso, comprando no mercado, a gente sabe o que come.

Entristecido, saí atrás dele com a cesta, uma cesta impudicamente enorme que, batendo contra meus joelhos com seu espalhafato, tornava mais funda e mais grotesca a dor de ser pobre.

— O mercado fica longe?

— Não, homem, é aqui na Carlos Pellegrini.

E, observando meu semblante abatido, disse:

— Parece que você tem vergonha de carregar uma cesta.

No entanto, um homem honesto não se envergonha de nada, desde que seja trabalho.

Um dândi em quem esbarrei com a cesta lançou-me um olhar furioso; um porteiro ruivo, uniformizado desde cedo com magnífica libré e alamares dourados, observou-me com ironia, e um moleque que passou, como quem não queria nada, deu um pontapé no fundo da cesta. E aquela cesta vermelha como um rabanete, impudicamente grande, cobria-me de ridículo.

Ah, ironia! E eu era quem sonhara ser um bandido grandioso como Rocambole e um poeta genial como Baudelaire!

Eu pensava:

— E para viver é preciso sofrer isto?... Tudo isto... ter que passar com uma cesta ao lado de vitrines esplêndidas...

Perdemos quase toda a manhã perambulando pelo Mercado del Plata.

Que bela criatura era don Gaetano!

Para comprar um repolho, uma fatia de abóbora ou um maço de alface, percorria as barracas, disputando em discussões mesquinhas moedas de cinco centavos com os verdureiros, com quem trocava insultos num dialeto que eu não compreendia.

Que homem! Tinha modos de camponês astuto, de trabalhador rural que se faz de bobo e responde com uma pilhéria quando percebe que não pode enganar.

Farejando pechinchas, metia-se entre faxineiras e criadas para bisbilhotar coisas que não deveriam interessá-lo, cumprimentava a todos com trejeitos de arlequim e, ao se aproximar dos balcões revestidos de estanho dos peixeiros, examinava as guelras das merluzas e dos peixes-rei, comia camarões e, sem comprar um único marisco, passava para a barraca das vendedoras de dobradinha, dali para a dos vendedores de galinhas e, antes de adquirir qualquer coisa, cheirava os mantimentos e os apalpava com desconfiança. Quando os comerciantes se irritavam, gritava que não queria ser enganado, que sabia muito bem que todos eles eram ladrões, mas que se equivocavam se o tomavam por idiota só porque era tão simples.

Sua simplicidade era palhaçada; sua estupidez, vivíssima malandragem.

Procedia assim:

Escolhia, com uma paciência desesperadora, um repolho ou uma couve-flor. Parecia satisfeito, pois perguntava o preço, mas de repente descobria outro que lhe parecia mais maduro ou maior, e isso dava início à disputa entre o verdureiro e don Gaetano, ambos empenhados em roubar um ao outro, em prejudicar o próximo, ainda que fosse por um único centavo.

Sua má-fé era extraordinária. Jamais pagava o preço combinado, mas aquilo que oferecera antes de fechar o negócio. Depois que eu guardava o mantimento na cesta, don Gaetano afastava-se do balcão, enfiava os polegares no bolso do colete, tirava e contava o dinheiro, tornava a contá-lo e o arremessava desdenhosamente sobre o balcão, como se prestasse um favor ao comerciante, afastando-se depressa em seguida.

Se o comerciante gritava com ele, respondia:

— Estate buono.

Tinha a comichão do movimento, era um guloso visual, entrava em êxtase diante das mercadorias pelo dinheiro que representavam.

Aproximava-se dos vendedores de carne de porco para perguntar o preço dos embutidos, examinava com cobiça as rosadas cabeças de porco, fazia-as girar devagar sob o olhar impassível dos comerciantes barrigudos de avental branco, coçava-se atrás da orelha, contemplava com volúpia as costelas penduradas nos ganchos de ferro, os pilares de toucinho cortado em fatias e, como se resolvesse um problema que lhe girava nos miolos, dirigia-se a outra barraca para beliscar uma lua de queijo, contar quantos aspargos havia num maço, sujar as mãos entre alcachofras e nabos, comer sementes de abóbora, examinar ovos contra a luz e deleitar-se com os montes de manteiga úmida, sólida, amarela e ainda cheirando a soro.

Almoçamos por volta das duas da tarde. Don Miguel apoiou o prato sobre um caixote de querosene; eu, no canto de uma mesa ocupada por livros; a mulher gorda, na cozinha; e don Gaetano, no balcão.

Às onze da noite, abandonamos a caverna.

Don Miguel e a mulher gorda caminhavam pelo meio da rua lustrosa, levando a cesta onde batiam os utensílios de fazer café; don Gaetano, com as mãos enterradas nos bolsos, o chapéu no cocuruto e uma mecha de cabelo caída sobre os olhos; e eu, atrás deles, pensava em como fora longa minha primeira jornada.

Subimos e, ao chegarmos ao corredor, don Gaetano me perguntou:

— Você trouxe colchão?

— Eu não. Por quê?

— Aqui tem uma caminha, mas sem colchão.

— E não há nada para me cobrir?

Don Gaetano olhou ao redor, depois abriu a porta da sala de jantar. Sobre a mesa havia uma toalha verde, pesada e felpuda.

Doña María já entrava no quarto quando don Gaetano pegou a toalha por uma ponta e, jogando-a sobre meu ombro, disse, mal-humorado:

— Estate buono.

E, sem responder às minhas boas-noites, fechou a porta na minha cara.

Fiquei desconcertado diante do velho, que manifestou sua indignação com esta blasfêmia surda: “Ah! Dio Fetente”; depois pôs-se a andar, e eu o segui.

