Leia agora
O Brinquedo Raivoso

Universo da obra

O Brinquedo Raivoso

Capítulo 4 · O Brinquedo Raivoso

Capítulo IV — Judas Iscariotes

4 de 4 ≈ 67 min de leitura

Capítulo IV

Judas Iscariotes

Monti era um homem ativo e nobre, excitável como um espadachim, esguio como um fidalgo. Seu olhar penetrante não desmentia o sorriso irônico dos lábios finos, sombreados por sedosos fios de bigode negro. Quando se enfurecia, as maçãs do rosto avermelhavam-se e o lábio tremia até o queixo encovado.

O escritório e depósito de papel de seu comércio ocupavam três cômodos que ele alugava de um judeu peleiro, e eram separados da fétida loja dos fundos do hebreu por um corredor sempre cheio de garotos ruivos e encardidos.

O primeiro cômodo era algo assim como escritório e exposição de papéis finos. Suas janelas davam para a rua Rivadavia, e os transeuntes, ao passar, viam corretamente alinhadas, numa estante de pinho-de-riga, resmas de papel salmão, verde, azul e vermelho, rolos de papel impermeável, raiado e duro, blocos de papel de seda e do papel chamado manteiga, cubos de etiquetas com flores policromas, maços de papel florido, de superfície rugosa, estampados com pálidos vasos.

Na parede azulada, uma gravura do golfo de Nápoles exibia o esmalte azul do mar imóvel junto à costa parda, salpicada de quadradinhos brancos: as casas.

Ali, quando Monti estava de bom humor, cantava com voz límpida e afinada: “A mare chiario che se de una puesta”.

Eu gostava de ouvi-lo. Cantava com sentimento; percebia-se que, ao cantar, evocava paisagens e momentos de sonho vividos em sua pátria.

Quando Monti me admitiu como vendedor comissionado, entregando-me um mostruário de papéis classificados pela qualidade e pelo preço, disse:

— Muito bem, agora vá vender. Cada quilo de papel rende três centavos de comissão.

Que começo duro!

Recordo que durante uma semana caminhei seis horas por dia, inutilmente. Aquilo era inverossímil. Não vendi um quilo de papel ao longo de quarenta e cinco léguas. Desesperado, entrava em quitandas, lojas e armazéns, rondava os mercados, fazia sala de espera para farmacêuticos e açougueiros, mas sempre em vão.

Uns me mandavam para o diabo da maneira mais cortês possível; outros me diziam que voltasse na semana seguinte; outros argumentavam: “Já tenho um vendedor que me atende há muito tempo”; outros não me davam atenção; alguns achavam minha mercadoria excessivamente cara, vários a julgavam ordinária demais e uns poucos, fina demais.

Ao meio-dia, chegando ao escritório de Monti, eu me deixava cair sobre uma pilastra formada por resmas de papel e permanecia em silêncio, atordoado de cansaço e desânimo.

Mario, outro vendedor, um malandro de dezesseis anos, alto como um álamo, só pernas e braços, zombava de minhas diligências estéreis.

Que tratante era aquele Mario! Parecia um poste de telégrafo terminado numa cabeça pequena, coberta por uma fabulosa floresta de cabelos crespos. Caminhava a passadas enormes, com uma pasta de couro vermelho debaixo do braço. Quando chegava ao escritório, atirava a pasta num canto e tirava o chapéu, um coco redondo tão besuntado de gordura que com ele se poderia lubrificar o eixo de uma carroça. Vendia como o diabo e estava sempre alegre.

Folheando uma caderneta encardida, lia em voz alta a longa lista de pedidos recolhidos e, escancarando a boca de baleote, ria até mostrar o fundo vermelho da garganta e duas fileiras de dentes salientes. Para fingir que a alegria lhe fazia doer o estômago, segurava-o com as duas mãos.

Por cima dos escaninhos da escrivaninha, Monti nos observava com um sorriso irônico. Cobria a testa larga com a mão, esfregava os olhos como se dissipasse preocupações e depois nos dizia:

— Não se deve desanimar, diávolo. Quer ser inventor e não sabe vender um quilo de papel.

Depois recomendava:

— É preciso ser constante. Todo comércio é assim. Enquanto não conhecem a pessoa, não querem fazer negócio. Numa loja dizem que já têm fornecedor. Não importa. É preciso voltar até o comerciante se acostumar a vê-lo e acabar comprando. E sempre “gentile”, porque é assim mesmo.

E, mudando de assunto, acrescentava:

— Venha esta tarde tomar café. Conversaremos um pouco.

Certa noite, na rua Rojas, entrei numa farmácia. O farmacêutico, um sujeito bilioso marcado pela varíola, examinou minha mercadoria, depois falou, e pareceu-me um anjo pelo que disse:

— Mande-me cinco quilos de papel de seda sortido, vinte quilos de papel liso especial e faça vinte mil envelopes, cada cinco mil com uma destas impressões: “Ácido bórico”, “Magnésia calcinada”, “Cremor tártaro”, “Sabão de campeche”. Mas o papel precisa estar aqui na segunda-feira bem cedo.

Tremendo de alegria, anotei o pedido, saudei com uma reverência o seráfico farmacêutico e me perdi pelas ruas. Era a primeira venda. Eu havia ganhado quinze pesos de comissão.

Entrei no mercado de Caballito, aquele mercado que sempre me fazia lembrar os mercados dos romances de Carolina Invernizio. Um salsicheiro obeso com cara de vaca, a quem eu importunara inutilmente em outras ocasiões, gritou para mim enquanto erguia a faca sobre um bloco de toucinho:

— Che, manda duzentos quilos de recorte especial, mas amanhã bem cedo, sem falta, a trinta e um.

Eu havia ganhado quatro pesos, apesar de reduzir um centavo por quilo.

Uma alegria infinita, uma alegria dionisíaca e inverossímil, dilatava meu espírito até as esferas celestes... e então, comparando minha embriaguez com a daqueles heróis dannunzianos que meu patrão criticava por suas magníficas poses, pensei:

Monti é um idiota.

De repente, senti apertarem meu braço. Virei-me bruscamente e me vi diante de Lucio, aquele insigne Lucio que fazia parte do Clube dos “Cavaleiros da Meia-Noite”.

Cumprimentamo-nos efusivamente. Desde a noite aventurosa eu não tornara a vê-lo, e agora ele estava diante de mim, sorrindo e olhando, como de costume, para todos os lados. Reparei que estava bem vestido, mais bem calçado e adornado, ostentando nos dedos imponentes anéis de ouro falso e uma pedra pálida na gravata.

Crescera; era um robusto pelafustão disfarçado de dândi. Completava aquela figura de malandro bem-arrumado um chapéu de feltro de abas largas, graciosamente enterrado na testa até as sobrancelhas. Fumava numa piteira de âmbar e, como homem que sabe tratar os amigos, depois dos primeiros cumprimentos convidou-me a tomar um chope numa cervejaria próxima.

Já sentados, depois de sorver a cerveja num só gole, o amigo Lucio disse com voz rouca:

— E você trabalha com quê?

— E você?... Vejo que virou um dândi, um figurão...

Um sorriso entortou-lhe a boca.

— Eu... eu me ajeitei.

— Então está indo bem... progrediu enormemente... mas, como não tenho a sua sorte, sou papeleiro... vendo papel.

— Ah! Você vende papel, para alguma firma?

— Sim, para um tal de Monti que mora em Flores.

— E ganha muito?

— Muito, não, mas dá para viver...

— Quer dizer que você se regenerou?

— Claro.

— Eu também trabalho.

— Ah, trabalha!

— Sim, trabalho. Aposto que não sabe em quê.

— Não, não sei.

— Sou agente da Investigação.

— Você!... Agente da Investigação? Você!

— Sim, por quê?

— Não, nada. Quer dizer que você é agente da Investigação?

— Por que isso o espanta?

— Não... de maneira nenhuma... você sempre teve inclinações... desde pequeno...

— Rá... mas olha, che, Silvio, é preciso se regenerar; a vida é assim, a “struggle for life” de Darwin...

— Como ficou erudito! E isso se come com quê?

— Eu me entendo, che, essa é a terminologia anarquista. Então você também se regenerou, trabalha e vai bem.

— Regurá, como dizia o basco; vendo papel.

— Então você se regenerou?

— Parece.

— Muito bem; outro meio, garçom... queria dizer outros dois meios, desculpa, che.

— E como é esse trabalho na Investigação?

— Não me pergunte, che Silvio, são segredos profissionais. Mas, mudando de assunto, você se lembra de Enrique?

— Enrique Irzubeta?

— Sim.

— De Irzubeta só sei que, depois que nos separamos, lembra...?

— Como não vou lembrar?

— Depois que nos separamos, fiquei sabendo que Grenuillet conseguiu despejá-los e que foram morar em Villa del Parque, mas nunca mais vi Enrique.

— É verdade; Enrique foi trabalhar numa agência de automóveis em Azul.

— E agora sabe onde ele está?

— Deve estar em Azul, ora essa.

— Não, não está em Azul. Está na cadeia...

— Na cadeia?

— Assim como eu estou aqui, ele está na cadeia.

— O que fez?

— Nada, che, a struggle for life... a luta pela vida, quer dizer. É uma expressão que aprendi com um padeiro galego que gostava de fabricar explosivos. Você não fabrica explosivos? Não se zangue, como era tão aficionado às bombas de dinamite...

Irritado com suas perguntas insidiosas, encarei-o fixamente.

— Está querendo me prender?

