Universo da obra
Universo da obra
Depois de lavar os pratos, fechar as portas e abrir as venezianas, deitei-me na cama porque fazia frio.
Sobre o muro, o sol avermelhava obliquamente os tijolos.
Minha mãe costurava em outro cômodo, e minha irmã preparava as lições. Dispusera-me a ler. Sobre uma cadeira, junto à cabeceira da cama, tinha as seguintes obras:
Virgem e mãe, de Luis del Val, Eletrotécnica, de Bahía, e O Anticristo, de Nietzsche. Virgem e mãe, quatro volumes de 1.800 páginas cada um, fora-me emprestado por uma vizinha passadeira.
E, comodamente deitado, contemplei com displicência Virgem e mãe. Evidentemente, naquele dia eu não estava disposto a ler o truculento novelão; então, decidido, peguei a Eletrotécnica e comecei a estudar a teoria do campo magnético giratório.
Lia devagar e com satisfação. Pensava, já inteirado da complicada explicação acerca das correntes polifásicas.
É sintoma de uma inteligência universal saber regalar-se com diferentes belezas, e os nomes de Ferranti e Siemens-Halske ressoavam harmoniosamente em meus ouvidos.
Pensava:
— Eu também algum dia poderei dizer diante de um congresso de engenheiros: “Sim, senhores... As correntes eletromagnéticas geradas pelo sol podem ser utilizadas e condensadas”. Que barbaridade, primeiro condensadas, depois utilizadas. Diabo, como poderiam ser condensadas as correntes eletromagnéticas do sol?
Sabia, por notícias científicas publicadas em diversos jornais, que Tesla, o mago da eletricidade, havia inventado um condensador de raios.
Assim sonharia até o anoitecer, quando ouvi, no cômodo ao lado, a voz da senhora Rebeca Naidath, amiga de minha mãe.
— Olá! Como está, frau Drodman? Como está minha filhinha?
Levantei a cabeça do livro para escutar.
A senhora Rebeca pertencia ao rito judaico. Sua alma era mesquinha porque seu corpo era pequeno. Caminhava como uma gansa e esquadrinhava como uma águia... Eu a detestava por certas peças que me pregara.
— Silvio não está? Preciso falar com ele.
Num instante, ela estava no outro cômodo.
— Olá! Como vai, frau, quais são as novidades?
— Você entende de mecânica?
— Claro... Alguma coisa eu sei. A senhora não mostrou a ela, mamãe, a carta de Ricaldoni?
De fato, Ricaldoni me felicitara por algumas combinações mecânicas absurdas que eu inventara em minhas horas de vadiagem.
A senhora Rebeca disse:
— Sim, já vi. Já vi. Tome.
E, estendendo-me um jornal em cuja página o dedo, com a unha orlada de sujeira, apontava um anúncio, comentou:
— Meu marido mandou que eu viesse avisá-lo. Leia.
Com os punhos apoiados nos quadris, inclinava o busto em minha direção. Usava um chapeuzinho preto, cujas plumas desfiadas pendiam lamentavelmente. Suas pupilas negras inspecionavam meu rosto com ironia e, de vez em quando, afastando uma das mãos do quadril, ela coçava com os dedos o nariz curvado.
Li:
“Precisam-se de aprendizes para mecânicos de aviação. Dirigir-se à Escola Militar de Aviação. Palomar de Caseros.”
— Caramba, que notícia boa, frau, muito obrigado... Mas será que ainda dá tempo de ir hoje?
— Sim, você pega o trem para La Paternal, diz ao guarda que o deixe em La Paternal e pega o 88. Ele deixa você na porta.
— Sim, vá hoje, Silvio, é melhor — indicou minha mãe, sorrindo esperançosa. — Ponha a gravata azul. Já está passada e costurei o forro.
Com um salto, plantei-me em meu quarto e, enquanto me vestia, escutei a judia narrando, com voz lamentosa, uma briga com o marido.
— Que coisa, frau Drodman! Chegou bêbado, muito bêbado. Maximito não estava, tinha ido a Quilmes ver um serviço de pintura. Eu estava na cozinha, saio e ele me diz, mostrando o punho assim:
— A comida, depressa... E por que o canalha do seu filho não foi para a obra?
Que vida, frau, que vida... Vou para a cozinha e rapidinho acendo o gás. Pensava que, se Maximito chegasse, haveria uma confusão, e eu tremia, frau.
Meu Deus! Rapidinho levo para ele a frigideira com fígado e ovos fritos na manteiga. Porque ele não gosta de óleo. E a senhora precisava ter visto: Fran arregala os olhos, franze o nariz e me diz:
— Cadela, isto está podre.
E os ovos eram frescos, frau, fresquinhos. Pum. Atirou a frigideira com tudo contra a parede...
— Que vida, frau, que vida...! A cama inteira molhada de ovos e manteiga. Corri até a porta, e ele se levantou, agarrou os pratos e os atirava contra o chão. Que vida. Até a bela sopeira, lembra-se, frau? Até a bela sopeira se quebrou.
Eu estava com medo e, como fui embora, ele veio e pum, pum, dava tremendos socos no peito... Que coisa horrível! E gritou para mim coisas que nunca tinha gritado, frau:
— Porca, quero lavar as mãos com o seu sangue.
Ouvia-se a senhora Naidath suspirar profundamente.
As desventuras daquela mulher me divertiam. Enquanto fazia o nó da gravata, imaginava, sorrindo, o marido grandalhão, um polonês grisalho, com nariz de cacatua, vociferando atrás de dona Rebeca.
O senhor Josias Naidath era um hebreu mais generoso que um hetman do século de Sobieski. Homem estranho. Detestava os judeus até a exasperação, e seu antissemitismo grotesco se exteriorizava num léxico fabuloso de tão obsceno. Naturalmente, seu ódio era coletivo.
Amigos especuladores o haviam enganado muitas vezes, mas ele não queria se convencer disso e, em sua casa, para desespero da senhora Rebeca, sempre se podiam encontrar imigrantes alemães gordos e aventureiros de aparência miserável, que se empanturravam ao redor da mesa com chucrute e salsicha e riam com gargalhadas grossas, movendo os inexpressivos olhos azuis.
O judeu os protegia até que encontrassem trabalho, valendo-se das relações que tinha como pintor e franco-maçom. Alguns o roubaram; houve um patife que, de um dia para o outro, desapareceu de uma casa em reforma, levando escadas, tábuas e tintas.
Quando o senhor Naidath soube que o vigia, seu protegido, se despedira daquela maneira, pôs a boca no mundo. Parecia o deus Thor enfurecido... mas não fez nada.
Sua esposa era o protótipo da judia avarenta e sórdida.
Lembro-me de que, quando minha irmã era menor, estava certo dia visitando a casa deles. Com candura, admirava uma bela ameixeira carregada de frutos maduros e, como era natural, desejando a fruta, pediu-a com palavras tímidas.
Então a senhora Rebeca lhe respondeu:
— Filhinha... Se está com vontade de comer ameixas, pode comprar quantas quiser no mercado.
— Sirva-se de chá, senhora Naidath.
