Universo da obra
Universo da obra
Faço com a indispensável solenidade literária a declaração de que vou escrever as minhas MEMÓRIAS, entro, sem dizer por quê, na teoria do único amor, retrato os meus semelhantes, escorrego do prólogo acima ou do prólogo abaixo e caio sobre um animal que não posso classificar, cuja cara porém descrevo, e desasadamente ando às tontas entre as regras do prólogo e a filosofia da escola de que sou sectário e é mestre o governo do Brasil; digo e me contradigo, prometo e falto, juro e perjuro, e não levo ainda além a extravagância, porque termino o prólogo.
Escreverei as minhas Memórias e portanto a história da minha vida, vida jeitosa e ilustre, como a de muitos outros varões ilustres da nossa terra que são o meu retrato por dentro, embora nenhum deles queira se parecer comigo por fora.
Semelhança por dentro, dissemelhança por fora é simples questão de aparências que no fundo não pode prejudicar a fidelidade do retrato da família, pois que os pronunciados traços característicos que denunciam a nossa irmandade, estão muito mais no miolo do que na casca.
Escreverei pois as minhas Memórias, serei o Plutarco de mim mesmo, fato mais frequentemente do que se pensa, observado no mundo industrial, artístico, científico e sobretudo no mundo político, onde muita gente boa se faz elogiar e aplaudir em brilhantes artigos biográficos tão espontâneos, como os ramalhetes e as coroas de flores que as atrizes compram para que lhos atirem na cena os comparsas comissionados.
Eu reputo esta prática muito justa e muito natural; porque não compreendo amor e ainda amor apaixonado mais justificável do que aquele que sentimos pela nossa própria pessoa.
O amor de eu é e será sempre a pedra angular da sociedade humana, o regulador dos sentimentos, o móvel das ações, e o farol do futuro: do amor do eu nasce o amor do lar doméstico, deste o amor do município, deste o amor da província, deste o amor da nação, anéis de uma cadeia de amores que os tolos julgam que sentem e tomam a sério, e que certos maganões envernizam, mistificando a humanidade para simular abnegação e virtudes que não têm no coração e que eu com a minha exemplar franqueza simplifico, reduzindo todos à sua expressão original e verdadeira, e dizendo, lar, município, província, nação, têm a flama dos amores que lhes dispenso nos reflexos do amor em que me abrazo por mim mesmo: todos eles são o amor do eu e nada mais: a diferença está em simples nuanças determinadas pela maior ou menor proporção dos interesses e das conveniências materiais do apaixonado adorador de si mesmo.
Exempli gratia:
Façamos de conta que o mundo acaba de ser felicitado e enobrecido pelo nascimento de senhor Qualquer-coisa.
O senhor Qualquer-coisa ama o lar doméstico pelos seios da ama que o aleita, depois pelas bonecas que lhe dá a mãe, mais tarde pelo pequira que o pai comprou para ele: cresce em anos e ama o município porque é aí escrivão, ou coletor de rendas públicas; passa a amar a província, porque é arrematante de obras provinciais, oficial de secretaria, ou diretor disto ou daquilo: sobe ao amor da nação porque tem por ofício ser presidente de província, já é deputado, e deseja muito a morte de um tio que é senador, para ver se lhe apanha o legado da cadeira dulcíssima dos augustos e digníssimos ex-candidatos eleitorais.
Pergunto agora: o senhor Qualquer-coisa não é o espelho fiel em que se reproduzem as imagens da maior parte dos nossos beneméritos? Como querem que eu sinta e pense, como devo pensar e sentir em um país, cujas altas escalas sociais estão principalmente ocupadas pela numerosa família dos senhores Quaisquer-coisas?...
Ainda não dei princípio às minhas Memórias e já em meia dúzia de linhas fiz brilhar os retratos de uma grosa dos beneméritos atuais da nossa pátria.
Esta consideração serve para assinalar a extraordinária importância da obra monumental que me proponho a escrever.
Convenho em que já me desviei um pouco do assunto especial e obrigado do prólogo de um livro, o que é erro grave, porque o prólogo é sempre uma coisa séria e estúpida, como a cara oficial de um ministro de estado em dia de crise do gabinete; note-se porém que eu disse — cara oficial —; porque todo ministro de estado tem, pelo menos, uma cara natural, e uma cara oficial; e há ministro de estado que tem mais de cinquenta caras.
