As brincadeiras da noite

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As brincadeiras da noite

Capítulo 1 · As brincadeiras da noite

As brincadeiras da noite

Às vezes, à noite, quando a mãe chora no quarto e apenas passos desconhecidos estrondam pela escada, Åke tem uma brincadeira para brincar em vez de chorar. Brinca de ser invisível e de poder ir aonde quiser só de pensar nisso. Nessas noites, há apenas um lugar para onde desejar ir e, assim, de repente Åke está lá. Não sabe como chegou, sabe apenas que se encontra dentro de um aposento. Não sabe como ele é, porque não tem olhos para isso, mas o lugar está cheio de fumaça de cigarros e cachimbos, e ali os homens de repente caem na risada, sem motivo e de um jeito assustador, e mulheres que não conseguem falar de modo compreensível se inclinam sobre uma mesa e riem de maneira igualmente terrível. Aquilo corta Åke como facas, mas mesmo assim ele está feliz por estar ali. Sobre a mesa em torno da qual todos se sentam há várias garrafas e, assim que um copo se esvazia, uma mão desenrosca a tampa e volta a enchê-lo.

Åke, que está invisível, deita-se no chão e engatinha para debaixo da mesa sem que nenhum dos que estão sentados perceba. Na mão leva uma broca invisível e, sem hesitar um só instante, encosta-a no tampo da mesa e começa a furar para cima. Logo atravessa a madeira, mas Åke continua furando. Fura o vidro e, de repente, quando atravessa o fundo da garrafa, a aguardente escorre num jato fino e uniforme pelo buraco na mesa. Ele reconhece os sapatos do pai debaixo da mesa e não se atreve a pensar no que aconteceria se de repente voltasse a ficar visível. Mas então Åke ouve, com um arrepio de alegria, o pai dizer: Beberam tudo, e outra pessoa concorda: É mesmo, porra, e depois todos se levantam no aposento onde Åke está.

Åke segue o pai escada abaixo e, quando chegam à rua, conduz o pai, sem que este perceba, até um ponto de táxi, sussurra o endereço certo ao motorista e permanece no estribo durante todo o trajeto para ter certeza de que estão mesmo seguindo na direção correta. Quando faltam apenas alguns quarteirões para chegarem em casa, Åke deseja estar de volta e lá está ele outra vez, no fundo do sofá da cozinha, ouvindo o carro parar lá embaixo na rua; só quando ele torna a arrancar Åke percebe que não era aquele, pois tinha parado diante da porta do prédio vizinho. Portanto, o carro certo ainda está a caminho, talvez tenha sido apanhado por algum engarrafamento na próxima esquina, talvez tenha parado diante de um ciclista que caiu, pois é, muita coisa pode acontecer com os carros.

Por fim, porém, chega um carro que parece ser o certo. Alguns prédios antes do de Åke, começa a reduzir a velocidade, passa devagar pelo prédio vizinho e para com um pequeno rangido bem diante da porta correta. Uma porta se abre, uma porta bate, alguém assobia enquanto faz moedas tilintarem. O pai nunca costuma assobiar, mas nunca se sabe. Por que não poderia começar a assobiar de repente? O carro arranca e dobra a esquina, e então a rua fica completamente silenciosa. Åke aguça o ouvido e escuta na direção da escada, mas em momento algum a porta de entrada bate depois de alguém entrar. Em momento algum se ouve aquele pequeno estalo gorgolejante de quando alguém acende a luz da escada. Em momento algum se ouve o ruído abafado de passos subindo uma escada.

Por que fui deixá-lo tão cedo, pensa Åke, bem que eu poderia ter ido junto até a porta, já que estávamos tão perto. Agora, é claro, ele está lá embaixo, perdeu a chave e não consegue entrar. Talvez fique zangado, vá embora e só volte quando a porta estiver aberta amanhã de manhã. E ele não sabe assobiar, senão com certeza assobiaria para mim ou para a mamãe jogar a chave lá embaixo.