A judia continuava narrando, em tom lamentoso:
— Depois ele gritava comigo, e todos os vizinhos ouviam, frau; gritava:
“Filha de açougueiro, judia, judia porca, protetora do seu filho.” Como se ele não fosse judeu, como se Maximito não fosse filho dele.
De fato, a senhora Naidath e o falcãozinho de Maximito entendiam-se admiravelmente para enganar o franco-maçom e arrancar-lhe dinheiro, que gastavam em bobagens. O senhor Naidath sabia dessa cumplicidade e bastava mencioná-la para tirá-lo do sério.
Maximito, origem de tantas desavenças, era um paspalho de vinte e cinco anos que se envergonhava de ser judeu e de ter a profissão de pintor.
Para disfarçar sua condição de operário, vestia-se como um cavalheiro, usava óculos e, à noite, antes de se deitar, passava glicerina nas mãos.
De suas patifarias, eu conhecia algumas saborosíssimas.
Certa vez, recebeu às escondidas um dinheiro devido a seu pai por um hoteleiro. Devia ter então vinte anos e, julgando possuir aptidões musicais, investiu a quantia numa magnífica harpa dourada. Por sugestão da mãe, Maximito explicou que ganhara alguns pesos com um quinto de bilhete de loteria, e o senhor Naidath não disse nada, mas, desconfiado, olhou a harpa de esguelha, e os culpados tremeram como Adão e Eva no paraíso quando Jeová os observou.
Os dias passaram, enquanto Maximito dedilhava a harpa e a velha judia se regozijava. Essas coisas costumam acontecer. A senhora Rebeca dizia às amigas que Maximito tinha grandes qualidades de harpista, e as pessoas, depois de admirarem a harpa num canto da sala de jantar, diziam que sim.
Entretanto, apesar de sua generosidade, o senhor Josias era, às vezes, um homem prudente e logo compreendeu por meio de que trapaça o magnânimo Maximito se tornara dono da harpa.
Nessa circunstância, o senhor Naidath, que tinha uma força espantosa, esteve à altura dos acontecimentos e, como recomenda o salmista, falou pouco e agiu muito.
Era sábado, mas o senhor Josias, não dando a mínima para o preceito mosaico, à guisa de prólogo deu dois pontapés no traseiro da mulher, agarrou Maximito pelo pescoço e, depois de sacudir-lhe a poeira, conduziu-o até a porta da rua. Aos vizinhos que, em mangas de camisa, se divertiam imensamente com o tumulto, atirou-lhes a harpa sobre a cabeça, da janela da sala de jantar.
Isso torna a vida mais amena, e por esse motivo as pessoas diziam do judeu:
— Ah! O senhor Naidath... é uma pessoa muito boa.
Quando terminei de me arrumar, saí.
— Bem, até logo, Fran. Lembranças a seu marido e a Maximito.
— Não vai agradecer a ela? — interrompeu minha mãe.
— Já agradeci antes.
A hebreia ergueu os olhinhos invejosos das fatias de pão untadas de manteiga e apertou frouxamente minhas mãos. Já reagiam dentro dela os desejos de me ver fracassar em minhas diligências.
Já anoitecera quando cheguei a El Palomar.
Ao perguntar onde ficava, um velho que fumava sentado sobre um embrulho, sob o lampião verde da estação, indicou-me o caminho entre as trevas com o mínimo dispêndio de gestos.
Compreendi que estava diante de um indiferente, não quis abusar de sua parcimônia e, sabendo quase tanto quanto antes de interrogá-lo, agradeci-lhe e pus-me a caminho.
Então o velho me gritou:
— Diga, menino, não tem dez centavos?
Pensei em não beneficiá-lo, mas, refletindo rapidamente, disse a mim mesmo que, se Deus existisse, poderia ajudar-me em minha empreitada, assim como eu ajudava o velho, e não sem secreta pena me aproximei para lhe entregar uma moeda.
Então o maltrapilho foi mais explícito. Abandonou o embrulho e, com o braço trêmulo estendido na direção da escuridão, apontou:
— Veja, menino... siga sempre reto, reto, e à esquerda fica o cassino dos oficiais.
Caminhava.
O vento revolvia a folhagem ressequida dos eucaliptos e, cortando-se nos troncos e nos altos fios do telégrafo, assobiava ululante.
Atravessando a estrada lamacenta, apalpando os arames das cercas para me orientar na escuridão, com passos prudentes e, quando a dureza do terreno permitia, rápidos, cheguei ao edifício que o velho situara à esquerda sob o nome de Cassino.
Detive-me indeciso. Bateria à porta? Atrás da balaustrada do chalé, diante da entrada, não havia nenhum soldado de guarda.
Subi três degraus e, audaciosamente, assim pensava então, penetrei num estreito corredor de madeira, material com que todo o edifício fora construído, e parei diante da porta de uma sala oblonga, cujo centro era ocupado por uma mesa.
Ao redor dela, três oficiais, um recostado num sofá junto ao aparador, outro com os cotovelos sobre a mesa e um terceiro com os pés no ar, pois apoiava o espaldar da cadeira contra a parede, conversavam com displicência diante de cinco garrafas de cores diferentes.
— O que deseja?
— Apresentei-me, senhor, por causa do anúncio...
— As vagas já foram preenchidas.
Objetei, extremamente tranquilo, com uma serenidade que me nascia da pouca sorte:
— Caramba, é uma pena, porque eu, que sou meio inventor, teria me encontrado em meu ambiente.
— E o que foi que inventou? Mas entre, sente-se — falou um capitão, erguendo-se no sofá.
Respondi sem me perturbar:
— Um sinalizador automático de estrelas cadentes e uma máquina capaz de escrever, em caracteres de imprensa, aquilo que lhe é ditado. Tenho aqui uma carta de felicitações que o físico Ricaldoni me enviou.
Aquilo não deixava de ser curioso para os três oficiais entediados, e de repente compreendi que os havia interessado.
— Vejamos, sente-se — indicou um dos tenentes, examinando minha aparência da cabeça aos pés. — Explique-nos seus famosos inventos. Como se chamavam?
— Sinalizador automático de estrelas cadentes, senhor oficial.
Apoiei os braços sobre a mesa e contemplei, com um olhar que me parecia investigativo, os semblantes de linhas duras e olhos inquisidores, três rostos curtidos de dominadores de homens, que me observavam entre curiosos e irônicos. Naquele instante, antes de falar, pensei nos heróis de minhas leituras prediletas, e a figura de Rocambole, do Rocambole com boné de pala de borracha e sorriso canalha na boca torta, passou diante de meus olhos, incitando-me ao descaramento e à atitude heroica.
Reconfortado, absolutamente seguro de não cometer erros, disse:
— Senhores oficiais, os senhores devem saber que o selênio conduz a corrente elétrica quando está iluminado; na escuridão, comporta-se como isolante.
O sinalizador não consistiria em nada mais que uma célula de selênio conectada a um eletroímã. A passagem de uma estrela pelo retículo de selênio seria assinalada por um sinal, pois a claridade do meteoro, concentrada por uma lente côncava, faria o selênio adquirir propriedades condutoras.
— Está bem. E a máquina de escrever?
— A teoria é a seguinte. No telefone, o som se transforma numa onda eletromagnética.
