O bar na cobertura tinha luzes suaves, música discreta e vista da baía iluminada pela lua. Sentaram-se em uma mesa ao ar livre, onde a brisa trazia consigo o aroma do mar.
— Então, acho que mereço saber o nome da mulher que sequestrou meus lábios em um beco — ele comentou, após pedirem drinks ao garçom.
— Zahara — respondeu, optando por seu nome verdadeiro. Era uma regra que quebrava raramente, mas algo nele inspirava uma confiança irracional. — E você é…?
— Shen — também optou pela verdade, surpreendendo a si mesmo.
— Obrigada pela ajuda. Meu ex é… complicado. Tem conexões perigosas.
— Notei.
— E você? O que faz, além de resgatar damas em perigo e comprar caixas de especiarias? — perguntou, tocando levemente na sacola que ele ainda carregava.
— Sou fotógrafo. — A mentira saiu facilmente, parte de sua identidade de cobertura. — Viajo documentando mercados tradicionais.
— Então foi o destino que te colocou naquele mercado hoje?
— Ou talvez eu estivesse esperando por você sem saber — respondeu com um sorriso que fez o coração dela acelerar.
Os drinks chegaram, proporcionando uma pausa bem-vinda na conversa que começava a entrar em território perigoso.
— E você? O que faz uma mulher como você em Porto do Sal? — questionou, observando-a por cima da borda do copo.
— Trabalho com aquisições de arte — improvisou Zahara. — Estou aqui para verificar algumas peças para um cliente.
— Arte, hmm? Combina com você.
Riram, conversaram, trocaram histórias fabricadas com fragmentos de verdade. O bar se esvaziou, mas eles permaneceram, presos em sua bolha particular. As mentiras elaboradas se entrelaçando em uma dança de sedução e meias-verdades.
Entre o segundo e o terceiro drink, os joelhos se tocaram sob a mesa. Nenhum dos dois se afastou.
— Sabe o que é mais interessante sobre fotografia? — comentou Shen, inclinando-se para frente. — É uma forma de espionagem socialmente aceitável. Observamos, capturamos momentos sem que as pessoas percebam o que realmente estamos vendo.
Uma pequena tensão percorreu a coluna de Zahara. Era apenas um comentário casual ou havia algo mais?
— Arte também tem seus segredos — respondeu, mantendo a compostura. — Um observador comum vê apenas a superfície. É preciso conhecimento para entender o que está realmente escondido na obra.
A noite avançava, e crescia a atração entre os dois. Cada toque acidental, cada olhar prolongado, construía uma intimidade perigosa. Embora treinados para manter distância emocional, aproximavam-se perigosamente de uma linha que não deveriam cruzar.
— Sua caixa de especiarias — comentou ela, apontando para a sacola esquecida. — Vai usá-la em alguma receita especial?
— Na verdade, foi um impulso — respondeu, entregando-a a ela. — Talvez seja um presente. Para a pessoa certa.
Zahara aceitou, seus dedos roçando os dele por um momento mais longo que o necessário. O rastreador estava ali, preso à parte inferior da caixa. Missão cumprida… estava novamente de posse do chip.
— Posso te fazer uma pergunta estranha? — ela quebrou o silêncio.
— Claro.
— Você acredita em coincidências?
Um sorriso se formou nos lábios dele.
— Acredito que algumas pessoas são destinadas a se encontrar.
O bar anunciou o último pedido da noite. As estrelas brilhavam acima deles, como testemunhas de um jogo duplo.
— Acho que deveríamos continuar esta conversa em um local mais… privado — sugeriu ele, com uma intensidade que não deixava dúvidas sobre suas intenções.
— Acho uma excelente ideia — concordou, levantando-se e ajustando o vestido. — Por que você não me mostra a vista do seu quarto?
No elevador, sozinhos desta vez, assim que as portas se fecharam, estavam nos braços um do outro novamente, o beijo agora desprovido de qualquer pretexto tático.
As portas se abriram no décimo oitavo andar, e eles se separaram brevemente, apenas o suficiente para chegar ao quarto.
Shen passou o relógio na fechadura, abriu a porta e a puxou gentilmente para dentro.