Fazendo o mínimo de barulho possível, Åke passa por cima da borda do sofá que sempre range e, no escuro, esbarra na mesa da cozinha; fica com o corpo inteiro paralisado, em pé sobre o revestimento de cortiça frio, mas a mãe soluça alto e regularmente, como a respiração de quem dorme, e portanto não ouviu nada. Ele continua até a janela e, quando chega, afasta devagar a persiana e olha para fora. Não há viva alma na rua, mas a lâmpada sobre a porta da frente do outro lado está acesa. Ela acende ao mesmo tempo que a luz da escada. Nesse aspecto, é igual à lâmpada sobre a porta de Åke.

Depois de algum tempo, Åke começa a sentir frio e volta na ponta dos pés para o sofá. Para não precisar esbarrar na mesa, passa a mão ao longo da pia e, de repente, as pontas de seus dedos tocam alguma coisa fria e afiada. Deixa os dedos procurarem por um instante e então agarra o cabo da faca de trinchar. Quando volta a se enfiar no sofá, leva a faca consigo. Coloca-a ao lado do corpo, sob a coberta, e torna a ficar invisível. Assim, está no mesmo aposento de antes, parado à porta, observando os homens e as mulheres que mantêm o pai prisioneiro. Compreende que, para o pai ficar livre, precisa libertá-lo da mesma maneira como Viking libertou o missionário quando este estava amarrado a um poste e prestes a ser assado pelos canibais.

Åke então se aproxima sorrateiro, ergue sua faca invisível e a crava nas costas do gordo sentado mais perto do pai. O gordo morre e Åke continua em torno da mesa; um a um, eles escorregam das cadeiras sem saber direito o que aconteceu. Depois de libertar o pai, Åke o leva pelos muitos lances de escada e, como não se ouve carro algum na rua, os dois descem os degraus muito devagar, atravessam a rua e tomam um bonde. Åke dá um jeito de o pai conseguir um assento dentro do vagão e espera que o condutor não perceba que ele bebeu um pouco, espera que o pai não diga nada impróprio ao condutor nem caia na risada daquele jeito, sem ter coisa alguma de que rir.

O canto do bonde noturno numa curva distante penetra inexoravelmente na cozinha, e Åke, que já deixou o bonde e está deitado outra vez no sofá, percebe que a mãe parou de soluçar durante o breve tempo em que esteve fora. A persiana do quarto voa até o teto com um estampido terrível e, depois que o estrondo se dissipa, a mãe abre a janela. Åke gostaria de poder saltar da cama, correr para o quarto e gritar para ela que pode muito bem fechar a janela de novo, baixar a persiana e ir se deitar em paz, porque agora ele vai chegar de qualquer maneira. “Ele vem neste bonde, porque eu mesmo o ajudei a subir!” Mas Åke compreende que não adiantaria fazer isso, pois ela não acreditaria nele de qualquer forma. Ela não sabe o que ele faz por ela quando estão sozinhos à noite e ela pensa que ele está dormindo. Não sabe que viagens ele empreende e em que aventuras se lança por causa dela.

Quando o bonde para no ponto atrás da esquina, ele também está à janela, olhando pela fresta entre a persiana e o caixilho. Os primeiros a dobrar a esquina são dois rapazes que devem ter saltado do bonde ainda em movimento; trocam socos de brincadeira e moram no prédio novo do outro lado, na diagonal. As pessoas que desceram fazem algazarra atrás da esquina e, quando o bonde desponta com seu farol e atravessa devagar, chacoalhando, a rua de Åke, pequenos grupos de pessoas aparecem e depois desaparecem em diferentes direções. Um homem de andar cambaleante e chapéu na mão como um mendigo avança diretamente para a porta de Åke, mas não é o pai de Åke, é o porteiro do prédio.

Åke, no entanto, continua ali, esperando. Ele bem sabe que existem coisas capazes de deter um passageiro de bonde atrás da esquina; há várias vitrines, inclusive a de uma sapataria, e o pai pode estar parado ali escolhendo um par de sapatos para si, por exemplo, antes de subir. A quitanda também tem uma vitrine com cartazes pintados à mão, diante da qual muita gente costuma parar porque há neles uns homenzinhos muito engraçados. Mas a quitanda também tem uma máquina automática que vive enguiçando, e é possível que o pai tenha enfiado nela uma moeda de vinte e cinco öre para comprar uma caixa de Läkerol para Åke e agora não consiga abrir a portinhola.

