Universo da obra
Universo da obra
« Ligeiro sopro de oeste, halito suave de um genio adormecido no espaço aos doces cantares das virgens do céo, — quanto invejo as tuas azas para voar, voar, voar na paragem infinita, sobre o rastro espumeo que deixa a sua nave no regaço da onda preguiçosa!...
« Tu perpassas rapido e subtil na suave ondulação do ether; tu laceras os sudarios nevoentos que pendem dos hombros magestosos do Oural, e refrescas o solo incendiado do Adjimir, quando a calma imprime seus labios de fogo na face suarenta do pastor...
« E á tua passagem, languido, sentir côa-se de fibra a fibra em todos os seios; — as flôres levantam-se mais formosas, trocando mutuas caricias no pollen que vôa das antheras como um beijo; — os olhos scintillam mais humidos, sob a franja de uns cilios de velludo; — as mattas, os oásis e as colinas rociam-se de milhões de lagrymas — lagrymas que colhes no seio sombrio da desgraça para esparzires no regaço scintillante da ventura!
« Ah! colhe, colhe tambem piedoso as bagas candentes do pranto que incessante chóro! Toma, toma estas queixas que de meu peito arranca a angustia de uma separação eterna, e vôa, vôa sobre a immensidade dos mares...
« Que os teus plangentes queixumes cantem perennemente junto d'elle o melancholico poema de minhas dôres; que a tua humida aza esfolhe sem cessar meus beijos e minhas desesperadas maldições; que estas lagrymas que chóro no abandono brilhem eternamente sob seus olhos no seio tempestuoso da vaga!...
« Ligeiro sopro de Oeste, halito suave de um genio adormecido no espaço aos doces cantares das virgens do céo, dá-me uma gota, uma só gota dos balsamos sagrados que espremes sobre as chagas da natureza; entorna sobre o meu coração despedaçado o nardo celeste da consolação!...»
Como a pomba que geme solitaria nas leziras da selva brazilea, assim soluça Nelumbia, a filha ardente da Asia, vendo desapparecer ao longe a nave aventureira do malaio pirata, — seu amante.
A leôa do deserto, que volta á recondita gruta, onde ha pouco deixára os filhos tenros, e apenas encontra ossos sangrentos, roidos pela preza do chacal; o passaro, que se recolhe ao ninho com o peito aberto para offerecer-se em holocausto á prole amada, e em vão a chama com seus gritos estridentes, maior desespero não sentem que Nelumbia, despertando solitaria no leito do abandono.
Ella salta como impellida por mollas occultas, e a panthéra mosqueada que impéra nos serros javanezes é menos violenta, pungida pela sêde de sangue, do que essa mulher pelas agonias do desengano: seus olhos limpidos, certeiros descobrem e seguem no solo a pressão revelladora da planta de Harlos...
Surriso tremulo e triumphante arregaça-lhe os labios rubros; surriso doce e acerbo, explendido e ameaçador como o relampago que surca a nuvem incendiada pelos fogos do poente!
E' que a tempestade dos sentimentos, retardada por uns vislumbres de esperança, ruge surda nos intimos recessos de seu seio.
Ella parte sobre os passos do amante fugitivo e seus pés delicados mal tocam o solo na corrida infrene; mas quando, já na costa, sonda offegante a undosa voragem e descobre ao longe a nave graciosa de Harlos, que foge sobre o dorso da vaga longinqua; quando vê desapparecer para sempre, com esse lenho fluctuante, a doce felicidade de sua existencia inteira, a dôr de Nelumbia attinge o cumulo do soffrimento.
Ella vaga por instantes desvairada; sua longa cabelleira, esparsa pela rapidez dos movimentos, constringe-a como lugubre mortalha, e seu cóllo arquejante quebra as télas preciosas que o comprimem.
Pouco a pouco a energia lhe fallece; a commoção arranca de suas ardentes palpebras rios de lagrymas e seus labios desatam flébeis queixumes á brisa, que, vendo-a desgraçada e só, vem acaricial-a gemendo...
E cahindo com a face gelada contra a areia abrazadora, Nelumbia cerra languidamente os cilios...
E' triste a noite nas plagas remotas, onde o mar rebenta espumoso e a solidão reina com o seu phantastico cortejo de sombras...
Parece que as estrellas á medo se libram no espaço obscuro, e que o mesmo Deus desvia do homem seus misericordiosos olhares!
E' uma noite assim.
A divindade da terra galopa, galopa no seu sinistro corcel, sôltas á briza escassa as tranças fluctuantes, onde os astros brilham furtivos.
As tribus coleoptericas circulam silenciosamente, ou cahem inebriadas aos acres effluvios que exhalam a camphoreira e o sandalo; as phalenas nocturnas desdobram na atmosphera chumbada as largas azas pardacentas que a lethargia diurna entorpecêra.
De espaço a espaço o dromedario atravessa ligeiro o deserto; e o écho de seus passos confunde-se com a praga do pegureiro retardado...
A lua surge lentamente, esclarecendo apenas a paysagem, e á sua lenta ascensão as vagas suspiram amorosamente na praia solitaria.
De subito, um movimento estranho imprime fortes ondulações na face calma das aguas; e os véos ceruleos que vellam os mysterios do mar arregaçam-se de leve, desvendando uma multidão de cabecinhas loiras...
Gargalhadas argentinas, cantos buliçosos, gritosinhos de prazer resoam em todos os pontos, enlaçam-se em todas as ondas...
