Harmin
Ano 928
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E sejamos
sinceros: nada de bom pode vir de alguém com um nome desses.
Andar pelo
centro de Harmin se tornou um teste de paciência desde que a família
imperial decidiu estabelecer o Yal nesse canto esquecido do mundo. Com o
fim das colheitas, mercadorias de todos os cantos chegam aqui e a cidade se
transforma em um redemoinho de vozes, barracas e empurra-empurra.
Aproveito a
multidão para pegar um pedaço de carne seca e meio figo com mel de uma barraca.
Não é pra mim. Conheço um beco onde um certo felino me espera. Ele tem só
metade de uma orelha e manca, mas nunca falha em aparecer quando passo. O
apelidei de Pó, por causa da poeira onde vive rolando.
Quando me
agacho e coloco a comida diante dele, ele pisca devagar antes de devorá-la com
toda a dignidade de um rei das ruas. Passo a mão por suas costas, ele se
acomoda sob meu toque e, por um instante, tudo ao redor deixa de existir.
— Você vai
ficar bem, né? — Sussurro, mesmo sabendo que ele não pode responder. — Eu não
vou mais estar por aqui.
Ele pisca
devagar e começa a lamber a pata, como se nada disso fosse relevante.
Típico Pó.
Passar
perto da residência imperial é impossível, está cercada por mercadores. Ou
seja, restam apenas duas rotas para o sul. Uma delas é o infame “Caminho das
Moças”, onde garotas órfãs tentam atrair fregueses dia e noite. Nada contra,
mas prefiro não ser confundida com uma delas e acabar dando um soco na cara de
algum idiota. Tem que ser pelo Vale.
O chamado
Vale é uma rua de pedras retangulares, ladeada por árvores que fazem parecer
uma floresta que alguém esqueceu de cortar. Nas últimas quatro luas, evitei
esse caminho, desde que fui pega roubando um produtor do sul. Demorei um dia
inteiro pra despistar seus capangas e prometi a mim mesma que escolheria alvos
menos óbvios a partir de então.
Sinto o
alívio me invadir ao deixar a multidão para trás, minha sacola de viagem agora
mais pesada, graças aos bolsos desavisados que cruzaram pelo meu caminho.
Sigo em
direção ao desconhecido, enquanto a brisa salgada do mar desaparece,
substituída pelo aroma cítrico das árvores. Sozinha com meus pensamentos, me
pergunto por que minha mãe acha que eu não consigo cuidar de mim mesma. Mesmo
com a falta de ar constante, presente de aniversário da tal doença misteriosa,
continuo sendo a mesma garota que sobreviveu nas ruas desde os dez.
Mesmo
assim, dei minha palavra a ela. Ainda que isso signifique deixar para trás a
única cidade que conheci. E a única criatura que nunca me abandonou.
Suspiro.
O caminho
se estreita. E é aí que o vejo.
Ali, entre
as árvores.
Meu futuro.
A casa, se
é que posso chamá-la assim, parece abandonada. Uma cabana em ruínas, pendendo
para um lado, telhado afundado. Por um instante, sinto algo como alívio. Era
isso que eu esperava. Algo pequeno. Esquecido. Um lugar que combina com a
história de alguém como eu.
Mas então,
o ar muda.
E eu começo
a sentir…
Algo me
puxa. Não com mãos. Com intenção. Como um pensamento que esperou por mim a vida
inteira.
Dou um
passo.
No instante
em que cruzo o que talvez tenha sido uma cerca, o mundo prende a respiração.
A cabana se
transforma diante dos meus olhos.
Uma mansão
se mostra à minha frente. São três andares de um material que desconheço. Conto
ao menos vinte janelas e um jardim com flores que nunca vi na vida. É antiga e
nova ao mesmo tempo, como se tivesse acabado de se lembrar de existir.
E então,
vozes.
Baixas.
Descompassadas.
Como se o
ar soubesse meu nome.
— Dolores…
Não sei se
ouvi ou senti.
A casa
parece me reconhecer.