— Não, homem, por quê? Não se pode fazer uma brincadeira?

— É que parece que você quer arrancar alguma coisa de mim.

— Puxa... como você é esquisito! Já não se regenerou?

— Está bem, o que dizia de Enrique?

— Vou lhe contar: uma façanha gloriosa entre nós, uma coisa notável.

Acontece que, agora não me lembro se era na agência da Chevrolet ou da Buick onde Enrique trabalhava, confiavam nele... bem, para engambelar os outros aquele sempre foi mestre. Trabalhava no escritório, não sei bem como; o caso é que roubou uma folha do talão de cheques e imediatamente a falsificou no valor de cinco mil novecentos e cinquenta e três pesos. Veja só!

Na manhã em que pensa ir descontá-lo, o dono da agência lhe entrega dois mil e cem pesos para depositar no mesmo banco. Esse louco embolsa o dinheiro, vai à garagem da agência, tira um automóvel e tranquilamente se apresenta no banco, entrega o cheque e, agora vem o mais estranho, no banco pagaram o cheque falsificado.

— Pagaram!

— É incrível! Que falsificação devia ser! Bem, ele sempre teve aptidão. Lembra quando falsificou a bandeira da Nicarágua?

— Sim, desde pequeno servia para isso... mas continue.

— Bem, pagaram... agora vá saber se Enrique estava nervoso: sai com o carro e, duas quadras depois do mercado, num cruzamento, atropela um sulky... e teve sorte, a vara só lhe quebrou um braço; se o pegasse um pouco mais para o meio, atravessava-lhe o peito.

Ficou desmaiado. Levaram-no para um sanatório. Por acaso, o dono da agência ficou sabendo imediatamente do acidente e correu para o sanatório como gato atrás de bofe. O homem pediu ao médico as roupas de Enrique, porque devia haver dinheiro ou um comprovante de depósito... imagine a surpresa do sujeito... em vez de encontrar um comprovante, acha oito mil e cinquenta e três pesos. Nisso Enrique recobra os sentidos, o patrão lhe pergunta de onde vieram aqueles milhares, e ele não soube o que responder; foram ao banco e ali logo descobriram tudo.

— É colossal.

— Inacreditável. Li toda a reportagem sobre isso em “El Ciudadano”, um jornal de lá.

— E agora está preso?

— Na sombra, como ele dizia... mas vá saber por quanto tempo o condenaram. Tem a vantagem de ser menor de idade e, além disso, a família conhece gente influente.

— É curioso: o amigo Enrique vai ter um grande futuro.

— Invejável. Não era à toa que o chamavam de O Falsificador.

Depois nos calamos. Eu me lembrava de Enrique. Parecia estar novamente com ele no covil dos fantoches. Na parede vermelha, o raio de sol iluminava seu perfil magro de adolescente soberbo.

Com voz rouca, Lucio comentou:

— A struggle for life, che, uns se regeneram e outros caem; a vida é assim... mas vou embora, preciso assumir o serviço... caso queira me ver, aqui está meu endereço.

E me entregou um cartão.

Quando, depois de uma despedida espalhafatosa, encontrei-me longe dali, sozinho nas ruas iluminadas, ainda ressoava em meus ouvidos sua voz rouca:

— A struggle for life, che... uns se regeneram... outros caem... a vida é assim!

Agora eu me dirigia aos comerciantes com a segurança de um vendedor experiente e com a certeza de que meus esforços não seriam estéreis, pois o fato de já “ter vendido” logo me garantiu uma clientela medíocre, composta de feirantes, farmacêuticos com quem eu falava de ácido pícrico e outras bugigangas, livreiros e mais dois ou três tipos de menor proveito e mais manhosos para pechinchar.

A fim de não perder tempo, eu havia dividido os bairros de Caballito, Flores, Vélez Sársfield e Villa Crespo em zonas que percorria sistematicamente uma vez por semana.

Muito cedo deixava a cama e, a passos largos, dirigia-me aos bairros estabelecidos. Daqueles dias conservo a lembrança de um céu imenso e resplandecente sobre horizontes de casas pequenas e caiadas, de fábricas de muros vermelhos adornando os confins: jorros de verdura, ciprestes e arvoredos em torno das cúpulas brancas da necrópole.

Das ruas planas do arrabalde, miseráveis e sujas, inundadas de sol, com caixotes de lixo às portas, com mulheres barrigudas, desgrenhadas e esquálidas conversando nos umbrais e chamando os cães ou os filhos, sob o arco de um céu limpíssimo e diáfano, conservo uma lembrança fresca, elevada e bela.

Meus olhos bebiam avidamente a serenidade infinita, extática no espaço celeste.

Chamas ardentes de esperança e de sonho envolviam meu espírito, e de mim brotava uma inspiração tão feliz por ser cândida que eu não conseguia expressá-la em palavras.

E quanto mais vis eram os lugares onde eu comerciava, mais e mais me encantava a abóbada celeste. Recordo...

Aqueles armazéns, aqueles açougues do arrabalde!

Um raio de sol iluminava na escuridão as carcaças de carne rubro-negra penduradas em ganchos e cordas junto aos balcões de estanho. O chão estava coberto de serragem, no ar flutuava o cheiro de sebo, enxames negros de moscas fervilhavam nos pedaços de gordura amarela, e o açougueiro impassível serrava os ossos, batia nas costeletas com o dorso da faca... e lá fora... lá fora estava o céu da manhã, sereno e delicado, deixando cair de sua azulidade a doçura infinita da primavera.

Nada me preocupava no caminho, senão o espaço, liso como porcelana celeste no horizonte azul, com profundidade de golfo no zênite, um prodigioso mar alto e imóvel, onde meus olhos julgavam ver ilhotas, portos marítimos, cidades de mármore cercadas por florestas verdes e navios de mastros floridos deslizando entre harmonias de sereias rumo às feéricas cidades da alegria.

Caminhava assim, estremecido por uma deliciosa violência.

Parecia-me ouvir os rumores de uma festa noturna; no alto, os foguetes derramavam verdes cascatas de estrelas; embaixo, riam os gênios barrigudos do mundo, e os símios faziam malabarismos enquanto as deusas riam ouvindo a flauta de um sapo.

Com esses rumores festivos cantando em meus ouvidos, com aquelas visões navegando diante dos olhos, eu encurtava as distâncias sem perceber.

Entrava nos mercados, conversava com os “feirantes”, vendia ou discutia com clientes descontentes com as mercadorias recebidas. Costumavam tirar debaixo do balcão umas aparas de papel que só serviriam para fabricar serpentinas e dizer:

— E o senhor quer embrulhar o quê com estas tiras de papel?

Eu respondia:

— Ora, o “recorte” não pode ser grande como um lençol. De tudo há na vinha do Senhor.

Essas razões espaçosas não satisfaziam os comerciantes, que, tomando os colegas por testemunhas, juravam não comprar de mim nem mais um quilo de papel.

Então eu fingia me indignar, dizia algumas palavras pouco evangélicas e, com desenvoltura, entrava atrás do balcão, começava a remexer o fardo e a retirar folhas que, com um pouco de boa vontade, poderiam servir para amortalhar uma rês.

— E isto... por que não mostram isto? Pensam que eu mesmo vou escolher o recorte? Por que não compram recorte especial?

Assim eram as disputas com os indivíduos açougueiros e os cidadãos vendedores de peixe, gente rude, valentona e amiga de confusão.

Também me agradava, nas manhãs de primavera, “correr” pelas ruas percorridas por bondes, vestidas com os toldos do comércio. Deleitava-me o espetáculo dos grandes armazéns de interiores sombrios, das queijarias frescas como granjas, com enormes pilhas de manteiga nas prateleiras, das lojas com vitrines multicoloridas e senhoras sentadas junto aos balcões diante de leves rolos de tecidos; e o cheiro de tinta nas casas de ferragens e o cheiro de querosene nas mercearias confundiam-se em meus sentidos como o aroma fragrante de uma extraordinária alegria, de uma festa universal e perfumada cujo futuro cronista seria eu.

Nas gloriosas manhãs de outubro, senti-me poderoso, senti-me compreensivo como um deus.

Quando, cansado, entrava numa leiteria para tomar um refresco, a penumbra do lugar, a aparência da decoração, fazia-me sonhar com uma Alhambra inefável, e eu via os cármenes da distante Andaluzia, via as terras inclinadas ao pé da serra e, no fundo dos vales, a fita de prata dos riachos. Uma voz de mulher acompanhava-se ao violão e, em minha memória, o velho sapateiro andaluz reaparecia dizendo:

— José, zi era ma lindo que una rroza.

Amor, piedade e gratidão à vida, aos livros e ao mundo galvanizavam o nervo azul de minha alma.

Não era eu, mas o deus que habitava dentro de mim, um deus feito de pedaços de montanha, de florestas, de céu e de lembrança.

Quando havia vendido uma quantidade suficiente de papel, empreendia o regresso e, como os quilômetros se tornavam longos para percorrer a pé, agradava-me sonhar com coisas absurdas, por exemplo, que eu havia herdado setenta milhões de pesos, ou com coisas dessa natureza. Minhas quimeras se evaporavam quando, ao entrar no escritório, Monti me comunicava, indignado:

— O açougueiro da rua Remedios devolveu o recorte.

— Por quê?

— Sei lá... disse que não gostou.

— Que um raio parta esse sujeito.

É indescritível a sensação de fracasso produzida por aquele fardo de papel sujo, abandonado no pátio escuro, com as amarras refeitas, cheio de barro nas bordas, manchado de sangue e gordura, porque o açougueiro o havia remexido impiedosamente com as mãos engorduradas.