O cubículo onde morava o ancião famélico, a quem desde aquele momento batizei com o nome de Dio Fetente, era um triângulo absurdo, inclinado junto ao telhado, com uma janelinha redonda voltada para a rua Esmeralda, através da qual se via a lâmpada de arco voltaico que iluminava a calçada. O vidro da escotilha estava quebrado, e por ali entravam rajadas de vento que faziam dançar a língua amarela de uma vela presa à parede num castiçal.

Encostada à parede havia uma cama de campanha, dois paus cruzados com uma lona pregada nas travessas.

Dio Fetente saiu para urinar no terraço, depois sentou-se num caixote, tirou o boné e as botinas, ajeitou cuidadosamente a manta ao redor do cangote e, preparado para enfrentar o frio da noite, entrou prudentemente no catre, cobrindo-se até a barba com as mantas, uns sacos de aniagem recheados de trapos imprestáveis.

A claridade moribunda da vela iluminava o perfil de seu rosto, o nariz comprido e avermelhado, a testa achatada e sulcada de rugas, e o crânio pelado, com restos de cabelos grisalhos acima das orelhas. Como o vento que entrava o incomodasse, Dio Fetente estendeu o braço, pegou o boné e o enterrou até as orelhas; depois tirou do bolso uma ponta de charuto toscano, acendeu-a, lançou longas baforadas de fumaça e, entrelaçando as mãos sob a nuca, ficou me olhando sombriamente.

Comecei a examinar minha cama. Muitos deviam ter sofrido nela, tão deteriorada estava. Como as pontas das molas haviam rasgado a malha, elas se projetavam no ar como fantásticos saca-rolhas, e os grampos dos suportes tinham sido substituídos por amarras de arame.

Entretanto, eu não passaria a noite em êxtase e, depois de verificar sua estabilidade, imitando Dio Fetente, tirei as botinas, que, embrulhadas num jornal, serviram-me de travesseiro; envolvi-me na toalha verde e, deixando-me cair sobre o leito traiçoeiro, resolvi dormir.

Indiscutivelmente, era uma cama de arquipobre, um refugo de judiaria, a enxerga mais ardilosa que conheci.

As molas me sovavam as costas; parecia que suas pontas queriam perfurar minha carne entre as costelas. A malha de aço, rígida numa parte, afundava desconsideradamente em certo ponto, enquanto em outro, por maravilhas da elasticidade, erguia promontórios; e, a cada movimento que eu fazia, o leito gania e rangia com ruídos extraordinários, como um conjunto de engrenagens sem óleo. Além disso, eu não encontrava posição confortável: o pelo áspero da toalha arranhava minha garganta, a borda das botinas entorpecia minha nuca, as espirais das molas tortas beliscavam minha carne. Então:

— Ei, diga, Dio Fetente.

Como uma tartaruga, o ancião pôs a cabecinha para fora da carapaça de aniagem.

— Diga, don Silvio.

— Por que não jogam este catre no lixo?

O venerável ancião revirou os olhos e respondeu com um suspiro profundo, tomando assim Deus por testemunha de todas as iniquidades dos homens.

— Diga, Dio Fetente, não há outra cama?... Aqui não dá para dormir...

— Esta casa é o inferno, don Silvio... o inferno.

E, baixando a voz, temeroso de ser ouvido:

— Isto aqui é... a mulher... a comida... Ah, Dio Fetente, que casa é esta.

O velho apagou a luz, e eu pensei:

— Decididamente, vou de mal a pior.

Agora eu escutava o ruído da chuva sobre o zinco da mansarda.

De repente, um soluço sufocado me perturbou. Era o velho que chorava, que chorava de tristeza e de fome. E essa foi minha primeira jornada.

Às vezes, durante a noite... Há rostos de donzelas que ferem com uma espada de doçura. Afastamo-nos, e nossa alma fica entenebrecida e só, como depois de uma festa.

Realizações excepcionais... partiram, e não sabemos mais nada delas; no entanto, acompanharam-nos por uma noite, mantendo imóvel o olhar fixo em nossos olhos... E nós, feridos por espadas de doçura, pensamos em como seria o amor daquelas mulheres com aqueles semblantes que penetraram na carne. Angustiosa secura do espírito, peregrina volúpia áspera e imperiosa.

Pensamos em como inclinariam a cabeça em nossa direção, deixando os lábios entreabertos voltados para o céu; em como se deixariam desfalecer de desejo sem desmentir por um instante ideal a beleza do semblante; pensamos em como suas próprias mãos despedaçariam os laços do corpete...

Rostos... rostos de donzelas maduras para os desesperos do júbilo, rostos que subitamente fazem crescer nas entranhas um desfalecimento ardente, rostos nos quais o desejo não desmente a idealidade de um instante... Como vêm ocupar nossas noites!

Passei horas seguidas perseguindo com os olhos a figura de uma donzela que, durante o dia, deixara em meus ossos uma ansiedade de amor.

Lentamente eu contemplava seus encantos, envergonhados de serem tão adoráveis, sua boca feita apenas para os grandes beijos; via seu corpo submisso aderir à carne que chamava por sua desilusão e, insistindo na delícia de seu abandono, na magnífica pequenez de suas partes quebradiças, com a vista ocupada pelo semblante, pelo corpo jovem para o tormento e para a maternidade, estendia a mão até minha pobre carne e, acossando-a, deixava-a aproximar-se do deleite.

Naquele momento, don Gaetano voltava da rua e passou em direção à cozinha. Olhou-me de cenho fechado, mas não disse nada, e eu me inclinei sobre a lata de grude enquanto consertava um livro, pensando: vai haver tempestade.

De fato, a breves intervalos, o casal brigava.

A mulher branca, imóvel, apoiada sobre os cotovelos no balcão, as mãos escondidas nas dobras do xale verde, acompanhava os passos do marido com olhos cruéis. Don Miguel, na pequena cozinha, lavava pratos numa bacia engordurada. As pontas de sua manta roçavam as bordas do balde, e um avental de quadrados vermelhos e azuis, amarrado à cintura com um barbante, protegia-o dos respingos de água.