Se medirmos, com um galvanômetro de tangente, a intensidade elétrica produzida por cada vogal e consoante, poderemos calcular o número de ampère-espiras necessário para fabricar um teclado magnético que responda à intensidade da corrente de cada vogal.
O cenho do tenente se acentuou.
— A ideia não é ruim, mas o senhor não leva em conta a dificuldade de criar eletroímãs que respondam a alterações elétricas tão ínfimas, e isso sem falar das variações do timbre da voz, do magnetismo remanescente e de outro problema muito sério, talvez o pior: fazer com que as correntes se distribuam por si mesmas entre os eletroímãs correspondentes. Mas o senhor tem aí a carta de Ricaldoni?
O tenente inclinou-se sobre ela; depois, entregando-a a outro dos oficiais, disse-me:
— Está vendo? Os inconvenientes que levantei também são apontados por Ricaldoni. Sua ideia, em princípio, é muito interessante. Conheço Ricaldoni. Foi meu professor. O homem é um sábio.
— Sim, baixinho, gordo, bastante gordo.
— Quer tomar um vermute? — ofereceu-me o capitão, sorrindo.
— Muito obrigado, senhor. Não bebo.
— E de mecânica, sabe alguma coisa?
— Alguma coisa. Cinemática... Dinâmica... Motores a vapor e a explosão; também conheço motores de óleo cru. Além disso, estudei química dos explosivos, que é uma coisa interessante.
— Também? E o que sabe sobre explosivos?
— Pergunte-me — repliquei, sorrindo.
— Muito bem, vejamos: o que são fulminantes?
Aquilo adquiria ares de exame e, fazendo-me de erudito, respondi:
— O capitão Cundill, em seu Dicionário de Explosivos, diz que os fulminatos são os sais metálicos de um ácido hipotético chamado ácido fulmínico. E podem ser simples ou duplos.
— Vejamos, vejamos: cite um fulminato duplo.
— O de cobre, que forma cristais verdes produzidos quando se faz ferver fulminato de mercúrio, que é simples, com água e cobre.
— É notável o que esse rapaz sabe. Quantos anos o senhor tem?
— Dezesseis anos, senhor.
— Dezesseis anos?
— Sim, senhor.
— Percebe, capitão? Este jovem tem um grande futuro. O que acha de falarmos com o capitão Márquez? Seria uma pena que não pudesse ingressar.
— Sem dúvida — e o oficial do corpo de engenheiros dirigiu-se a mim: — Mas onde diabo o senhor estudou todas essas coisas?
— Em toda parte, senhor. Por exemplo, vou pela rua e, numa oficina mecânica, vejo uma máquina que não conheço. Paro e digo a mim mesmo, enquanto estudo as diferentes partes do que estou vendo: isto deve funcionar assim e assim e deve servir para tal coisa. Depois de fazer minhas deduções, entro no estabelecimento e pergunto, e acredite, senhor, raramente me engano. Além disso, tenho uma biblioteca razoável e, quando não estudo mecânica, estudo literatura.
— Como? — interrompeu o capitão. — Também literatura?
— Sim, senhor, e tenho os melhores autores: Baudelaire, Dostoiévski, Baroja.
— Escute, será que este aqui não é anarquista?
— Não, senhor capitão. Não sou anarquista. Mas gosto de estudar, de ler.
— E o que seu pai acha de tudo isso?
— Meu pai se matou quando eu era muito pequeno.
Subitamente, calaram-se. Olhando para mim, os três oficiais se entreolharam.
Lá fora o vento assobiava, e em minha testa se aprofundou ainda mais o sinal da atenção.
O capitão levantou-se, e eu o imitei.
— Veja, amiguinho, meus parabéns. Volte amanhã. Esta noite tentarei encontrar o capitão Márquez, porque o senhor merece. É disso que o Exército argentino precisa. Jovens que queiram estudar.
— Obrigado, senhor.
— Amanhã, caso queira me ver, terei o maior prazer em atendê-lo. Pergunte pelo capitão Bossi.
Grave de imensa alegria, despedi-me.
Agora atravessava as trevas, saltava as cercas de arame, estremecido por uma coragem sonora.
Mais do que nunca se afirmava a convicção do destino grandioso que se cumpriria em minha existência. Eu poderia ser um engenheiro como Edison, um general como Napoleão, um poeta como Baudelaire, um demônio como Rocambole.
Sétima alegria. Pelo elogio dos homens, desfrutei noites tão estupendas que o sangue, numa multidão de júbilos, atropelava meu coração, e eu acreditava, sobre os ombros de meu povo de alegrias, cruzar os caminhos da Terra, semelhante a um símbolo da juventude.
Creio que trinta aprendizes de mecânicos de aeroplanos foram escolhidos entre duzentos candidatos.
Era uma manhã cinzenta. O campo estendia-se áspero ao longe. De sua continuidade verde-acinzentada desprendia-se um castigo sem nome.
Acompanhados por um sargento, passamos junto aos hangares fechados e, no alojamento, vestimos roupas de serviço.
Chuviscava e, apesar disso, um cabo nos conduziu para fazer ginástica num pasto situado atrás da cantina.
Não era difícil. Obedecendo às vozes de comando, deixava entrar em mim a extensão indiferente da planície.
Aquilo hipnotizava o organismo, deixando independentes os trabalhos da tristeza.
Pensava:
— Se ela me visse agora, o que diria?
Docemente, como uma sombra sobre um muro caiado pelo luar, ela inteira passou, e, em certo anoitecer distante, vi o semblante suplicante da menina imóvel junto ao álamo negro.
— Mexa-se, recruta — gritou-me o cabo.
Na hora da boia, chapinhando na lama, aproximamo-nos dos caldeirões fétidos de comida. Sob as latas fumegavam os troncos verdes. Espremendo-nos uns contra os outros, estendíamos ao cozinheiro os pratos de lata.
O homem mergulhava a concha na gororoba e um tridente em outro caldeirão; depois nos afastávamos para devorar a comida.
Enquanto comia, lembrei-me de dom Gaetano e da mulher cruel. Embora não tivesse transcorrido muito tempo, eu percebia espaços imensos entre meu ontem taciturno e meu hoje cismarento.
Pensei:
— Agora que tudo mudou, quem sou eu dentro deste uniforme folgado?
Sentado junto ao alojamento, observava a chuva que caía em intervalos e, com o prato sobre os joelhos, não conseguia afastar os olhos do arco do horizonte, tumultuoso em alguns trechos, liso como uma faixa de metal em outros e tão impiedosamente leonino que o frio de suas alturas, ao descer, penetrava até os ossos.
Alguns aprendizes, amontoados no alojamento, riam, e outros, curvados sobre um tanque para dar de beber aos cavalos, lavavam os pés.
Disse a mim mesmo:
— E assim é a vida, queixar-se sempre do que passou. Com quanta lentidão caíam os fios de água. E assim era a vida.
Deixei o prato no chão, para ampliar minhas cismas com aquelas angústias.
Conseguiria algum dia sair de minha ínfima condição social? Poderia algum dia me transformar num senhor, deixar de ser o rapaz que se oferece para qualquer trabalho?
Um tenente passou, e adotei a posição militar... Depois me deixei cair num canto, e a tristeza se fez mais profunda.
