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Vozes silenciadas

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Vozes silenciadas

Capítulo 1 · Vozes silenciadas

Quando a fome bate à porta

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CAPÍTULO 1
Quando a fome bate à porta
O ar na sala de aula do 2º ano parecia denso demais para maio. Havia um ruído contínuo de cadeiras arrastadas, risadas agudas e o eco abafado que vinha dos corredores da Escola Paulo Freire. Netuno sentia a têmpora pulsar. Era sua primeira turma, suas primeiras semanas diante de trinta crianças na comunidade de Arcádia, e a sensação de perda de controle começava a se fixar na base da sua nuca.
Pedro nunca tinha sido assim. Nas semanas anteriores, era o menino de canto, o abraço tímido no início da chamada, a fala mansa que mal ultrapassava o barulho do ventilador de teto. Naquela manhã, porém, parecia outro. Empurrou o colega da frente. Provocou a menina da fileira ao lado. Reagia a qualquer toque com um solavanco ríspido, os olhos saltados e esquivos.
— Pedro, chega. Sentado — a voz de Netuno saiu mais dura do que pretendia.
O menino não respondeu. Deu dois passos para trás, esbarrou em uma bancada e derrubou o estojo do colega. O barulho de lápis espalhados pelo chão de cimento queimado fez a cabeça de Netuno estalar.
— Pedro. Eu estou falando com você.

Desta vez, o garoto parou. Não houve desafio no olhar, nem a petulância comum das crianças quando testam o adulto. Pedro apenas encolheu os ombros, baixou a cabeça e congelou. Um silêncio estranho, pesado, que Netuno não soube decifrar. Apenas sentiu a própria impaciência subir como calor no pescoço.
— Chega. Você vai ficar sem o tempo do recreio hoje. Sentado.
O garoto não chorou. Não reclamou. Sentou-se e encarou o tampo de madeira rabiscado da carteira.
Netuno respirou fundo, tentando reorganizar o plano de aula. Acreditava estar impondo o limite necessário, a regra que organizaria o caos da sala. Mas, quando o sinal estridente anunciou o intervalo e o corredor foi tomado pela gritaria, o nó na garganta do professor continuava lá. Ele não deixou o menino na sala vazia. Guiou Pedro até o refeitório por um dever mecânico: a punição era a perda da brincadeira, não do prato. Colocou-o na mesa. O menino comeu a merenda em silêncio absoluto, a cabeça quase tocando o prato de plástico de alta densidade, sem levantar os olhos uma única vez.
O dia acabou. A turma foi embora. Netuno voltou para casa com a exaustão acumulada nas costas, sem saber que o silêncio de Pedro continuava trabalhando no escuro.


Às 6h40 da manhã seguinte, o pátio ainda estava quase vazio. O ar frio da comunidade de Arcádia cortava o rosto. Ao se aproximar do portão de ferro, Netuno notou uma figura parada perto do canteiro seco. Uma mulher magra, vestindo um casaco desbotado pelo uso. As unhas carregavam a terra escura do trabalho braçal, e sob os olhos cavados havia uma sombra funda de noites mal dormidas.
Quando ele deu o primeiro passo para o corredor interno, ela se moveu rápido.
— O senhor é o professor Netuno?
— Sou eu. Bom dia. Aconteceu alguma coisa?
Ela respirou fundo. O peito subiu e desceu sob o pano penso do casaco. As mãos se apertaram uma à outra, num gesto rígido de defesa.
— Sou mãe do Pedro. Ele me contou que fez bagunça ontem. Disse que o senhor deixou ele sem o recreio.
Netuno endireitou a postura, preparando mentalmente a justificativa pedagógica, o discurso sobre limites e a rotina da turma. Mas a mulher não esperou.
— Eu só queria pedir uma coisa pro senhor — disse ela, a voz baixa, sem agressividade, sem tom de cobrança.
Ela fez uma pausa. O barulho dos primeiros alunos chegando ao portão pareceu distanciar-se por completo.
— O senhor pode dar a bronca que for. Pode deixar ele de castigo... Só não deixa ele sem o lanche.
Netuno travou. As palavras da justificativa sumiram da sua boca.
A mulher olhou para o chão de terra do pátio, apertando os dedos com mais força.
— Tem dia que é a única coisa que tem pra ele comer.

Ela virou as costas. Não esperou resposta, não pediu desculpas, não ameaçou. Apenas caminhou em direção à saída, a figura franzina engolida pela névoa da manhã no portão de ferro da escola.
Netuno permaneceu pregado ao chão do pátio. O estômago contorceu-se em um nó seco. A sensação era de ter levado um golpe físico no peito.
Em um segundo, a imagem do dia anterior voltou com a violência de um estalo: Pedro empurrando os colegas; Pedro e a agressividade cega de quem não consegue articular a dor; Pedro ouvindo a punição e baixando a cabeça — não por submissão ao professor, mas pela resignação terrível de quem já conhecia a privação.
O sinal tocou. O barulho dos passos invadiu o corredor. As crianças começaram a entrar, rindo, correndo, batendo as mochilas contra as paredes.
Netuno caminhou até a porta da sala de aula do 2º ano. Sentou-se na mesa do professor. Olhou para a carteira de Pedro, no canto da fileira, onde o menino tirava o caderno puído da bolsa.
O giz na sua mão parecia subitamente pesado demais para ser erguido.

Vozes silenciadas

Sinopse

Histórias silenciadas é o relato visceral de como a depressão e o burnout devoram a sanidade de Netuno, um professor em início de carreira. O que deveria ser alegre transforma-se em um cativeiro psicológico, onde a convivência diária com a fome, o abandono e a violência atuam como estopim para o seu colapso mental. A obra acompanha a manifestação física e silenciosa desse esgotamento: a insônia crônica, o aperto sufocante no peito e o peso anestésico da depressão, que aos poucos remove o sentido de tudo ao redor. Em resposta ao trauma contínuo, o burnout manifesta-se em uma hipervigilância doentia, na qual Netuno tenta antecipar tragédias e controlar o incontrolável, gastando reservas de energia psíquica que ele já não possui. Cada conto registra uma etapa no avanço dessas doenças. As marcas visíveis nos alunos não geram soluções; geram crises de pavor, despersonalização e um sentimento avassalador de impotência. Mais do que retratar os muros da escola, o livro escancara a ruína por trás da porta de casa: a jornada de um homem diagnosticado pelo próprio corpo, tragado pela depressão e pela exaustão extrema de quem se afogou no sofrimento que tentou testemunhar.

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ISBN
LITEBN-921472035718680663039856
LITEBN
LITEBN-921472035718680663039856
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