O ar carregava uma umidade perfumada, densa, como se cada folha transpirasse vida. Havia ali uma presença inquietante, mas não hostil, algo que Cecília não conseguia ver, mas sentia no fundo dos ossos. Não era como um sonho comum, onde as imagens se dissolviam no esquecimento assim que os olhos se abriam. Não. Aquilo era diferente. Mais real.
Ela deslizou os dedos pelo próprio braço, esperando sentir a estranheza dos sonhos, aquela leve inconsistência que denunciava a ilusão. Mas sua pele estava quente, o toque tão nítido quanto no mundo desperto. O coração acelerou.
O que era aquele lugar?
Seu olhar subiu lentamente pelas árvores, e um arrepio percorreu sua espinha. As copas se perdiam na escuridão de um céu que não era um céu. Não aquele que ela conhecia. Havia estrelas ali, sim, mas não as que aprendera a reconhecer quando criança. Em vez disso, nebulosas dançavam, seus brilhos oscilando como se respondessem a um ritmo invisível. Eram cores vivas, fluindo como tinta em água, formando e desmanchando constelações diante de seus olhos.
Se aquilo era um sonho, era o mais lúcido que já tivera.
Ela abaixou o olhar para o chão, esperando encontrar terra seca ou folhas caídas, mas seus pés estavam sobre algo diferente. A textura era macia, quase sedosa. A princípio, pensou que fosse musgo, mas quando se ajoelhou para tocar, percebeu que era algo mais estranho: como se a própria floresta respirasse sob seus dedos.
As árvores ao seu redor eram colossais. Troncos retorcidos se erguiam em espirais, envoltos em padrões que pareciam entalhados, mas pulsavam levemente, como se estivessem vivos. As folhas sussurravam umas para as outras em uma língua que ela não conhecia, mas que, de alguma forma, ecoava em sua mente, como memórias distantes tentando emergir.
Ela não sabia como havia chegado ali. A última coisa que lembrava era do peso confortável dos cobertores sobre seu corpo, do luar escorrendo pela janela do quarto. Mas agora... agora ela estava ali. E algo dentro dela dizia que não era por acaso.
O vento soprou, carregando um aroma que Cecília nunca sentira antes. Uma mistura de terra molhada, névoa fria e um toque adocicado de flores que não existiam em lugar algum do mundo desperto. Ela fechou os olhos e inalou profundamente, sentindo um calor se espalhar por dentro, como se aquele ar fosse feito para ela.
Quando abriu os olhos novamente, a floresta parecia... esperar.
Havia um silêncio profundo, mas não vazio. Era a pausa entre um chamado e uma resposta.
Ela tentou dar um passo, mas hesitou. E se não fosse bem-vinda ali?
Foi então que algo tocou sua pele.
Era um fio de luz.
Uma partícula dourada flutuou diante de seu rosto, brilhando como um vaga-lume, e Cecília instintivamente estendeu a mão. Assim que a ponta de seu dedo tocou a luz, uma onda de calor subiu por seu braço, espalhando-se pelo peito. Não era queimadura, nem dor. Era reconhecimento.
A floresta a conhecia.
Cecília soltou o ar que nem percebeu estar prendendo e, dessa vez, deu um passo à frente. O chão respondeu ao seu toque com um leve pulsar, e, como se aquilo fosse um sinal, o bosque ao seu redor se moveu. As árvores rangeram suavemente, abrindo caminhos que antes não existiam, e o vento dançou entre os galhos, carregando sussurros.
O medo se dissolveu.
No fundo, ela sabia.
Aquele era o início de algo maior.
E jamais voltaria a ser a mesma.
Os primeiros passos em Turiya eram sempre solitários. Como um oceano de sonhos onde cada um navegava à deriva, sem mapas nem bússolas. Muitos se perdiam, afundando antes mesmo de compreenderem onde estavam. Outros despertavam, assustados com a vastidão do desconhecido. Mas Cecília permaneceu.
Havia nela um fascínio insaciável por aquele reino, uma fome de descobertas que queimava como fogo. O medo que muitos sentiam ao se verem mergulhados no irreal nunca a tocou da mesma forma. Se Turiya era um sonho, então ela queria sonhá-lo por completo.
E foi assim que ela encontrou Beatriz.
A garota estava parada no meio de um campo nebuloso, os pés afundando levemente na relva translúcida. Seu olhar oscilava entre o assombro e o desespero, como alguém que havia tropeçado em uma terra sem nome. Os cabelos escuros se agitavam ao vento, e seus dedos tremiam levemente ao envolver os próprios braços.