Sabendo o que viria, sempre que eu passava por ali, sem tirar os braços peludos da bacia, virava a cabeça, erguia as pupilas para o teto e fazia-as rolar no branco dos olhos, como quem dizia:

Que casa é esta, Dio Fetente!

Devo advertir que a cozinha, lugar de nossas expansões, ficava diante de uma latrina fedorenta e era um canto da caverna, murado atrás das estantes.

Sobre uma tábua suja, empastados com restos de verduras, havia pequenos pedaços de carne e batatas, com os quais don Miguel preparava a magra pitança do meio-dia. O que era subtraído à nossa voracidade servia-se à noite sob a forma de um ensopado extravagante. E Dio Fetente era o gênio e o mago daquele antro fedorento. Ali amaldiçoávamos nossa sorte, e ali don Gaetano às vezes se refugiava para meditar sombriamente nos dissabores que o casamento traz consigo.

O ódio que fermentava no peito da mulher acabava por explodir.

Bastava um motivo insignificante, uma ninharia qualquer.

Subitamente, enrijecida por um furor sombrio, a mulher abandonava o balcão e, arrastando as chinelas pelo mosaico, com as mãos escondidas no xale, os lábios apertados e as pálpebras imóveis, procurava o marido.

Lembro-me da cena daquele dia.

Como de costume, naquela manhã don Gaetano fingiu não vê-la, embora ela estivesse a três passos dele. Vi o homem inclinar a cabeça sobre certo livro, simulando ler o título.

Parada, a mulher branca permanecia imóvel. Apenas seus lábios tremiam como tremem as folhas.

Depois disse, com uma voz cuja monotonia terrível lhe dava gravidade:

— Eu era bonita. O que você fez da minha vida?

Sobre sua testa, os cabelos estremeceram como se o vento passasse por eles.

Um sobressalto sacudiu o corpo de don Gaetano.

Com um desespero que lhe inchava a garganta, ela lançou contra ele estas palavras pesadas, salitrosas:

— Eu levantei você... Quem era sua mãe?... Senão uma bagazza que andava com todos os homens. O que você fez da minha vida?

— María, cale-se — respondeu don Gaetano com voz cavernosa.

— Sim, quem tirou você da fome e lhe deu roupa... fui eu...

— Strunso... Eu dei comida a você.

E a mão da mulher se ergueu como se quisesse castigar a face do homem.

Don Gaetano recuou, trêmulo.

Ela disse com uma amargura na qual estremecia um soluço, um soluço pesado de salitre:

— O que você fez da minha vida... porco? Eu estava em minha casa como um cravo no vaso e não precisava me casar com você, strunso...

Os lábios da mulher se contorceram convulsivamente, como se mastigassem um ódio pegajoso, terrível.

Saí para afastar os curiosos da entrada da loja.

— Deixe-os, Silvio — gritou-me ela, imperiosa. — Que ouçam quem é este sem-vergonha.

E, com os olhos verdes arregalados, dando a impressão de que seu rosto se aproximava, como no fundo de uma tela, prosseguiu, ainda mais pálida:

— Se eu fosse diferente, se andasse por aí vagando, viveria melhor... Estaria longe de um porco como você.

Calou-se e repousou.

Agora don Gaetano atendia um senhor de sobretudo, com grandes óculos de ouro montados sobre o nariz fino, avermelhado pelo frio.

Exaltada por sua indiferença, pois o homem devia estar habituado àquelas cenas e preferia ser insultado a perder seus lucros, a mulher vociferou:

— Não lhe dê atenção, senhor. Não está vendo que ele é um napolitano ladrão?

O senhor idoso virou-se, espantado, para olhar a fúria, e ela continuou:

— Ele pede vinte pesos por um livro que custou quatro.

E, como don Gaetano não se voltasse, gritou até o rosto ficar congestionado:

— Sim, você é um ladrão, um ladrão!

E cuspiu contra ele seu despeito, seu nojo.

O senhor idoso disse, ajustando os óculos:

— Voltarei outro dia.

E saiu indignado.

Então doña María pegou um livro e o arremessou bruscamente contra a cabeça de don Gaetano, depois outro e mais outro.

Don Gaetano pareceu sufocar de fúria. De repente, arrancou do pescoço a gravata preta e a lançou no rosto da mulher; depois ficou imóvel por um instante, como se tivesse recebido um golpe nas têmporas, e em seguida saiu correndo. Foi até a rua, com os olhos saltando das órbitas, e, parando no meio da calçada, sacudindo a cabeça raspada e descoberta, apontando para ela como um louco diante dos transeuntes, os braços estendidos, gritou-lhe com voz desfigurada pela raiva:

— Besta... besta... bestalhona...

Satisfeita, ela se aproximou de mim.

— Você viu como ele é. Não vale nada... Canalha! Garanto que às vezes tenho vontade de deixá-lo.

E, voltando ao balcão, cruzou os braços e permaneceu abstraída, com o olhar cruel fixo na rua.

De repente:

— Silvio.

— Senhora.

— Quantos dias ele está devendo a você?

— Três dias, contando hoje, senhora.

— Tome.

E, entregando-me o dinheiro, acrescentou:

— Não confie nele, porque é um vigarista... Ele passou a perna numa companhia de seguros; se eu quisesse, estaria na cadeia.

Dirigi-me à cozinha.

— O que você acha disto, Miguel...?

— O inferno, don Silvio. Que vida, Dio Fetente!

E o velho, ameaçando as alturas com o punho, soltou um longo suspiro; depois inclinou a cabeça sobre a bacia e continuou descascando batatas.

— Mas por que acontecem estas brigas?

— Eu não sei... eles não têm filhos... ele não serve...

— Miguel.

— Diga, senhora.