No dia seguinte, Shen foi o primeiro a acordar; decidiu pedir um serviço de quarto e quando se levantou para ir ao banheiro, alcançou o comunicador para receber novas ordens de Mitra.
Zahara, por outro lado, foi acordada com a claridade do sol no rosto; olhou para o lado e viu que Shen não estava ali. Mas a descarga indicava que ele estava no banheiro. Pegou o comunicador que escondeu em um dos bolsos do vestido e o colocou no ouvido para ouvir as próximas instruções de Touro.
— Estou com o rastreador, o que faço agora? — ela perguntou antes de atender a porta, a camareira trazia o café da manhã.
— Deu certo, as bombas conseguiram danificar os equipamentos de comunicação de Petrov, isso o forçou a aparecer no encontro pessoalmente com o curador — disse Mitra para Shen, no banheiro.
— O curador foi o intermediário de Petrov, e já arrumou um local para que ele pudesse se encontrar, agora você terá que levar esse rastreador lá. Esse é o único rastreador que nós temos capaz de burlar os detectores da tecnologia militar e de defesa que ele está traficando — Touro disse para Zahara.
Enquanto Zahara ouvia as instruções, a camareira entrou e começou a montar a mesa do café da manhã. Por um descuido da mulher, o jarro de suco quase caiu e se espatifou no chão. Se não fosse pela ajuda rápida de Zahara, quase desafiando a física para pegá-lo no meio do ar, a mulher podia ter perdido o emprego com esse deslize — e a camareira precisava dele para manter seus três filhos. Ela colocou a mão no coração e agradeceu enfaticamente enquanto se despedia.
Do outro lado, na porta do banheiro, o olhar carregado de desconfiança de Shen se estreitou.
Sua mente trabalhava rapidamente, coletando os indícios: os reflexos sobre-humanos, o modo como ela o encontrou “por acaso” no mercado, a familiaridade com o hotel, vestido rasgado, fuga de pessoas perigosas…
Tudo fazia sentido agora. A mulher por quem se sentira atraído não era uma vítima fugindo do ex-marido. Era uma operativa. Possivelmente de outro Serviço de Inteligência. Talvez até mesmo… o alvo que procurava.
Respirou fundo, recompondo a máscara de charme despreocupado que usara na noite anterior.
“Missão acima de tudo”, lembrou-se.
Enquanto isso, Zahara recebeu no relógio a imagem do agente que foi flagrado pelo sistema de segurança colocando as bombas na comunicação de Petrov pelo seu parceiro, Sombra.
Foi como um soco no estômago: as bombas, o cheiro de substâncias químicas que notara em seu corpo na noite anterior. Como não percebera antes?
Quando olhou para o lado, assim que fechou a porta após a saída da camareira, percebeu que os olhares de Shen estavam nela. Os dois se encararam através de sorrisos falsos, cada um consciente do teatro que estavam prestes a encenar.
— Pedi café da manhã para nós — comentou casualmente, servindo uma xícara de café para ela. — Dormiu bem?
— Como nunca — respondeu, aceitando o café.
— Algum pesadelo com seu ex?
Um teste. Ela percebeu.
— Ah, com ele por perto, nunca consigo dormir tranquila — sustentou a mentira com naturalidade. — Obrigada novamente por ontem.
Seus olhares se cruzaram por cima das xícaras de café. Cada um planejando o próximo movimento, calculando distâncias, avaliando opções de escape.
— Então, fotografia… — ela começou, quebrando o silêncio. — Algum outro trabalho recente além dos mercados?
— Alguns projetos aqui e ali. E você? Arte é um campo… volátil, não?
— Bastante imprevisível. Nunca se sabe onde uma peça rara vai aparecer.
A tensão no ar era eletrizante. O café da manhã se transformou numa dança elaborada de insinuações e perguntas carregadas de duplos sentidos.
Shen observou-a escolher uma maçã com movimentos precisos.
— Engraçado como as pessoas se encontram, não é? — comentou, aproximando-se lentamente. — O acaso tem seus caminhos.
— Acaso… — repetiu ela, girando a faca de mesa entre os dedos. — Ou destino?