Esse gênero de devolução se repetia com demasiada frequência.

Prevenindo-me contra incidentes posteriores, eu costumava advertir o comprador:

— Veja: o recorte são as sobras do papel liso. Caso queira, mando recorte especial. Custa oito centavos a mais por quilo, mas dá para aproveitar tudo.

— Não importa, che — dizia o magarefe. — Mande o recorte.

Mas, quando o papel era entregue, pretendia que lhe descontassem alguns centavos por quilo ou então devolvia os pedaços muito rasgados, que, somando dois ou três quilos, faziam perder o lucro; ou não pagava, e então perdia-se tudo...

Aconteciam contratempos divertidíssimos, dos quais Monti e eu acabávamos rindo para não chorar de raiva.

Tínhamos entre os clientes um criador de porcos que exigia que os fardos de papel fossem entregues em sua casa num dia por ele determinado e numa hora previamente marcada, o que era impossível; outro devolvia a carga insultando o carroceiro quando não lhe apresentavam um recibo na forma estipulada pela lei, o que era supérfluo; outro não pagava o papel senão uma semana depois de começar a consumi-lo.

Nem falemos da ralé dos feirantes turcos.

Quando eu lhes pedia notícias de Al-Mutâmide, não me compreendiam ou davam de ombros, cortando um pedaço de bofe para o gato de alguma comadre descarada.

Depois, para vender-lhes, era preciso perder uma manhã, e isso para enviar a distâncias inverossímeis, por ruas de subúrbios desconhecidos, um mísero pacote de vinte e cinco quilos, do qual se lucravam setenta e cinco centavos.

O carroceiro, um homem taciturno de rosto sujo, ao regressar ao entardecer com o cavalo cansado e o papel que não fora entregue, dizia:

— Este não foi entregue.

E atirava o fardo ao chão com um gesto mal-humorado.

— Porque o açougueiro estava nos matadouros e a mulher disse que não sabia de nada e não quis receber. Este outro não mora no número indicado, porque ali é uma fábrica de alpargatas. E ninguém soube me informar onde fica esta rua.

Desatávamos a praguejar contra aquela gentalha que não reconhecia formalidades nem compromissos de espécie alguma.

Outras vezes, acontecia que Mario e eu recolhíamos um pedido do mesmo indivíduo e, quando lhe enviavam a encomenda, ele a recusava, dizendo que havia comprado a mercadoria de um terceiro que a oferecera por preço menor. Alguns tinham o descaramento de dizer que não haviam encomendado coisa alguma e, em geral, quando não existiam motivos, inventavam-nos.

Quando eu acreditava ter ganhado sessenta pesos numa semana, recebia apenas vinte e cinco ou trinta.

Mas e a gentinha! Os pequenos comerciantes, os lojistas e os farmacêuticos! Quanta exigência miúda, quantas informações e exames prévios!

Para comprar a insignificância de mil envelopes com a impressão de Magnésia ou Ácido Bórico, só o faziam depois de nos verem com frequência e de exigirem antecipadamente amostras de papel e tipos de impressão; no fim, diziam:

— Veremos. Passe na semana que vem.

Muitas vezes pensei que se poderia escrever uma filogenia e uma psicologia do pequeno comerciante, do homem que usa boné atrás do balcão e tem o rosto pálido e os olhos frios como lâminas de aço.

Ah, porque não basta apresentar a mercadoria!

Para vender, é preciso impregnar-se de uma sutileza “mercurial”, escolher as palavras e vigiar os conceitos, adular com circunspecção, conversar sobre aquilo em que não se pensa nem se acredita, entusiasmar-se por uma ninharia, acertar num gesto compungido, interessar-se vivamente por aquilo que não nos interessa nem um pouco, ser múltiplo, flexível e gracioso, agradecer com elegância uma insignificância, não se desconcertar nem se dar por ofendido ao ouvir uma grosseria, e sofrer, sofrer pacientemente o passar do tempo, os semblantes azedos ou mal-humorados, as respostas rudes e irritantes, sofrer para poder ganhar alguns centavos, porque “a vida é assim”.

Caso estivéssemos sozinhos nessa dedicação... mas é preciso compreender que, no mesmo lugar onde discorremos sobre as vantagens de fazer negócio conosco, passaram muitos vendedores oferecendo a mesma mercadoria em condições distintas, cada qual mais vantajosa para o comerciante.

Como explicar que um homem escolha outro entre muitos para beneficiar-se, beneficiando-o?

Não parecerá então exagerado dizer que entre um indivíduo e o comerciante se estabeleceram vínculos materiais e espirituais, uma relação inconsciente ou simulada de ideias econômicas, políticas, religiosas e até sociais, e que uma operação de venda, ainda que seja a de um pacote de agulhas, salvo necessidade urgente, encerra em si mais dificuldades que a solução do binômio de Newton.

Mas se fosse só isso!

Além do mais, é preciso aprender a dominar-se para suportar todas as insolências dos pequenos burgueses.

Em geral, os comerciantes são tolos astutos, indivíduos de baixa extração que enriqueceram à custa de sacrifícios penosíssimos, de furtos que a lei não pode punir e de adulterações que ninguém descobre ou que todos toleram.

O hábito da mentira cria raízes nessa canalha acostumada ao manejo de grandes ou pequenos capitais e enobrecida pelos créditos que lhe concedem um certificado de honorabilidade; por isso têm espírito de militares, isto é, habituados a tratar depreciativamente por você os seus inferiores, fazem o mesmo com os estranhos que precisam aproximar-se deles para poder prosperar.

Ah! Como ferem os gestos despóticos desses trapaceiros enriquecidos que, inexoráveis atrás das janelinhas do escritório, anotam seus lucros; como crispam em impulsos assassinos aquelas ventas ignóbeis que respondem:

— Deixe de conversa fiada, homem, nós compramos das casas principais.

No entanto, tolera-se, sorri-se e cumprimenta-se... porque “a vida é assim”.

Às vezes, ao terminar meu percurso, quando ficava no caminho, eu ia trocar dois dedos de prosa com o guardador de carroças da feira de Flores.

Ela era como tantas outras.

No fim de uma rua de casas com fachadas caiadas, coberta por um oceano de sol, a feira surgia inesperadamente.

O vento trazia um cheiro acre de verduras, e os toldos das barracas sombreavam os balcões de estanho dispostos paralelamente à calçada, no centro da rua.

Ainda tenho o quadro diante dos olhos.

Compunha-se de duas filas.

Uma formada por açougueiros, vendedores de porco, ovos e queijo; a outra, por verdureiros. A coluna prolongava-se berrante de policromia, churrigueresca de tonalidades, com seus homens barbados em mangas de camiseta junto aos cestos cheios de hortaliças.

A fila começava nas barracas dos peixeiros, com os cestos ocres manchados pelo vermelho dos camarões, o azul dos peixes-rei, o tom achocolatado dos mariscos, a lividez plúmbea dos caracóis e o branco de zinco das merluzas.

Os cães rondavam, disputando as tripas descartadas, e os comerciantes, com os braços peludos nus e um avental cobrindo-lhes o peito, agarravam o peixe pela cauda, a pedido das compradoras, abriam-lhe o ventre com uma facada, remexiam-no com as unhas até a espinha, eviscerando-o, e depois, com um golpe seco, partiam-no em dois.

Mais adiante, as vendedoras de dobradinha raspavam os buchos amarelados no estanho dos balcões ou penduravam enormes fígados vermelhos nos ganchos.

Dez gritos monótonos repetiam:

— Peeeixe-rei fresco... fresco, senhora.

Outra voz gritava:

— Aqui... aqui está o que é bom. Venham ver isto.

Pedaços de gelo cobertos de serragem vermelha derretiam lentamente à sombra sobre o lombo dos peixes encaixotados.

Ao entrar, eu perguntava na primeira barraca:

— O Rengo?

Com as mãos apoiadas nos quadris, o avental sujo inflado sobre a barriga, os feirantes gritavam com vozes fanhosas ou estridentes:

— Rengo, venha, Rengo!

E, como gostavam dele, riam com grossas gargalhadas ao chamá-lo; o Rengo, porém, reconhecendo-me de longe, caminhava devagar para desfrutar de sua popularidade, mancando ligeiramente. Quando encontrava diante de alguma barraca uma criada conhecida, tocava a aba do chapéu com o cabo do rebenque.

Parava e conversava, conversava sorrindo, mostrando os dentes tortos num eterno sorriso malicioso; de repente afastava-se, piscando de esguelha para os ajudantes dos açougueiros, que faziam gestos obscenos com os dedos.

— Rengo... che, Rengo... venha! — gritavam de outro lado.

O pelafustão virava o rosto anguloso para o lado, dizendo que esperassem, e abria caminho a cotoveladas entre as mulheres apinhadas diante das barracas; as que não o conheciam, as velhas gananciosas e resmungonas, as mulheres jovens biliosas e avaras, as moças linfáticas e pretensiosas, olhavam com amarga desconfiança, com aborrecimento mal disfarçado, para aquele rosto triangular avermelhado pelo sol, bronzeado pela desvergonha.

Era um brutamontes que gostava de apalpar o traseiro das mulheres aglomeradas.

— Rengo... venha, Rengo.

O Rengo desfrutava de sua popularidade. Além disso, como todos os grandes personagens da história, gostava de ter amigas, de cumprimentar as vizinhas, de banhar-se naquela atmosfera de zombaria e grosseria que entre um comerciante ordinário e uma comadre engordurada se estabelece imediatamente.