Eu talvez
não esteja imaginando coisas, porque uma senhora rechonchuda, envolta em
farinha, acaba de aparecer em meu campo de visão.
Quando me
vê, larga a cesta e corre em minha direção, deixando uma nuvem branca no ar.
Maravilha.
— Não
acredito que é você mesma! Não a vejo desde que era desse tamanho. — Fala
sorrindo enquanto aponta para os joelhos cheios de varizes. — Venha! Preparei
sua torta favorita, Dolores!
— Lore. —
Digo o mais calma que consigo, tentando não demonstrar o quanto eu odeio minha
mãe por ter escolhido esse nome maldito.
Sem muita
alternativa, sigo a senhora, que se apresenta como Dona Mima. Conforme explica
a anfitriã, entramos pela porta de serviço para não atrapalhar os estudos do
tio Apolinário que, a essa hora do dia, prefere o silêncio da biblioteca.
Assim que
coloco os pés no primeiro cômodo, um cheiro familiar desperta o melhor em mim:
torta de kala. Aquela frutinha azeda que só cresce uma vez a cada três
anos nas colinas de Haiji. Quase
solto um gemido de satisfação, ao saborear a quinta fatia do manjar inesperado.
Ouço uma
sucessão de espirros e desejo saúde, como qualquer pessoa faria, mas, ao olhar
para Dona Mima, percebo que ela continua cantarolando enquanto prepara o
guisado. Outros dois espirros se sucedem e tento encontrar qualquer pessoa que
possa estar por perto, mas não há ninguém.
— Essa
velha quer me matar. — Diz uma voz masculina.
— Tem mais
alguém na casa, D. Mima?
— Não.
Apolinário odeia visitas. Somos apenas nós.
— Continue
me ignorando, sua velha nojenta. — A voz desconhecida segue destilando o
seu ódio.
Como se
estivesse alheia às falas ao nosso redor, Dona Mima me toca no ombro.
— Está na
hora. Seu tio está esperando na biblioteca.
Ela aponta
para o interior da casa, como se esperasse que eu soubesse para onde ir.
Suspiro
Bem… é mais
fácil falar do que fazer. Não tenho ideia de para onde deva ir. Antes de andar
aleatoriamente pelo interior da mansão, ouço um tumulto de vozes que mais se
assemelha a um enxame de niasis, essas pragas aladas que aparecem na estação
chuvosa.
Sigo na
direção das vozes e meu coração dá um salto.
Livros.
Livros por
toda a parte.
Nunca
imaginei que pudesse existir um número tão absurdo de livros em um único lugar.
É de se pensar que em toda Harmin mal se encontrem quarenta livros e a
maioria deles eu mesma roubei e depois destinei a novos proprietários.
Enquanto
exploro a biblioteca, meus olhos percorrem as prateleiras e minha curiosidade é
aguçada. Não posso deixar de notar a variedade de títulos e aparência
envelhecida das capas. Livros antigos têm seu próprio charme — e preço! Tenho
um cliente que enlouqueceria se soubesse da existência disso aqui.
Estou
prestes a escolher um livro para folhear, quando tio Apolinário se aproxima de
mim, seus passos silenciosos como os de um felino.
— Vejo que
você também aprecia os livros, Dolores. — Sua voz é suave e ele parece
genuinamente interessado na minha opinião.
Olho para
ele, meio surpresa pela abordagem amigável, afinal, poderia estar me tratando
com desconfiança. Sua expressão, porém, é amigável e seus olhos brilham com uma
paixão evidente por aqueles volumes empoeirados.
— Sim, eu
amo livros. — Sorrio, percebendo que nunca disse isso a ninguém antes. — E esta
biblioteca é incrível.
Apolinário
assente, com um tom de orgulho nos olhos. Ele me guia até uma prateleira em
particular, onde alguns livros estão destacados. Ou ele é um dissimulado
profissional, ou eu estava muito errada a seu respeito.
— Aqui
estão alguns dos meus favoritos. — Ele começa a mencionar títulos e autores que
desconheço. — Este aqui, por exemplo, é um clássico de fantasia que você pode
gostar.
