O cheiro de substâncias químicas impregnava a roupa de Shen quando percebeu que estava sendo seguido. Ajustou o comunicador no ouvido, escaneando o perímetro.
— Entre na próxima rua à esquerda e siga dois quarteirões até o mercado. Lá você conseguirá se misturar — instruiu Mitra.
— Entendido
A missão não era complicada: infiltrar, identificar o alvo, plantar as bombas e sair. Operação padrão para um agente com seu treinamento. Mas deu errado quando o alarme disparou, forçando sua fuga e deixando dois seguranças desacordados para trás. Só conseguiu ativar duas bombas antes de ser interceptado por aquela “sombra” que o seguia.
Pulou o muro do quintal de uma residência, roubou uma camisa e um boné pendurados num varal. Antes que o cachorro da casa despertasse, Shen já havia usado dois engradados de madeira para escalar o muro adjacente, que o levaria para o quarteirão seguinte.
O vento marinho beijava seu rosto conforme se aproximava da orla. Pessoas, músicas e aromas preenchiam o ar. O mercado noturno de Porto do Sal era exatamente o que precisava. Uma multidão vibrante, colorida e barulhenta para abafar até mesmo as sirenes que seguiam para o local onde plantara as bombas. A segunda fora acionada, e era por isso que estava ouvindo esse caos de longe.
— Na minha mão é fresquinho, freguês! — gritava um vendedor. — Pode chegar, temos as melhores bananas da região!
— Arrume uma cesta e finja que está fazendo compras — Mitra instruiu.
“Como se eu precisasse que me dissesse isso”, pensou, irritado com o tom condescendente da IA.
Perto dali, entre barracas de verduras e carnes, uma mulher alta de pele negra cumprimentava vendedores como se fosse moradora. Não era; seu vestido elegante e a postura cuidadosamente estudada a denunciavam como hóspede do The Orion Star, o mais luxuoso estabelecimento da costa. O luar refletia em sua pele, realçando cada movimento gracioso.
— Já marquei minha presença — ela sussurrou discretamente para o fone de ouvido oculto pela trança elaborada. — Ele está olhando para mim, tenho certeza.
— Sim, ele te vê… e parece indignado — disse Touro, seu controlador de campo, com um tom zangado. — Está falando com os capangas. Estão se dispersando. Tenha cuidado.
— O que pensa que ele fará comigo em um local público? — murmurou, ajustando a alça do vestido.
— Deixe-o para lá. Apenas coloque o rastreador em algo que o curador vá carregar. Lembre-se: precisamos acessar a localização do encontro dele com o comprador.
Zahara percorreu o mercado sem pressa, localizando o homem calvo de meia-idade que admirava uma caixa de madeira esculpida à mão numa barraca de especiarias. O curador do museu marítimo era um intermediário nessa operação, mas a chave para localizar o verdadeiro alvo: o estrangeiro que planejava roubar os planos de defesa da costa.
— Alvo confirmado. Aproximando — informou, encaminhando-se para a barraca com determinação.
Fingindo distração, Zahara esbarrou no ombro do curador. A caixa de especiarias escapou das mãos do homem. Antes que tocasse o chão, ela a capturou em um movimento rápido. O vestido ondulou e seu perfume de jasmim preencheu o ar.
— Ops! — Seus lábios carnudos se curvaram num sorriso encantador. — Acho que o senhor quase deixou isso cair.
O homem piscou várias vezes, hipnotizado pela desenvoltura daquela mulher.
— Eu… obrigado — gaguejou, aceitando a caixa de volta.
Com destreza, escorregou o minúsculo rastreador sob a caixa enquanto a devolvia.
— Está aqui, querido. Tenha uma boa noite — disse, afastando-se com um sorriso vitorioso.
— Oi? — Um chinês interrompeu o momento, parando ao lado do curador. — Você pretende levar isso?
— A-hã, o quê? — o curador desviou o olhar da mulher que se afastava.
— A caixa de orégano. O vendedor disse que é a última. Se não for levar, posso ficar com ela? — Shen estendeu a mão, aparentando genuíno interesse.
— Ah, sim. Claro. Não vou levar, achei muito cara. Pode ficar.
A alguns metros dali, posicionado no terraço de um edifício, olhando pela mira de um rifle, o observador comunicou:
— Temos um problema. Ele entregou a caixa para um estranho.
— Ele fez o quê? — Zahara virou-se bruscamente, esquecendo a discrição.
— Volte lá agora. O cara está levando o rastreador. Você precisa recuperá-lo. — A voz de Touro soou urgente.
— Não acredito nisso — resmungou, colocando as mãos na cintura e avaliando a situação.
— Seja rápida. Os homens de Jair identificaram sua presença. Há uns dez deles entrando no mercado pela entrada principal.
Zahara respirou fundo. A improvisação era sua especialidade. Começou a correr na direção indicada, deliberadamente rasgando o vestido e bagunçando os cabelos no processo. Esbarrou em uma barraca de café, manchando de marrom o vestido branco.
— Homem, chinês, aproximadamente um e oitenta, boné azul, camisa branca, sacola da loja de especiarias — orientou Touro enquanto ela seguia adiante, ignorando os xingamentos do dono da barraca às suas costas.
— Alvo identificado — confirmou, acelerando o passo.
Jogou-se nos braços do homem, simulando desespero.
— Por favor, me ajude! Meu ex-marido… — Olhou para trás, onde homens de terno escuro se aproximavam.
Shen examinou rapidamente a mulher. Faltava uma sandália em seu pé, vestido rasgado e sujo, cabelo desalinhado, todos sinais convincentes de uma fuga desesperada.