A voz estridente ordenou:

— Não faça comida. Hoje ninguém come. Quem não gostar que vá embora.

Foi o golpe de misericórdia. Algumas lágrimas escorreram pelo rosto arruinado do velho famélico.

Passaram-se alguns instantes.

— Silvio.

— Senhora.

— Tome, são cinquenta centavos. Vá comer em algum lugar.

E, agasalhando os braços nas dobras do xale verde, retomou sua habitual posição feroz. Duas lágrimas brancas escorriam lentamente pelas faces lívidas em direção aos cantos da boca.

Comovido, murmurei:

— Senhora...

Ela me olhou e, sem mover o rosto, sorrindo com um sorriso convulsivo de tão estranho, disse:

— Vá e volte às cinco.

Aproveitando a tarde livre, resolvi ir ver o senhor Vicente Timoteo Souza, a quem eu fora recomendado por um conhecido dedicado às ciências ocultas e às demais artes teosóficas.

Apertei o botão da campainha e fiquei olhando para a escada de mármore, cujo tapete vermelho, preso por tubos de bronze, era banhado pelo sol através dos vidros da pesada porta de ferro.

O porteiro, vestido de preto, desceu sem pressa.

— O que deseja?

— O senhor Souza está?

— Quem é o senhor?

— Astier.

— As...

— Sim, Astier... Silvio Astier.

— Aguarde, vou verificar.

E, depois de me examinar dos pés à cabeça, desapareceu atrás da porta da sala de visitas, coberta por longas cortinas branco-amareladas.

Eu esperava ansioso, angustiado, sabendo que uma decisão daquele grande senhor chamado Vicente Timoteo Souza poderia mudar o destino da minha juventude desafortunada. A pesada porta tornou a se entreabrir, e o porteiro comunicou-me solenemente:

— O senhor Souza manda que volte dentro de meia hora.

— Obrigado... obrigado... até logo.

E retirei-me pálido. Entrei numa leiteria próxima da casa e, sentando-me junto a uma mesa, pedi um café ao garçom.

— Sem dúvida — pensei —, se o senhor Souza vai me receber, é para me dar o emprego prometido.

— Não — continuei —, eu não tinha motivos para pensar mal de Souza... Quem sabe quantas ocupações ele teve e por isso não pôde me receber.

Ah, o senhor Vicente Timoteo Souza!

Fui apresentado a ele numa manhã de inverno pelo teósofo Demetrio, que tentava remediar minha situação.

Sentados no hall, ao redor de uma mesa entalhada, de contornos ondulantes, o senhor Souza conversava, com as faces bem barbeadas brilhantes e as pupilas vivazes por trás das lentes do pincenê. Lembro-me de que vestia um felpudo roupão com alamares de madrepérola e punhos de nutria, acentuando seu aspecto de novo-rico estrangeirado que, para se distrair, podia permitir-se a liberdade de conversar com um pobre-diabo.

Conversávamos, e, referindo-se à minha possível psicologia, ele dizia:

— Redemoinhos no cabelo, caráter indócil... crânio achatado no occipital, temperamento raciocinador... pulso trêmulo, índole romântica...

Voltando-se para o teósofo impassível, o senhor Souza disse:

— Vou fazer este negrinho estudar medicina. O que acha, Demetrio?

O teósofo, sem se alterar:

— Está bem... embora todo homem possa ser útil à humanidade, por mais insignificante que seja sua posição social.

— He, he; o senhor sempre filósofo.

E o senhor Souza, voltando-se para mim, disse:

— Vamos ver... amigo Astier, escreva o que lhe ocorrer neste momento.

Hesitei; depois escrevi com um precioso lápis de ouro que o homem, deferente, me entregou:

“A cal ferve quando é molhada.”

— Meio anarquista, não é? Cuide de seu cérebro, amiguinho... cuide dele, porque entre os vinte e os vinte e dois anos vai sofrer um surmenage.

Como eu desconhecia a palavra, perguntei:

— O que quer dizer surmenage?

— É um ataque de loucura passageira.

Empalideci. Ainda hoje, quando me lembro, sinto vergonha.

— É apenas uma maneira de dizer — corrigiu ele. — Convém que todos os nossos sentimentos sejam dominados.

E prosseguiu:

— O amigo Demetrio me contou que o senhor inventou não sei que coisas.

Pelos vidros da divisória penetrava uma grande claridade solar, e uma súbita lembrança da miséria me entristeceu de tal modo que hesitei em responder; mas o fiz com voz amarga:

— Sim, algumas coisinhas... um projétil sinalizador... um contador automático de estrelas...

— Teoria... sonhos... — interrompeu-me, esfregando as mãos. — Eu conheço Ricaldoni, e, com todas as suas invenções, ele não passou de um simples professor de física. Quem quer enriquecer precisa inventar coisas práticas, simples.

Senti-me achatado pela angústia.

Ele continuou:

— O homem que patenteou o jogo do diábolo, sabe quem foi?... Um estudante suíço, entediado durante o inverno em seu quarto. Ganhou uma enormidade de dinheiro, igual àquele outro norte-americano que inventou o lápis com uma borrachinha numa das pontas.

Calou-se e, tirando uma cigarreira de ouro com um florão de rubis no verso, ofereceu-nos cigarros de tabaco claro.

O teósofo recusou, inclinando a cabeça; eu aceitei. O senhor Souza continuou:

— Falando de outras coisas. Segundo me comunicou o amigo aqui presente, o senhor precisa de um emprego.

— Sim, senhor, de um emprego em que eu possa progredir, porque onde estou...

— Sim... sim... já sei, a casa de um napolitano... já sei... um sujeito. Muito bem, muito bem... creio que não haverá inconveniente. Escreva-me uma carta detalhando todas as particularidades de seu caráter, com franqueza, e não duvide de que posso ajudá-lo. Quando prometo, cumpro.

