Universo da obra
Universo da obra
De certo tempo para cá, uma nova moléstia tem feito irrupção em Paris, por outra, em toda a França; eu poderia mesmo acrescentar que se vai estendendo também aos países estrangeiros. Sossegai, querido leitor e formosa leitora (eu acho sempre as minhas leitoras formosíssimas), esta moléstia não é de aquelas de que se morre, ou que podem desfigurar as vossas lindas feições (folgo também de crer que possuis umas feições encantadoras); é simplesmente a mania dos autógrafos, que traz quase sempre após si a dos álbuns.
Quando um homem tem a fortuna—parece-me que seria melhor dizer a desgraça!—enfim, quando um homem tem alguma celebridade, não se passa dia algum em que não receba pedidos de autógrafos, ou não veja entrar-lhe em casa um sujeito, que lhe é inteiramente desconhecido, mas que traz debaixo do braço um objeto bastante volumoso, cuidadosamente embrulhado em papel e metido em uma caixa de cartão. Este sujeito, depois de muitos cumprimentos e de essas frases banais que se dizem a toda e qualquer pessoa de quem se deseja obter alguma coisa, desembrulha o objeto que traz debaixo do braço, tira o papel, abre a caixa, e mostra-nos um álbum mais ou menos bem encadernado, mas no qual há ainda uma grandíssima quantidade de folhas em branco; depois diz-nos com a sua voz mais insinuante:
—Meu caro senhor, eu possuo já no meu álbum muitos nomes celebres; mas falta-me o seu, o seu que é indispensável à minha felicidade! Por quem é não me recuse o que lhe venho pedir! faça-me o obséquio de escrever algumas linhas em uma de estas páginas em branco, o que quiser, a mais pequena coisa, não exijo que seja em verso... Entretanto confesso que os versos têm mais encanto, conservam-se melhor na memória; se não tem agora tempo, se deseja meditar sobre o que há de escrever, deixo-lhe cá o meu álbum; voltarei de aqui a três ou quatro dias, quando o senhor quiser!
Estamos já de muito mau humor por sermos incomodados por este sujeito, que nos perturba no nosso trabalho, e que, sem nenhum título, nenhuma recomendação, vem fazer-nos um pedido a que muitos amigos e pessoas das nossas relações se não atrevem algumas vezes. Um pedinte de certo nos enfadaria menos, porque teríamos o direito de o pôr imediatamente na rua. Mas o homem—álbum—olha para nós como se viesse pedir-nos o nosso voto para a academia. Nós não queremos por forma alguma, ficando com o álbum, receber uma nova visita de este senhor, e por isso, mesmo resmungando, mesmo deixando ver o aborrecimento que isto nos causa, abrimos o álbum em uma página em branco, pegamos na pena... O tal senhor está cheio de júbilo; ficará talvez menos encantado quando ler o que escrevemos; mas enfim, visto que ele não quer senão a nossa letra e a nossa assinatura, não pode deixar de ficar satisfeito.
Escrevemos a primeira coisa que nos vem à ideia; mas sempre se deve procurar que seja uma tolice, o que é às vezes mais difícil de achar do que se julga. Dizem-me que o nosso Scribe, apoquentado também pela gente de álbum, escrevia sempre esta frase: Perdi o meu guarda-chuva!... e isto era mais que suficiente.
Devo entretanto dizer que os álbuns apresentam-se menos vezes em nossa casa que os simples pedidos de autógrafos. Estes pedidos quase sempre se fazem por correspondência. Recebemos a cada instante cartas, não só de Paris, mas da província e mesmo do estrangeiro. Algumas vezes julgamos reconhecer a letra de uma pessoa que estimamos muito e de quem ficaríamos encantados de ter notícia; abrimos a carta muito depressa... mas nada! é ainda um pedido de autógrafo, de uma pessoa que nunca vimos, que provavelmente não veremos nunca, e que acha simplicíssimo talhar-nos obra, como se devêssemos estar às suas ordens!