Quando falava de coisas sujas, seu rosto vermelho resplandecia como se tivesse sido untado com toucinho, e o círculo de vendedoras de dobradinha, verdureiros e vendedoras de ovos se regozijava com a imundície que salpicava as piadas do valentão.

Chamavam:

— Rengo... venha, Rengo!

E os açougueiros fornidos, os robustos filhos de napolitanos, toda aquela sujeira barbuda que ganhava a vida mal e miseravelmente, toda a gentalha magra e gorda, perversa e astuta, os vendedores de peixe e de frutas, os açougueiros e as vendedoras de manteiga, toda a canalha ávida por dinheiro se comprazia na malandragem do Rengo, na desvergonha do Rengo; e o Rengo olímpico, descarado e “milongueiro”, semelhante ao próprio símbolo da feira livre, avançava gingando pelo corredor semeado de talos, folhas de couve e cascas de laranja, com esta canção obscena presa aos lábios:

Era um pelafustão digno de toda estima. Abraçara a nobre profissão de guardador de carroças desde o dia em que ficara com uma lesão na perna em consequência da queda de um cavalo. Vestia sempre o mesmo traje, isto é, uma calça de lãzinha verde e um casaquinho que parecia de toureiro.

Enfeitava o pescoço, deixado livre pela camiseta preta, com um lenço vermelho. Um gorduroso chapéu de abas largas sombreava-lhe a testa e, em vez de botinas, calçava alpargatas de tecido violeta adornadas com arabescos rosados.

Com um chicote que nunca abandonava, percorria, mancando de um lado para outro, a fila de carroças, a fim de manter na linha os cavalos que, para se distrair, mordiam-se ferozmente.

Além do trabalho de guardador, o Rengo tinha seus penduricalhos de ladrão e, sendo cafetão por inclinação, não podia deixar de ser jogador por hábito. Em suma, era um patife amabilíssimo, de quem se podia esperar qualquer favor e também alguma patifaria.

Dizia ter estudado para ser jóquei e que ficara com aquela lesão na perna porque, por inveja, os companheiros haviam assustado seu cavalo num dia de prova; eu, porém, creio que não passara de tratador de esterco em alguma cavalariça.

Isso sim, conhecia mais nomes e virtudes de cavalos que uma beata conhecia santos do martirológio. Sua memória era um almanaque de Gotha da nobreza bestial. Quando falava de minutos e segundos, parecia que se ouvia um astrônomo; quando falava de si mesmo e da perda sofrida pelo país ao perder um jóquei como ele, a pessoa se sentia tentada a chorar.

Que vagabundo!

Quando eu ia vê-lo, ele abandonava as barracas onde conferenciava com certas concubinas e, pegando-me pelo braço, dizia a título de introdução:

— Passa um cigarro, que...

E, encaminhando-nos para a fila de carroças, subíamos naquela que tinha a melhor cobertura para nos sentarmos e conversar longamente.

Dizia:

— Sabe, passei a perna no turco Salomón. Ele esqueceu uma perna de carneiro na carroça, chamei o Pibe, um protegido meu, e falei: “Leva isto voando lá para o quarto”.

Dizia:

— Outro dia apareceu uma velha. Era uma mudança, uma tranqueirinha de nada... E eu estava seco... seco... Um mango, falei, e peguei a carroça do peixeiro.

Que corrida, irmão! Quando voltei eram nove e quinze, e o pangaré estava suado que dava medo. Aí peguei e sequei o bicho muito bem, mas o galego deve ter sacado, porque hoje e ontem apareceu um monte de vezes na fila, só para ver se a carroça estava lá. Agora, quando aparecer outra viagem, vou com a da vendedora de dobradinha.

E, observando meu sorriso, acrescentou:

— É preciso viver, che. Pense bem: o quarto custa dez mangos; no domingo fiz uma dupla com Sua Majestade, Vasquito e a Adorada... e Sua Majestade me mandou para o brejo.

Mas, percebendo dois vagabundos que rondavam disfarçadamente uma carroça na extremidade da fila, pôs a boca no mundo:

— Che, filhos de uma grande p..., o que estão fazendo aí?

E, erguendo o chicote, correu para a carroça. Depois de examinar cuidadosamente os arreios, voltou resmungando:

— Estou perdido caso me roubem um cabresto ou umas rédeas.

Nos dias chuvosos, eu costumava passar as manhãs em sua companhia.

Sob a cobertura de uma carroça, o Rengo improvisava poltronas estupendas com sacos e caixotes. Sabia-se onde ele estava porque nuvens de fumaça escapavam sob o arco do toldo. Para se entreter, o Rengo pegava o cabo de um chicote e, como se fosse um violão, semicerrava os olhos, tragava o cigarro com mais energia e, com voz arrastada, ora inflada de coragem, ora dolente de volúpia, cantava:

Tenho um outro quarto, “shofica”,
Que dá as onze antes da hora,
E que eu aluguei para ela;
E que eu aluguei para ela,
Para que namore sozinha.

Com o chapéu sobre a orelha, o cigarro fumegando sob o nariz e a camiseta entreaberta sobre o peito tostado, o Rengo parecia um ladrão e às vezes me dizia:

— Não é verdade, che Rubio, que tenho pinta de “chorro”?

Ou então contava em voz baixa, entre as longas baforadas de seu cigarro, histórias do arrabalde, lembranças de sua infância passada em Caballito.

Eram memórias de assaltos e rapinas, roubos em plena luz do dia, e os nomes de Cabecita de Ajo, o Inglés e os dois irmãos Arévalo apareciam continuamente entrelaçados nesses relatos.

Dizia o Rengo com melancolia:

— Sim, eu me lembro! Eu era um moleque. Eles estavam sempre na esquina de Méndez com Andes Bella Vista, encostados na vitrine do armazém de um galego. O galego era um “otário”. A mulher dormia com outros e tinha duas filhas na vida. Como me lembro! Ficavam sempre ali, tomando sol e provocando quem passava. Passava alguém de chapéu e nunca faltava quem gritasse:

— Quem comeu o pé de porco?

— O do chapéu — respondia outro.

— Eram uns “grelunes”! Assim que você “se rebelava”, eles “lhe davam uma surra”. Eu me lembro. Era uma hora. Vinha um turco. Eu estava com um pangaré na ferraria de um francês que havia em frente ao botequim. Foi num abrir e fechar de olhos. O chapéu do turco voou para o meio da rua, ele tentou sacar o revólver e, zás, o Inglés o derrubou com uma pancada. Arévalo “agarrou” a cesta e Cabecita de Ajo, o caixote. Quando apareceu o “tira”, só estavam lá o chapéu e o turco chorando, com o nariz torto.

O mais desalmado foi Arévalo. Era alto, moreno e caolho. Tinha algumas mortes nas costas. A última foi a de um cabo. Já estava com ordem especial de captura.

“Agarraram-no” certa noite com muitos outros sujeitos da vida num café que havia antes de chegar a San Eduardo. Revistaram-no e não carregava armas. Um cabo põe-lhe a corrente e o leva. Antes de chegar a Bogotá, no escuro, Arévalo tira uma faca que tinha escondida no peito, sob a camiseta, embrulhada em papel de seda, e a enterra até o cabo no coração dele.

O outro caiu morto, e Arévalo fugiu; foi esconder-se na casa de uma irmã que era passadeira, mas no dia seguinte o “agarraram”. Dizem que morreu tuberculoso por causa da surra que lhe deram com o “cassetete”.

Assim eram as narrativas do Rengo. Monótonas, sombrias e sanguinolentas. Terminadas as histórias, antes que chegasse a hora regulamentar para desmontar a feira, o Rengo me convidava:

— Venha, Rubio, vamos “requechar”?

— Vamos.

Com o saco no ombro, o Rengo percorria as barracas, e os feirantes, sem necessidade de que ele lhes pedisse, gritavam:

— Venha, Rengo, pegue.

E ele recolhia gordura, ossos carnudos; dos verdureiros, aquele que não lhe dava um repolho dava batatas ou cebolas; as vendedoras de ovos davam-lhe um pouco de manteiga; as vendedoras de dobradinha, um talho de fígado; e o Rengo jovial, com o chapéu inclinado sobre uma orelha, o chicote às costas e o saco na mão, passava soberbo como um rei diante dos comerciantes, e até os mais avarentos e os mais vis não se atreviam a negar-lhe uma sobra, porque sabiam que ele podia prejudicá-los de diversas maneiras.

Ao terminar, dizia:

— Venha comer comigo.

— Não, estão me esperando em casa.

— Venha, não seja otário. Fazemos um bife com batatas fritas. Depois toco o violão, e tem vinho, um vinhinho de San Juan que dá as doze antes da hora. Comprei um garrafão, porque dinheiro que não se gasta se “joga”...

Eu bem sabia por que o Rengo insistia para que eu almoçasse com ele. Devia querer consultar-me acerca de suas invenções, pois, sim, apesar de toda a sua vagabundagem, o Rengo tinha seus traços de inventor; o Rengo, que, segundo ele próprio dizia, fora criado “entre as patas dos cavalos”, em suas horas de sesta imaginava dispositivos e invenções para despojar o próximo de seu dinheiro. Recordo que um dia, depois de eu lhe explicar os prodígios da galvanoplastia, o Rengo ficou tão admirado que durante muitos dias tentou me convencer a instalarmos juntos uma fábrica de moeda falsa. Quando lhe perguntei de onde tiraria o dinheiro, respondeu:

— Eu conheço um sujeito que tem dinheiro. Se você quiser, apresento vocês e a gente se acerta.

