Universo da obra
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Romeu e Julieta da Aldeia
Em uma aldeia suíça cercada de campos, duas famílias vizinhas viviam lado a lado havia muitos anos. Entre suas terras havia uma faixa estreita e abandonada, um pedaço de chão que ninguém cultivava direito e que, justamente por isso, começou a parecer mais precioso do que era. Enquanto os pais ainda se cumprimentavam como homens razoáveis, seus filhos cresciam juntos nos caminhos, nas cercas e nas tardes de verão.
O menino chamava-se Sali; a menina, Vrenchen. Quando pequenos, brincavam sem saber que os adultos já carregavam dentro de si sementes de rivalidade. Corriam entre as plantações, dividiam frutas, riam da poeira que levantavam com os pés. A terra, que para os pais significava posse, para eles era apenas mundo aberto.
Mas a faixa disputada começou a separar as casas. Primeiro vieram comentários, depois acusações, depois processos e gastos. Cada pai achava que o outro avançara um pouco mais, roubara uma linha, movera uma marca. O campo que ninguém valorizava tornou-se motivo de ruína. As colheitas pioraram, as dívidas cresceram, e a antiga vizinhança virou inimizade declarada.
Sali e Vrenchen foram separados pelo orgulho dos pais. Ainda se viam de longe, mas já não podiam falar como antes. A infância ficou para trás com a mesma rapidez com que as famílias perdiam dinheiro e paz. Quando se encontravam por acaso, havia entre eles a memória de uma amizade limpa e a sombra de uma guerra que não haviam escolhido.
O tempo passou. Os dois cresceram, e aquilo que fora brincadeira tornou-se amor. Não era amor de salão nem de promessa fácil; era sentimento nascido de lembrança, de perda e de reconhecimento. Sali via em Vrenchen a única parte intacta de sua juventude; Vrenchen via nele o único rosto que ainda lhe falava de um tempo antes da desgraça.
As famílias, entretanto, já estavam quebradas. Os pais haviam gasto força e honra em disputas pequenas demais para justificar tanto dano. A terra litigiosa, no fim, parecia zombar deles: continuava ali, muda, enquanto homens e casas se desfaziam ao redor. A aldeia observava, comentava e se afastava, como costumam fazer as comunidades quando uma tragédia se torna incômoda.
Sali e Vrenchen tentaram imaginar uma vida possível. Não tinham apoio, nem dinheiro, nem bênção. O mundo dos adultos lhes oferecia apenas vergonha e fechamento. Mesmo assim, em um dia de festa, caminharam juntos como se pudessem suspender por algumas horas a lei severa que os cercava. Foram à feira, ouviram música, viram a multidão e fingiram pertencer à alegria comum.
Mas a alegria pública não lhes dava lugar real. Havia sempre alguém olhando, julgando ou lembrando o que suas famílias tinham perdido. O amor deles parecia simples, mas tudo ao redor o tornava impossível. Não podiam voltar a ser crianças; não podiam casar-se como jovens respeitados; não podiam reconstruir sozinhos as casas que os pais haviam destruído.
Na margem desse mundo apareceu uma figura errante, ligada aos pobres, aos excluídos e aos que vivem fora da ordem da aldeia. Ele lhes mostrou outro caminho: uma existência sem nome estável, sem casa fixa, sem bênção social. Era liberdade, mas uma liberdade dura, quase sem futuro. Para Sali e Vrenchen, até essa vida parecia ao mesmo tempo tentação e exílio.
Ao anoitecer, os dois caminharam juntos para longe. A paisagem que os vira brincar agora os via decidir o próprio fim. Entre campos, água e sombra, compreenderam que o mundo lhes negara uma forma honrada de permanecer juntos. Escolheram então uma união que a aldeia não pudesse separar. A tragédia deles não nasceu de ódio juvenil, mas de uma sequência de pequenas durezas adultas que, somadas, esmagaram o que havia de mais vivo.
Depois, a aldeia comentaria o caso como se fosse destino, acidente ou loucura de jovens. Mas quem olhasse com atenção veria outra coisa: duas crianças tinham sido separadas por uma disputa de terra, dois jovens tinham sido empurrados para fora da vida comum, e duas famílias tinham destruído a própria posteridade por orgulho. Assim, em Seldwyla, o antigo tema de Romeu e Julieta reapareceu sem palácios nem espadas, apenas com campos, cercas, dívidas e silêncio.
# Nota editorial
Esta edição Literunico apresenta Romeu e Julieta da Aldeia, novela de Gottfried Keller publicada no ciclo de Seldwyla. A obra transpõe o motivo trágico dos amantes impedidos para uma paisagem rural suíça marcada por disputa de terras, orgulho familiar e isolamento social.
O texto foi preparado como tradução/adaptação em português brasileiro a partir da tradução inglesa em domínio público de Wolf von Schierbrand, publicada pelo Project Gutenberg em Seldwyla Folks: Three Singular Tales. Esta versão prioriza clareza narrativa e função editorial dentro da Copa do Mundo Literunico.
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