Ultimamente recebo uma carta de um sujeito que me manda uns versos de que eu sou o autor, e que provavelmente ele tinha lido e copiado de um álbum. Espero que isto me servirá de lição para não tornar a cair em escrever versos em álbuns. Se, como Scribe, eu não tivesse escrito senão: Perdi o meu guarda-chuva! ou perdi a minha bengala, aposto que o tal senhor não teria copiado isto nem mo teria enviado, fazendo-me o pedido de lho transcrever para ter estes lindos versos escritos por mim? O homem não cessa de me repetir na sua carta que quer por força ter alguma coisa minha.
Se lhe respondesse, o que não tenho tenção de fazer, havia de dizer-lhe: O senhor quer ter alguma coisa minha; mas com que título? Recebi eu por ventura alguma coisa sua?
Contaram-me que em outro tempo, Lablache, famoso cantor italiano, recebera dos seus admiradores um tão grande número de caixas de tabaco, que poderia assoalhar com elas os seus aposentos, e passear em três casas, pisando sempre caixas de tabaco, todas mais ou menos bonitas, das quais lhe haviam feito presente. Certamente, eu não cantei nunca como Lablache! mas enfim, pela quantidade imensa de pedidos que recebo, e de amabilidades que muitas pessoas hão por bem dirigir-me, devo pensar que tenho também um número bastante crescido de apreciadores. Pois bem! desde que escrevo... o que faço há muito tempo, bem sabem, nunca recebi outra coisa senão pedidos de autógrafos.
Eu não peço nada, nunca pedi nada, em nenhum gênero, nem pedirei nunca graças a Deus! se tenho feito o meu caminho, tenho-o feito à minha custa, sem intriga e sem apoio. Mas, por favor, deixem-me sossegado e não me apoquentem com os seus pedidos de autógrafos! Não desejo as caixas de tabaco de Lablache, pois que nunca tomei tabaco!... o que me não impede de admirar uma caixa bonita, quando vale a pena de ser admirada.
—Que diabo se lhe poderia então oferecer? me dizia um sujeito que sempre me pede exemplares dos meus romances, o que é ainda mais indiscreto que um autógrafo.
—Meu caro senhor, lhe disse eu, quando se tem a peito receber uma resposta de alguém, há um meio muito simples. Se eu residisse em Tours, mandava-lhe ameixas passadas; em Mans, mandava-lhe um capão; em Strasburgo, um pastel; em Reims, meia dúzia de garrafas de Champagne. Cada terra tem a sua especialidade, e o homem por força teria de acusar-me a recepção do meu presente.
Pois o tal sujeito pareceu ficar muito espantado de eu ter achado este meio.
Enquanto estou falando a respeito de autógrafos, não posso deixar de lhes citar um sujeito que me escrevia de Nice, e que, depois de me ter feito o seu pedido, me rogava que lhe dirigisse a minha resposta para Nice, posta restante, com o nome que ele me indicava.
Se eu respondesse a este senhor, o que tive o cuidado de não fazer, havia de dizer-lhe: «Meu caro senhor: A posta restante não se emprega senão em dois casos: em amor e em política. O senhor não está namorado de mim, folgo de o crer; e pelo que toca a política, nunca me ocupei de tal coisa, nem já agora me hei de ocupar nunca. Por que razão pois, em vez de me dar francamente o seu endereço, quer que eu lhe responda para a posta restante? Tem então medo de que eu saiba quem é e onde mora? E pede-me a minha assinatura! Realmente, o senhor não é logico!
Enquanto estou de vez para conversar com o meu caro leitor e com a minha adorada leitora, podia confiar-lhes ainda uma de essas apoquentações a que algumas vezes nos é difícil escapar, desgraçadas celebridades que nós somos. Receio porém abusar da sua paciência, e portanto ficará para outra ocasião.
Leia gratuitamente A menina Lisa, de Paul de Kock, em versão portuguesa anônima publicada em Lisboa em 1907. Esta edição Literunico preserva o prefácio e os 18 capítulos integrais, com normalização ortográfica conservadora para PT-BR moderno.
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