Apolinário
e sua espessa barba encaracolada que desce por todo o comprimento do pescoço,
observa meu rosto com um sorriso enigmático, como se soubesse mais do que está
dizendo.
— A
biblioteca está à sua disposição. Venha aqui sempre que quiser. Agora tenho
alguns assuntos para resolver, mas nos vemos no jantar.
O vejo
mancar até a porta dourada que mais parece uma fachada de moedas de ouro. Ele
não é nada do que eu esperava. Quando ouvi o seu nome pela primeira vez,
imaginei que fosse um senhor de mais de cem anos, corcunda e sem os dentes.
Parece que
estou com sorte.
Assim que
ele fecha a porta, decido colocar um pequeno volume desgastado em minha bolsa
de viagens. Nunca se sabe o quando serei expulsa deste paraíso. Eu teria
colocado o segundo livro também, não fosse o burburinho de vozes ter voltado
com força.
— Dolores
voltou. Dolores voltou.
Como em um
coro, escuto meu nome ser dito, junto a todo tipo de reação. Gritos. Risadas.
Choros. O que quer que esteja acontecendo, de alguma maneira, sou a
responsável.
— Desculpe
o nosso entusiasmo. Há anos esperamos o seu retorno. — Diz uma voz que se
destaca das demais.
—
Esperamos?
— Sim, os
objetos desta casa.
Um barulho
chama a minha atenção.
A porta se
abre de repente e no limiar surge uma mulher que parece emergir de um jardim
encantado, envolta em flores e cercada por uma bruma misteriosa. A desconhecida
possui cabelos avermelhados de um tom profundo e radiante, que captura a luz de
maneira hipnotizante. Os cachos são espirais perfeitas, caindo em cascata sobre
seus ombros de forma tão natural que parece que a própria natureza moldou seu
penteado.
— Filha!
Com uma voz
gentil, suas palavras provocam um redemoinho de pensamentos contraditórios em
minha mente. Quero gritar, exigir respostas, mas há algo naqueles olhos prateados,
uma familiaridade que me intriga.
— Quem é
você? — Consigo dizer finalmente. — O que você quer?
Ela sorri,
um sorriso que me parece tão familiar.
— Alguém
que estava esperando por você, Dolores. Esperando há muito tempo.
Minha mente
gira em busca de respostas, mas tudo o que tenho são perguntas.
— O que
você quer? — Minha curiosidade começa a superar o medo enquanto me aproximo
dela, ainda mantendo uma distância segura.
Ela estende
a mão de maneira suave e toca meu rosto, uma sensação estranha e reconfortante
percorre meu corpo.
Me encolho,
por reflexo.
Não estou
acostumada a este tipo de toque.
— Você é
especial, Dolores. Especial de uma maneira que nem imagina. Eu estava esperando
o momento certo para nos encontrarmos.
Suas
palavras ressoam dentro de mim e, por um momento, me pergunto se deveria
confiar nela ou fugir, mas não tenho a chance de agir. Algo gosmento atinge meu
rosto e
Tentando
limpar a textura recém-chegada, vejo quando uma mulher de cabelos
cor-de-chocolate emerge das sombras, como uma chama viva em meio à escuridão.
Sua espada, manchada de vermelho, reluz sob a fraca luminosidade do ambiente.
Com olhos prateados
que emitem um brilho sobrenatural, ela celebra com uma expressão de êxtase,
degustando o sangue que escorre de sua lâmina com uma satisfação doentia.
Me encolho
por reflexo com a respiração entrecortada pelo medo que me assombra. Contudo,
antes que eu possa processar o que está acontecendo, a desconhecida se vira na
minha direção, seus olhos se fixando nos meus com uma intensidade que faz meu
coração disparar. Um sorriso cruel curva seus lábios e suas palavras ecoam no
silêncio:
— Você é a
próxima, Dolores.
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Com o
roupão colado ao corpo pelo suor, sigo a passos lentos. Ao chegar perto de um
chafariz, tenho uma ideia um tanto inesperada. Está uma noite abafada e bem na
minha frente tanta água sendo derramada. Seria um desperdício não aproveitar.