— Acalme-se, senhora — disse com firmeza, ajudando-a a se equilibrar.
— Finja ser um casal — Mitra orientou. — A sombra está procurando um homem sozinho, não um casal.
— Certo! Vou ajudá-la — respondeu, e a mulher assentiu agradecida, presumindo que falava com ela.
— Obrigada! — Seu sorriso sincero provocou um calor inesperado no peito de Shen.
Tomou sua mão. Era fachada, dizia a si mesmo, ignorando o arrepio que sentiu.
Atravessaram a multidão em ziguezague, Shen abrindo caminho com determinação. Pararam em uma vendinha, onde ele comprou um par de tênis femininos com um rápido toque do relógio no terminal de pagamento.
— Tome, coloque estes. Será mais fácil correr.
Ela observou nervosamente os perseguidores se aproximando.
— Confie em mim. Abaixe-se, há muita gente aqui. Eles não conseguirão vê-la.
Pela primeira vez naquela noite, alguém havia sido gentil ao instruí-la. Obedeceu, agachando-se. Notou uma tenda de roupas com um provador improvisado ao fundo e, ainda abaixada, deslocou-se como um pinguim pelo chão da venda.
Shen a observou passando ao lado de suas pernas e não conteve uma risada espontânea.
“Que mulher inusitada”, pensou.
Ela apanhou um vestido e foi se trocar, sob um olhar confuso de uma vendedora.
Shen rapidamente pagou pela peça.
Zahara havia percebido uma saída para um beco nos fundos da tenda. Já no novo traje, indicou discretamente a rota alternativa ao seu novo aliado.
Ambos deslizaram para o beco escuro, agora de braços dados como um casal comum.
— Eles ainda estão procurando — Mitra informou. — Vocês podem parar na parede à frente, tem um ponto cego. Fique na frente dela, bloqueando a visão da direção norte. Se cobrir o rosto dela com o seu, não poderão identificá-la.
— Vamos parar aqui um momento — Shen sugeriu, guiando-a até encostá-la na parede. — Fique na minha frente. Se esperarmos alguns minutos, eles desistirão.
Zahara observou o estranho que a ajudava. As linhas do rosto, os olhos puxados que não miravam os seus por algum motivo. Havia algo nele, uma competência, uma calma, uma segurança nos movimentos que a intrigava.
Ele posicionou o corpo à sua frente, colocando uma mão na parede próxima à cabeça dela, criando uma barreira entre ela e seus perseguidores. Uma posição extremamente sensual.
Seus olhares se encontraram. O tempo pareceu desacelerar. Quase sem perceber, os olhos dela fixaram-se nos lábios dele e condenou-se mentalmente pela distração. Tentou focar espiando por sobre o ombro musculoso dele, vendo os homens de Jair ainda vasculhando o mercado. Uma ideia surgiu, acompanhada de um sorriso malicioso.
Ela voltou seu olhar para os lábios do homem à sua frente e se deixou envolver pelo clima de romance de verão que ele exalava. Sem aviso, seus lábios capturaram os dele, roubando-lhe um beijo.
Shen enrijeceu por um instante, surpreso, mas logo correspondeu com igual intensidade. O que começou como estratégia evoluiu para algo mais profundo, mais animado.
— Vocês estão livres. — A voz de Mitra soou distante. — A sombra seguiu em outra direção. Missão cumprida por hoje.
Mas seus pensamentos já estavam além da missão, submersos na sensação daquela mulher misteriosa em seus braços. O beijo foi diminuindo gradualmente, até que ela se afastou para verificar o entorno.
— Acho que os despistamos — murmurou.
Shen a olhou com intensidade perturbadora, como se tentasse desvendar todos os seus segredos com um único olhar.
— Você gostaria de estender essa noite? — perguntou com um meio sorriso. — Por segurança, é claro. Há um bar na cobertura do meu hotel com vista para o mar. Poderíamos conversar… talvez eu pudesse descobrir seu nome.
Ela sorriu, assentindo. Pela segunda vez naquela noite, ele segurou sua mão, agora com um propósito diferente. Caminharam lado a lado pela rua lateral quase deserta, iluminada apenas por postes antigos que lançavam um brilho dourado sobre a calçada.
— Se eu te dissesse que fugir de mafiosos com uma mulher deslumbrante já estava na minha agenda de hoje, você acreditaria? — brincou ele.
Ela riu com genuíno prazer.
— Mas se eu contar a alguém que fui conquistado quando ela passou rastejando como um pinguim ao lado das minhas pernas, ninguém acreditaria — continuou provocando-a.
— Foi necessário! — protestou, dando um tapinha em seu braço. — Estava apenas seguindo suas instruções para não ser vista.
— Sabia que correr de bandidos com as mãos dadas cria laços? Li isso em um artigo científico muito sério.
— É mesmo? Em qual jornal acadêmico foi publicado? — entrou na brincadeira, sentindo-se estranhamente leve.
— Um muito respeitável, te garanto — respondeu com um sorriso cúmplice, abrindo a porta do hotel.
Era o mesmo hotel onde ela estava hospedada. Cruzaram o saguão elegante em direção aos elevadores. O The Orion Star abrigava na cobertura um bar exclusivo, conhecido pela vista panorâmica do oceano e pelos coquetéis elaborados.
A subida no elevador foi breve, mas carregada de eletricidade. As outras pessoas presentes percebiam a tensão romântica entre os dois, incapazes de desviar o olhar da química evidente que compartilhavam.