Cecília reconheceu aquele olhar. Ela mesma já estivera assim, presa entre a maravilha e o medo.
Aproximou-se sem pressa, os pés descalços não fazendo som algum. Quando Beatriz finalmente notou sua presença, Cecília sorriu.
— Você está perdida?
A outra hesitou, mas algo na voz dela era tranquilizador. Não era como os outros Andarilhos, que pareciam sempre distantes, os olhos voltados para algo que ninguém mais via. Cecília tinha um olhar intenso, cheio de vida, como se estivesse mais desperta ali do que jamais estivesse no mundo real.
Foi esse olhar que convenceu Beatriz a aceitar sua mão estendida.
A partir daquele momento, uma amizade nasceu.
Nos dias que se seguiram, Cecília a guiou pelos mistérios do reino. Mostrou-lhe como escutar os sussurros do vento e como perceber os lugares onde a realidade se dobrava. Como identificar as Brechas, aquelas fendas delicadas por onde ecos de outros mundos podiam ser sentidos.
Beatriz aprenderia a andar com os sonhos, e um dia se tornaria uma grande Andarilha. Mas naquela época, era apenas uma aprendiz. E Cecília, sua guia.
O amor de Cecília por Turiya crescia a cada visita. Cada vez que fechava os olhos no mundo desperto, sentia-se menos inclinada a acordar. Para que despertar, quando o verdadeiro chamado de sua alma estava ali?
Essa paixão, que para muitos era admirável, preocupava Nazu.
De longe, ele observava. Seu olhar atravessava as correntes do sonho e pousava sobre Cecília com um pesar silencioso. Ele já vira aquilo antes. O brilho nos olhos dela, a entrega absoluta. A linha entre amor e obsessão era tênue em Turiya, e ele temia que Cecília seguisse pelo mesmo caminho de Kushim, que seu fascínio virasse prisão, e sua alma se perdesse no vasto oceano do sonhar.
O desequilíbrio chegou à floresta como uma sombra silenciosa. Não houve trovões anunciando sua chegada, nem ventos uivantes carregando presságios. Apenas um sussurro errado, uma nota dissonante no cântico eterno de Thalwynn.
Os Andarilhos demoraram a perceber. Os Primordiais, acostumados a vigiar os vastos domínios de Turiya, não notaram de imediato a corrupção rastejando pelas raízes. Mas a floresta sentiu. E Cecília sentiu com ela.
A princípio, foi apenas um incômodo sutil. Um farfalhar das folhas que soava... errado. Então, percebeu o cheiro. Onde antes o ar carregava o perfume de flores inexistentes e névoa fria, agora havia algo seco, estagnado. Cecília franziu o cenho. O vento parecia hesitar ao tocar sua pele, como se carregasse um aviso não dito. Olhou ao redor. Os troncos antes exuberantes estavam afundando em si mesmos, como se algo os esvaziasse por dentro. As folhas vibrantes que dançavam ao ritmo do sonho estavam agora paradas, opacas. Estendeu a mão para uma delas e, ao tocá-la, viu-a desmanchar-se em poeira cinzenta. Algo rastejava sob a casca do reino, sugando-lhe a essência.
E então veio o silêncio.
Não o silêncio tranquilo das madrugadas de Turiya, mas um vazio sufocante, onde nem os sussurros das árvores ousavam se erguer. Algo estava morrendo.
Um fragmento do próprio Devorador dos Sonhos, nascido da consciência corrompida que se alimentava da ruína. Ele não veio com gritos, mas com toques invisíveis. Enroscou-se nos galhos, entranhou-se no solo, dissolveu-se no próprio ar. Onde sua presença tocava, a essência da floresta se desfazia.
As folhas, antes verdes e pulsantes, perderam o brilho. O céu acima de Thalwynn escureceu, não como noite, mas como se uma névoa densa drenasse a luz. O pulsar do reino onírico tão vivo, tão real para Cecília tornou-se fraco e oscilante. Se ninguém o detivesse, Thalwynn murcharia até desaparecer.