O ministro de estado polifronte não é raro; é, porém um animal que ainda precisa ser estudado cientificamente.
Declaro que tenho profundos conhecimentos de zoologia; mas nem por isso me foi possível até hoje classificar com segurança o ministro de estado polifronte.
O mais que pude estabelecer, não sem dificuldades e objeções de algum peso, é que esse animal pertence ao tipo dos vertebrados; chegando porém ao exame da classe que lhe deve competir, não dei um passo nem para diante nem para trás, porque o curioso animal se acha muito bem colocado em qualquer das cinco classes daquele tipo.
Que é mamífero, não se pode contestar, pois aleita, embora à custa da nação, centenas de filhotes que compõem a sua imensa ninhada que se chama ou é a maioria artificial que ele próprio engendra.
Que é ave, tudo o demonstra; porque não só modula e trina, e ainda conforme as suas numerosas espécies, este é águia pelo voo, aquele águia pelas unhas, um papagaio que repete o que lhe ensinam, e dá o pé a seu dono, outro coruja pelo símbolo que representa; mas também porque a oposição o depena, e o deixa, pelo menos, sem asas, poupando-lhe as penas da cauda para que esta se mostre completa na exposição dada ao público.
Que é réptil, tudo indica, porque rasteja pela terra, e morde até a quem o aqueceu no seio, como a serpente; é guloso, devorador a ponto de engolir sem mastigar, como o jacaré, e assemelha-se à tartaruga pelo número dos ovos que empolha, e pelo das tartaruguinhas que vai arranjando para glória da nação.
Que é anfíbio, todos sabem, pois é capaz de viver no mar, e na terra, e até viveria perfeitamente no inferno: onde não pode viver é no céu.
Que é peixe, ninguém o ignora, porque em primeiro lugar a isca é a sua paixão; em segundo tem escamas com as quais nada para o sul ou para o norte, conforme as marés cheias do seu interesse; e em terceiro lugar, porque tem espinhas, e tão grandes que há muitos anos anda o Brasil engasgado com elas.
Como se há de classificar um animal assim?
Bouffon se limitaria a descrevê-lo, e descrevendo-o, ocupar-se-ia em falar das caras do ministro de estado polifronte sem meter-se em camisa de onze varas, pretendendo decifrar-lhe o coração.
E que multiplicidade de caras!
Cara de organização de gabinete, expansiva e pronta para exprimir todos os sentimentos.
Cara de apresentação de programa — com ares de sacrifício, insondável, grave, dura, como a do convidado de pedra.
Cara de primeiro dia de conselho no paço, meiga, contemplativa como tendo a alma em êxtase, comprida e fazendo sempre inclinações de cima para baixo, como a de manso cavalo de montaria.
Cara de arranjo de maioria, risonha, alentadora, promissora, e até patusca; mas pronta a modificar-se em ameaçadora, colérica, vingativa, como a face de Júpiter ao empunhar o raio.
Cara de dia de despacho na secretaria, amarrotada, enfadada, mal-criada e tudo que acaba em ada.
Cara de hora de aperto por emprego que pouco antes dera, cedendo ao empenho de um compadre imprescindível, e apesar dos compromissos tomados com um deputado ministerial que pedira o arranjo para si e que com ele contava: cara mefistofélica, enrugada, misteriosa, transpiradora de segredo fingido, dizendo em contrações eloquentes: “que havia de eu fazer? o homem não quis...”
Cara de resposta à oposição em minoria, sarcástica, desprezadora, soberba, como a de quem manda plantar batatas a todo ignóbil vulgacho.
Cara de crise que começa à pronunciar-se: aquela cara séria e estúpida que eu chamei de prólogo, e que melhor se chamará cara de epílogo de romance desconchavado, ou de desfecho de comédia burlesca.
Cara de crise sem remédio e sem remendo, e de queda sem recurso, transtornada, quase chorona, desconsolada, como a de ator que fez fiasco e que é despedido pelo empresário da companhia.
Quantas caras e todavia não são só estas!
Mas estas só, que caras!
Vou reproduzi-las em miniatura.
Cara de nenê que faz festa, vendo a teta que vão lhe dar.
Cara de Tartufo representando a primeira cena de hipocrisia.
Cara de animal de sela que parece pedir que o cavalguem.