Foi quando o comunicador de Shen vibrou em seu pulso, simultaneamente ao de Zahara. Mensagens urgentes de seus respectivos controladores.
“O alvo está se movendo. Localizamos Petrov no complexo norte. Intercepte imediatamente.”
Ambos congelaram, olhando para as mensagens idênticas.
— Preciso ir — disseram em uníssono.
A compreensão tomando forma em suas mentes: não estavam ali para eliminar um ao outro. Estavam atrás do mesmo alvo.
— Você não está aqui pelo curador — concluiu Shen, abandonando o disfarce.
— E você não é fotógrafo — retrucou ela, deixando a faca de lado.
Um momento de silêncio, processando a revelação.
— Petrov. O traficante de tecnologia militar. Você está atrás dele?
— E da tecnologia que você destruiu com as bombas que plantou nas instalações dele — completou Zahara.
— Eu não destruí as instalações… apenas os sistemas de comunicação. Para forçá-lo a aparecer pessoalmente no encontro com o curador.
— E eu plantei o rastreador na caixa para localizar o encontro. — Que, por algum motivo, acabou em suas mãos.
Shen riu, finalmente compreendendo a ironia da situação.
— Estamos no mesmo lado dessa operação e nem sabíamos.
— Cooperação então? — Ela balançou a cabeça. — Típico das agências.
O comunicador de Shen emitiu uma nova mensagem. Seu rosto empalideceu.
— O quê? — perguntou Zahara, percebendo sua reação.
— Nova ordem — explicou, mostrando a mensagem.
“Interrompa a perseguição. Sua nova missão é eliminar a agente em conflito. Confirmado vazamento de informações através dela.”
Zahara sentiu o sangue gelar. No mesmo instante, seu próprio comunicador vibrou.
“Agente chinês trabalha para os dois lados. Foi identificada transferência financeira de Petrov para ele. Elimine-o imediatamente.”
Seus olhares se encontraram novamente, desta vez carregados de desconfiança.
— Então… — Ela recuou. — É assim que termina.
— Não jogue esse jogo — advertiu Shen. — Sei que não vazou informações.
— E eu sei que você não está na folha de pagamento de Petrov.
Um silêncio pesado se estabeleceu entre eles. A tensão, os reflexos em alerta máximo.
— Algo não está certo — concluiu Zahara. — Por que nos ordenariam eliminar um ao outro exatamente depois de descobrirmos que estamos trabalhando na mesma operação?
O olhar de Shen se iluminou com compreensão.
— A menos que alguém não queira que peguemos Petrov. A menos que…
— A menos que haja um infiltrado. Nas nossas próprias agências.
Shen checou rapidamente o relógio.
— O encontro com o comprador está marcado para daqui a uma hora. Se Petrov escapar hoje…
— Nunca mais o encontraremos, e a tecnologia será vendida.
Sem palavras, apenas com o olhar, fizeram um pacto silencioso. Confiança temporária.
— O que fazemos agora?
Shen sorriu, aquele mesmo sorriso que a encantara na noite anterior.
— O que fazemos melhor: mentir. Vamos relatar que cumprimos as ordens.
— E?
— Pegar Petrov por conta própria e descobrir quem está nos traindo.
Zahara e Shen selaram o acordo com um toque firme. Seus dedos entrelaçados, o calor entre eles ainda presente, apesar de tudo.
Saíram do quarto separadamente, comunicadores desligados, confiando apenas um no outro. A missão agora era dupla: capturar Petrov e descobrir o traidor. E talvez explorar o que quer que fosse aquela conexão improvável entre dois espiões.
Do alto do prédio vizinho, através da luneta, o observador os via. Baixou a arma, satisfeito ao vê-los vivos. Seu comunicador vibrou.
— Morderam a isca. Estão seguindo para a armadilha exatamente como planejamos, Petrov.
A voz do outro lado era baixa, calculista.
— Excelente. Quando dois dos melhores agentes do mundo se apaixonam, tornam-se previsíveis. E previsibilidade, Touro, é tudo o que precisamos para vencer este jogo.
No lobby, o casal trocou um último olhar e partiram, inconscientes de que a verdadeira missão estava apenas começando. E que o jogo era mais mortal do que poderiam imaginar.