Começo a
brincar igual a uma criança indo ao mar pela primeira vez, me perdendo na
divertida sensação da água em minha pele.
Enquanto
minhas mãos esculpem desenhos na água, um leve ruído me faz erguer a cabeça.
Meus olhos encontram um rapaz alto, vestido de maneira peculiar, parado à beira
do chafariz, a não mais do que dez passos de mim. Seus cabelos cor-de-chocolate
caem sobre a testa e seus olhos azuis hipnotizantes parecem brilhar.
Por um
momento, a ideia de fugir passa pela minha mente. Afinal, o rapaz é um completo
desconhecido. Mas algo dentro de mim me faz hesitar, uma sensação que envolve
todos os meus sentidos. Enquanto dou passos cautelosos em sua direção, sinto a
água escorrer pelo meu corpo, deixando minha pele arrepiada com o frescor.
Um
sorriso caloroso ilumina o rosto do rapaz, seus olhos fixados nos meus. No
entanto, o que mais me intriga nesse momento é o aroma que ele traz consigo,
uma fragrância que me envolve como um abraço acolhedor. A lembrança da minha
flor favorita, muito embora ela só floresça no além-mar, muito longe de onde
quer que estejamos.
— Aí
está você. — Ele quebra finalmente o silêncio, sua voz é suave e envolvente.
Uma onda
de confusão me inunda. Nunca o vi antes, então como ele pode me conhecer?
Surpresa e insegurança se apoderam de mim, à medida que a distância entre nós
diminui e, por um instante, me sinto como uma presa encurralada, incerta sobre
como reagir.
Enquanto
nos aproximamos um do outro, minha respiração se torna superficial e meu
coração bate com uma velocidade que ecoa no silêncio da noite. Esse encontro
inesperado desencadeia uma série de emoções conflitantes e não consigo
entender.
— Você
precisa voltar. — O rapaz então estende a mão em minha direção e começa a sumir,
até não restar nada, exceto o aroma no ar.
A voz
distante de Dona Mima gradualmente me traz de volta à realidade, como se eu
estivesse emergindo de um sono profundo. Preciso piscar várias vezes antes de
focar na anfitriã e na cama macia em que estou deitada.
Improvável.
Sempre me
orgulhei de minha racionalidade e não faz sentido algum o que aconteceu na
biblioteca, pois eu sei que Dona Mima me mandou ir até lá. A conversa
com Apolinário também foi real, então como vim parar aqui? Quem era a mulher
que me chamou de filha? Como se não bastasse tudo isso, quem era aquele rapaz?
Sou
obrigada a interromper o pensamento pois não acredito no que minha anfitriã
traz em suas mãos. O toque do tecido macio desperta memórias distantes, como
aquela vez em que minha mãe recebeu uma encomenda para um casamento real.
— Achei que
não fizessem mais tecido em Miff! — Digo com a voz incrédula.
Minha mãe
contava que no auge do domínio Miffiano, artesãos com poderes mágicos
criaram um tecido jamais visto, cuja maciez era equivalente à cama da própria
deusa Khalliz e, por séculos, as vestes da realeza foram confeccionadas
com esse material. Nunca acreditei em magia, é claro, mas, ao sentir o traçado
e sua suavidade, começo a duvidar de que foi feito
— Esse está
na família há muitas gerações. Talvez seja um dos últimos que ainda restam por
aí.
Uma breve
pausa torna a situação pior do que deveria.
— Olhe só
para você, minha querida menina. Cresceu tão rápido, mas, para mim, ainda é
aquela menininha que costumava falar sozinha enquanto brincava. Me lembro como
se fosse hoje, você tinha o quê? Uns três anos, eu acho. Você pegou minha
colher de pau e fingiu que era uma espada mágica para proteger nosso castelo
imaginário aqui na casa. Ah, como você adorava inventar histórias e aventuras.
— Eu morei
aqui? — Essa informação parece absurda e sinto meu corpo tensionar, como se
tivesse levado um soco no estômago.