Cara de mercador de verduras que trata de arranjar freguesia.
Cara de vilão que se acha com a vara na mão.
Cara de mordomo que caloteia a confraria e lança a culpa sobre o juiz.
Cara de Nabuchodonosor pouco antes de comer capim.
Cara de comilão que vê o caldo entornado.
E cara de dançarino que torceu o pé em uma pirueta.
Há muitos ministros de estado... vou mal: os ministros de estado são sete, e sete não são muitos.
Corrijo o erro em que ia incorrendo.
Tem havido muitos e haverá ainda agora e no futuro (vejam que me estou segurando pelas pontinhas) alguns ministros de estado que são homens e diferem muito do animal que não pude classificar, ministros (por me apertarem muito) que não têm algumas, e enfim (se me apertam a sufocar!) nenhuma das caras que desenhei.
Não ofendo pois diretamente a quem per que seja: não admito que haja ministro de estado, passado, presente, nem futuro que tenha o direito de queixar-se ou de ressentir-se do que com inteira verdade acabo de escrever; se algum porém se queixar, podem ter a certeza de que é o bicho.
Mas...
Lá se foi a regularidade, a pureza artística do meu prólogo! estou vendo que ele acaba em moxinifada tão patente, em observação das regras tão às avessas, e em engano tão às direitas, que me acharei obrigado a trocar-lhe o nome de prólogo pelo de — memorando diplomático ou declaração de amor de namorado de velha rica, o que vem a dar na mesma coisa.
Não: assim não será: jurei que escreveria um prólogo para a minha obra.
Não saio mais do prólogo.
Continuo: e para ligar as ideias cujo fio cortei, lá vai uma tirada da mais pura filosofia.
A vida do homem é um enorme acervo de erros misturados com um punhado de acertos abismados em um dilúvio de niilidades. Cada erro, cada acerto, cada niilidade é obra de um momento quase imperceptível que se chama o presente, e vão todos se ajuntando em montões mais ou menos escuros que formam o passado, sorvedouro imenso, que tem o tragadouro aberto para engolir os desenganos que têm de sair do seio misterioso de um monstro que está sempre em gravidez de esperanças e em parto de desilusões e que se denomina futuro.
O presente (já alguém o disse, e, se ninguém o disse, digo-o eu agora), é o espaço que medeia entre o taque que bateu e o tique que vai bater a pêndula do relógio da vida.
A vida humana é portanto uma peta homérica e tremenda; pois consta principalmente do que não existe; porque sem cessar corre entre o tempo que já passou, e o tempo que ainda não chegou.
Todavia os homens de juízo, aqueles que observam com escrupulosa solicitude o culto de seu eu, descobrirão o segredo de iludir a peta homérica, a lei da natureza, reduzindo ou antes elevando a vida exclusivamente ao presente.
A coisa parece absurda; mas não é; porque o homem de juízo não faz caso nem dá contas do seu passado, e não pensa no futuro senão para perpetuar e multiplicar por todos e quaisquer meios os gozos que está fruindo: os gozos que desfrutou são bagaços de frutos que deitou fora, os que está gozando representam a verdadeira vida, os que há de gozar são frutos que estão amadurecendo, e por pior que corra o tempo, sempre escapa alguma fruta, que perpetua o gozo.
Não pensem que esta filosofia é minha só: não! é de uma escola filosófica muito nobre, elevada e prestigiosa: o chefe da escola é o governo do Brasil.
O governo não o diz por modéstia; mas os fatos, a vida e o proceder constante, refletido, sábio dessa entidade política que chamamos governo, triunfam dos véus da sua modéstia, e patenteiam a verdade.
Digam-me os que duvidarem: já houve no Brasil governo que aproveitasse as chamadas lições do passado, e que compreendesse e criasse uma série de medidas que tivessem relação com o futuro?
Há uns dezoito anos que o governo do Brasil resolveu acabar e acabou definitivamente com o tráfico de africanos-escravos, único viveiro de braços para a agricultura, e em dezoito anos não soube fazer coisa alguma, não adiantou ideia para realizar a colonização ou a emigração supridora dos braços que deviam faltar, que foram faltando, que cada dia faltam mais. Em dezoito anos nada! — de dez vai um e oito nove e nada: o governo do Brasil sabe pelo menos a tabuada, que o Tico-tico ensinava.