— E então, vamos ou não vamos?

— Vamos.

De repente, o Rengo lançava um olhar investigador ao redor, para depois gritar com voz desagradável:

— Pibeee!

O Pibe, que estava brigando com outros vagabundos de sua laia, reaparecia.

Não tinha dez anos de idade nem quatro palmos de altura, mas, em seu rosto romboidal como o de um mongol, a miséria e toda a experiência da vagabundagem haviam lapidado rugas indeléveis.

Tinha o nariz achatado, os lábios grossos e pendentes e, além disso, era enormemente cabeludo, com uma lã crespa e cerrada em cujos anéis desapareciam as orelhas. Toda aquela figura aborígine e suja vestia uma calça que lhe chegava aos tornozelos e uma blusa preta de leiteiro basco.

O Rengo ordenou-lhe imperativamente:

— Pegue isso.

O Pibe jogou o saco às costas e partiu depressa.

Era criado, cozinheiro, arrumador e ajudante do Rengo.

Este o recolhera como se recolhe um cachorro e, em troca de seus serviços, vestia-o e alimentava-o; e o Pibe era um servidor fidelíssimo de seu amo.

— Olha só — contava-me ele —, outro dia, quando uma mulher abriu a bolsa numa barraca, caíram cinco pesos. O Pibe cobriu a nota com o pé e depois a apanhou.

Chegamos em casa e não havia nem um “meio” de carvão.

— Vá ver se vendem fiado.

— Não precisa — responde o maluco, e saca os cinco mangos.

— Caramba, nada mau.

— E daí direto para a “comilança”. E você não sabe o que ele faz?

— Conte.

— Mas veja só!... Uma tarde, vejo que ele sai. “Aonde você vai?”, pergunto.

— À igreja.

— “Vai se casar, para ir à igreja?”

— “Se liga”, e começa a me contar que, da caixa embutida na parede da entrada, onde põem as esmolas, vira aparecer a pontinha de uma moeda de um peso.

Acontece que a tinham enfiado apertada, e ele a tirou com um alfinete. E havia feito um ganchinho com outro alfinete para ir pescar dentro da caixa todos os pesos que houvesse. Dá para acreditar?...

O Rengo ria, e, se eu duvidava que o Pibe tivesse inventado aquele anzol, não duvidava, em compensação, de que o pescador fosse ele; mas não lhe disse isso e, dando-lhe palmadas nas costas, exclamei:

— Ah, Rengo, Rengo...!

E o Rengo ria com uma risada que lhe entortava os lábios e descobria os dentes.

Algumas vezes, à noite:

Piedade, quem terá piedade de nós?

Sobre esta terra, quem terá piedade de nós? Miseráveis, não temos um Deus diante de quem nos prostrar, e toda a nossa pobre vida chora.

Diante de quem me prostrarei, a quem falarei de meus espinhos e de minhas sarças duras, desta dor que nasceu na tarde ardente e que ainda vive em mim?

Como somos pequeninos, e a mãe terra não nos quis em seus braços, e eis-nos aqui, amargos, desmantelados pela impotência.

Por que nada sabemos de nosso Deus?

Oh! Se Ele viesse num entardecer e, silenciosamente, abrangesse com as mãos as nossas duas têmporas.

Que mais poderíamos pedir-lhe? Sairíamos caminhando com seu sorriso aberto nas pupilas e com lágrimas suspensas dos cílios.

Numa quinta-feira, às duas da tarde, minha irmã avisou-me que um indivíduo estava à porta esperando por mim.

Saí e, com a consequente surpresa, encontrei o Rengo mais decentemente vestido que de costume, pois substituíra o lenço vermelho por um modesto colarinho de tecido e trocara as alpargatas floridas por um par novíssimo de botinas.

— Olá, você por aqui...

— Está desocupado, Rubio?

— Estou, por quê?

— Então saia, precisamos conversar.

— Claro, espere um instante.

Entrei, pus rapidamente o colarinho, peguei o chapéu e saí. Nem é preciso dizer que suspeitei imediatamente de alguma coisa e, embora não pudesse imaginar o motivo da visita do Rengo, resolvi ficar alerta.

Já na rua, examinando-lhe o semblante, percebi que tinha algo importante para me comunicar, pois me observava às escondidas; mas contive a curiosidade, limitando-me a pronunciar um significativo:

— E então...?

— Faz dias que você não aparece na feira — comentou.

— É... estive ocupado... E você?

O Rengo tornou a me olhar. Como caminhávamos por uma calçada sombreada, começou a fazer observações sobre a temperatura; depois falou da pobreza, dos transtornos que lhe traziam os trabalhos cotidianos; também me contou que, na semana anterior, haviam-lhe roubado um par de rédeas e, quando esgotou o assunto, deteve-me no meio da calçada, agarrou-me pelo braço e soltou este exabrupto:

— Diga uma coisa, che Rubio, você é de confiança ou não?

— E para me perguntar isso me trouxe até aqui?

— Mas é ou não é?

— Olha, Rengo, diga você: confia em mim?

— Sim... eu confio... mas diga, dá para conversar com você?

— Claro, homem.

— Olha, então vamos entrar ali, tomar alguma coisa.

O Rengo encaminhou-se para o salão de bebidas de um armazém, pediu uma garrafa de cerveja ao lavador de copos, sentamo-nos numa mesa no canto mais escuro e, depois de beber, o Rengo disse, como quem se livra de uma grande carga:

— Preciso pedir um conselho, Rubio. Você é muito “científico”. Mas, por favor, che... estou te recomendando, Rubio.

Interrompi-o:

— Olha, Rengo, um momento. Não sei o que você vai me dizer, mas desde já aviso que sei guardar segredos. Não pergunto nem conto.

O Rengo depositou o chapéu sobre a cadeira. Ainda cismava e, em seu perfil de gavião, a irresolução mental fazia os músculos sobre as mandíbulas moverem-se ligeiramente por reflexo. Em suas pupilas ardia um fogo de coragem; depois, encarando-me com firmeza, explicou:

— É um golpe de mestre, Rubio. Dez mil mangos, no mínimo.

Olhei-o com frieza, aquela frieza que nasce quando descobrimos um segredo capaz de nos beneficiar imensamente, e repliquei para inspirar-lhe confiança:

— Não sei do que se trata, mas é pouco.

A boca do Rengo abriu-se lentamente.

— Você a-cha pou-co. Dez mil mangos, no mínimo, Rubio... no mínimo.

— Somos dois — insisti.

— Três — replicou.

— Pior ainda.

— Mas a terceira é minha mulher.

E, de repente, sem que eu entendesse sua atitude, tirou uma chave, uma pequena chave achatada, e, colocando-a sobre a mesa, deixou-a ali abandonada. Não toquei nela.

Concentrado, eu o fitava nos olhos. Ele sorria como se a loucura de um júbilo lhe dilatasse a alma; em certos momentos empalidecia. Bebeu dois copos de cerveja, um após o outro, enxugou os lábios com o dorso da mão e disse com uma voz que não parecia sua:

— Como a vida é linda!

Sem desviar os olhos dele, eu disse:

— Sim, a vida é linda, Rengo. É linda. Imagine os grandes campos, imagine as cidades do outro lado do mar. As mulheres que nos seguiriam; atravessaríamos como grandes “bacanas” as cidades do outro lado do mar.

— Sabe dançar, Rubio?

— Não, não sei.

— Dizem que lá os que sabem dançar tango se casam com milionárias... e eu vou embora, Rubio, vou embora.

— E o dinheiro?

Olhou-me com dureza; depois, uma alegria transformou-lhe o semblante e, em seu rosto de gavião, dilatou-se uma grande bondade.

— Se soubesse como eu “trabalhei” nisso, Rubio. Está vendo esta chave? É de uma caixa de ferro.

Enfiou a mão num bolso e, tirando outra chave mais comprida, continuou:

— Esta é da porta do quarto onde fica a caixa. Fiz numa noite, Rubio, só na lima. “Trabalhei” como um negro.

— Foi ela quem trouxe as chaves?

— Sim, a primeira está pronta há um mês; a outra fiz anteontem. Eu não parava de te esperar na feira, e você não aparecia.

— E agora?

— Quer me ajudar? Dividimos pela metade. São dez mil mangos, Rubio. Ontem ele pôs o dinheiro na caixa.

— Como sabe?

— E você me dá a metade?

— Sim, meio a meio. Tem coragem?

— Ele foi ao banco. Trouxe um maço enorme. Ela viu e me disse que todas as notas eram vermelhas.

Endireitei-me bruscamente na cadeira, fingindo estar tomado pelo entusiasmo.

— Meus parabéns, Rengo, o que você pensou é maravilhoso.

— Acha mesmo, Rubio?

— Nem um mestre teria planejado esse negócio como você. Nada de gazua. Tudo limpo.

— Verdade, hein...?

— Limpo, irmão. Escondemos a mulher.

— Não precisa. Já aluguei um quarto que tem porão; nos primeiros dias, “escondo” ela lá. Depois, vestida de homem, levo-a para o Norte.

— Quer sair daqui, Rengo?

— Sim, vamos...

A abóbada dos plátanos protegia-nos dos ardores do sol. O Rengo, meditando, deixava o cigarro fumegar entre os lábios.

— Quem é o dono da casa? — perguntei.

— Um engenheiro.