No futuro, não seria eu um daqueles homens que usam colarinhos sujos, camisas remendadas, ternos cor de vinho e botinas enormes, porque nos pés lhes nasceram calos e joanetes de tanto caminhar, de tanto caminhar, pedindo de porta em porta um trabalho com que ganhar a vida?
Minha alma tremeu. O que fazer, o que poderia fazer para triunfar, para ter dinheiro, muito dinheiro? Certamente eu não encontraria na rua uma carteira com dez mil pesos. O que fazer, então? E, não sabendo se conseguiria assassinar alguém, se ao menos tivesse algum parente rico a quem assassinar e que me rendesse alguma coisa, compreendi que jamais me resignaria à vida penosa que a maioria dos homens suporta com naturalidade.
De repente, tornou-se tão evidente em minha consciência a certeza de que aquele anseio de distinção me acompanharia pelo mundo que disse a mim mesmo:
— Não me importa não ter roupa, nem dinheiro, nem nada.
E quase com vergonha confessei:
— O que eu quero é ser admirado pelos outros, elogiado pelos outros. Que me importa ser um perdulário? Isso não me importa... Mas esta vida medíocre... Ser esquecido quando morrer, isto sim é horrível. Ah, se meus inventos dessem resultado! No entanto, algum dia morrerei, os trens continuarão andando, as pessoas irão ao teatro como sempre, e eu estarei morto, bem morto... morto por toda a vida.
Um arrepio eriçou os pelos de meus braços. Diante do horizonte percorrido por navios de nuvens, a convicção de uma morte eterna aterrorizava minha carne. Apressado, peguei o prato e fui até o tanque.
Ah, se fosse possível descobrir alguma coisa para nunca morrer, viver nem que fossem quinhentos anos!
O cabo que dirigia os exercícios de instrução chamou-me:
— Drodman, o capitão Márquez mandou que vá vê-lo.
— Imediatamente, meu primeiro-cabo.
Durante o exercício, por intermédio do sargento, eu havia solicitado permissão ao capitão Márquez com o objetivo de pedir-lhe conselho acerca de um morteiro de trincheira que inventara, destinado a lançar projéteis capazes de destruir uma quantidade maior de homens do que os shrapnels com seus explosivos.
Inteirado de minha vocação, o capitão Márquez costumava escutar-me e, enquanto eu falava, esquematizando na lousa, ele me contemplava por trás das lentes dos óculos, sorrindo com uma expressão de curiosidade, troça e indulgência.
Deixei o prato na bolsa de serviço e dirigi-me rapidamente ao cassino dos oficiais.
Agora estava em seu quarto. Junto à parede havia uma cama de campanha, uma estante com revistas e cursos de ciências militares e, pregado à parede, um quadro-negro com sua caixinha cheia de bastões de giz presa num dos cantos.
O capitão me disse:
— Vejamos, vejamos como é esse canhão de trincheira. Desenhe-o.
Peguei um giz e fiz um esboço.
Comecei:
— O senhor sabe, meu capitão, que os inconvenientes dos grandes calibres são o peso e o tamanho da peça.
— Muito bem, e...
— Imaginei um canhão deste formato:
O projétil de grosso calibre seria perfurado no centro e, em vez de ser colocado dentro de um tubo, que é o canhão, seria introduzido numa barra de ferro como um anel no dedo, indo encaixar-se na câmara onde o cartucho explodiria.
A vantagem de meu sistema é que, sem aumentar o peso do canhão, aumenta-se enormemente o calibre do projétil e a carga explosiva que ele pode transportar.
— Entendo... Está bem... Mas o senhor deve saber o seguinte:
De acordo com o calibre dos projéteis, seu peso e a granulação da pólvora, calculam-se a espessura, o diâmetro e o comprimento do canhão.
Ou seja, à medida que a pólvora vai se inflamando, o projétil avança pelo cano sob a pressão dos gases, de maneira que, quando chega à boca, o explosivo atingiu o máximo de sua energia.
Em seu invento, acontece exatamente o contrário.
A explosão ocorre, o projétil desliza pela barra e os gases, em vez de continuarem pressionando-o, perdem-se no ar. Ou seja, se a explosão deve continuar agindo durante um segundo, o senhor reduz esse tempo a um décimo ou a um milésimo. É o contrário. Quanto maior o diâmetro, menor a uniformidade e maior a resistência, a menos que o senhor tenha descoberto uma nova balística, o que é um pouco difícil.
E terminou acrescentando:
— O senhor precisa estudar, estudar muito, caso queira ser alguma coisa.
Eu pensava, sem me atrever a dizê-lo:
— Como estudar, se preciso aprender um ofício para ganhar a vida?
Ele prosseguia:
— Estude muita matemática; o que lhe falta é base. Discipline o pensamento, aplique-o ao estudo das pequenas coisas práticas e, então, poderá ter êxito em suas iniciativas.
— O senhor acha, meu capitão?
— Sim, Astier, o senhor tem qualidades inegáveis, mas estude. O senhor acredita que, por pensar, já fez tudo, e pensar não é mais que um princípio.
E eu saía dali estremecido de gratidão por aquele homem, que conhecia sério e melancólico e que, apesar da disciplina, tinha a misericórdia de me encorajar.
Eram duas horas da tarde do quarto dia desde meu ingresso na Escola Militar de Aviação.
Tomava mate cozido em companhia de um ruivo chamado Walter, que, com entusiasmo comovente, falava-me de uma chácara pertencente a seu pai, um alemão dos arredores de Azul.
Dizia o ruivo, com a boca cheia de pão:
— Todo inverno abatemos três porcos para casa. Os outros são vendidos. Assim, à tarde, quando fazia frio, eu entrava, cortava um pedaço de pão e depois saía de Ford para dar uma volta...
— Drodman, venha cá — gritou-me o sargento.
Parado diante do alojamento, observava-me com uma seriedade incomum.
— Às ordens, meu sargento.
— Vista suas roupas civis e entregue-me o uniforme, porque o senhor foi dispensado.
Olhei-o atentamente.
— Dispensado?
— Sim, dispensado.
— Dispensado, meu sargento? — Eu tremia inteiro ao pronunciar aquilo.
O suboficial observou-me com piedade. Era um provinciano de procedimentos corretos e, poucos dias antes, recebera o brevê de aviador.
— Mas eu não cometi falta alguma, meu sargento. O senhor sabe disso muito bem.
— Claro que sei... Mas o que quer que eu faça? A ordem foi dada pelo capitão Márquez.
— Pelo capitão Márquez? Mas isso é absurdo... O capitão Márquez não pode ter dado essa ordem... Não terá havido algum engano?
— Foi isso mesmo. No setor de pessoal me disseram Silvio Drodman Astier... Não existe outro Drodman Astier aqui além do senhor, creio, não é? Portanto, é o senhor. Não há o que discutir.
— Mas isto é uma injustiça, meu sargento.
O homem franziu o cenho e confidenciou em voz baixa:
— O que quer que eu faça? Claro que não está certo... acho... não, não sei... Parece que o capitão tem um recomendado... foi o que me disseram... Não sei se é verdade. E, como vocês ainda não assinaram contrato, claro, tiram um e põem quem quiserem. Caso o contrato estivesse assinado, não haveria jeito, mas, como não está, é preciso aguentar.
