Universo da obra
Universo da obra
Era um dia comum para Creteas. Tinha acordado cedo, como sempre, alimentado suas aves, que sempre insistiam em pousar em suas janelas, mesmo ela já tendo construído um espaço próprio para elas se alimentarem nas árvores. Os pássaros gostavam dela. Insistiam em vê-la. E mesmo tendo que limpar toda a sujeira que faziam depois, essa constatação a deixava feliz. Em seguida, passava pelo armazém de Trapor para sua alimentação da manhã. Colocava suas mãos dentro do dispositivo, que reconhecia sua digital, e enviava a substância de sustento através dos sensores subcutâneos. O processo era rápido e particularmente hoje estava extremamente saboroso. Trapor além de seguir o regime que seus clientes tradicionais recebiam dos médicos com fidelidade, utilizava ingredientes de primeira qualidade. Era sem dúvida o melhor armazém que sua condição social poderia pagar. Ela, então, continuou sua rotina, passou pela banca, escolheu seus três jornais que acompanhava com mais frequência, recebeu através dos olhos todas as notícias deles, demorou alguns minutos a mais assimilando novamente algumas delas que tratavam sobre corrupção no governo. Foi para a obra de caridade ajudar com a entrega dos kits de temperatura. Mais e mais zarkeanos ocupavam as ruas, sem casas para morarem. Já haviam acontecido crises antes, com falta de emprego e a desigualdade social era intrínseca a sociedade, mas como naqueles tempos, desde que começou a fazer trabalho voluntário, nunca tinha visto.
Chegando na empresa onde trabalhava, Creteas percebeu um certo alvoroço. Ela era bióloga, especializada em formas de vida microscópicas e a companhia vivia uma boa fase de descobertas, que colocavam formas de vida empregadas na tecnologia, com incríveis avanços na qualidade de vida. Mas naquele dia, aquele aglomerado de pessoas e o burburinho não parecia ser bom. Logo descobriu que uma das sedes havia detectado uma nova doença do outro lado do continente. Aparentemente ainda seguravam a notícia para evitar alarde, mas muitos em uma pequena cidade já estavam contaminados. Ela era uma doença similar à outra que era comum, que afetava o coração, mas com uma letalidade maior. A Saer que eles estavam acostumados, praticamente não matava, eram extremamente raros os casos de morte, mas essa nova doença com sintomas e dores parecidas era aleatoriamente fatal. Até ali 5% dos contaminados haviam morrido. Já eram 20 mortos.
- Estão falando em mandar a gente pra casa! - Comentou, um colega.
- Que loucura, será que é pra tudo isso? De qualquer forma somos nós que precisamos trabalhar pra pesquisar a respeito, não é mesmo? - Creteas respondeu sem nem pensar duas vezes.
Para alguém da área dela, aquela era a situação que ela mais se via necessária. Era como um militar que vivesse toda sua jornada em paz, treinando, ajudando ao próximo e então uma guerra inevitável acontecesse. Era o seu momento.
Logo o chefe apareceu, acalmou a todos, disse que era um fenômeno local, que a sede de lá já estava resolvendo tudo, que não deveriam se preocupar.
Em pouco tempo, todos estavam mais calmos, boatos haviam sumido, o trabalho normalizava. Era impressionante como uma palavra de cima era suficiente para resolver ou criar um problema.
Creteas trabalhava naquele período com um composto biológico criado em laboratório que limpava roupas. Ela estava fazendo análises que melhoravam a velocidade e a performance do processo. Ela concluiu suas tarefas do dia e voltava pra casa quando reparou numa pessoa que nunca tinha visto por ali, fazendo malabarismo na rua. Não era comum artistas circenses por ali, tão raros, por conta da dificuldade de movimentos rápidos que os zarkeanos tinham. E esses tipos de espetáculos eram tão caros.
Em sua tradicional vestimenta circense uns dizeres. Se aproximou e conseguiu ler "Fora Alabam!".
Creteas ficou surpresa. Sabia que tinham movimentos contra o presidente, mas ainda não tinha visto manifestantes assim. O rapaz não estava sequer aceitando dinheiro na apresentação. Era uma representação política direta. Muita gente era contra as posições que ela considerava como duras do presidente. Ele era um tradicionalista fundamentalista. Usou a revolta do povo do oeste contra o sistema político corrupto instaurado, do qual ele mesmo já fazia parte, a seu favor, com um discurso que apelava aos costumes e posturas da antiquidade. Ela não acreditava que ele fosse responsável pela crise que o país vivia. Achava que aquilo tudo era natural e ele nem tinha tido tempo de colocar suas ideias em prática. Ainda assim, não concordava com boa parte de suas ideias, principalmente no que dizia respeito ao uso da violência e opressão, mas não sabia se naquela altura era realmente necessário pelo menos um discurso de medo. Tudo andava tão complicado.
Chegou em casa, tirou sua roupa, tomou seu banho de vapor e fez sua refeição. Era uma espécie de aparelho que de tempos em tempos ela abastecia com líquidos e regulados de forma balanceada para se alimentar, como no café da manhã, utilizando as mãos. Ao terminar, encostou seu corpo numa espécie de poltrona, que se adaptou instantaneamente ao seu corpo, o qual a deixou levemente inclinada e totalmente encaixada para seu repouso. A poltrona além de permitir seu descanso e reposição de energia, massageava e a mantinha nas posições corretas para melhor circulação de sangue por todo seu corpo.
Há muito tempo que não sonhava, mas nessa noite os sonhos foram muito intensos, repleto de visões desconexas com multidões, caos, brigas, explosões. Sonhos assim não eram bom sinal, não de forma supersticiosa, nada disso, mas significava que o corpo não estava bem, que sua mente estava intensamente sobrecarregada. Se houvesse repetição frequente deveria investigar com um médico. Suas quatro horas de repouso foram cansativas. Mais um dia começava e sua rotina iria se repetir. Será mesmo que iria? Algo dizia no seu íntimo que grandes mudanças dramáticas estavam por vir no seu tranquilo cotidiano.
Uma História de Universo em Órbita. Creteas é uma gigante e bióloga envolvida em uma conspiração para assassinar o presidente de seu planeta como vingança após uma crise sanitária. Entre desinformação, protestos, infiltrações e forças interplanetárias, ela precisa compreender quem realmente conduz a trama e quais consequências sua escolha terá para toda essa realidade.
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