Levantou-se da poltrona com negligência.

— Amigo Demetrio... foi um grande prazer... venha me visitar em breve, porque quero lhe mostrar uns quadros. Jovem Astier, espero sua carta.

E, sorrindo, acrescentou:

— Cuidado para não me enganar.

Uma vez na rua, disse entusiasmado ao teósofo:

— Como o senhor Souza é bom... e tudo graças ao senhor... muito obrigado.

— Vamos ver... vamos ver.

Deixei de evocar a cena para perguntar ao garçom da leiteria que horas eram.

— Dez para as duas.

— O que terá decidido o senhor Souza?

Durante o intervalo de dois meses eu lhe escrevera frequentemente, salientando minha situação precária, e, depois de longos silêncios, de breves bilhetes datilografados e sem assinatura, o homem rico dignava-se a me receber.

— Sim, deve ser para me dar um emprego, talvez na administração municipal ou no governo. Se fosse verdade, que surpresa para mamãe...

Ao me lembrar dela, naquela leiteria com enxames de moscas voando ao redor de pirâmides de alfajores e pãezinhos de leite, uma súbita ternura umedeceu meus olhos.

Joguei fora o cigarro e, depois de pagar o que consumira, dirigi-me à casa de Souza.

Minhas veias pulsavam com violência quando toquei a campainha.

Retirei imediatamente o dedo do botão, pensando:

— Que ele não suponha que estou impaciente para ser recebido e que isso o desagrade.

Quanta timidez houve naquele toque circunspecto! Parecia que, ao apertar o botão da campainha, eu queria dizer:

— Perdoe-me se o incomodo, senhor Souza... mas preciso tanto de um emprego...

A porta se abriu.

— O senhor... — balbuciei.

— Entre.

Subi a escada na ponta dos pés atrás do criado. Embora as ruas estivessem secas, eu esfregara as solas das botinas no capacho da entrada para não sujar nada ali.

Detivemo-nos no vestíbulo. Estava escuro.

Junto à mesa, o criado arrumou os talos de algumas flores num vaso de cristal.

Uma porta se abriu, e o senhor Souza apareceu em traje de rua, com o olhar faiscando por trás das lentes do pincenê.

— Quem é o senhor? — gritou-me com dureza.

Desconcertado, respondi:

— Mas, senhor, sou Astier...

— Não o conheço, senhor. Não me importune mais com suas cartas impertinentes. Juan, acompanhe o senhor até a saída.

Depois se virou e fechou com força a porta atrás de si.

E, mais triste uma vez ainda, sob o sol, tomei o caminho da caverna.

Certa tarde, depois de se insultarem até ficarem roucos, a mulher de don Gaetano, compreendendo que ele não abandonaria a loja como das outras vezes, resolveu ir embora.

Saiu até a rua Esmeralda e voltou do apartamento com uma trouxa branca. Depois, para prejudicar o marido, que cantarolava de modo insultuoso um couplet à porta da caverna, dirigiu-se à cozinha e chamou Dio Fetente e a mim. Pálida de raiva, ordenou-me:

— Tire essa mesa daí, Silvio.

Seus olhos estavam mais verdes que nunca, e duas manchas cor de carmim marcavam-lhe as faces. Sem se importar que a barra da saia se sujasse na umidade do cubículo, inclinava-se, arrumando os utensílios que levaria.

Eu, procurando não me sujar de gordura, retirei a mesa, uma tábua engordurada com quatro pernas apodrecidas. Ali o maltratado Dio Fetente preparava suas gororobas.

A mulher disse:

— Ponha as pernas para cima.

Compreendi sua ideia. Queria transformar o traste numa padiola.

Não me enganei.

Dio Fetente varreu muitas teias de aranha do fundo da mesa. Depois de cobri-la com um pano de prato, a mulher depositou sobre as tábuas uma trouxa branca e as panelas recheadas de pratos, facas e garfos; amarrou com um barbante o fogareiro Primus a uma das pernas da mesa e, congestionada pelo trabalho, disse, vendo que quase tudo estava pronto:

— Que esse cachorro vá comer na pensão.

Enquanto terminava de arrumar os embrulhos, Dio Fetente, inclinado sobre a mesa, parecia um quadrúmano de boné, e eu, com as mãos na cintura, matutava de onde don Gaetano tiraria nossa magra pitança.

— Você pegue na frente.

Resignado, Dio Fetente agarrou a borda do tampo... e eu também.

— Ande devagar — gritou a mulher cruel.

Derrubando uma pilha de livros, passamos diante de don Gaetano.

— Vá embora, porca... vá embora — vociferou ele.

Ela rangeu os dentes de fúria.

— Ladrão... amanhã o juiz virá aqui.

E, entre dois gestos de ameaça, afastamo-nos.

Eram sete da noite, e a rua Lavalle encontrava-se em seu mais babilônico esplendor. Através das vidraças, viam-se os cafés abarrotados de fregueses; nos átrios dos teatros e cinematógrafos esperavam elegantes desocupados; e as vitrines das casas de moda, com suas pernas calçadas de meias finas e suspensas por braços niquelados, bem como as vitrines das lojas de artigos ortopédicos e das joalherias, exibiam em sua opulência a astúcia de todos aqueles comerciantes, que, com artigos maliciosos, adulavam a volúpia das pessoas poderosas em dinheiro.

Os transeuntes afastavam-se à nossa passagem, para que não os sujássemos com a imundície que transportávamos.

Envergonhado, pensava na aparência de malandro que eu devia ter; e, para cúmulo do infortúnio, como se proclamassem nossa ignomínia, os talheres e os pratos tilintavam escandalosamente. As pessoas paravam para nos ver passar, divertidas com o espetáculo. Eu não pousava os olhos em ninguém, tão humilhado me sentia, e suportava, assim como a mulher gorda e cruel que abria o cortejo, as zombarias provocadas por nossa aparição.

