Oasis

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Capítulo 1 · Oasis

A Descoberta de Outro Mundo

O calor nessa época estava cada vez pior com o passar dos anos. Especialmente naquela tarde de verão parecia que a atmosfera artificial dali não estava retendo os raios ultravioletas na quantidade que deveria. Mas a pequena Eron parecia nem se importar e passeava saltitando alegremente por aquele paraíso que se defrontava com o quintal de sua casa. Um jardim que parecia interminável e que ao atingir o seu fim dava início a uma pequena floresta composta pela mais diversificada quantidade de árvores que se possa imaginar. Mais adiante um pequeno riacho. Eron nunca tinha ido tão distante por ali, mesmo com seus pais. Mas ela havia sonhado com uma maravilhosa flor de cor azul, a qual ela nunca viu antes e no sonho ela a encontrava depois do riacho, ao fim do bosque. Ela sabia que não era permitido ir até lá, sabia que seria muito difícil ultrapassar as barreiras criadas pelas árvores rasteiras que saiam da outra margem do rio. Mas seu sonho a guiava, deveria ter algo realmente especial lá, para ser tão difícil de alcançar.

Ficou um pouco cansada, em certa altura até mesmo ofegante, chegou a acreditar que tinha lhe faltado o ar, mas era só a jornada que a estava deixando exausta, afinal, no auge de seus doze anos nunca tinha caminhado tanto. E o céu, tão límpido e iluminado. Decidiu atravessar o pequeno riacho nadando pra se refrescar um pouco. O Sol havia deixado sua pele, que era rosada e delicada, avermelhada e a água escorrendo pelo seu rosto parecia ser revigorante, quase que com poderes curativos. Cristalina e límpida como quando recém saída da mais pura nascente.

Passou com alguma dificuldade pelas plantas rasteiras e pelas árvores mais altas, que transformavam aquele bosque em algo que se assemelhava a uma mata fechada e contemplou um novo jardim, imenso, repleto de rosas vermelhas. Ao final do horizonte conseguiu perceber que o jardim terminava na parede da bolha. Ela gritou de excitação e surpresa. Como um grande navegador que via novas terras no horizonte, ou simplesmente como uma criança que descobria um mundo novo de possibilidades. Correu em direção da parede com uma felicidade incomparável e então ela enxergou a flor azul. Era ela mesma, aquela de seu sonho. Não conseguia parar de olhar para a flor enquanto corria, seu foco mudou completamente e nem se importava mais em descobrir como era a bolha. Ela só queria saber como era o perfume daquela flor maravilhosa.

Então, finalmente ela chegou até lá, se abaixou em direção da flor, sentiu sua fragrância de aroma único, realmente indescritível, que a deixou hipnotizada. Colheu a linda flor e quando se levantou e olhou para o lado o transe se quebrou.

O que ela enxergou quando sua visão ultrapassou os limites até então espelhados da bolha a deixou aterrorizada e ela emitiu gritos ensurdecedores de pavor.

Centenas, talvez milhares de pessoas, se assim pudessem ser chamadas, pois estavam aos frangalhos, definhando, mascaradas, fazendo algo que parecia trabalho, quebrando pedras, procurando o que comer, alguns pareciam brigar entre murros e pontapés, mas logo eram separados pelos outros. O cenário não poderia ser mais devastador, quase como um deserto que passou por uma guerra, mas repleto de sobreviventes feridos. E o Sol parecia queimar aquelas pessoas, na verdade, talvez realmente estivessem queimando. Então ela viu uma menina, muito parecida com ela, não fosse por estar muito magra e suja. A menina foi a única que conseguiu vê-la e por alguns instantes ficaram ali, apenas se olhando, se identificando e vendo tantas diferenças. E então um homem forte, repleto de equipamentos que poderiam ser armas, a puxou e a arremessou no chão. Parecia gritar com ela, deu um tapa em sua cara e saiu. As lágrimas escorreram dos olhos das duas ao mesmo tempo, mas a menina de fora não olhou novamente para Eron, apenas levantou e continuou procurando pedras ou algum tipo de lixo.

Então, Eron ouviu ser chamada pela voz doce de sua mãe. A mãe chegou até ela correndo, muito brava e preocupada. Mas apenas perguntou se ela estava bem, disse pra ela nunca mais fazer aquilo, lhe fez um carinho em seu rosto acompanhado de um beijo suave na testa e a acolheu acompanhando de volta para casa.

-Mãe, como aquelas pessoas vivem lá fora, daquele jeito? - Perguntou, Eron, durante o caminho de volta.

-Elas não vivem, meu amor, elas tentam sobreviver, na verdade já estão mortas mas não desistem. -Respondeu a mãe, num misto de consternação e tristeza.

Eron não entendeu muito bem o que sua mãe quis dizer. Por que a comunidade deixava aquilo acontecer? Por que contavam nas escolas que não haviam sobreviventes fora da bolha? Ela viu aquela menina tão viva quanto ela.

No dia seguinte ir pra escola já foi uma tarefa completamente diferente para Eron. Primeiro porque não conseguia se concentrar em mais nada, depois daquela descoberta que fez. Segundo porque se a vida toda a escola nunca lhe contou como era de verdade fora da bolha, como ela poderia acreditar em mais alguma coisa que aprendesse?

- Que houve, Eron? O que passa na sua cabeça hoje? Tá desconcentrada! - Perguntou, Tom, melhor amigo de Eron, praticamente inseparáveis. - Eron! Tá me ouvindo? - Ele insistiu, até a garota perceber que não havia dado atenção ao que ele falava.

Oasis

Sinopse

A disparidade entre classes se tornou tão gritante que uma bolha foi desenvolvida para literalmente separar ricos dos pobres. Duas garotas inocentes de cada lado da bolha, junto de outros a quem elas conquistam para a causa, começam a tentar mudar esse cenário.

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