— Sim, você
e Abigail moraram com a gente até os seus quatro anos. — Suspira como se
estivesse revivendo o momento. — Foram anos divertidos e barulhentos. Ficou um
silêncio tão grande depois que vocês se foram, nada nunca mais foi o mesmo.
Enquanto
escuto a voz calorosa de Dona Mima, minha mente se perde em pensamentos
confusos. A ideia é tão absurda que mal sei por onde começar. Minha vida, até
onde lembro, sempre foi minha mãe, assim como a fome, as ruas e a solidão. Se
eu tivesse morado aqui, eu me lembraria!
— Vou
deixá-la à vontade para se trocar. Durma bem, minha querida.
Seu beijo
em minha testa é tão puro que é impossível não lembrar de minha mãe.
De todas as
vezes que implorei por sua afeição.
E de todas
as vezes em que ela se afastou.
Nunca fui
beijada assim.
Suspiro,
tentando focar em outra coisa, pois não quero me permitir ser inundada por
suspeitas, sem que minha genitora possa se defender. Por toda a nossa relação,
darei a ela um voto de confiança.
Então, eu
sinto.
Um estalo
silencioso no ar.
O espaço ao
meu redor parece se encher de algo, algo que não sei nomear.
Meu coração
desacelera, como se o tempo hesitasse diante do que está por vir.
Uma voz que
não reconheço, mas que me conhece, sussurra:
— A chave, Dolores.
O som não
vem de fora.
Ecoa dentro
de mim.
Então eu
vejo.
Uma
chave.
Dourada.
Antiga.
Viva.
Ela flutua,
girando devagar.
Com uma
pitada de curiosidade, estendo a mão em direção ao objeto. Antes que meus dedos
a possam tocar, porém, a chave parece ganhar vida própria, flutuando em minha
direção, como uma borboleta dourada pairando no ar.
— Mas que
diabos?
Perplexidade.
Pânico.
A chave… ela
está se fundindo à minha pele.
Metal e
carne se tornam um só.
Uma pulseira
dourada, embutida na epiderme.
Fina.
Brilhante. Irreal.
Um suor
frio escorre pela minha testa.
Minhas mãos
tremem.
Tento
puxá-la. Arrancá-la.
Nada.
— Sai… sai…
SAI! — Grito, arranhando o próprio braço.
A pulseira
não cede.
Nem se
move.
Nem dói.
Só
queima.
Saco minha
adaga.
Seguro
firme.
E corto.
Dor aguda.
Sangue jorra.
Mas a
pulseira permanece. Intocada.
Só o que
consigo é abrir um buraco no meu pulso.
Estanco o
sangramento da forma rotineira que sempre fiz ao longo dos anos e saio sem rumo
atrás de uma solução. Primeiro as vozes, depois a visão da mulher sendo
assassinada e, agora, a porcaria de uma chave mágica grudando em mim.
Preciso me
afastar desse lugar antes que eu enlouqueça.
Minhas mãos
obedecem e, antes que eu perceba, minha sacola de viagens está abarrotada de
espólios. Meus pés descem a escada que me pareceu magnífica da primeira vez que
pus os meus olhos, mas que agora, me sufocam como uma prisão.
— Loli,
você consegue me ouvir? — Escuto o chamado vindo da direção da biblioteca.
Minha mãe é
a única pessoa do mundo que me chama assim. A expectativa de que ela tenha
mudado de ideia e voltado para me buscar, inunda meu coração. Tenho tantas
perguntas.
Ando na
direção do aconchego, porém, quando menos espero, um homem com capuz negro e
olhos prateados que brilham como se fossem uma constelação inteira, se
materializa diante de mim.
Ele agarra
meu pulso.
Assopra
algo.
Pó
prateado.
No meu
rosto.
Nos meus
olhos. Queimam. Ardem.
Não consigo
abrir as pálpebras.
Não vejo.
Só sinto.
Um clarão
explode no céu.
Alguém
grita:
— CORRE!
Mãos me
agarram pela cintura. Fortes. Urgentes.
E então,
Eu voo
estilhaçando um vidro.