Vários fiacres nos escoltaram, e os cocheiros ofereciam seus serviços, mas doña María, surda a todos, caminhava à frente da mesa, cujas pernas se iluminavam ao passar diante das vitrines. Por fim, os cocheiros desistiram de nos perseguir.

De vez em quando Dio Fetente voltava o rosto barbudo para mim, acima da manta verde. Grossas gotas de suor escorriam-lhe pelas faces sujas, e em seus olhos lastimosos brilhava, esquiva, uma perfeita desesperação canina. Descansamos na Plaza Lavalle. Doña María mandou que depositássemos a padiola no chão e, examinando escrupulosamente a carga, reviu a trouxa e ajeitou as panelas, cujas tampas tornou a prender com as quatro pontas do pano de prato.

Engraxates e vendedores de jornais formaram um círculo ao nosso redor. A prudente aparição de um policial nos poupou de possíveis complicações, e retomamos o caminho. Doña María ia para a casa de uma irmã que morava na esquina das ruas Callao e Viamonte.

De vez em quando voltava para mim seu rosto pálido, olhava-me, um leve sorriso enrugava-lhe o lábio desbotado, e dizia:

— Está cansado, Silvio?

E seu sorriso aliviava minha vergonha; era quase uma carícia que suavizava no coração a impressão de sua crueldade.

— Está cansado, Silvio?

— Não, senhora.

E ela, tornando a sorrir com um sorriso estranho, que me recordava o de Enrique Irzubeta quando escapuliu por entre os policiais, avançava animosamente pelo caminho.

Agora seguíamos por ruas solitárias, discretamente iluminadas, com plátanos vigorosos à margem das calçadas, edifícios altos de belas fachadas e vitrais cobertos por amplas cortinas.

Passamos junto a uma varanda iluminada.

Um adolescente e uma menina conversavam na penumbra; da sala alaranjada vinha a melodia de um piano.

Todo o meu coração se apequenou de inveja e aflição.

Pensei.

Pensei que nunca seria como eles... que nunca viveria numa bela casa nem teria uma namorada da aristocracia.

Todo o meu coração se apequenou de inveja e aflição.

— Já estamos perto — disse a mulher.

Um amplo suspiro dilatou nossos peitos.

Quando don Gaetano nos viu entrar na caverna, ergueu os braços para o céu e gritou alegremente:

— Vamos comer no restaurante, rapazes... hein, gostou, don Miquel? Depois vamos passear por aí. Feche, feche a porta, strunso.

Um sorriso maravilhosamente infantil transformou o rosto sujo de Dio Fetente.

Às vezes, durante a noite... Eu pensava na beleza com que os poetas estremeceram o mundo, e todo o meu coração se inundava de tristeza como uma boca repleta de um grito.

Pensava nas festas a que eles haviam comparecido, nas festas da cidade, nas festas realizadas em lugares arborizados, com tochas de sol nos jardins floridos, e de minhas mãos caía minha pobreza.

Já não tenho nem encontro palavras com que pedir misericórdia.

Estéril e feia como um joelho nu, assim é minha alma.

Procuro um poema que não encontro, o poema de um corpo que o desespero povoou subitamente, em sua carne, com mil bocas grandiosas, com dois mil lábios gritadores.

Chegam aos meus ouvidos vozes distantes, clarões de fogos de artifício, mas eu estou aqui, sozinho, preso à minha terra de miséria como por nove parafusos.

Terceiro andar, apartamento 4, Charcas 1600. Esse era o endereço onde eu deveria entregar o pacote de livros.

Estranhas e singulares são essas luxuosas casas de apartamentos.

Por fora, com suas linhas harmoniosas de métopas que realçam a suntuosidade das cornijas complicadas e soberbas, e com seus amplos janelões protegidos por vidros ondulados, fazem os pobres-diabos sonharem com verossímeis requintes de luxo e poder; mas, por dentro, a escuridão polar de seus vestíbulos profundos e solitários apavora o espírito do amante dos grandes céus adornados por Valhalas de nuvens.

Parei diante do porteiro, um sujeito atlético que, metido em sua libré azul, lia um jornal com ares de suficiência.

Como um Cérbero, examinou-me dos pés à cabeça; depois, satisfeito por constatar hipoteticamente que eu não era nenhum ladrãozinho, concedeu-me permissão para entrar, com uma indulgência que só podia lhe nascer da soberba gorra azul com cordão de ouro sobre a pala, dando-me como única indicação:

— O elevador fica à esquerda.

Quando saí da gaiola de ferro, encontrei-me num corredor escuro, de teto baixo.

Uma lâmpada fosca espalhava sua claridade moribunda pelo mosaico lustroso.

A porta do apartamento indicado tinha uma única folha, sem vidros, e, por sua pequena fechadura redonda de bronze, parecia a porta de uma monumental caixa-forte de aço.

Bati, e uma criada de saia preta e avental branco fez-me entrar numa saleta revestida de papel azul, sulcado por enormes flores lívidas de ouro.

Através dos vidros cobertos por gaze moiré penetrava uma claridade azulada de hospital. Piano, bibelôs, bronzes e vasos, eu olhava para tudo. De repente, um perfume delicadíssimo anunciou sua chegada, uma porta lateral se abriu e encontrei-me diante de uma mulher de rosto infantil, com uma leve cabeleira encrespada junto às faces e um amplo decote. Um felpudo robe cor de cereja não chegava a cobrir suas pequenas chinelas brancas e douradas.

— Qu’y a-t-il, Fanny?

— Quelques livres pour Monsieur...

— É preciso pagá-los?

— Estão pagos.

— Oui...

— C’est bien. Donne le pourboire au garçon.

A criada pegou algumas moedas de uma bandeja para me entregar, e então respondi:

— Não recebo gorjeta de ninguém.

