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Nelúmbia

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Nelúmbia

Capítulo 1 · Nelúmbia

Nelúmbia

I

« Ligeiro sopro de oeste, halito suave de um genio adormecido no espaço aos doces cantares das virgens do céo, — quanto invejo as tuas azas para voar, voar, voar na paragem infinita, sobre o rastro espumeo que deixa a sua nave no regaço da onda preguiçosa!...

« Tu perpassas rapido e subtil na suave ondulação do ether; tu laceras os sudarios nevoentos que pendem dos hombros magestosos do Oural, e refrescas o solo incendiado do Adjimir, quando a calma imprime seus labios de fogo na face suarenta do pastor...

« E á tua passagem, languido, sentir côa-se de fibra a fibra em todos os seios; — as flôres levantam-se mais formosas, trocando mutuas caricias no pollen que vôa das antheras como um beijo; — os olhos scintillam mais humidos, sob a franja de uns cilios de velludo; — as mattas, os oásis e as colinas rociam-se de milhões de lagrymas — lagrymas que colhes no seio sombrio da desgraça para esparzires no regaço scintillante da ventura!

« Ah! colhe, colhe tambem piedoso as bagas candentes do pranto que incessante chóro! Toma, toma estas queixas que de meu peito arranca a angustia de uma separação eterna, e vôa, vôa sobre a immensidade dos mares...

« Que os teus plangentes queixumes cantem perennemente junto d'elle o melancholico poema de minhas dôres; que a tua humida aza esfolhe sem cessar meus beijos e minhas desesperadas maldições; que estas lagrymas que chóro no abandono brilhem eternamente sob seus olhos no seio tempestuoso da vaga!...

« Ligeiro sopro de Oeste, halito suave de um genio adormecido no espaço aos doces cantares das virgens do céo, dá-me uma gota, uma só gota dos balsamos sagrados que espremes sobre as chagas da natureza; entorna sobre o meu coração despedaçado o nardo celeste da consolação!...»

II

Como a pomba que geme solitaria nas leziras da selva brazilea, assim soluça Nelumbia, a filha ardente da Asia, vendo desapparecer ao longe a nave aventureira do malaio pirata, — seu amante.

A leôa do deserto, que volta á recondita gruta, onde ha pouco deixára os filhos tenros, e apenas encontra ossos sangrentos, roidos pela preza do chacal; o passaro, que se recolhe ao ninho com o peito aberto para offerecer-se em holocausto á prole amada, e em vão a chama com seus gritos estridentes, maior desespero não sentem que Nelumbia, despertando solitaria no leito do abandono.

Ella salta como impellida por mollas occultas, e a panthéra mosqueada que impéra nos serros javanezes é menos violenta, pungida pela sêde de sangue, do que essa mulher pelas agonias do desengano: seus olhos limpidos, certeiros descobrem e seguem no solo a pressão revelladora da planta de Harlos...

Surriso tremulo e triumphante arregaça-lhe os labios rubros; surriso doce e acerbo, explendido e ameaçador como o relampago que surca a nuvem incendiada pelos fogos do poente!

E' que a tempestade dos sentimentos, retardada por uns vislumbres de esperança, ruge surda nos intimos recessos de seu seio.

Ella parte sobre os passos do amante fugitivo e seus pés delicados mal tocam o solo na corrida infrene; mas quando, já na costa, sonda offegante a undosa voragem e descobre ao longe a nave graciosa de Harlos, que foge sobre o dorso da vaga longinqua; quando vê desapparecer para sempre, com esse lenho fluctuante, a doce felicidade de sua existencia inteira, a dôr de Nelumbia attinge o cumulo do soffrimento.

Ella vaga por instantes desvairada; sua longa cabelleira, esparsa pela rapidez dos movimentos, constringe-a como lugubre mortalha, e seu cóllo arquejante quebra as télas preciosas que o comprimem.

Pouco a pouco a energia lhe fallece; a commoção arranca de suas ardentes palpebras rios de lagrymas e seus labios desatam flébeis queixumes á brisa, que, vendo-a desgraçada e só, vem acaricial-a gemendo...

E cahindo com a face gelada contra a areia abrazadora, Nelumbia cerra languidamente os cilios...

III

E' triste a noite nas plagas remotas, onde o mar rebenta espumoso e a solidão reina com o seu phantastico cortejo de sombras...

Parece que as estrellas á medo se libram no espaço obscuro, e que o mesmo Deus desvia do homem seus misericordiosos olhares!

E' uma noite assim.

A divindade da terra galopa, galopa no seu sinistro corcel, sôltas á briza escassa as tranças fluctuantes, onde os astros brilham furtivos.

As tribus coleoptericas circulam silenciosamente, ou cahem inebriadas aos acres effluvios que exhalam a camphoreira e o sandalo; as phalenas nocturnas desdobram na atmosphera chumbada as largas azas pardacentas que a lethargia diurna entorpecêra.

De espaço a espaço o dromedario atravessa ligeiro o deserto; e o écho de seus passos confunde-se com a praga do pegureiro retardado...

A lua surge lentamente, esclarecendo apenas a paysagem, e á sua lenta ascensão as vagas suspiram amorosamente na praia solitaria.

De subito, um movimento estranho imprime fortes ondulações na face calma das aguas; e os véos ceruleos que vellam os mysterios do mar arregaçam-se de leve, desvendando uma multidão de cabecinhas loiras...

Gargalhadas argentinas, cantos buliçosos, gritosinhos de prazer resoam em todos os pontos, enlaçam-se em todas as ondas...