É certo que durante esses três lustros e três anos despenderam-se alguns milhares de contos de réis em nome da colonização e da emigração; mas se examinarem bem a verdade dos fatos, hão de todos reconhecer que em resultado de tais despesas o que houve foi simples emigração do dinheiro do tesouro nacional para os bolsos de alguns felizes, que com toda a razão acharam extraordinária utilidade para o país nos colonos-patacões, e nas onças emigrantes que povoaram os seus cofres.
Eis aí pois resplendendo ufanosa a escola filosófica do governo: o esquecimento do passado, os gozos do presente, e o descuido e abandono do futuro.
Outro exemplo:
A fonte da riqueza pública no Brasil é quase exclusivamente a agricultura: os vegetais são como os animais sujeitos a moléstias: os nossos dois principais produtos eram o açúcar da cana, e o café: dois só, se adoecessem os dois, ficávamos em maré de miséria: pois bem: o governo do Brasil cuidou algum dia da sua vida em explorar, animar, desenvolver alguma outra indústria agrícola? Nem caso! a cana estava dando açúcar, o cafeeiro café, viva la pátria!
E eis senão quando dá o bicho na cana, e a praga no cafeeiro! estávamos bem aviados!
Mas a Providência Divina teima em acudir ao Brasil: a União Norte-Americana desaba em guerra fratricida, e queima e destrói os algodoeiros do Sul: foi o que valeu: o algodão cobriu os prejuízos da praga do cafeeiro, e do bicho da cana.
Se não fosse a Providência Divina, a sabedoria do nosso governo teria ficado dupla e simbolicamente representada pelo bicho e pela praga.
E tudo isso por que? Porque o governo do Brasil é filósofo e mestre da escola a que pertenço, e que se funda no esquecimento das lições do passado, nos gozos do presente, e no desprezo dos cuidados do futuro.
Escola sublime! dói-me que o nosso governo seja apenas o seu atual grão-mestre e não o seu fundador: neste ponto é a glória única que lhe falta; mas diga-se a verdade: o fundador da escola foi Luís XV que a iniciou em França, dizendo: “quem vier atrás, que feche a porta.”
O diabo é que em política no século XIX quem fecha uma porta, abre outra, e quando não quer abrir, às vezes o povo arromba.
Mas ainda bem que o nosso governo não é governo de portas, é de janelas: é um governo que não abre, nem fecha, é uma coisa que se parece muito com qualquer outra coisa, exceto com governo.
Misericórdia! e o prólogo?...
Ah! deixo-me levar pela corrente das ideias, como um chefe de polícia pelo encantamento do arbítrio!
Mas desta vez juro que não tornarei a ultrapassar os limites naturais do prólogo.
Encadeiemos outra vez as ideias.
Eu tinha em quatro palavras lançado ou exposto as bases da escola filosófica que sigo, iludindo o despotismo do tempo, e compreendendo a vida sem passado, e quase sem futuro, exclusivamente vivida nos gozos do presente.
Sendo assim, parece uma contradição que eu me resolvesse a escrever as minhas Memórias, porque o objeto de todas as Memórias está na relação de fatos que pertencem ao domínio do passado.
Desçam porém ao âmago das coisas que não hão de achar contradição: o assunto de todas Memórias é sem dúvida e sempre a desarrumação do passado; mas o seu motivo, como o de todos os escritos e livros, é o gozo do presente, é a satisfação da vaidade do autor: até nas próprias Memórias de Além-túmulo o homem, furioso por não poder escapar à morte, goza, escrevendo-as, a consolação sui generis de preparar um logro à morte, revivendo e imortalizando-se nos aplausos e na admiração que a sua obra deve excitar.
Todavia cumpre-me declarar que nenhuma destas considerações influiu no meu ânimo, provocando-me a escrever.
As minhas Memórias são nada mais e nada menos do que uma desforra e um castigo.
Eu conto a história com todos os seus pontos e vírgulas em um ou dois períodos do tamanho de todo o trabalho de própria lavra que certos ministros à moderna têm nos relatórios que assinam e apresentam.