Eu disse, suplicante:
— E o senhor, meu sargento, não pode fazer nada?
— E o que quer que eu faça, amigo? O que quer que eu faça? Eu sou igual ao senhor. A gente vê cada coisa.
O homem sentia pena de mim.
Agradeci-lhe e me retirei com lágrimas nos olhos.
No setor de pessoal, informaram-me:
— A ordem é do capitão Márquez.
— E não é possível falar com ele?
— O capitão não está.
— E o capitão Bossi?
— O capitão Bossi não está.
No caminho, o sol de inverno tingia de uma lúgubre vermelhidão os troncos dos eucaliptos.
Eu caminhava para a estação.
De repente, vi no caminho o diretor da Escola.
Era um homem atarracado, de rosto rechonchudo e vermelho como o de um lavrador. O vento agitava-lhe a capa sobre os ombros e, folheando um in-fólio, ele respondia brevemente ao grupo de oficiais que o rodeava em círculo.
Alguém devia ter-lhe comunicado o que acontecera, pois o tenente-coronel levantou a cabeça dos papéis, procurou-me com os olhos e, ao me encontrar, gritou-me com voz áspera:
— Veja, amigo, o capitão Márquez me falou a seu respeito. Seu lugar é numa escola industrial. Aqui não precisamos de pessoas inteligentes, mas de brutos para o trabalho.
Agora eu atravessava as ruas de Buenos Aires, com aqueles gritos entranhados na alma.
— Quando mamãe souber!
Involuntariamente, imaginei-a dizendo com voz cansada:
— Silvio... mas você não tem pena de nós, que não trabalha... que não quer fazer nada?
Olhe as botinas que uso, olhe os vestidos de Lila, todos remendados. O que você pensa, Silvio, que não trabalha?
Um calor de febre subia-me às têmporas, eu cheirava a suor, tinha a sensação de que meu rosto se embrutecera de tristeza, deformado pela tristeza, uma tristeza profundíssima, toda clamorosa.
Vagava abstraído, sem rumo. Por momentos, os ímpetos de cólera retesavam-me os nervos; eu queria gritar, lutar a socos com a cidade espantosamente surda... e, de repente, tudo se partia dentro de mim, tudo apregoava aos meus ouvidos minha absoluta inutilidade.
— O que será de mim?
Naquele instante, sobre a alma, o corpo me pesava como uma roupa grande demais e encharcada.
— O que será de mim?
Agora, quando eu chegar em casa, mamãe talvez não diga nada. Com um gesto de aflição, abrirá o baú amarelo, tirará o colchão, colocará lençóis limpos na cama e não dirá nada. Lila me olhará em silêncio, como se me censurasse.
— O que você fez, Silvio?
E não acrescentará nada.
— O que será de mim?
Ah! É preciso conhecer as misérias desta vida porca, comer o fígado que se pede no açougue para o gato e deitar cedo para não gastar o querosene da lamparina!
Outra vez surgiu diante de mim o rosto de mamãe, frouxo de rugas por sua antiga tristeza; pensei na irmã que jamais proferia uma queixa de desgosto e que, submissa ao destino amargo, empalidecia sobre seus livros de estudo, e a alma me caiu entre as mãos. Sentia-me impelido a deter os transeuntes, a agarrar pelas mangas do paletó as pessoas que passavam e dizer-lhes: Expulsaram-me do Exército assim, sem motivo, compreendem? Eu acreditava que poderia trabalhar... trabalhar nos motores, consertar aeroplanos... e me expulsaram assim... sem motivo.
Dizia a mim mesmo:
— Lila, ah, vocês não a conhecem. Lila é minha irmã. Eu pensava, sabia que algum dia poderíamos ir ao cinema; em vez de comer fígado, comeríamos sopa com verduras, sairíamos aos domingos, eu a levaria a Palermo. Mas agora...
Não é uma injustiça? Digam vocês, não é uma injustiça?
Eu não sou uma criança. Tenho dezesseis anos. Por que me expulsam? Eu trabalharia tanto quanto qualquer um, e agora...
O que mamãe dirá? O que Lila dirá? Ah, se vocês a conhecessem. Ela é séria; na Escola Normal tira as melhores notas. Com o que eu ganhasse, comeriam melhor em casa. E agora, o que vou fazer...?
Já era noite quando, na rua Lavalle, perto do Palácio da Justiça, parei diante de um cartaz:
“Quartos mobiliados por um peso.”
Entrei no saguão, fracamente iluminado por uma lampadazinha elétrica, e paguei a quantia numa guarita de madeira. O dono, um homem gordo, em mangas de camiseta apesar do frio, conduziu-me a um pátio cheio de vasos pintados de verde e, apontando-me ao camareiro, gritou-lhe:
— Félix, este vai para o 24.
Olhei para cima. Aquele pátio era o fundo de um cubo cujas faces eram formadas pelas paredes de cinco andares de quartos com janelas cobertas por cortinas. Através de alguns vidros, viam-se paredes iluminadas; outras estavam escuras, e não sei de onde vinham algazarra de mulheres, risos abafados e barulho de panelas.
Subíamos por uma escada em caracol. O camareiro, um patife marcado pela varíola, com avental azul, ia à minha frente arrastando o espanador, cujas plumas desfiadas varriam o chão.
Por fim chegamos. O corredor, como o saguão, estava fracamente iluminado.
O camareiro abriu a porta e acendeu a lâmpada.
Eu lhe disse:
— Amanhã me acorde às cinco, não se esqueça.
— Está bem, até amanhã.
Exausto de tristeza e cisma, deixei-me cair numa cama.
O quarto: duas camas de ferro cobertas por colchas azuis com pequenas borlas brancas, um lavatório de ferro envernizado e uma mesinha imitando mogno. Num canto, o espelho do guarda-roupa refletia a porta almofadada.
Um cheiro acre flutuava no ar confinado entre as quatro paredes brancas.
Virei o rosto para a parede. A lápis, algum hóspede havia traçado um desenho obsceno.
Pensei:
— Amanhã irei para a Europa, talvez...
E, cobrindo a cabeça com o travesseiro, vencido pelo cansaço, adormeci. Foi um sono densíssimo, através de cuja escuridão deslizou esta alucinação:
Numa planície de asfalto, manchas de óleo violeta brilhavam tristemente sob um céu pardacento. No zênite, outro pedaço das alturas era de um azul puríssimo. Espalhados sem ordem, erguiam-se por toda parte cubos de cimento Portland.
Alguns eram pequenos como dados; outros, altos e volumosos como arranha-céus. De repente, do horizonte até o zênite, estendeu-se um braço horrivelmente magro. Era amarelo como um cabo de vassoura, e os dedos quadrados estendiam-se unidos.
Recuei apavorado, mas o braço horrivelmente magro continuava a se alongar e, ao me esquivar dele, eu diminuía, tropeçava nos cubos de cimento Portland, escondia-me atrás deles; espiando, mostrava o rosto por uma aresta, e o braço fino como um cabo de vassoura, com os dedos retesados, estava ali, sobre minha cabeça, tocando o zênite.
No horizonte, a claridade havia diminuído, ficando fina como o gume de uma espada.