Ela soube, então, o que precisava fazer. Mas ainda assim, hesitou. A floresta sussurrava para ela, chamando-a com urgência, mas sua mente se prendeu a um único pensamento: Beatriz. Cecília fechou os olhos, sentindo o peso da decisão. Se fizesse aquilo, nunca mais voltaria a vê-la. Nunca mais caminharia ao seu lado, ensinando-lhe os segredos de Turiya, ouvindo sua risada ecoar entre as árvores. Mas, ao abrir os olhos, viu o que restava de Thalwynn. A floresta que a acolhera. O lugar que se tornara seu lar. O pesadelo a devorava, e ela não podia permitir isso. Inspirou fundo. E então, deu o passo final
Ela amava Thalwynn.
Amava suas sombras oscilantes, que dançavam ao som de melodias inaudíveis. Amava os sussurros entre os galhos, como se as árvores contassem segredos esquecidos. Amava a sensação de se perder e se encontrar ali, onde a lógica do mundo desperto não a prendia.
Deixar que Thalwynn morresse seria como arrancar um pedaço de sua própria alma.
Então, tomou sua decisão.
Sozinha, Cecília caminhou até o coração da floresta. Seus pés descalços afundaram na terra úmida, e a cada passo, sentia a dor de Thalwynn como se fosse sua. O apodrecimento rastejava pelas folhas, as raízes tremiam em desespero silencioso.
O Kabu estava ali. Aguardando. Não se manifestava com fúria ou violência, mas com um silêncio sufocante. Era uma presença que se enroscava na paisagem, distorcendo-a. Cecília não o via, mas o sentia rastejando pelo solo, pelos troncos, infiltrando-se nas raízes como uma praga invisível. Então, algo se moveu. Uma sombra onde não deveria haver nenhuma. Os galhos se inclinaram, não pelo vento, mas por uma força que os puxava para dentro de si. Cecília viu uma árvore retorcer-se lentamente, sua casca se fragmentando como pele envelhecida. O vazio se alastrava. O Kabu não precisava caçar. Ele esperava que tudo ao seu redor se tornasse parte dele.
Ela parou diante da fonte da corrupção. Era um vazio retorcido, algo que não deveria existir em Turiya, e ainda assim estava ali, impregnando tudo ao redor. Cecília não hesitou.
Fechou os olhos.
Respirou fundo.
E se entregou.
Seu corpo brilhou, a pele cintilando entre tons de verde e dourado. Ela não lutou contra o Kabu, em vez disso, ofereceu-se à floresta. Sua essência se dissolveu como névoa ao amanhecer, espalhando-se por Thalwynn, preenchendo os espaços que haviam sido maculados.
As raízes a aceitaram.
As árvores a absorveram.
O vento carregou seu riso uma última vez.
Thalwynn floresceu.
O Kabu se contorceu, incapaz de resistir à renovação. A floresta se ergueu contra ele, expurgando sua presença como um corpo que rejeita uma doença.
Houve um momento de quietude. Um instante onde tudo permaneceu imóvel, como se o próprio tempo hesitasse. Então, veio o primeiro suspiro. O solo tremeu levemente, e um tom verdejante percorreu as raízes, como se a seiva voltasse a fluir. As árvores, antes curvadas sob o peso da corrupção, ergueram-se, suas folhas recobrindo-se de um brilho dourado. O vento soprou, desta vez leve e morno, espalhando o aroma familiar de Thalwynn. A floresta respirou de novo. O Kabu contorceu-se uma última vez antes de desaparecer, sua essência, expulsa pelo próprio tecido de Turiya.
Mas Cecília não despertou.
Seu corpo já não existia. Sua voz não ecoava mais nos corredores de Turiya. Mas aqueles que atravessam a floresta sentem sua presença nos ventos que os guiam, nas sombras que dançam sob a lua.
Dizem que, se ouvirem com atenção, podem escutar seu riso misturado ao farfalhar das folhas.
Cecília Hargrave nunca deixou Thalwynn.
Ela se tornou parte dela.
…
O vento deslizou entre as árvores, carregando um murmúrio familiar. Beatriz fechou os olhos, deixando-se guiar pelo som. Seus pés tocaram o solo macio da floresta de Thalwynn, e o ar noturno trouxe consigo o perfume etéreo que ela aprendera a associar àquele lugar. Sempre que atravessava uma Brecha e emergia ali, sentia-se em casa.
Mas agora, o sentimento era diferente.
Desde sua última visita, uma inquietação a consumia. Algo dentro dela se agitava, um pressentimento que não sabia nomear. O tempo em Turiya fluía de maneira incerta, e o que antes parecia um espaço eterno de aprendizado agora a deixava inquieta.
Porque, pela primeira vez, Beatriz começou a se perguntar: Quem era Cecília?