Liguei-me (liguei-me é exatamente o verbo apropriado) há poucos meses, a um círculo, digo mal a um arco do círculo influente da situação política: escolhi o arco, onde se envergavam os homens mais notáveis da minha escola filosófica; fiz com eles comércio de amizade, e prestei-lhes relevantes serviços sob a condição de adotarem a minha candidatura a deputado da Assembleia Geral Legislativa por qualquer distrito de qualquer das províncias do Império. Firmou-se o contrato bilateral com juramento: quem não assinou o contrato, foi o povo que me devia eleger; isso porém não me preocupou; porque o povo só por exceção elege aqui ou ali alguns deputados.
Pois bem! acabam de falar em nome das urnas, acabam de se publicar os despachos eleitorais, e fiquei logrado!... fiquei atirado no meio do povo soberano das galerias a olhar desapontado para o salão-babel do peço a palavra.
Lograram-me! lograram ao seu mais parecido, ao vero espelho que reproduz suas imagens! lograram-me: hão de pagar-me.
Pensei, refleti, e planejei uma desforra de estudante em hora de folga na academia, de soldado em quartel de inverno, ou de frade depois do coro.
Os Tartufos que me lograram e eu, pertencemos todos à mesma escola filosófica e política, à escola do amor exclusivo do eu, do gozo do presente, a escola da barriga física e moral.
Há, porém entre mim e eles uma única, mas considerável distinção: eu patenteio, confesso o que sou, e eles escondem o que são, e fingem ser o que não são.
Eu sou calvo; mas não encubro a falta dos cabelos.
Eles são carecas; mas trazem perfeitíssimas cabeleiras.
Eu nunca em minha vida andei disfarçado.
Eles trazem sempre máscara cobrindo a cara, capote envolvendo o corpo.
Esta diferença entre mim e eles inspirou-me a mais completa desforra da decepção por que me fizeram passar.
Escrevendo as minhas Memórias confessarei o que sou, e o que não encubro; e ao mesmo tempo patentearei o que eles são, e o que eles fazem, e que cuidadosamente procuram esconder.
Arrancarei as máscaras.
Rasgarei os capotes.
Porei as calvas à mostra.
Eis o motivo e o fim das minhas Memórias que hoje começo a escrever.
Não receio patentear-me tal qual sou, homem de eu ganhador político de gravata lavada, barrigudo por instinto e por convicção.
Não receio por duas razões: aí vão elas.
Primeira razão: não dando, não publicando o meu nome de batismo, e o meu nome de família, não haverá abelhudo por mais astuto que seja, que consiga descobrir o impenetrável incógnito que me defende: apresento-me como — Sobrinho de Meu tio —, e desafio a que me distingam e me reconheçam no meio do formigueiro dos Sobrinhos de seus tios que hoje em dia superabundam nas altas escalas sociais, e nas mais brilhantes posições oficiais.
Segunda razão: admitindo por hipótese que me arrasassem o segredo do anônimo, e me denunciassem ao público com os meus nomes de batismo e de família, que mal daí me resultaria?
No Brasil ainda não houve homem perdido, homem morto moralmente nem pelas indignidades, nem pela concussão, quanto mais pela franqueza do egoísmo, e do interesse material na vida política e administrativa.
No Brasil ninguém morre moralmente, enquanto não morre fisicamente, exceto os criminosos pobres condenados pelo júri.
Nas camas de tábuas duras da Casa de Correção dorme muita gente, que é menos vil, e menos criminosa, do que alguns ou talvez muitos que se deitam livremente em colchões fofos, e macios, que se envolvem em cobertas de seda para passar a noite, e que de dia zombam da chamada consciência pública, ostentando a opulência que bem ou mal adquirida é sempre a mais preciosa e considerada das recomendações; ou que, no mundo político, pulando de partido em partido, não tendo crenças nem fé, subindo por isso cada dia mais, explorando em seu proveito a fortuna pública, rindo-se dos tolos, enganando a todos, vão andando seu caminho sem se incomodar com as pragas do povo, e com a gritaria dos censores que ficam por fim de bocas abertas, admirando essa vitalidade corrupta, essa putrefação que tem vida.
Não tenho medo de morte moral na minha terra: o Brasil é um país criado amorosamente por Deus, e conquistado ao seu inocente povo pelos diabos.
Olhem para o que vai por aí e decidam se tem ou não fundamento a minha confiança na impunidade do vício agaloado e na regeneração dos leprosos-morais.
Há empregados demitidos de repartições fiscais por prevaricação provada, e poucos meses depois reintegrados nos mesmos, ou arranjados em melhores empregos.