Enquanto Åke está à janela esperando que o pai consiga se desvencilhar da máquina, a mãe sai de repente do quarto e passa pela cozinha. Como ela está descalça, Åke não ouviu nada, mas ela não pode tê-lo notado, pois continua até o vestíbulo. Åke solta a persiana e fica completamente imóvel na escuridão total, enquanto a mãe procura alguma coisa entre as roupas de sair. Devia ser um lenço, pois pouco depois ela assoa o nariz e volta para o quarto. Apesar de estar descalça, Åke percebe que ela anda com um cuidado especial para não acordá-lo. Assim que entra no quarto, a mãe fecha a janela e baixa a persiana com um puxão forte e rápido. Depois se deita depressa na cama e os soluços recomeçam, como se ela só conseguisse soluçar deitada ou precisasse começar a soluçar assim que se deitasse.

Depois de olhar mais uma vez para a rua e encontrá-la completamente vazia, exceto por uma mulher que se deixa acariciar por um marinheiro na porta do outro lado, Åke volta sorrateiro ao sofá e acha que parece ter deixado alguma coisa cair quando o revestimento de cortiça de repente range sob seus pés. Agora ele está terrivelmente cansado, o sono ondula sobre ele como neblina enquanto caminha e, através dessa neblina, percebe passos que batem forte na escada, mas passos na direção errada: de cima para baixo. Assim que entra debaixo da coberta, desliza, contrariado mas depressa, para as águas do sono, e as últimas ondas que se fecham sobre sua cabeça são suaves como soluços.

Ainda assim, o sono é tão frágil que não consegue mantê-lo afastado daquilo que o ocupava quando desperto. É verdade que não ouviu o carro frear diante da porta, o estalo da luz da escada sendo acesa nem os passos subindo, mas a chave que entra na fechadura também perfura o sono e, de uma só vez, ele está acordado e a alegria cai sobre ele como um raio, queimando desde os dedos dos pés até a testa. Mas então a alegria desaparece com a mesma rapidez, sumida numa fumaça de perguntas. Aqui Åke tem uma pequena brincadeira, que pratica toda vez que acorda desse modo. Brinca que o pai atravessa depressa o vestíbulo e se coloca bem entre a cozinha e o quarto para que os dois possam ouvi-lo quando grita: Um colega caiu de um andaime e eu tive de acompanhá-lo ao hospital, fiquei com ele a noite inteira e não pude telefonar porque não havia telefone por perto; ou: Vocês acreditam que ganhamos o prêmio máximo da loteria e só estou chegando tão tarde porque queria mantê-los na expectativa pelo maior tempo possível?; ou: Vocês acreditam que hoje o chefe me deu uma lancha de presente, acabei de sair para testá-la e amanhã de manhã nós três vamos embora nela. O que me dizem!

Na realidade, porém, as coisas acontecem mais devagar e, acima de tudo, de maneira não tão surpreendente. O pai não encontra o interruptor no vestíbulo. Por fim desiste e esbarra num cabideiro, que cai no chão. Xinga o cabideiro e tenta levantá-lo, mas em vez disso derruba uma mala encostada na parede. Então desiste disso também e procura um gancho para o sobretudo, mas, quando enfim encontra um, o sobretudo escorrega mesmo assim e cai no chão com um baque surdo. Apertado contra a parede, o pai percorre então os poucos passos até o banheiro, abre a porta e a deixa aberta, acende a luz e, como tantas vezes antes, Åke fica completamente imóvel, ouvindo os respingos no chão. Depois o pai apaga a luz, esbarra na porta, xinga e entra no quarto através da cortina cerrada, que farfalha como se quisesse morder.