Ela olhou ao redor, esperando encontrá-la, como sempre acontecia. Mas Thalwynn estava silenciosa. Não um silêncio vazio, mas aquele cheio de expectativa, como se a floresta soubesse algo que ela ainda não sabia.
Então, sentiu.
Não um toque, nem um som, mas uma presença. Algo invisível dançou ao redor de seus braços, como fios de luz deslizando por sua pele.
Beatriz se virou, e lá estava ela.
Cecília.
Seu rosto era o mesmo de sempre, os olhos brilhando com aquela chama intensa, cheios de vida. Mas havia algo diferente. Algo que Beatriz nunca notara antes. Cecília parecia distante. Não fisicamente, mas de um jeito mais sutil, como se a própria floresta a moldasse a cada instante, como se sua forma fosse um reflexo de Thalwynn.
Beatriz hesitou antes de falar:
— Onde você vai quando não está aqui?
Cecília piscou, surpresa com a pergunta.
— Como assim?
— Eu nunca te vejo em outro lugar. Nunca te vi fora da floresta.
A outra garota sorriu, mas era um sorriso que carregava algo a mais. Um peso, uma lembrança antiga demais para pertencer a alguém tão jovem.
— Porque eu nunca saio.
Beatriz franziu o cenho.
— O que você quer dizer?
Cecília não respondeu de imediato. Seus dedos traçaram padrões invisíveis no ar, e por um momento, as folhas ao redor tremularam como se tivessem entendido algo que Beatriz ainda não compreendia.
— Há quanto tempo você está aqui, Bea?
A pergunta pegou Beatriz desprevenida.
— Eu... não sei. O tempo aqui não faz sentido.
— Exato.
Cecília se aproximou. O vento soprou ao redor das duas, e Beatriz sentiu um arrepio. Pela primeira vez, percebeu que nunca perguntara a Cecília sobre sua história. Sobre como ela chegara ali. Sobre quem ela era, antes de Thalwynn.
— Há quanto tempo você está aqui? — a voz de Beatriz saiu baixa, quase um sussurro.
Dessa vez, Cecília sorriu de verdade, mas havia uma tristeza ali.
— Há muito. Mais do que posso contar.
O coração de Beatriz apertou.
— Mas... como?
Cecília ergueu o olhar para as copas das árvores. O céu acima não era um céu comum, nebulosas dançavam no escuro, suas cores vibrando como um quadro vivo. Ela suspirou, e quando falou novamente, sua voz carregava um tom que Beatriz nunca ouvira antes.
— Eu vivi há muito tempo, Bea. No mundo desperto, sou apenas uma lembrança antiga, um nome perdido no tempo. Mas Thalwynn me guardou. Eu pertenço a ela. E é por isso que só nos encontramos aqui.
Beatriz deu um passo para trás.
— Isso não faz sentido. Eu... eu aprendi com você. Você me ajudou. Você é real.
— Eu sou real. Mas não da forma que você pensa.
Beatriz sentiu sua mente girar. De repente, todos os pequenos detalhes que nunca havia questionado começaram a se encaixar. Como Cecília sempre sabia onde estavam os caminhos ocultos. Como ela se movia como se fosse parte da floresta. Como sua presença nunca mudava, nunca envelhecia.
Ela não era uma viajante em Turiya.
Ela era Turiya.
Ou pelo menos, uma parte dele.
— Então... você morreu?
Cecília não respondeu. Não precisava. A floresta respondeu por ela. O farfalhar das folhas, o pulsar das raízes sob os pés de Beatriz, o vento envolvendo seus cabelos.
Beatriz quis dizer algo, mas sua garganta estava seca. Cecília observava sua reação em silêncio, como se soubesse que não havia palavras que pudessem tornar aquilo mais fácil.
Beatriz sentiu o peso da revelação como uma lâmina afundando em seu peito.
Cecília não era como os outros Andarilhos. Não era uma viajante de Turiya, nem uma guia que pudesse atravessar as Brechas entre os mundos. Ela era parte de Thalwynn. Estava presa ali. Sempre estivera.
E Beatriz nunca poderia encontrá-la fora daquela floresta.
— Não... — Sua voz saiu baixa, como um sussurro quebrado. — Não pode ser.
Cecília observava em silêncio, o olhar carregado de algo que Beatriz nunca notara antes.
— Sinto muito, Bea — disse ela, a voz tão suave quanto as folhas ao vento.