Ondinos e ondinas approximam-se, affastam-se, e saltam sobre a costa, inundando-a de risos jubilosos.

Seus pés mimosos mal esfrolam a areia prateada; os alvos sendaes que lhes envolvem os corpos, mal escondem a diaphaneidade de suas fórmas airosas.

Elles brincam, elles dansam na praia ao clarão da lua; e brincando, e dançando tocam num corpo humano...

Um grito flébil foge do seio das virgens do mar, e rapido, e temeroso o bando gazil arroja-se no undoso vórtice...

Os ondinos, tremulos e hesitantes, olham de longe a filha da terra...

Nelumbia continúa a dormir o somno da eternidade...

Os genios se approximam. Um contempla-a, e foge...

Outro toca a fimbria de seus longos vestidos, e affasta-se lento...

Um terceiro acaricia-lhe surrindo as negras madeixas...

Então o mais grave e formoso dos ondinos se adianta: contempla extatico Nelumbia e, tomando-a ligeiro nos braços, desapparece num rôlo de espumas...

Os companheiros seguem-nos surrindo, cantando sempre, e o silencio estende-se de novo sobre a plaga deserta.

IV

Nos crystalinos paços, que se elevam no fundo do Oceano, luz mysteriosa illumina os doudos folguedos dos genios marinhos.

As loiras Ondinas saccodem as longas cabelleiras gottejantes, onde a perola brilha e desmaia, como a odalisca nos aureos coxins; na transparencia dos vêos de espuma, desenham-se seus talhes aereos, que as mais lindas nymphéas languidamente enlaçam.

Os ondinos, abraçados á alaúdes de coral, entôam cantos tão doces, tão doces que o pezar deserta do coração que os recolhe e o pranto da face que elles animam!

Sobre um leito de conchas e pérolas jaz Nelumbia, tão muda! tão fria!...

E as festas e os cantos mais e mais se animam; de plangentes que eram as notas, vibrantes se tornam; de cada instrumento, docemente tangido, foge uma cascata de sons argentinos, que se despenha pelas galerias submarinas...

As virgens oceanicas vôam arrebatadas na vertigem de uma dansa phantastica; a febre coloreia suas nevadas faces, o amor agita seus seios, sempre calmos...

E ellas dansam, dansam, dansam vertiginosamente em torno do leito onde repousa Nelumbia, sempre muda! sempre fria!...

Sobre a filha da terra inclina-se Lothos, o mais bello mancebo do oceano.

Seus braços diaphanos cingem o collo moreno da finada, sob cuja tez o sangue malaio circulava outr'ora como um rio de lavas...

Seus olhares apaixonados embebem-se nos olhos immoveis d'ella, olhos que a paixão illuminava com vivos lampejos, e que o halito da morte para sempre gelou...

Seus labios se approximam dos labios gelados da moça, labios que já não sabem surrir, e a elles se collam num beijo de fogo...

Então, como se aquelle beijo lhe levasse um raio de vida, Nelumbia estremece docemente...

Seu collo já se subleva; seus olhos esclarecem-se de novo e o sangue vai em breve circular-lhe nas veias com a poderosa seiva da mocidade, da belleza e do sentimento.

Mas seu talhe adelgaça-se, adelgaça-se, adelgaça-se ás doudas caricias do ondino e erige-se pouco a pouco em flexuoso hastil...

Renovos melindrosos lançam seus braços formosos...

Suas plantas mimosas enraizam-se na lia marinha, e de suas faces surgem largas pétalas douradas, que se agrupam graciosamente em torno dos labios, arredondados em rubra corolla!

Lothos, curvando a fronte, cahiu sem vida nos braços das ondinas...

V

Quando os primeiros rubores matutinos se arqueam em nimbo no Oriente e a primeira aragem oscula de leve a plaga asiatica, uma flôr de explendida belleza emerge do seio dos mares, e fluctua á superficie das aguas, melancholicamente voltada para o Levante.

Das pétalas louras, levemente rosadas, escapa-se uma multidão de gotas brilhantes, tão brilhantes como as lagrymas que chora a formosura abandonada.

Do cálice rubro, tão rubro como a ferida que o amor abre no coração da moça scismadora, escapam-se queixumes plangentes...

Ella fluctua, ella soluça á fról da onda, emquanto o sol brilha e lhe surri do espaço; e quando o crepusculo desce sobre a paragem erma, a flôr, voltando-se de subito nas sombras de uma profunda tristeza, cerra as pétalas mimosas e mergulha suspirando nas aguas.

Os navegantes, que sorprehendem seus doces gemidos, sentem-se irresistivelmente attrahidos para a formosa creatura aquatica; e tomados de supersticioso terror, quando distinguem ao longe a Nelumbia fluctuante, elles murmuram entre si:

— « Ella possue a alma gemedora da mulher que ama sem esperança...»

No fundo do mar já não resôam mais os cantos jubilosos dos genios: Ondinos e Ondinas choram a desapparição de Lothos, que não podendo resignar-se á perda de Nelumbia, exilou-se do berço natal.

Sua imagem pensativa reflecte-se hoje no espelho transparente do Nilo.

Narcisa Amalia.

Nelúmbia

Sinopse

Leia gratuitamente Nelúmbia, de Narcisa Amália, conto fantástico brasileiro em domínio público. Esta edição digital do Literunico foi preparada a partir da reedição em Lux! (1874), conferida com a ficha BLPL/UFSC da primeira publicação em A República (1873), em HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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