Então tudo fica completamente silencioso. O pai permanece lá dentro sem dizer uma palavra, ouve-se um leve rangido dos sapatos e sua respiração é pesada e irregular, mas só há essas duas coisas para tornar tudo ainda mais terrivelmente silencioso, e nesse silêncio um novo raio cai sobre Åke. É o ódio que queima dentro dele, e ele aperta o cabo da faca até a palma da mão doer, mas não sente dor alguma. O silêncio, porém, dura apenas um instante. O pai começa a se despir. O paletó, o colete. Joga as peças numa cadeira. Recosta-se num armário e deixa os sapatos caírem dos pés. A gravata esvoaça. Depois dá mais alguns passos para dentro do quarto, isto é, na direção da cama, e fica parado enquanto começa a dar corda no relógio. Então tudo volta a ficar em silêncio, tão terrivelmente silencioso quanto antes. Só o relógio mastiga o silêncio como um rato, o relógio roedor do bêbado.

E então acontece aquilo que o silêncio espera. A mãe dá um arranco desesperado na cama e os gritos jorram de sua boca como sangue.

— Seu diabo, diabo, diabo, desgraçadodesgraçadodesgraçado — grita ela, até a voz morrer e tudo ficar em silêncio. Só o relógio rói e rói, e a mão que aperta a faca está toda molhada de suor. A angústia na cozinha é tão grande que não poderia ser suportada sem uma arma, mas por fim Åke fica tão cansado de sentir um medo tão terrível que simplesmente despenca de cabeça no sono, sem resistir. No fundo da noite, desperta por algum tempo e ouve, pela porta aberta, a cama do quarto ranger e um murmúrio suave encher o aposento. Não sabe direito o que aquilo significa, apenas que são dois sons tranquilizadores, que indicam que a angústia recuou por aquela noite. Ainda segura a faca; solta-a e a empurra para longe, tomado por uma ânsia ardente por si mesmo, e, no exato instante em que adormece, brinca da última das brincadeiras da noite, aquela que lhe traz a calma definitiva.

A definitiva — mas aqui não existe fim algum. Quando já é quase seis da tarde, a mãe entra na cozinha, onde ele está sentado à mesa fazendo a lição de matemática. Ela simplesmente lhe tira o caderno e o puxa do sofá com uma das mãos.

— Vá falar com seu pai — diz ela, arrastando-o consigo até o vestíbulo e postando-se atrás dele para bloquear a retirada —, vá falar com seu pai e diga, da minha parte, que o dinheiro é para você.

Os dias são piores que as noites. As brincadeiras da noite são muito melhores que as do dia. À noite é possível ser invisível e correr pelos telhados até onde se é necessário. De dia não dá para ser invisível. De dia não se vai tão depressa, de dia brincar não é tão bom. Åke sai pela porta e não está nem um pouco invisível. O filho do porteiro o puxa pelo casaco e quer jogar bolinha de gude, mas Åke sabe que a mãe está lá em cima, à janela, vigiando-o até ele desaparecer na esquina, e por isso se desvencilha sem dizer uma palavra e sai correndo como se alguém o perseguisse. Mas, assim que dobra a esquina, começa a andar o mais devagar que consegue e a contar as placas da calçada e as marcas de cuspe sobre elas. O filho do porteiro o alcança, mas Åke não lhe responde, pois não se pode dizer a alguém que se está procurando o pai, que ainda não trouxe o salário para casa. Por fim, o filho do porteiro também se cansa, e Åke chega cada vez mais perto do lugar do qual não quer se aproximar. Brinca que está se afastando cada vez mais dele, mas isso não é verdade de jeito nenhum.

Mesmo assim, passa direto pelo café da primeira vez. Passa tão perto do vigia que este resmunga alguma coisa atrás dele. Entra numa ruazinha lateral e para diante do prédio onde fica a oficina do pai. Depois de algum tempo, atravessa o portão de veículos e entra no pátio; brinca que o pai ainda está ali, escondido em algum lugar atrás dos tonéis ou dos sacos para que Åke venha procurá-lo e o encontre. Åke levanta as tampas dos tonéis de tinta e, a cada vez, fica igualmente surpreso por o pai não estar encolhido dentro de um deles. Depois de procurar no pátio por quase meia hora, acaba compreendendo que o pai não pode estar escondido ali e volta.