Ali surgiu o rosto.
Era um pedaço de testa saliente, uma sobrancelha eriçada e depois um fragmento de mandíbula. Sob a pálpebra enrugada estava o olho, um olho de louco. A córnea imensa, a pupila redonda e de águas convulsas. A pálpebra piscou tristemente...
— Senhor, ei, senhor.
Incorporei-me sobressaltado.
— O senhor adormeceu vestido.
Olhei duramente para meu interlocutor.
— É verdade, tem razão.
O rapaz recuou alguns passos.
— Como seremos companheiros de quarto esta noite, tomei a liberdade de acordá-lo. Ficou aborrecido?
— Não, por quê?
E, depois de esfregar os olhos, incorporei-me e sentei-me à beira da cama. Observei-o:
A aba de um chapéu-coco preto sombreava-lhe a testa e os olhos. Seu olhar era falso, e o brilho aveludado que havia nele parecia tocar a própria epiderme. Tinha uma cicatriz junto ao lábio, perto do queixo, e seus lábios túmidos, vermelhos demais, sorriam no rosto branco. O sobretudo exageradamente apertado modelava as formas de seu corpo pequeno.
Perguntei-lhe bruscamente:
— Que horas são?
Com urgência, tirou o relógio de ouro.
— Quinze para as onze.
Sonolento, eu permanecia ali, hesitante. Agora olhava com desalento minhas botinas opacas, onde os fios de um remendo haviam se rompido, deixando ver pela abertura um pedaço da meia.
Enquanto isso, o adolescente pendurou o chapéu no cabide e, com um gesto de cansaço, atirou as luvas de couro sobre uma cadeira. Voltei a olhá-lo de esguelha, mas desviei os olhos porque percebi que ele me observava.
Vestia-se irrepreensivelmente e, desde o colarinho rígido e engomado até as botinas de verniz com polainas cor de creme, reconhecia-se nele um sujeito cheio de dinheiro.
Entretanto, não sei por que me ocorreu:
— Deve estar com os pés sujos.
Sorrindo com um sorriso mentiroso, voltou o rosto, e uma mecha de cabelo espalhou-se por sua face até cobrir-lhe o lóbulo de uma orelha. Com voz suave, examinando-me de lado com seu olhar carregado, disse:
— Parece que o senhor está cansado, não?
— Sim, um pouco.
Tirou o sobretudo, cujo forro de seda brilhou nas dobras. Uma fragrância gordurosa desprendia-se de suas roupas negras e, subitamente inquieto, considerei-o; depois, sem consciência do que lhe dizia, perguntei:
— O senhor não está com a roupa suja?
O outro percebeu meu sobressalto, mas encontrou uma resposta:
— Fez-lhe mal que eu o acordasse assim?
— Não, por que me faria mal?
— É que, jovem, a alguns faz mal. No internato, eu tinha um amiguinho que, quando era acordado bruscamente, tinha um ataque de epilepsia.
— Um excesso de sensibilidade.
— Sensibilidade de mulher, diga o senhor, não acha, jovem?
— Então seu amiguinho era um hiperestésico? Mas veja, rapaz, faça o favor de abrir essa porta, porque estou sufocando. Deixe entrar um pouco de ar. Aqui há cheiro de roupa suja.
O intruso franziu ligeiramente o cenho... Dirigiu-se à porta, mas, antes de chegar, alguns cartões caíram do bolso do paletó no chão.
Apressado, inclinou-se para recolhê-los, e aproximei-me dele.
Então vi: eram todas fotografias de homens e mulheres em diferentes formas de cópula.
O rosto do desconhecido ficou púrpura. Balbuciou:
— Não sei como vieram parar comigo, eram de um amigo.
Não lhe respondi.
De pé junto a ele, contemplava com terrível obstinação uma das imagens. Ele disse não sei o quê. Eu não o escutava. Olhava alucinado uma fotografia terrível. Uma mulher prostrada diante de um carregador ignóbil, com boné de pala de borracha preta, o corpo enrolado sobre o ventre...
Voltei o rosto para o rapaz.
Agora ele estava pálido, as pupilas vorazes enormemente dilatadas e, nas pálpebras enegrecidas, brilhava uma lágrima. Sua mão caiu sobre meu braço.
— Deixe-me ficar aqui, não me mande embora.
— Então o senhor... você é...
Arrastando-me, empurrou-me para a beira da cama e sentou-se a meus pés.
— Sim, sou assim, isso me dá por fases.
Sua mão apoiava-se em meu joelho.
— Dá-me por fases.
A voz do adolescente era profunda e amarga.
— Sim, sou assim... isso me dá por fases.
Uma tristeza amedrontada tremia em sua voz. Depois, sua mão apanhou a minha e colocou-a de lado sobre a própria garganta, apertando-a com o queixo. Falou muito baixo, quase num sopro:
— Ah, se eu tivesse nascido mulher. Por que esta vida será assim?
As veias batiam terrivelmente em minhas têmporas.
Ele me perguntou:
— Como você se chama?
— Silvio.
— Diga, Silvio, você não me despreza?... Mas não... você não tem cara de quem despreza... Quantos anos tem?
Com a voz rouca, respondi:
— Dezesseis... Mas você está tremendo?...
— Sim... você quer... quer que a gente vá...
De repente, eu o vi, sim, eu o vi... No rosto congestionado, os lábios sorriam... seus olhos também sorriam com loucura... e, subitamente, na queda precipitada de suas roupas, vi ondular a renda de uma camisa suja sobre a faixa de carne que longas meias de mulher deixavam livre nas coxas.
Lentamente, como sobre um muro caiado pelo luar, passou diante de meus olhos o semblante suplicante da menina imóvel junto à grade negra. Uma ideia fria, “se ela soubesse o que faço neste momento”, atravessou-me a vida.
Mais tarde, eu sempre me lembraria daquele instante.
Recuei, hostil, e, olhando para ele, disse devagar:
— Vá embora.
— O quê?
Ainda mais baixo, repeti:
— Vá embora.
— Mas...
— Vá embora, besta. O que você fez de sua vida?... de sua vida...?
— Não... não seja assim...
— Besta... O que você fez de sua vida?
E eu não encontrava palavras para lhe dizer, naquele instante, todas as coisas elevadas, preciosas e nobres que havia em mim e que instintivamente rejeitavam sua chaga.
O rapaz recuou. Contraía os lábios, mostrando os caninos; depois mergulhou na cama e, enquanto eu, vestido, entrava na minha, ele colocou os braços em arco sob a nuca e começou a cantar:
“Arroz com leite, quero me casar.”
Olhei-o de lado e depois, sem cólera, com uma serenidade que me espantava, disse:
— Se você não calar a boca, quebro seu nariz.
— O quê?!
— Sim, quebro seu nariz.
Então virou o rosto para a parede. Uma angústia horrível pairou no ar confinado. Eu sentia a fixidez com que seu pensamento espantoso atravessava o silêncio. E dele eu só via o triângulo de cabelos negros recortando a nuca e, depois, o pescoço branco, redondo, sem marcar os tendões.