Beatriz recuou um passo, depois outro. De repente, tudo parecia errado. A floresta, que sempre fora um refúgio, agora parecia um cárcere. Cecília pertencia àquele lugar. Não havia um mundo além daquelas árvores para ela. Nunca houvera.
— Mas eu... — As palavras morreram em sua garganta. Ela queria dizer que tudo aquilo era injusto, que não podia aceitar, que encontraria um jeito de levá-la de volta. Mas, no fundo, sabia que não havia solução.
A verdade era um abismo diante dela.
A floresta nunca permitiu que se encontrassem em outro lugar porque Cecília nunca saiu dali.
E nunca sairia.
Beatriz virou o rosto para o céu, tentando conter as lágrimas. As nebulosas dançavam no alto, indiferentes ao que sentia. Os galhos sussurravam em sua língua antiga, ignorando seu desespero. Tudo continuaria existindo, como sempre existira.
Só ela se sentia quebrada.
— Eu preciso ir — murmurou, sem olhar para Cecília.
Ela não esperou uma resposta. Apenas girou nos calcanhares e caminhou para longe, as sombras da floresta engolindo seus passos.
Cecília não a chamou de volta.
Beatriz não voltou a Turiya por um longo tempo.
Ela tentou fingir que aquilo não a afetava. Que sua vida no mundo desperto era o bastante. Mas, noite após noite, algo dentro dela se revirava. Ela acordava ofegante, com a sensação de que havia um vazio no peito, um espaço que antes fora preenchido.
A verdade era que sentia falta.
Falta dos ventos de Thalwynn, do chão que pulsava sob seus pés. Falta dos sussurros das árvores e do céu que não era céu. Falta de Cecília.
Mas voltar era ainda pior.
Quando, enfim, reuniu coragem para atravessar uma Brecha, Thalwynn estava como sempre estivera, imponente, viva, atemporal. Só que agora, não parecia mais pertencer a ela.
Ela caminhou entre as árvores, esperando sentir a presença de Cecília. Esperando que sua amiga aparecesse sorrindo, chamando-a de tola por ter demorado tanto.
Mas Cecília não veio.
Ela sentia que estava ali. Nos galhos que se curvavam ao vento. No brilho esverdeado das folhas. No pulsar profundo da floresta. Mas não como antes.
Beatriz caiu de joelhos no solo úmido.
— Por favor... — sussurrou. — Só mais uma vez.
A floresta sussurrou em resposta. Mas não era a voz de Cecília.
Ela nunca a veria de novo.
E foi naquele momento que Beatriz soube.
Ela não pertencia mais a Turiya.
Os Andarilhos sempre falaram sobre o preço do Sonhar. Sobre aqueles que se perdiam em Turiya, incapazes de voltar. Mas ninguém nunca mencionou aqueles que escolhiam partir.
Beatriz sabia que não conseguiria viver carregando aquela ausência.
Então, decidiu esquecer.
Não de forma natural. O tempo não roubaria Cecília de sua memória. Mas a floresta poderia.
Ela voltou a Thalwynn uma última vez, caminhando até seu coração. Aquele era o único lugar onde Cecília ainda existia para ela. Onde a presença da amiga podia ser sentida em cada folha, em cada raiz.
Parou diante de uma árvore antiga, seu tronco marcado com padrões vivos. Fechou os olhos e pousou a palma sobre a casca fria.
— Leve isso de mim — sussurrou. — Eu não quero mais lembrar.
A floresta hesitou.
O vento parou.
Beatriz sentiu algo se mover ao seu redor, como um abraço invisível, como dedos passando suavemente por seu rosto. Por um instante, quase ouviu o riso de Cecília, um eco perdido entre as folhas.
E então, veio o vazio.
A dor sumiu.
A saudade desapareceu.
Ela abriu os olhos.
O lugar ainda era lindo, mas não a tocava mais. Ela não sabia por que estivera ali. Não sabia o que buscava. O nome Cecília não significava nada.
Virou-se e partiu.
Nunca mais voltou.
Anos depois, Beatriz sonharia com uma floresta que já não reconhecia. Caminharia entre árvores que pareciam lhe chamar por um nome que não conhecia.
E, em algum canto esquecido de Turiya, entre folhas que brilham como vaga-lumes, uma sombra silenciosa sorriria para o vento, invisível aos olhos de quem esqueceu.
Beatriz partiu.
Mas Cecília nunca deixou Thalwynn
Do diário de Ashur, o Primordial esquecido