Com dureza, a criada recolheu a mão, e a cortesã compreendeu meu gesto, creio que sim, porque disse: Très bien, très bien, et tu ne reçois pas ceci?

E, antes que eu pudesse evitá-lo, ou melhor, acolhê-lo em toda a sua plenitude, a mulher, rindo, beijou-me na boca, e ainda a vi desaparecer, rindo como uma menina, pela porta entreaberta.

Dio Fetente despertou e começou a se vestir, isto é, a calçar as botinas. Sentado à beira do catre, sujo e barbudo, olha ao redor com ar entediado. Estende o braço e pega o boné, enterrando-o na cabeça até as orelhas; depois olha para os pés, os pés metidos em grosseiras meias vermelhas, e em seguida, enfiando o dedo mínimo no ouvido, sacode-o rapidamente, produzindo um ruído desagradável. Por fim se decide e calça as botinas; depois, curvado, caminha em direção à porta do cubículo, volta-se, olha para o chão e, encontrando uma ponta de cigarro, apanha-a, sopra a poeira grudada nela e a acende. Depois sai.

Sobre os mosaicos do terraço, escuto-o arrastar os pés. Eu permaneço deitado. Penso, não, não penso; melhor dizendo, recebo de dentro de mim uma doce nostalgia, um sofrimento mais doce que uma incerteza de amor. E me lembro da mulher que me dera um beijo como gorjeta.

Estou repleto de desejos imprecisos, de uma vaguidão que é como neblina e que, penetrando em todo o meu ser, torna-o quase aéreo, impessoal e alado. Por momentos, a lembrança de sua fragrância, da brancura de seu peito, atravessa-me por inteiro, e sei que, se me encontrasse novamente junto dela, desfaleceria de amor; penso que não me importaria que tivesse sido possuída por muitos homens e que, se me encontrasse outra vez ao lado dela, naquela mesma sala azul, eu me ajoelharia sobre o tapete, pousaria a cabeça em seu regaço e, pelo júbilo de possuí-la e amá-la, faria as coisas mais ignominiosas e as coisas mais doces.

E, à medida que meu desejo se desenlaça, reconstruo as roupas com que a cortesã se embelezará, os chapéus harmoniosos com que se cobrirá para se tornar mais sedutora, e imagino-a junto ao leito, numa seminudidade mais terrível que a nudez.

E, embora o desejo de mulher surja lentamente em mim, desdobro os atos e antevejo que felicidade seria para mim um amor dessa espécie, acompanhado de riqueza e glória; imagino que sensações se espalhariam por meu organismo se, de um dia para o outro, riquíssimo, eu despertasse naquele quarto com minha jovem amante calçando-se seminua junto ao leito, como vi nas gravuras dos livros viciosos.

E, de repente, todo o meu corpo, meu pobre corpo de homem pobre, clama ao Senhor dos Céus:

— E eu, eu, Senhor, nunca terei uma amante tão bonita como aquela amante que aparece nas gravuras dos livros viciosos!

Uma sensação de asco começou a envenenar minha vida naquele antro, cercado por aquela gente que não vomitava senão palavras de lucro ou ferocidade. Contagiaram-me o ódio que lhes crispava as fuças, e houve momentos em que percebi, dentro da caixa do meu crânio, uma neblina vermelha que se movia lentamente.

Um cansaço terrível me esmagava os braços. Houve ocasiões em que quis dormir por dois dias e duas noites. Eu tinha a sensação de que meu espírito se sujava, de que a lepra daquela gente rachava a pele do meu espírito para escavar ali suas cavernas escuras. Deitava-me furioso, despertava taciturno. O desespero alargava minhas veias, e eu sentia, entre os ossos e a pele, o crescimento de uma força até então desconhecida pelos meus sentidos. Assim permanecia durante horas, rancoroso, numa abstração dolorosa. Certa noite, doña María, enfurecida, ordenou-me que limpasse a latrina, porque estava imunda. E obedeci sem dizer palavra. Creio que eu procurava motivos para multiplicar dentro de mim uma finalidade obscura.

Em outra noite, don Gaetano, rindo, quando eu quis sair, pôs uma das mãos sobre meu estômago e a outra sobre meu peito para se certificar de que eu não roubava livros, levando-os escondidos naqueles lugares. Não consegui me indignar nem sorrir. Era necessário aquilo, sim, aquilo; era necessário que minha vida, a vida que durante nove meses fora nutrida com sofrimento no ventre de uma mulher, padecesse todos os ultrajes, todas as humilhações, todas as angústias.

Foi ali que comecei a ficar surdo. Durante alguns meses perdi quase por completo a percepção dos sons. Um silêncio afiado, pois o silêncio pode adquirir até a forma de uma lâmina, cortava as vozes em meus ouvidos.

Eu não pensava. Meu entendimento embotou-se num rancor côncavo, cuja concavidade, dia após dia, tornava-se mais ampla e abrangente. Assim meu rancor ia se encouraçando.

Deram-me uma campainha, um chocalho. E era divertido, por Deus!, ver um fedelho da minha estatura dedicado a um ofício tão baixo. Eu me postava à porta da caverna nas horas de maior movimento da rua e sacudia o chocalho para chamar as pessoas, para fazê-las virar a cabeça, para que soubessem que ali se vendiam livros, belos livros... e que as histórias nobres e as elevadas belezas precisavam ser compradas daquele homem dissimulado ou daquela mulher gorda e pálida. E eu sacudia o chocalho.

Muitos olhos me despiram lentamente. Vi rostos de mulheres que jamais esquecerei. Vi sorrisos que ainda hoje gritam sua zombaria em meus olhos...

Ah! É verdade que eu estava cansado... mas não está escrito: “Ganharás o pão com o suor do teu rosto”?