Há negociante tantas vezes quebrado que parece ter negócio de falências e que quanto mais quebra, mais se regenera.
Há presidentes de províncias exonerados pela sua desenvoltura no arbítrio e nas violências e logo depois e pelo mesmo ministério nomeados para presidir outras províncias.
Há chamados estadistas que apenas entram no governo, encalham a nau do Estado, e logo que alguns outros menos desastrados conseguem fazê-la safar, voltam eles, sem se saber por que, a tomar conta do leme.
Há ministros-comparsas que espantam os próprios amigos pela sua incapacidade: pois são uns achados! em qualquer nova organização ministerial, podem contar com eles no museu da combinação.
Há...
E o prólogo? faltei ao meu juramento como todos os namorados e a maior parte das testemunhas de processos de caráter político.
Sou incorrigível como um jogador, como um vadio de profissão, como um parasita do tesouro, como um deputado que arruma a vida, como um ministro cortesão, como um cortesão que adula o rei no paço, e o difama em segredo na praça.
Mas protesto e juro de novo que não haverá mais atração nem escorregar de ideias que me façam esquecer o prólogo.
E pelo sim, pelo não, pois que não conto muito comigo, vou em duas palhetadas chegar ao ponto final.
Já escrevi uma vez na minha vida, uma única: foi quando tomei aqueles apontamentos de viagem na Carteira de Meu Tio: houve quem desse ao prelo esse desconchavado trabalho e dizem-me que saiu nele tanta coisa sem nexo, sem luz, e sem fundo que foi tal qual um jogo de disparates; mas então ao menos tinha eu por colaborador o meu compadre Paciência! agora não sei como me hei de improvisar memorista.
Quero porém escrever.
Aceite o público estas Memórias, como obra generosa, virginal, puríssima, inspirada exclusivamente pelo amor da pátria.
É verdade que eu já confessei que vou escrever por desejo de vingança, por empenho de desforra da derrota da minha candidatura; mas o público já tem aceitado e recebido tantos contrabandos, tantas falcatruas da ambição, tantos desconcertos e desatinos da inveja, tantas obras desordenadas do ódio com o nome ou em nome do amor da pátria, que, apesar da minha ingênua confissão, pode fazer igual favor a estas Memórias.
Estou em meu pleno direito exigindo tal obséquio. O público tem estômago de ema: engula e digira pois mais esta peta.
Por que não há de o público aceitar, engolir e digerir em nome do amor da pátria as Memórias do Sobrinho de Meu Tio?
O público aceita, engole, digere—boletins do teatro da guerra recheados de mentiras, publicados por amor dos cobres, e vendidos por amor da pátria;
Notícias oficiais das operações do exército e da armada na mesma campanha do Paraguai compostas de uma quarta parte de verdades e de três quartas partes de carapetões guerreiros, e tudo isso calculado pelo amor da pátria;
Discussões de carne verde, de bois magros e bois gordos, de princípios econômico-liberais adubados com chouriço de carniceiros, e revolvidos no matadouro do amor da pátria.
Conciliações e ligas, coalizões, diretorias centrais, núcleos, programas, e o diabo a quatorze em política, em que entram uns por inocência, outros por divertimento, outros por ambição, outros por curiosidade, outros por patuscada, outros por faro do ganho, e todos proclamadamente por amor da pátria:
Ministérios sem cor, sem princípios, sem ideia de futuro, sem base na opinião (que teima sempre em ser alguma coisa), sem consciência, sem capacidade e carregados, como fardos sem préstimo, pelo povo submisso em nome do amor da pátria.
Ah! o público a carregar, e o amor da pátria a enfardar, a enganar, a encapotar, a mascarar, a arranjar, a...
E o prólogo?
Protesto, assevero, juro que nunca, absolutamente nunca mais, haja o que houver, aconteça o que acontecer, nunca mais tornarei a afastar-me da matéria precisa do meu prólogo; porque...
Porque acabei o prólogo.
Continuação satírica de A Carteira de Meu Tio, em que Joaquim Manuel de Macedo põe seu narrador oportunista diante da política, das eleições e dos costumes do Brasil imperial. Edição integral com ortografia normalizada para o português brasileiro moderno e numeração de capítulos fiel à edição H. Garnier de 1904.
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