— Ah! É engenheiro?

— Sim, mas diga logo, Rubio, tem coragem?

— Por que não?... Tenho, homem... já estou cansado de andar vendendo papel.

Sempre a mesma vida: arrebentar-se por nada. Diga, Rengo, esta vida tem algum sentido? Trabalhamos para comer e comemos para trabalhar. “Porra nenhuma” de alegria, “porra nenhuma” de festas, e todos os dias a mesma coisa, Rengo. Isso já “enche o saco”.

— É verdade, Rubio, você tem razão... então topa.

— Sim.

— Então damos o golpe esta noite.

— Tão depressa?

— Sim, ele sai todas as noites. Vai ao clube.

— É casado?

— Não, mora sozinho.

— É longe daqui?

— Não. Uma quadra antes de Nazca. Na rua Bogotá. Se quiser, vamos ver a casa.

— É sobrado?

— Não, é térrea, tem jardim na frente. Todas as portas dão para a varanda. Há uma faixa de terra ao longo dela.

— E ela?

— É empregada.

— E quem cozinha?

— A cozinheira.

— Então ele tem dinheiro.

— Você precisa ver a casa. Tem cada móvel lá dentro!

— E a que horas vamos esta noite?

— Às onze.

— E ela estará sozinha?

— Sim, assim que termina o serviço, a cozinheira vai para casa.

— Mas isso é garantido?

— Garantido. O lampião fica a meia quadra; ela vai deixar a porta aberta, entramos e vamos direto ao escritório, pegamos a “grana”, dividimos ali mesmo e eu a levo para o esconderijo.

— E a “polícia”?

— A “polícia”... a “polícia” “agarra” quem tem ficha. Eu trabalho como guardador de carroças e, além disso, usamos luvas.

— Quer um conselho, Rengo?

— Dois.

— Está bem, preste atenção. A primeira coisa é não nos deixarmos ver por lá hoje. Algum vizinho pode nos reconhecer e nos mandar para o “buraco”. Além disso, não há motivo, já que você conhece a casa. Perfeitamente. Segundo: a que horas o engenheiro sai?

— Das nove e meia às dez, mas podemos ficar de tocaia.

— Abrir a caixa é questão de dez minutos.

— Nem isso, pois a chave já foi testada.

— Parabéns pela precaução... então podemos ir às onze.

— Sim.

— E onde nos encontramos?

— Em qualquer lugar.

— Não, precisamos ser prudentes. Estarei em Las Orquídeas às dez e meia. Você entra, mas não me cumprimenta nem nada. Senta-se em outra mesa e, às onze, saímos. Eu sigo você, você entra na casa e eu entro depois. Em seguida, cada um vai para um lado.

— Assim evitamos suspeitas. Está bem pensado... você tem revólver?

— Não.

De repente, a arma brilhou em sua mão e, antes que eu pudesse impedi-lo, ele a enfiou em meu bolso.

— Eu tenho outro.

— Não precisa.

— Nunca se sabe o que pode acontecer.

— E você seria capaz de matar?

— Eu?... Que pergunta! Claro!

— Ei!

Algumas pessoas que passaram nos fizeram calar. Do céu azul descia uma alegria que se filtrava em tristeza dentro de minha alma culpada. Lembrando-me de uma pergunta que não lhe fizera, disse:

— E como ela saberá que vamos esta noite?

— Dou o sinal por telefone.

— E o engenheiro não fica em casa durante o dia?

— Não. Se quiser, falo com ela agora.

— De onde?

— Daquela farmácia.

O Rengo entrou para comprar algumas aspirinas e saiu pouco depois. Já havia se comunicado com a mulher.

Suspeitei da combinação e, procurando esclarecer, repliquei:

— Você já contava comigo para este negócio, não é?

— Sim, Rubio.

— Por quê?

— Porque sim.

— Agora está tudo pronto.

— Tudo.

— Você tem luvas?

— Tenho.

— Eu ponho umas meias nas mãos, dá na mesma.

Depois nos calamos.

Durante toda a tarde, caminhamos ao acaso, com o pensamento perdido, ambos dominados por ideias diferentes.

Recordo que entramos numa cancha de bocha.

Ali bebemos, mas a vida girava ao nosso redor como a paisagem diante dos olhos de um bêbado.

Imagens havia muito adormecidas ergueram-se em minha consciência, semelhantes a nuvens; o resplendor solar feria-me as pupilas, um grande sono apoderava-se de meus sentidos e, por instantes, eu falava precipitadamente, sem pé nem cabeça.

O Rengo me escutava abstraído.

De repente, uma ideia sutil bifurcou-se em meu espírito. Senti-a avançar em minhas entranhas quentes; era fria como um fio de água e tocou-me o coração.

— E se eu o denunciasse?

Temeroso de que ele tivesse surpreendido meu pensamento, olhei sobressaltado para o Rengo, que, à sombra da árvore, contemplava com olhos sonolentos a cancha onde as bochas estavam espalhadas.

Aquele era um lugar sombrio, propício à elaboração de ideias ferozes.

A larga rua Nazca perdia-se no horizonte. Junto ao muro alcatroado de um edifício alto, o dono da taberna havia encostado seu cômodo de madeira pintado de verde e, pelo restante do terreno, estendiam-se paralelamente as faixas de terra cobertas de areia.

Várias mesas de ferro achavam-se distribuídas por diferentes pontos.

Pensei novamente:

— E se eu o denunciasse?

Com o queixo apoiado no peito e o chapéu caído sobre a testa, o Rengo adormecera. Um raio de sol incidia sobre uma de suas pernas, na calça manchada por grandes nódoas de gordura.

Então, um enorme desprezo enrijeceu meu espírito e, agarrando-o bruscamente pelo braço, gritei:

— Rengo.

— Hein... hein... o que foi?

— Vamos, Rengo.

— Aonde?

— Para casa. Preciso preparar a roupa. Esta noite damos o golpe e amanhã fugimos.

— É verdade, vamos.

Uma vez sozinho, vários temores se ergueram em meu entendimento. Vi minha existência prolongar-se entre todos os homens. A infâmia estendia minha vida entre eles; qualquer um deles poderia tocar-me com um dedo. E eu já não pertenceria a mim mesmo, nunca mais.

Dizia a mim mesmo:

— Porque, se eu fizer isso, destruirei a vida do homem mais nobre que conheci.

Se fizer isso, estarei condenado para sempre.

E ficarei sozinho, e serei como Judas Iscariotes.

Durante toda a vida carregarei uma pena.

Todos os dias carregarei uma pena!...

E vi-me prolongado pelos espaços da vida interior como uma angústia vergonhosa até para mim.

Então seria inútil tentar confundir-me com os desconhecidos. A lembrança, semelhante a um dente podre, estaria dentro de mim, e seu fedor turvaria todos os perfumes da terra; mas, à medida que situava o fato à distância, minha perversidade achava interessante a infâmia.

— Por que não?... Então guardarei um segredo, um segredo salgado, um segredo repugnante, que me levará a investigar qual é a origem de minhas raízes escuras. E, quando não tiver nada para fazer e estiver triste pensando no Rengo, perguntarei a mim mesmo: “Por que fui tão canalha?”, e não saberei responder, e nessa busca sentirei abrirem-se dentro de mim curiosos horizontes espirituais.

Além disso, este negócio pode ser proveitoso.

Na verdade, não pude deixar de dizer a mim mesmo, sou meio maluco, com certa mistura de patife; mas Rocambole não era menos: assassinava... eu não assassino. Por alguns francos, levantou falso testemunho contra “papai” Nicolo e o fez ser guilhotinado. A velha Fipart, que o amava como uma mãe, ele estrangulou; e matou... matou o capitão Williams, a quem devia seus milhões e seu marquesado. A quem ele não traiu...?

De repente, recordei com assombrosa nitidez esta passagem da obra:

“Rocambole esqueceu por um momento suas dores físicas. O prisioneiro, cujas costas estavam arroxeadas pela vara do Capataz, sentiu-se fascinado: pareceu-lhe ver desfilar diante de seus olhos, como um turbilhão embriagador, Paris, os Champs-Élysées, o Boulevard des Italiens, todo aquele mundo deslumbrante de luz e ruído em cujo seio vivera antes.”

Pensei:

— E eu?... Eu serei assim?... Não conseguirei levar uma vida faustosa como a de Rocambole?

E as palavras que antes eu dissera ao Rengo ressoaram outra vez em meus ouvidos, mas como se fossem pronunciadas por outra boca:

— “Sim, a vida é linda, Rengo... É linda. Imagine os grandes campos, imagine as cidades do outro lado do mar. As mulheres que nos seguiriam, e atravessaríamos como grandes ‘bacanas’ as cidades do outro lado do mar.”

Devagar, outra voz desenrolou-se em meu ouvido:

— Canalha... você é um canalha.

Minha boca se entortou. Recordei um cretino que morava ao lado de minha casa e dizia constantemente com voz anasalada:

— “Se eu não tenho culpa.”

— Canalha... você é um canalha...

— “Se eu não tenho culpa...”

— Ah! Canalha... canalha...

— Não me importa... e serei belo como Judas Iscariotes. Durante toda a vida carregarei uma pena... uma pena... A angústia abrirá diante de meus olhos grandes horizontes espirituais... mas que tanto inferno!... Eu não tenho direito...? Por acaso eu...? E serei belo como Judas Iscariotes... e durante toda a vida carregarei uma pena... mas... ah! A vida é linda, Rengo... é linda... e eu... eu acabo com você... degolo você... mando você para o “brejo”... sim, você... que é “esperto”... que é “manhoso”... eu acabo com você... sim, com você, Rengo... e então... então serei belo como Judas Iscariotes... e carregarei uma pena... uma pena... Porco!