Ao lado do café há uma loja de porcelanas e uma relojoaria. Primeiro Åke fica algum tempo olhando a vitrine da loja de porcelanas. Tenta contar os cachorros, primeiro os de cerâmica expostos na vitrine, depois os que consegue avistar quando protege os olhos com a mão e examina as prateleiras e os balcões dentro da loja. O relojoeiro acaba de sair e baixa a grade diante da vitrine, mas, pelas frestas, Åke ainda consegue ver os relógios de pulso que continuam tiquetaqueando lá dentro. Olha também para o relógio da Hora Certa e pensa que deixará o ponteiro dos minutos dar dez voltas antes de entrar.

Quando o vigia está discutindo com um homem que lhe mostra alguma coisa num jornal, Åke entra sorrateiro no café e corre direto para a mesa certa, para que gente demais não o veja. A princípio o pai não o nota, mas um dos outros pintores faz um gesto com a cabeça para Åke e diz:

— Parece que seu garoto está aqui.

O pai põe o filho no colo e roça a barba por fazer em sua bochecha. Åke tenta não olhar nos olhos dele, mas, de vez em quando, acaba fascinado pelos veios vermelhos no branco dos olhos.

— O que você quer, menino? — diz o pai, mas a língua está mole e pastosa dentro de sua boca, e ele precisa repetir a mesma coisa mais duas vezes antes de se dar por satisfeito.

— Eu precisava de dinheiro.

Então o pai o coloca devagar no chão, inclina-se para trás e ri tão alto que os companheiros precisam pedir silêncio. Enquanto ri, tira do bolso o porta-moedas, remove com dificuldade o elástico que o envolve e procura por muito tempo até encontrar a moeda de uma coroa mais brilhante.

— Tome, Åke — diz ele —, vá comprar umas guloseimas com o dinheiro, menino.

Os outros pintores não querem ficar atrás e Åke recebe uma coroa de cada um. Segura as moedas na mão enquanto, esmagado pela vergonha e pela confusão, abre caminho entre as mesas até a saída. Tem tanto medo de que alguém o veja quando sai correndo, passando pelo vigia, conte tudo na escola e diga que ontem à noite viu Åke saindo de um café onde servem cerveja. Mesmo assim, ele para por algum tempo diante da vitrine da relojoaria e, enquanto o ponteiro gira dez vezes em torno de seu centro, permanece ali, apertado contra a grade, sabendo que também terá de brincar naquela noite, mas sem saber qual dos dois, por quem brinca, odeia mais.

Quando depois dobra lentamente a esquina, encontra o olhar da mãe uns dez metros acima e caminha para a porta tão devagar quanto se atreve. Ao lado da porta há um depósito de lenha, e ele se atreve a se ajoelhar por um instante e olhar pela janela para um velho que recolhe carvão num balde preto. Quando o velho está quase terminando, a mãe aparece atrás dele. Ela o puxa para cima e o segura pelo queixo para apanhar seu olhar.

— O que ele disse? — sussurra ela. — Ou você foi covarde outra vez?

— Ele disse que vinha agora mesmo — sussurra Åke de volta.

— E o dinheiro?

— Feche os olhos, mamãe — diz Åke, e brinca da última das brincadeiras do dia.

E, enquanto a mãe fecha os olhos, Åke deposita devagar as quatro moedas de uma coroa na mão estendida dela e depois sai correndo pela rua, com os pés escorregando nas pedras porque estão com tanto medo. Um grito crescente o persegue ao longo das paredes dos prédios, mas não o detém. Ao contrário, faz com que corra ainda mais depressa.

As brincadeiras da noite

Sinopse

Durante as noites em que o pai não volta e a mãe chora, Åke transforma a espera em brincadeiras secretas: fica invisível, atravessa a cidade e tenta conduzir o pai para casa. A imaginação oferece abrigo, mas não apaga o medo nem as lealdades contraditórias de uma criança entre dois adultos feridos.

Stig Dagerman publicou "Nattens lekar" em 1947, como conto de abertura da coletânea homônima. Esta edição do Literunico apresenta uma nova tradução brasileira feita diretamente do sueco, a partir do e-book da Litteraturbanken identificado por lb8081629. A edição-base não possui restrições autorais conhecidas e o e-book institucional é oferecido sob CC0.

Texto original em domínio público no Brasil. Tradução editorial e capa: Literunico, 2026. Fonte consultada: Litteraturbanken.

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