E esfreguei o chão, pedindo licença a deliciosas donzelas para passar o pano no lugar que elas ocupavam com seus pezinhos; fui às compras com uma cesta enorme; fiz recados... Possivelmente, se tivessem cuspido em meu rosto, eu o limparia tranquilamente com o dorso da mão.

Caiu sobre mim uma escuridão cujo tecido engrossava lentamente. Perdi na memória os contornos dos rostos que eu amara com recolhimento choroso; tive a noção de que meus dias estavam separados uns dos outros por longos espaços de tempo... e meus olhos secaram para o pranto.

Então repeti palavras que antes haviam tido um sentido pálido em minha experiência.

— Você sofrerá — dizia a mim mesmo —, sofrerá... sofrerá... sofrerá...

— Sofrerá... sofrerá...

— Sofrerá...

E a palavra caía de meus lábios.

Assim amadureci durante todo o inverno infernal.

Certa noite, no mês de julho, precisamente no momento em que don Gaetano fechava a pequena porta da cortina metálica, doña María lembrou-se de que esquecera na cozinha um embrulho de roupas que a lavadeira trouxera naquela tarde. Então disse:

— Che, Silvio, venha, vamos buscá-lo.

Enquanto don Gaetano acendia a luz, acompanhei-a. Recordo-me com exatidão.

A trouxa estava no centro da cozinha, sobre uma cadeira. Doña María, de costas para mim, pegou a alça de pano da trouxa. Ao virar os olhos, vi algumas brasas acesas no braseiro. E naquele brevíssimo intervalo pensei:

— É isto...

E, sem hesitar, pegando uma brasa, atirei-a sobre um monte de papéis que ficava ao lado de uma estante carregada de livros, enquanto doña María começava a caminhar.

Depois don Gaetano girou a chave do interruptor, e nos encontramos na rua.

Doña María contemplou o céu constelado.

— Que noite bonita... vai gear...

Eu também olhei para o alto.

— Sim, a noite está bonita.

Enquanto Dio Fetente dormia, eu, sentado em minha enxerga, contemplava o círculo branco de luz que, vindo da rua através da escotilha, se estampava na parede.

Na escuridão, eu sorria libertado... livre... definitivamente livre, pela consciência de hombridade que meu ato anterior me dava. Pensava, melhor dizendo, não pensava; enlaçava delícias.

— Esta é a hora das cocottes.

Uma cordialidade fresca como um copo de vinho fazia-me confraternizar com todas as coisas do mundo que, àquelas horas, permaneciam despertas. Eu dizia:

— Esta é a hora das mocinhas... e dos poetas... Mas como sou ridículo... e, no entanto, eu beijaria seus pés, Vida, sim, eu beijaria seus pés.

— Vida, Vida, como você é bonita, Vida... Ah! Mas você não sabe? Eu sou o rapaz... o caixeiro... sim, de don Gaetano... e, no entanto, amo todas as coisas mais belas da Terra... Queria ser bonito e genial... vestir uniformes resplandecentes... e ser taciturno... Vida, como você é bonita, Vida... como é bonita... Meu Deus, como você é bonita.

Eu sentia prazer em sorrir lentamente. Passei dois dedos em forma de forquilha pelas crispacões de minhas faces. E o grasnar das buzinas dos automóveis se prolongava lá embaixo, na rua Esmeralda, como um rouco pregão de alegrias.

Depois inclinei a cabeça sobre o ombro e fechei os olhos, pensando:

— Que pintor fará o quadro do caixeiro adormecido que, em sonhos, sorri porque incendiou o covil de ladrões do patrão?

Depois, lentamente, a leve embriaguez se dissipou. Veio uma seriedade sem pé nem cabeça, uma dessas seriedades que é de bom-tom ostentar em lugares públicos. E eu sentia vontade de rir de minha seriedade intempestiva, paternal. Mas, como a seriedade é hipócrita, precisa encenar a comédia da “consciência” no cubículo, e eu disse a mim mesmo:

— Acusado... o senhor é um canalha... um incendiário... o senhor tem uma bagagem de remorso para toda a vida... o senhor será interrogado pela polícia, pelos juízes e pelo diabo... fique sério, acusado... o senhor não compreende que é preciso ser sério... porque vai acabar de cabeça dentro de uma cela.

Mas minha seriedade não me convencia. Soava tanto como uma lata vazia. Não, nem mesmo a sério eu podia levar aquela mistificação. Agora eu era um homem livre, e o que a seriedade tinha a ver com a liberdade? Agora eu era livre, podia fazer o que bem entendesse... matar-me, se quisesse... mas isso era uma coisa ridícula... e eu... eu precisava fazer algo belamente sério, lindamente sério: adorar a Vida. E repeti:

— Sim, Vida... você é bonita, Vida... sabe? De agora em diante adorarei todas as coisas belas da Terra... é verdade... adorarei as árvores, as casas e os céus. Adorarei tudo o que há em você... além disso... diga-me, Vida, não é verdade que sou um rapaz inteligente? Você já conheceu algum que fosse como eu?

Depois adormeci.

O primeiro a entrar na livraria naquela manhã foi don Gaetano. Eu o segui. Tudo estava como havíamos deixado. A atmosfera conservava um cheiro úmido de mofo, e lá no fundo, sobre as lombadas de couro dos livros, havia uma mancha de sol que se filtrava pela claraboia.

Dirigi-me à cozinha. A brasa havia se apagado, ainda molhada pela água com que Dio Fetente fizera uma poça ao lavar os pratos.

E aquele foi o último dia em que trabalhei ali.

O Brinquedo Raivoso

Sinopse

Tradução brasileira integral de O Brinquedo Raivoso, romance de Roberto Arlt sobre juventude, pobreza, invenção, humilhação e revolta na Buenos Aires moderna. Edição Literunico preparada para a final da Copa do Mundo Literunico.

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