Grandes manchas de ouro atapetavam o horizonte, de onde surgiam, em penachos de estanho, nuvens de tempestade circundadas por véus alaranjados em turbilhão.

Ergui a cabeça e, próximo ao zênite, entre lençóis de nuvens, vi uma estrela brilhar debilmente. Parecia um respingo de água trêmula numa fissura de porcelana azul.

Eu me encontrava no bairro indicado pelo Rengo.

As calçadas estavam sombreadas pelas copas frondosas de acácias e ligustros. A rua era tranquila, romanticamente burguesa, com grades pintadas diante dos jardins, pequenas fontes adormecidas entre os arbustos e algumas estátuas de gesso avariadas. Um piano soava na quietude do crepúsculo, e eu me senti suspenso pelos sons como uma gota de orvalho na ascensão de um caule. De uma roseira invisível chegou uma rajada tão intensa de perfume que, embriagado, vacilei sobre os joelhos, enquanto lia numa placa de bronze:

Arsenio Vitri — Engenheiro.

Era a única placa que indicava aquela profissão ao longo de três quadras.

À semelhança de outras casas, o jardim florido estendia seus canteiros diante da sala e interrompia-se ao chegar ao caminho de mosaicos que conduzia à porta envidraçada do vestíbulo; depois continuava em ângulo reto ao longo do muro lateral da casa. Sobre uma varanda, uma cúpula de vidro protegia da chuva a parte descoberta.

Detive-me e apertei o botão da campainha.

A porta envidraçada abriu-se e, enquadrada pelo batente, vi uma mulata de sobrancelhas unidas e olhar traiçoeiro, que me perguntou de maus modos o que eu queria.

Quando lhe perguntei se o engenheiro estava, respondeu que iria verificar, e voltou perguntando quem eu era e o que desejava. Sem me impacientar, respondi que me chamava Fernán González e era desenhista.

A mulata entrou novamente e, já mais apaziguada, mandou-me passar. Cruzamos diante de várias portas com as persianas fechadas; de repente, ela abriu uma das folhas de um escritório e, diante de uma escrivaninha, à esquerda de uma luminária com cúpula verde, vi uma cabeça grisalha inclinada. O homem me olhou, cumprimentei-o e ele fez sinal para que eu entrasse. Depois disse:

— Um momento, senhor, e já o atendo.

Observei-o. Era jovem, apesar dos cabelos brancos.

Havia em seu rosto uma expressão de cansaço e melancolia. O cenho era profundo, as olheiras fundas, formando um triângulo com as pálpebras, e as extremidades dos lábios ligeiramente caídas acompanhavam a distinção daquela cabeça, agora apoiada na palma de uma mão e inclinada sobre um papel.

Plantas e desenhos de edifícios luxuosos adornavam as paredes do aposento. Fixei os olhos numa biblioteca cheia de livros e já havia conseguido ler o título “Legislação de Águas” quando o senhor Vitri me perguntou:

— Em que posso servi-lo, senhor?

Baixando a voz, respondi:

— Perdoe-me, senhor, antes de tudo: estamos sozinhos?

— Suponho que sim.

— Permite-me uma pergunta talvez indiscreta? O senhor não é casado, não é?

— Não.

Agora ele me olhava seriamente, e seu rosto magro adquiria pouco a pouco, por assim dizer, uma firmeza que se transformava em outra ainda mais grave.

Apoiado no espaldar da poltrona, jogara a cabeça para trás. Seus olhos cinzentos examinavam-me com dureza; por um momento, fixaram-se no nó de minha gravata, depois se detiveram em minhas pupilas e pareciam esperar, imóveis em suas órbitas, surpreender em mim algo insólito.

Compreendi que precisava abandonar os rodeios.

— Senhor, vim dizer-lhe que esta noite tentarão roubá-lo.

Eu esperava surpreendê-lo, mas me enganei.

— Ah, sim... e como o senhor sabe disso?

— Porque fui convidado pelo ladrão. Além disso, o senhor retirou uma grande quantia de dinheiro do banco e a guarda na caixa de ferro.

— É verdade...

— O ladrão tem a chave dessa caixa e também a do cômodo onde ela fica.

— O senhor a viu?

Tirando o chaveiro do bolso, mostrou-me uma chave de entalhes excessivamente grossos.

— É esta?

— Não, é a outra.

E separei uma exatamente igual à que o Rengo me mostrara.

— Quem são os ladrões?

— O instigador é um guardador de carroças chamado Rengo, e a cúmplice é sua empregada.

— Eu imaginava.

— Ela tirou suas chaves durante a noite, e o Rengo fez outras iguais em poucas horas.

— E qual é a sua participação no caso?

— Eu... fui convidado para essa festa como um simples conhecido. O Rengo apareceu em minha casa e propôs que eu o acompanhasse.

— Quando ele o viu?

— Hoje, aproximadamente às duas da tarde.

— Antes disso, o senhor não sabia o que aquele sujeito preparava?

— O que ele preparava, não. Conheço o Rengo; nossas relações começaram quando eu vendia papel aos feirantes.

— Então o senhor era amigo dele... confidências assim só se fazem aos amigos.

Corei.

— Amigo, propriamente, não... mas sua psicologia sempre me interessou.

— Nada mais?

— Não. Por quê?

— Por nada... Mas a que horas vocês deveriam vir esta noite?

— Ficaríamos de tocaia até o senhor sair para o clube; depois, a mulata nos abriria a porta.

— O golpe está bem planejado. Qual é o endereço desse sujeito chamado Rengo?

— Condarco, 1375.

— Perfeitamente, tudo será resolvido. E o seu endereço?

— Caracas, 824.

— Muito bem, venha esta noite às dez. A essa hora tudo estará bem guardado. Seu nome é Fernán González.

— Não, troquei de nome por precaução, caso a mulata já soubesse, por intermédio do Rengo, de minha possível participação no caso. Meu nome é Silvio Astier.

O engenheiro apertou o botão da campainha e olhou ao redor; momentos depois, a criada apareceu.

O semblante de Arsenio Vitri permanecia impassível.

— Gabriela, o senhor virá amanhã de manhã buscar aquele rolo de plantas.

E apontou para um maço abandonado sobre uma cadeira.

— Mesmo que eu não esteja, entregue a ele.

Depois se levantou, apertou friamente minha mão, e saí acompanhado pela criada.

O Rengo foi detido às nove e meia da noite. Morava num sótão de madeira, numa casa de gente modesta. Os agentes que o esperavam souberam pelo Pibe que o Rengo aparecera, “remexera a bagagem e saíra”. Como ignoravam os lugares que ele costumava frequentar, apresentaram-se inesperadamente à dona da casa, identificaram-se como agentes da polícia e subiram por uma escada íngreme até o quarto do Rengo. À primeira vista, não havia ali nada que valesse a pena. No entanto, coisa inexplicável e absurda, penduradas num prego, à vista de qualquer pessoa que entrasse, encontravam-se as duas chaves: a da caixa de ferro e a da porta do escritório. Num caixote de querosene, entre alguns trapos velhos, acharam um revólver e, quase ocultos no fundo, recortes de jornais. Relatavam um assalto cujos autores a polícia não conseguira identificar.

Como as notícias dos jornais tratavam do mesmo crime, supôs-se, com razão, que o Rengo não fosse alheio àquela história e, por precaução, o Pibe foi detido, isto é, enviado à delegacia da seção na companhia de um agente.

No sótão havia também uma mesa branca de pinho-de-riga, com uma gaveta lateral. Ali se encontrou um pequeno torno de relojoeiro e um jogo de limas finas. Algumas denunciavam uso recente.

Apreendidas todas as provas do crime, a encarregada da casa foi novamente chamada.

Era uma velhota descarada e avarenta; um lenço preto envolvia-lhe a cabeça, com as pontas amarradas sob o queixo. Mechas de cabelos brancos caíam-lhe sobre a testa e sua mandíbula se movia com incrível rapidez quando falava. Seu depoimento pouco esclareceu sobre o Rengo. Conhecia-o havia três meses. Ele pagava pontualmente e trabalhava de manhã.

Interrogada sobre as visitas que o ladrão recebia, deu informações obscuras; mas se lembrava de “que, no domingo passado, uma negra chegou às três da tarde e saiu às seis junto com Antonio”.

Descartada qualquer possibilidade de cumplicidade, ordenaram-lhe absoluta discrição, que a velhota prometeu por medo de complicações posteriores, e os dois agentes voltaram ao sótão para esperar o Rengo, pois fora desejo explícito do engenheiro que ele fosse detido fora de sua casa, a fim de atenuar a pena que merecia. Talvez também tivesse pensado que eu não era completamente alheio à decisão do Rengo.

Os investigadores acreditavam que ele não apareceria; possivelmente jantaria em algum restaurante dos arredores e se embriagaria para criar coragem, mas se enganaram.

Naqueles dias, o Rengo havia ganhado dinheiro com algumas apostas duplas. Depois de se separar de mim, voltou ao sótão, para sair mais tarde em direção a um prostíbulo que conhecia. Quase na hora de fechar o comércio, entrou numa loja de malas e comprou uma valise.

Depois se dirigiu a seu quarto, completamente alheio ao que o esperava. Subiu a escada cantarolando um tango, cujas notas tornavam mais distintos os golpes intermitentes da valise contra os degraus.