Ele não se movia, mas a fixidez de seu pensamento se comprimia... moldava-se dentro de mim... e eu, atônito, permanecia rígido, caído no fundo de uma angústia que ia se solidificando em resignação. E, de vez em quando, espiava-o com o rabo do olho.
De repente, sua colcha se moveu e deixou descobertos os ombros, seus ombros leitosos, que surgiam do arco de renda formado sobre as clavículas pela camisa de cambraia...
Um grito suplicante de mulher explodiu no corredor para o qual dava meu quarto.
— Não... não... por favor...
E o choque surdo de um corpo contra a parede arqueou minha alma sobre o primeiro espanto. Cismei por um instante, depois saltei da cama e abri a porta no exato momento em que a porta do quarto da frente se fechava.
Apoiei-me no batente. Do quarto vizinho não vinha nada. Voltei e, deixando a porta aberta, sem olhar para o outro, apaguei a luz e me deitei...
Havia agora dentro de mim uma segurança poderosa. Acendi um cigarro e disse a meu companheiro de hospedagem:
— Escute, quem lhe ensinou essas porcarias?
— Com você não quero falar... você é mau...
Comecei a rir e depois, sério, continuei:
— Falando sério, você sabe que é um sujeito estranho? Como você é estranho! Em sua família, o que dizem de você? E esta casa? Você reparou nesta casa?
— Você é mau.
— E você é um santo, não?
— Não, mas sigo meu destino... porque eu não era assim antes, sabe? Eu não era assim...
— E quem fez você ficar assim, então?
— Meu professor, porque papai é rico. Depois que terminei o quarto ano, arranjaram um professor para me preparar para o primeiro ano do colégio nacional. Parecia um homem sério. Usava barba, uma barba loira e pontuda, e óculos. Seus olhos eram quase verdes de tão azuis. Conto tudo isso a você porque...
— E...?
— Eu não era assim antes... mas ele me fez assim... Depois, quando ele ia embora, eu saía para procurá-lo em sua casa. Tinha então catorze anos. Morava num apartamento da rua Juncal. Era um talento. Imagine que tinha uma biblioteca do tamanho destas quatro paredes juntas. Também era um demônio, mas como gostava de mim! Eu ia à casa dele, o criado me fazia entrar no quarto... imagine que ele havia comprado para mim todo tipo de roupas de seda, perfumadas de baunilha. Eu me fantasiava de mulher.
— Como se chamava?
— Para que quer saber o nome?... Tinha duas cátedras no colégio nacional e se matou enforcando-se...
— Enforcando-se?
— Sim, enforcou-se na latrina de um café... Mas como você é bobo!... Ha... ha... Não acredite... é mentira... Não é uma história bonita?
Irritado, eu lhe disse:
— Veja, rapaz, deixe-me em paz; vou dormir.
— Não seja mau, escute... como você é inconstante... Não vá acreditar no que falei agora... Eu lhe dizia a pura verdade... é verdade... O professor se chamava Próspero.
— E o senhor continuou assim até agora?
— E o que eu faria?
— Como assim, o que faria? Por que não procura algum médico... algum especialista em doenças nervosas? Além disso, por que é tão sujo?
— Porque está na moda, muitos gostam de roupa suja.
— O senhor é um degenerado.
— Sim, você tem razão... sou maluco... mas o que quer que eu faça? Veja... às vezes estou em meu quarto... anoitece... acredite, é como uma rajada... sinto o cheiro dos quartos mobiliados... vejo a luz acesa, então não consigo resistir... é como se um vento me arrastasse, e saio... vejo os donos das casas de quartos mobiliados...
— Os donos, para quê?
— Naturalmente, sair procurando é triste; nós nos entendemos com dois ou três proprietários e, assim que cai num quarto um rapaz que vale a pena, eles nos avisam pelo telefone.
Depois de um longo silêncio, sua voz tornou-se mais firme e séria. Eu diria que falava consigo mesmo, com toda a sua aflição.
— Por que não nasci mulher?... Em vez de ser um degenerado... sim, um degenerado... eu teria sido uma moça de família, teria me casado com algum homem bom, cuidaria dele... e gostaria dele... em vez de... assim... andar de cama em cama, e os desgostos... aqueles vagabundos de chapéu branco e sapatos de verniz que conhecem você e o perseguem... e roubam até suas meias.
Ah, se eu encontrasse alguém que gostasse de mim para sempre, para sempre.
— Mas o senhor está louco! Ainda alimenta essas ilusões?
— O que você sabe? Tenho um amiguinho que há três anos vive com um funcionário do Banco Hipotecário... e como ele gosta dele...
— Mas isso é uma bestialidade...
— O que você sabe?... Se eu pudesse, daria todo o meu dinheiro para ser mulher... uma mulherzinha pobre... e não me importaria de ficar grávida e lavar roupa, desde que ele gostasse de mim... e trabalhasse para mim...
Ao escutá-lo, eu estava atônito.
Quem era aquele pobre ser humano que pronunciava palavras tão terríveis e novas?... Que não pedia nada além de um pouco de amor?
Levantei-me para acariciar-lhe a testa.
— Não toque em mim! — vociferou. — Não toque em mim. Meu coração vai estourar. Vá embora.
Agora eu estava imóvel em minha cama, receoso de que algum ruído meu o despertasse para a morte.
O tempo transcorria lentamente, e minha consciência, descentrada pela estranheza e pelo cansaço, recolhia no espaço a dor silenciosa da espécie.
Ainda acreditava ouvir o som de suas palavras... na escuridão, seu rostinho contraído pela tristeza desenhava uma careta de angústia e, com a boca ressecada pela febre, exclamava no escuro:
— E não me importaria de ficar “grávida” e lavar roupa, desde que ele gostasse de mim e trabalhasse para mim.
Ficar “grávida”. Como aquela palavra se tornava suave em seus lábios:
— Ficar grávida.
Então todo o seu mísero corpo se deformaria, mas “ela”, gloriosa daquele amor tão profundo, caminharia entre as pessoas sem vê-las, vendo apenas o semblante daquele a quem se submetia tão dócil.
Aflição humana! Quantas palavras tristes ainda estavam escondidas nas entranhas do homem.
O barulho de uma porta fechada com violência me despertou. Acendi apressadamente a lâmpada. O adolescente havia desaparecido, e sua cama não conservava vestígio algum de desordem.
Sobre o canto da mesa, estendidos, havia dois bilhetes de cinco pesos. Recolhi-os com avidez. No espelho refletia-se meu semblante empalidecido, a córnea sulcada por fios de sangue e as mechas de cabelo caídas sobre a testa.
Baixinho, uma voz de mulher implorou no corredor:
— Apresse-se, por Deus... se eles souberem...
Soou distintamente o tilintar de uma campainha elétrica.
Abri a janela que dava para o pátio. Uma rajada de ar úmido me fez estremecer. Ainda era noite, mas, lá embaixo, no pátio, dois criados se moviam ao redor de uma porta iluminada.
Saí.
Já na rua, meu nervosismo se dissipou. Entrei numa leiteria e tomei um café. Todas as mesas estavam ocupadas por vendedores de jornais e cocheiros. No relógio pendurado sobre uma pueril cena bucólica, soaram cinco badaladas.
De repente, lembrei-me de que toda aquela gente tinha um lar, vi o rosto de minha irmã e saí desesperado para a rua.
Outra vez se amontoaram em meu espírito as aflições da vida, as imagens que eu não queria ver nem recordar, e, rangendo os dentes, caminhava pelas calçadas escuras, por ruas de estabelecimentos comerciais defendidos por cortinas metálicas e tapumes de madeira.
Atrás daquelas portas havia dinheiro; os donos daqueles estabelecimentos dormiriam tranquilamente em seus quartos luxuosos, e eu, como um cão, vagava ao acaso pela cidade.
Estremecido de ódio, acendi um cigarro e, maldosamente, atirei o fósforo aceso sobre um vulto humano que dormia encolhido num pórtico; uma pequena chama ondulou nos farrapos e, de repente, o miserável se ergueu disforme como uma sombra, e eu saí correndo, ameaçado por seu enorme punho.
Numa casa de compra e venda do Paseo de Julio, comprei um revólver, carreguei-o com cinco projéteis e depois, saltando para um bonde, dirigi-me às docas.
Tentando realizar meu desejo de ir para a Europa, subia apressado pelas escadinhas de corda dos transatlânticos e oferecia-me para qualquer trabalho durante a travessia aos oficiais que conseguia encontrar. Cruzava corredores, entrava em camarotes estreitos abarrotados de malas, com sextantes pendurados nas paredes, trocava palavras com homens uniformizados que, voltando-se bruscamente quando eu lhes falava, mal compreendiam meu pedido e me dispensavam com um gesto mal-humorado.
Por cima das passarelas, via-se o mar tocando o declive do céu e o velame das embarcações muito distantes.
Caminhava alucinado, aturdido pela agitação incessante, pelo ranger dos guindastes, pelos apitos e pelas vozes dos carregadores que descarregavam grandes volumes.
Experimentava a sensação de estar muito longe de casa, tão distante que, mesmo que voltasse atrás em minha decisão, já não poderia retornar até lá.
Então eu parava para conversar com os pilotos das chatas, que zombavam de minhas ofertas; às vezes, rostos de expressões tão bestiais surgiam das cozinhas fumegantes para me responder que, amedrontado, eu me afastava sem dizer nada. Caminhava pelas bordas das docas, com os olhos fixos nas águas violetas e gordurosas que, com ruído gutural, lambiam o granito. Estava fatigado. A visão das enormes chaminés oblíquas, o desenrolar das correntes nos cabos grossos, os gritos das manobras, a solidão dos mastros esbeltos, a atenção já dividida entre um rosto que surgia numa vigia e uma lingada suspensa por um guincho sobre minha cabeça, todo aquele movimento ruidoso, composto pelo entrecruzamento de vozes, apitos e choques, mostrava-me tão pequeno diante da vida que eu não sabia escolher uma esperança.
Uma trepidação metálica estremecia o ar da região portuária.
Das ruas de sombra formadas pelos altos muros dos armazéns, eu passava à terrível claridade do sol; às vezes, um empurrão me lançava para o lado; as flâmulas multicoloridas dos navios ondulavam ao vento; mais abaixo, entre o paredão negro e o casco vermelho de um transatlântico, os calafates martelavam incessantemente, e aquela representação gigantesca de poder e riqueza, de mercadorias amontoadas e animais esperneando suspensos no ar, enchia-me de angústia.
E cheguei à conclusão inevitável:
— É inútil, tenho que me matar.
Eu já havia previsto isso vagamente.
Em outras circunstâncias, a teatralidade que acompanha com lutos o catafalco de um suicida já me seduzira com seu prestígio.
Invejava os cadáveres em torno de cujos caixões soluçam mulheres belas e, ao vê-las inclinadas à beira dos ataúdes, minha masculinidade estremecia dolorosamente.
Então eu teria desejado ocupar o suntuoso leito dos mortos, ser como eles adornado de flores e embelezado pelo suave resplendor dos círios, receber nos olhos e na testa as lágrimas vertidas por donzelas enlutadas.
Não era a primeira vez que tinha aquele pensamento, mas naquele instante ele me contagiou com esta certeza:
— Eu não vou morrer... mas tenho que me matar.
E, antes que eu pudesse reagir, a singularidade daquela ideia absurda apoderou-se vorazmente de minha vontade.
— Não vou morrer. Não... eu não posso morrer... mas tenho que me matar.
De onde provinha aquela certeza ilógica que depois guiou todos os atos de minha vida...
Minha mente se limpou das sensações secundárias; eu era apenas uma pulsação do coração, um olho lúcido e aberto para o interior sereníssimo.
— Não vou morrer, mas tenho que me matar.
O conceito manifestava-se cristalino e distribuía por meus sentidos atentíssimos uma conformidade absoluta com a única razão que subsistia, imperiosa.
— Não vou morrer... eu não posso morrer... mas tenho que me matar.
Aproximei-me de um galpão de zinco. Não muito longe, uma turma de trabalhadores descarregava sacos de um vagão, e naquele lugar o calçamento estava coberto por um tapete amarelo de milho.
Pensei:
— Tem que ser aqui.
E, ao tirar o revólver do bolso, discerni subitamente:
— Não na têmpora, porque desfiguraria meu rosto, mas no coração.
Uma segurança inabalável guiava os movimentos de meu braço.
Perguntei a mim mesmo:
— Onde estará o coração?
Os golpes surdos dentro do peito indicaram-me sua posição.
Examinei o tambor. Continha cinco projéteis. Depois apoiei o cano do revólver sobre o paletó.
Uma ligeira vertigem fez meus joelhos vacilarem, e apoiei-me na parede do galpão.
Meus olhos detiveram-se na calçada amarela de milho, e apertei lentamente o gatilho, pensando...
— Não vou morrer.
E o percussor caiu... Mas, naquele brevíssimo intervalo que separava o percussor da espoleta, senti meu espírito dilatar-se num espaço de trevas.
Caí no chão.
Quando despertei na cama de meu quarto, um raio de sol desenhava no muro branco os contornos das sanefas que, no aposento, não eram visíveis através dos vidros.
Sentada à beira da cama estava minha mãe.
Inclinava a cabeça em minha direção. Tinha os cílios molhados, e seu rosto de faces chupadas parecia escavado num mármore enrugado pelo tormento.
Sua voz tremia:
— Por que você fez isso... ah, por que não me contou tudo? Por que fez isso, Silvio?
Olhei para ela. Uma terrível expressão de compaixão e remorso contraía meu rosto.
— Por que você não voltou para casa?... Eu não teria dito nada. Se é o destino, Silvio. O que seria de mim se o revólver tivesse disparado? Agora você estaria aqui, com seu pobre rostinho frio... Ah, Silvio, Silvio!
E uma lágrima pesada descia pela olheira avermelhada.
Senti que anoitecia dentro de meu espírito e apoiei a testa em seu colo, enquanto acreditava despertar numa delegacia, distinguindo, através da névoa da memória, um círculo de homens uniformizados que agitavam os braços ao meu redor.
Tradução brasileira integral de O Brinquedo Raivoso, romance de Roberto Arlt sobre juventude, pobreza, invenção, humilhação e revolta na Buenos Aires moderna. Edição Literunico preparada para a final da Copa do Mundo Literunico.
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