Ondinos e ondinas approximam-se, affastam-se, e saltam sobre a costa, inundando-a de risos jubilosos.
Seus pés mimosos mal esfrolam a areia prateada; os alvos sendaes que lhes envolvem os corpos, mal escondem a diaphaneidade de suas fórmas airosas.
Elles brincam, elles dansam na praia ao clarão da lua; e brincando, e dançando tocam num corpo humano...
Um grito flébil foge do seio das virgens do mar, e rapido, e temeroso o bando gazil arroja-se no undoso vórtice...
Os ondinos, tremulos e hesitantes, olham de longe a filha da terra...
Nelumbia continúa a dormir o somno da eternidade...
Os genios se approximam. Um contempla-a, e foge...
Outro toca a fimbria de seus longos vestidos, e affasta-se lento...
Um terceiro acaricia-lhe surrindo as negras madeixas...
Então o mais grave e formoso dos ondinos se adianta: contempla extatico Nelumbia e, tomando-a ligeiro nos braços, desapparece num rôlo de espumas...
Os companheiros seguem-nos surrindo, cantando sempre, e o silencio estende-se de novo sobre a plaga deserta.
Nos crystalinos paços, que se elevam no fundo do Oceano, luz mysteriosa illumina os doudos folguedos dos genios marinhos.
As loiras Ondinas saccodem as longas cabelleiras gottejantes, onde a perola brilha e desmaia, como a odalisca nos aureos coxins; na transparencia dos vêos de espuma, desenham-se seus talhes aereos, que as mais lindas nymphéas languidamente enlaçam.
Os ondinos, abraçados á alaúdes de coral, entôam cantos tão doces, tão doces que o pezar deserta do coração que os recolhe e o pranto da face que elles animam!
Sobre um leito de conchas e pérolas jaz Nelumbia, tão muda! tão fria!...
E as festas e os cantos mais e mais se animam; de plangentes que eram as notas, vibrantes se tornam; de cada instrumento, docemente tangido, foge uma cascata de sons argentinos, que se despenha pelas galerias submarinas...
As virgens oceanicas vôam arrebatadas na vertigem de uma dansa phantastica; a febre coloreia suas nevadas faces, o amor agita seus seios, sempre calmos...
E ellas dansam, dansam, dansam vertiginosamente em torno do leito onde repousa Nelumbia, sempre muda! sempre fria!...
Sobre a filha da terra inclina-se Lothos, o mais bello mancebo do oceano.
Seus braços diaphanos cingem o collo moreno da finada, sob cuja tez o sangue malaio circulava outr'ora como um rio de lavas...
Seus olhares apaixonados embebem-se nos olhos immoveis d'ella, olhos que a paixão illuminava com vivos lampejos, e que o halito da morte para sempre gelou...
Seus labios se approximam dos labios gelados da moça, labios que já não sabem surrir, e a elles se collam num beijo de fogo...
Então, como se aquelle beijo lhe levasse um raio de vida, Nelumbia estremece docemente...
Seu collo já se subleva; seus olhos esclarecem-se de novo e o sangue vai em breve circular-lhe nas veias com a poderosa seiva da mocidade, da belleza e do sentimento.
Mas seu talhe adelgaça-se, adelgaça-se, adelgaça-se ás doudas caricias do ondino e erige-se pouco a pouco em flexuoso hastil...
Renovos melindrosos lançam seus braços formosos...
Suas plantas mimosas enraizam-se na lia marinha, e de suas faces surgem largas pétalas douradas, que se agrupam graciosamente em torno dos labios, arredondados em rubra corolla!
Lothos, curvando a fronte, cahiu sem vida nos braços das ondinas...
Quando os primeiros rubores matutinos se arqueam em nimbo no Oriente e a primeira aragem oscula de leve a plaga asiatica, uma flôr de explendida belleza emerge do seio dos mares, e fluctua á superficie das aguas, melancholicamente voltada para o Levante.
Das pétalas louras, levemente rosadas, escapa-se uma multidão de gotas brilhantes, tão brilhantes como as lagrymas que chora a formosura abandonada.
Do cálice rubro, tão rubro como a ferida que o amor abre no coração da moça scismadora, escapam-se queixumes plangentes...
Ella fluctua, ella soluça á fról da onda, emquanto o sol brilha e lhe surri do espaço; e quando o crepusculo desce sobre a paragem erma, a flôr, voltando-se de subito nas sombras de uma profunda tristeza, cerra as pétalas mimosas e mergulha suspirando nas aguas.
Os navegantes, que sorprehendem seus doces gemidos, sentem-se irresistivelmente attrahidos para a formosa creatura aquatica; e tomados de supersticioso terror, quando distinguem ao longe a Nelumbia fluctuante, elles murmuram entre si:
— « Ella possue a alma gemedora da mulher que ama sem esperança...»
No fundo do mar já não resôam mais os cantos jubilosos dos genios: Ondinos e Ondinas choram a desapparição de Lothos, que não podendo resignar-se á perda de Nelumbia, exilou-se do berço natal.
Sua imagem pensativa reflecte-se hoje no espelho transparente do Nilo.
Narcisa Amalia.
Leia gratuitamente Nelúmbia, de Narcisa Amália, conto fantástico brasileiro em domínio público. Esta edição digital do Literunico foi preparada a partir da reedição em Lux! (1874), conferida com a ficha BLPL/UFSC da primeira publicação em A República (1873), em HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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