Quando abriu a porta, deixou-a no chão.

Depois enfiou uma das mãos no bolso para tirar a caixa de fósforos e, naquele instante, um golpe terrível no peito o fez recuar, enquanto outro policial o agarrava pelo braço.

Não há dúvida de que o Rengo compreendeu do que se tratava, pois, fazendo um esforço desesperado, conseguiu se soltar.

Ao tentarem persegui-lo, os policiais tropeçaram na valise, e um deles rolou pela escada; o revólver caiu-lhe do bolso e disparou.

O estampido encheu de espanto os moradores da casa e, equivocadamente, aquele tiro foi atribuído ao Rengo, que nem sequer conseguira transpor a porta da rua.

Então aconteceu uma coisa horrível.

O filho da velhota, açougueiro de profissão, informado pela mãe do que estava acontecendo, pegou o bastão e lançou-se em perseguição ao Rengo.

Alcançou-o depois de trinta passos. O Rengo corria arrastando a perna inútil; de repente, o bastão caiu sobre seu braço. Ele virou a cabeça e o pau ressoou sobre seu crânio.

Atordoado pelo golpe, ainda tentou defender-se com uma das mãos, mas o investigador que chegara passou-lhe uma rasteira, e outra bastonada, que o atingiu no ombro, terminou por derrubá-lo. Quando lhe puseram as algemas, o Rengo soltou um grande grito de dor:

— Ai, mãezinha!

Depois, outro golpe o fez calar, e viram-no desaparecer pela rua escura, com os pulsos presos pelas algemas que os agentes retorciam com raiva enquanto marchavam a seu lado.

Quando cheguei à casa de Arsenio Vitri, Gabriela já não estava lá.

Sua prisão fora efetuada poucos momentos depois que eu saíra.

Um oficial de polícia, chamado para isso, lavrou o processo diante do engenheiro. A mulata recusou-se, a princípio, a confessar qualquer coisa, mas, quando lhe disseram, mentindo, que o Rengo havia sido detido, começou a chorar.

As testemunhas daquele ato jamais esqueceriam a cena.

A mulher escura, encurralada, com os olhos brilhantes, olhava para todos os lados como uma fera que se prepara para saltar.

Tremia extraordinariamente; mas, quando insistiram em que o Rengo estava preso e sofreria por causa dela, começou a chorar suavemente, com um pranto tão delicado que o cenho dos circunstantes se aprofundou... de repente, ergueu os braços, os dedos detiveram-se no coque dos cabelos, arrancou dali um pente e, espalhando a cabeleira pelas costas, disse, juntando as mãos e olhando como enlouquecida para os presentes:

— Sim, é verdade... é verdade... vamos... vamos para onde Antonio está.

Levaram-na à delegacia numa carruagem.

Arsenio Vitri recebeu-me em seu escritório. Estava pálido, e seus olhos não me encararam quando disse:

— Sente-se.

Inesperadamente, com voz inexpressiva, perguntou:

— Quanto lhe devo por seus serviços?

— Como...?

— Sim, quanto lhe devo?... Porque ao senhor só se pode pagar.

Compreendi todo o desprezo que ele me atirava ao rosto.

Empalidecendo, levantei-me.

— É verdade, a mim só se pode pagar. Guarde o dinheiro que não lhe pedi. Adeus.

— Não, venha, sente-se... diga-me: por que fez isso?

— Por quê?

— Sim, por que traiu seu companheiro, e sem motivo? Não sente vergonha de ter tão pouca dignidade na sua idade?

Vermelho até a raiz dos cabelos, respondi:

— É verdade... Há momentos em nossa vida em que sentimos necessidade de ser canalhas, de nos sujar por dentro, de cometer alguma infâmia, sei lá... de destruir para sempre a vida de um homem... e, depois de fazer isso, poderemos voltar a caminhar tranquilos.

Vitri já não me olhava no rosto. Seus olhos estavam fixos no nó de minha gravata, e seu semblante adquiria sucessivamente uma seriedade que se transformava em outra mais terrível.

Prossegui:

— O senhor me insultou e, no entanto, não me importa!

— Eu poderia ajudá-lo — murmurou.

— O senhor poderia me pagar, e agora nem isso, porque, por minha tranquilidade, sinto-me, apesar de toda a minha canalhice, superior ao senhor.

E, irritando-me de repente, gritei:

— Quem é o senhor?... Ainda me parece um sonho ter denunciado o Rengo.

Com voz suave, replicou:

— E por que está assim?

Um enorme cansaço apoderava-se rapidamente de mim, e deixei-me cair na cadeira.

— Por quê? Deus sabe. Ainda que passem mil anos, não conseguirei esquecer o rosto do Rengo. O que será dele? Deus sabe; mas a lembrança do Rengo estará sempre em minha vida, será em meu espírito como a lembrança de um filho perdido. Ele poderá vir cuspir em meu rosto, e eu não lhe direi nada.

Uma tristeza enorme atravessou minha vida. Mais tarde, eu me lembraria para sempre daquele instante.

— Sim, é assim — balbuciou o engenheiro e, de repente, inclinando-se para mim, com os olhos brilhantes fixos no nó de minha gravata, murmurou como se sonhasse:

— O senhor disse. É assim. Cumpre-se uma lei brutal que existe dentro de nós. É assim. Cumpre-se a lei da ferocidade. É assim; mas quem lhe disse que isso é uma lei? Onde aprendeu isso?

Respondi:

— É como um mundo que de repente desabasse sobre nós.

— Mas o senhor havia previsto que um dia se tornaria como Judas?

— Não, mas agora estou tranquilo. Caminharei pela vida como se fosse um morto. Vejo a vida assim, como um grande deserto amarelo.

— Essa situação não o preocupa?

— Para quê? A vida é tão grande. Há um momento, pareceu-me que aquilo que fiz estava previsto havia dez mil anos; depois, acreditei que o mundo se abria em duas partes, que tudo adquiria uma cor mais pura e que nós, os homens, não éramos tão desgraçados.

Um sorriso infantil apareceu no rosto de Vitri. Ele disse:

— O senhor acha?

— Sim, algum dia isso acontecerá... acontecerá, e as pessoas andarão pelas ruas perguntando umas às outras: “Isso é verdade, é verdade?”

— Diga-me uma coisa: o senhor nunca esteve doente?

Compreendi o que ele pensava e, sorrindo, continuei:

— Não... já sei o que o senhor pensa... mas escute... eu não estou louco. Há uma verdade, sim... e é que sinto que a vida será extraordinariamente linda para mim. Não sei se as pessoas sentem a força da vida como eu sinto, mas há dentro de mim uma alegria, uma espécie de inconsciência cheia de alegria.

Uma súbita lucidez permitia-me agora discernir os motivos de minhas ações anteriores, e continuei:

— Eu não sou perverso, sou um curioso desta força enorme que existe dentro de mim.

E me calei.

— Continue, continue...

— Tudo me surpreende. Às vezes, tenho a sensação de que cheguei à Terra há apenas uma hora e de que tudo é novo, novíssimo, belo. Então eu abraçaria as pessoas na rua, pararia no meio da calçada para lhes dizer: “Mas por que vocês andam com esses rostos tão tristes? A Vida é linda, linda...” O senhor não acha?

— Acho...

— E saber que a vida é linda me alegra; parece que tudo se enche de flores... dá vontade de ajoelhar e agradecer a Deus por nos ter feito nascer.

— E o senhor acredita em Deus?

— Acredito que Deus é a alegria de viver. Se o senhor soubesse! Às vezes, parece-me que tenho uma alma tão grande quanto a igreja de Flores... e sinto vontade de rir, de sair à rua e distribuir socos amistosos nas pessoas...

— Continue...

— Não está entediado...?

— Não, continue...

— A questão é que não se pode dizer essas coisas às pessoas. Elas nos tomariam por loucos. E eu me pergunto: “O que faço com esta vida que há dentro de mim?” E gostaria de dá-la... presenteá-la... aproximar-me das pessoas e dizer: “Vocês precisam ser alegres! Sabem? Precisam brincar de piratas... construir cidades de mármore... rir... soltar fogos de artifício...”

Arsenio Vitri levantou-se e, sorrindo, disse:

— Tudo isso está muito bem, mas é preciso trabalhar. Em que posso ajudá-lo?

Refleti por um instante, depois disse:

— Veja, eu gostaria de ir para o Sul... para Neuquén...

Para lá, onde há gelo e nuvens... e grandes montanhas... gostaria de ver a montanha...

— Perfeitamente, eu o ajudarei e conseguirei um emprego para o senhor em Comodoro; mas agora vá embora, porque preciso trabalhar. Em breve lhe escreverei... Ah! E não perca sua alegria; sua alegria é muito bonita.

E sua mão apertou fortemente a minha. Tropecei numa cadeira... e saí.

O Brinquedo Raivoso

Sinopse

Tradução brasileira integral de O Brinquedo Raivoso, romance de Roberto Arlt sobre juventude, pobreza, invenção, humilhação e revolta na Buenos Aires moderna. Edição Literunico preparada para a final da Copa do Mundo Literunico.

O Brinquedo Raivoso

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de O Brinquedo Raivoso

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral O Brinquedo Raivoso Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 4 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de O Brinquedo Raivoso

Capa de O Brinquedo Raivoso
Continue a leitura Capítulo IV — Judas Iscariotes Capítulo 4 · 4 de 4 · ≈ 67 min
Todos os capítulos 4 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir