Meus instintos se agitam: há algo de errado.
Uma brisa fria percorre minha pele. O cheiro de terra molhada me invade antes mesmo de eu conseguir abrir os olhos. Quando finalmente consigo, o sol atravessa as folhas das árvores acima de mim.
Uma forte
chacoalhada me tira do transe.
Instintivamente,
reajo dando um tapa na garota à minha frente, meu coração disparado. Ela, por
outro lado, parece não se importar em ter sido agredida, respondendo com um
sorriso enigmático.
— Olá.
Mal ouço o
que ela diz, pois tudo começa a se transformar em um mosaico impossibilidades.
Esfrego
meus olhos e pisco.
Nada muda.
Nada.
Enquanto
permaneço de olhos abertos, o mundo ao meu redor se divide em duas realidades
conflitantes. Do meu olho esquerdo, sou confrontada com a visão da floresta
onde a garota está. Uma paisagem exuberante, com árvores que se estendem até
onde a vista alcança.
No entanto, no meu olho direito, capturo o
esplendor do jardim da casa de tio Apolinário, sob a luz suave e etérea das
luas de Qwifir. As imagens se sobrepõem, em um emaranhado confuso de
realidades diferentes, como se o tecido do tempo e do espaço estivesse
desfazendo diante de mim.
A
garota de cabelos amarelos parece saber pelo que estou passando e sua voz ecoa
em meus ouvidos, tentando me guiar através dessa dualidade. Luto pelo anseio de
manter os olhos fechados, enquanto escuto meu coração bater nos ouvidos,
— Ah, a primeira vez de um Sankh… sempre uma
cena divertida. Pelo menos você não vomitou. — Ela sorri. — Tente manter só um
olho aberto. O olho que me enxerga, é claro! A propósito, me chamo Asi.
Tento
encontrar o equilíbrio mental que tanto me guiou em meus piores dias, me
concentrando apenas em minha própria respiração. Aos poucos, meus olhos começam
a focar apenas no bosque que envolve a mim e a desconhecida, chamada Asi.
— Menina,
você já unificou a visão das duas vidas? Estou realmente impressionada.
— Duas
vidas? — Pergunto, na tentativa de distrair meus sentidos.
— Sim, você
está aqui e lá de onde você veio. Feche seus olhos, se concentre e será capaz
de ver em sua mente sua vida anterior.
E não é que
uma cena se forma em meu pensamento, como se eu estivesse tendo uma visão?
Tão real
como se eu pudesse tocá-la.
Dona Mima
conversa comigo no jardim da casa do tio Apolinário, enquanto me oferece seu braço
como apoio na caminhada.
— Mas não
se preocupe, agora que você já unificou as vidas, pode abrir os olhos sem medo.
Você só verá essa realidade aqui. Quando quiser saber o que está acontecendo em
sua outra vida, é só ver em sua mente. Agora venha, você precisa se esconder.
Conheço alguém que pode ajudar.
Ela não me
oferece momento algum para reação, me puxando pela camisa.
— Esconder
meus olhos? Do que você está falando? — Pergunto, sem entender nada do que ela
disse.
— Sankh.
Vocês valem uma fortuna no mercado clandestino. Há pelo menos três séculos,
qualquer pessoa de sua raça que for encontrada será capturada. É o preço por
terem se rebelado e perdido a batalha de 406. Mas não se preocupe, está a salvo
comigo.
Que ótimo.
Uma maluca.
#
Depois de
deixar a menina para trás, sigo em busca de respostas da maneira como estou
acostumada: sozinha. Solto uma risada de desdém, afinal de contas não faço
ideia de onde esteja, nem como cheguei aqui. Isso sem contar a maldita pulseira
que continua no meu pulso, muito embora não haja qualquer resquício do corte
que fiz.
Por falar
em maldição, eu não estou cansada e isso é muito estranho, pois, desde que
descobri a doença do sangue, estou exausta todos os dias. O fôlego me falta
sempre que decido caminhar ou fazer as atividades do dia, mas aqui não sinto
fadiga alguma. Será que alguma coisa nesse mundo me curou?
Só há uma
maneira de saber.
Nutrida por
uma esperança repentina, decido romper em uma corrida, me movendo o mais rápido
que posso, enquanto o ar frio e úmido corta meu rosto, trazendo uma sensação
revigorante. Abro os braços, permitindo que a brisa agite meus cabelos
bagunçados.
Corro como
se eu fosse o próprio vento, ouvindo os passos ecoando na estrada deserta, uma
melodia sincronizada com o pulsar acelerado do meu coração. Não me importo se
esse milagre for efêmero e permito que minhas pernas me guiem para onde
desejarem, pois, pela primeira vez em muito tempo, experimento a sensação de
ser livre.
A liberdade
tem cheiro de terra úmida.
E então, dor.
Mãos me
agarram pelo cabelo.
Caio com o
rosto sobre espinhos.
Pelos
deuses.
Dezenas de
pernas me cercam.
— Está
perdida, criança? — Diz o mais alto do grupo, o mesmo ser que nunca deve ter
tomado um banho na vida.
— Eu… — as
palavras ficam presas na garganta.
— É assim
mesmo que eu gosto.
Não vejo
quem está falando, mas logo o grupo abre passagem e outro homem vem em minha
direção, com a mesma expressão de um caçador quando encurrala sua presa.
E, nesse
momento, eu sou a sua caça.
O ser
desprezível cospe ao chão, com um som úmido e repugnante, o cuspe atingindo o
chão com um respingo grotesco. Enquanto isso, ele desfaz o nó de sua calça como
se estivesse saboreando o momento e o sorriso se mistura à saliva que escorre
pelos lábios.
Num gesto
sinistro, ele dá um sinal e dois de seus comparsas avançam. Suas mãos ásperas e
calejadas envolvendo meus pulsos e tornozelos. Apertam com tanta força que
sinto os ossos protestarem. Um terceiro homem se aproxima com uma expressão
predatória, arrancando minhas roupas com brutalidade e expondo minha pele
vulnerável.
O bafo
quente e azedo bate contra meu rosto.
Mãos
ásperas apertam meus pulsos.
Um gosto de
ferro invade minha boca quando mordo minha própria língua na tentativa de
gritar.
O mundo
fica escuro.
Não consigo
respirar.
Deuses.
Pare!
Espero pela
morte, que não vem, então sou forçada a abrir os olhos, mas o mundo está
paralisado, como se o próprio tempo tivesse sido pausado.
O silêncio
é estranho.
Os homens
estão lá.
Catatônicos.
Imóveis.
Presos em
um mundo pausado.
Sinto um
arrepio enquanto me levanto, tentando cobrir minha nudez com as mãos trêmulas,
sem nunca tirar os olhos das figuras petrificadas que me cercam. Me arrasto até
me libertar do maldito que estava em cima do meu corpo, seus cabelos negros
como a noite congelados no tempo.
E então,
raiva.
Dou um soco
em seu nariz, o som de algo quebrando preenche o vazio e, por um momento, meu
medo se transforma em triunfo.
Vejo
movimento com o canto de olho.
Asi.
Ela é a
única que não está imóvel.
Mas parece
ter visto uma assombração.
Olhos
arregalados e a boca entreaberta.
— Por Khalliz!
— Diz a garota, antes de cair em prantos.
Com as mãos
trêmulas, tento remendar a roupa rasgada, mas tudo o que consigo é xingar minha
própria incompetência.
— Por que
você tá me seguindo? — Atiro as palavras como jogaria meu punhal em sua cara,
caso eu não estivesse ocupada tentando recolocar o seio para dentro da camisa
rasgada.
Como não
tenho a menor ideia do que aconteceu e tampouco quero ficar aqui para
presenciar os agressores voltarem à vida, faço o que sempre fiz de melhor:
sobreviver.
Deixo a
infeliz para trás uma segunda vez, mas sou atingida por algo na cabeça. O
instinto me faz virar antes que eu processe o que está acontecendo, acreditando
ter sido seguida pelos homens.
Mas não são
os agressores.
É Asi
jogando moedas em minha direção.
Como se eu
fosse sua puta.
Todo o meu
autocontrole desaparece.
Corro na
direção daqueles cabelos sebosos, adaga em punho, pronta para arrancar aquele
sorrisinho torto de seus lábios. A garota apenas se ajoelha com as mãos para o
alto.
— Você não
tem amor à vida? — Cuspo em sua direção, esperando alguma resposta. O único
movimento que faz é a segurar uma moeda para o alto.
A maior
moeda de prata que já vi na vida.
Pego de sua
mão e a examino. A primeira característica que se destaca é o peso, é muito
mais pesada que uma moeda comum. Minha próxima observação é que se trata de um
rei que não conheço. Conforme a tradição imperial, assim que um novo monarca é
coroado, são confeccionadas moedas comemorativas com seu rosto, para se
tornarem as principais unidades de troca comercial.
Durante
toda minha vida, só utilizei as moedas do rei Eldorin II — o infeliz parece
imortal. Contudo, já lidei com colecionadores que diziam possuir moedas de
outros reis. Será que Asi é uma colecionadora?
Viro a
moeda para ler o nome do governante desconhecido e quase caio para trás ao
perceber os caracteres refinados contornando o nome do Rei Vilmen III.
A era
Vilmen foi há quase duzentos anos e uma única moeda dessas seria capaz de
comprar a mansão do Tio Apolinário, ou talvez duas, se a pessoa soubesse
negociar. Posso não ser uma colecionadora, mas conheço a história nefasta dos
Vilmen e como eles foram proscritos dos livros de história.
Pai e filho
cometeram milhares de assassinatos e torturas contra seu próprio povo. Depois
de um golpe, um sobrinho distante conseguiu manter a coroa e ordenou que tudo o
que se referia a esses dois monarcas fosse destruído. Não tenho ideia de como
essa moeda possa ter sobrevivido, mas não me importo. Eu a tenho e isso é tudo
o que importa.
Passo a mão
pelo rosto, sem acreditar que de um momento a outro fiquei rica e tudo o que
tenho que fazer para gozar de minha vida privilegiada é me livrar da garota e
ir para casa, mas isso é um mero detalhe.
— Como você
conseguiu isso? — Minha voz é firme.
— Quando
comprei um pão ontem.
Dou uma
gargalhada, mas ela permanece séria.
— Essa é a
moeda que usamos, Dolores. Nós estamos em 781.
Isto
explicaria como a garota de roupas puídas e fedorentas tem moedas que qualquer
colecionador morreria para ter apenas uma só. O que não quer dizer que irei
simplesmente aceitar sua palavra. Não. Eu preciso ver com os meus próprios
olhos.
Parto em
direção à minha cidade portuária — Harmin — com um objetivo muito
específico: colocar as mãos dentro do máximo possível de bolsos. Nada como o
trânsito de barcos abarrotados de mercadorias provenientes de todos os cantos
de Qwifir, para atrair pessoas como eu.
Ao analisar
o porto principal duas certezas me atingem. Primeiro, a estrutura para a
atracagem dos barcos é diferente da que estou acostumada. A segunda constatação
é ainda mais preocupante.
Não vejo qualquer
rosto familiar. Nem um. Em pouco mais de cinco minutos analisando a
movimentação ilegal, conto três crianças, cinco garotos e quatro homens. Todos
desconhecidos e sei que isso seria impossível, caso eu estivesse em minha
época.
Uma
embarcação está na doca, a mercadoria sendo transportada em caixas muito
menores do que as de costume. Na minha época, os caixotes de madeira têm pelo
menos o meu tamanho e são levantados por guindastes instalados no porto. Aqui
esse trabalho é braçal.
É, a garota
talvez esteja falando a verdade.
— Acredita
em mim agora? — Asi aparece ao meu lado.
— Talvez. —
Respondo, de olho em um rapaz de botas engraxadas que está pedindo informações
no final da rua. É ele.
Ando
certeira em sua direção me preparando para esbarrar no momento certo. Preparo o
sorriso inocente e o olhar tímido que eles tanto adoram.
Agora.
— Me
desculpe. Estava tão distraída.
Sorriso.
Olhar
tímido.
Eles sempre
caem.
— Eu que
peço desculpas. Acho que bebi demais. — O bafo me atinge logo após eu ter
contado duas novas moedas para minha coleção.
Ajeito o
seu casaco, não esquecendo de sorrir.
— Não foi
nada mesmo. Tenha um bom dia, senhor.
— Para você
também, senhorita.
Isso foi
tão fácil.
Repito o
processo em quatro locais diferentes antes de me dar por satisfeita e encerrar
o dia. Estou faminta. Com o bolso cheio, negocio meu jantar e o pernoite na
taberna central. Antes de me sentar, como de costume, analiso o ambiente para ver
onde eu não devo permanecer. A hierarquia marginal sempre se utiliza dos
mesmos espaços e saber evitá-los é a melhor forma de se manter viva.
Com a
caneca de cerveja na mão, me dirijo a uma mesa de frente para a entrada. Um
idiota, porém, decide atravessar o caminho, esbarrando em minha mão. Tenho que
me controlar para não xingar. Ainda não sei quem é quem aqui.
— Eu sinto
muito, senhorita. Me permita comprar outra cerveja. — Ele toca em minha mão e
fecho o punho por instinto.
Isso, antes
de ver o seu rosto.
É o rapaz
do meu sonho.
Do
chafariz.
O que
parecia me conhecer.
Mas ele
está aqui.
Não em um
borrão, mas em carne e osso.
Se me
reconhece, não demonstra. Apenas faz o sinal para o taberneiro trazer outra
bebida.
— Com
licença. — Diz, antes de se misturar no meio da multidão.
Sentada,
com o copo cheio da cerveja paga pelo rapaz dos meus sonhos, descubro quem é
que manda por aqui. Um indivíduo em seus quarenta anos, barbas escuras e olhos
ligeiros, tem dezesseis homens ao seu dispor. Todos observam o ambiente e não
deixam qualquer um se aproximar.
Os demais
frequentadores são tripulantes do navio que está ancorado no porto. Pela
conversa e pela cantoria, esta é a última noite em terra e sei o que isto
significa: nenhum deles estará sóbrio na próxima hora. Sorte das meninas e do
dono da taberna.
Por mais
que meu lado racional me diga que seja impossível voltar no tempo, eu estou
convencida de que a garota diz a verdade. Isso só complica as coisas, porque
como é que eu encontraria aqui um rapaz que apareceu no meu sonho? Acho que
preciso ter uma conversinha com esse cidadão antes que ele caia de bêbado, o
que não falta muito, a julgar pelas pernas que já começam a dar sinais de
estarem ser rumo.
Por falar
na garota, adivinha quem está vindo para cá? Deuses, o que eu preciso fazer
para ela largar do meu pé?
— Eu sei
como você pode voltar para casa. — Ela se senta ao meu lado, apontando para a
pulseira em meu pulso.
Uma onda de
choque percorre meu corpo enquanto a ficha cai. A pulseira, aquele infame
objeto que se fundiu à minha pele. Será que ela é a responsável por eu ter
vindo parar aqui?
— Você sabe como isso aqui funciona? —
Pergunto, sentindo a ruga em minha testa.
Com olhos
brilhantes, iguais aos de uma criança que está prestes a contrariar as
orientações da mãe, Asi me encara triunfante.
— Você
precisa de outra chave.
Não
bastasse uma maldita chave ter me marcado igual a um animal doméstico, agora
precisarei de mais uma? E essa vai fazer o quê? Se transformar em uma coleira?
— Só que a
gente vai precisar ir até Lapos.
— A gente?
— Levanto uma sobrancelha.
— É. Só
conto como tudo funciona, se me levar junto. — Seus braços cruzados no peito
deixam clara a sua condição.
Segundo as histórias de mercadores que passam por lá, Lapos
é uma região desértica e quase desabitada. As únicas pessoas que se aventuram
por aqueles lados são das ilhas Gwed, povo que se diz livre e
independente de Qwifir.
Pelo que
ouvi, são guerreiros que vieram de algum lugar além do Mar do Norte e mantêm Lapos
como uma base continental. Desde que me conheço por gente, sei de tragédias
marítimas inexplicáveis, todas atribuídas aos seres míticos que vivem na região
e que não gostam de humanos invadindo seus domínios.
Se eu for
fazer uma viagem dessas, precisarei de outras moedas para pagar as despesas e
tenho que me apressar. A conversa que mais se escuta por aqui é dos tripulantes
do barco atracado. Eles irão zarpar ao amanhecer.
Qualquer
que seja a minha decisão, ela precisa acontecer nas próximas horas.
— O rapaz
que derrubou sua bebida é o capitão. Você deveria negociar as passagens antes
que ele fique bêbado demais.
Isso é algo
que já estava nos planos, afinal eu preciso saber quem ele é. Me aproximo
silenciosa — coberta pela dissonância de sons vindos das gargantas bêbadas dos
marinheiros.
Deuses.
Preciso
tocar em seu braço três vezes antes que ele reconheça a minha presença. Ao me
ver, porém, sua expressão se transforma. Uma enorme ruga preenche a sua testa e
seus lábios se curvam para baixo.
— Venha
comigo. — Ele diz, antes de sair arrastando os pés, sem dar qualquer chance
para que eu inicie uma conversa. Assim que coloco os pés para fora da taberna,
uma mão me segura pelo braço, me puxando para o beco na rua de trás.
— Você sabe
que é perigoso sermos vistos juntos. O que você tem na cabeça, Dolores?
Dou um
passo para trás, mal acreditando no que acabei de ouvir.
O capitão
disse o meu nome?
— Você sabe
quem eu sou?
Ele
congela. O sorriso se desfaz e vejo algo passar por seus olhos, uma mistura de
surpresa e dor.
— Você não
sabe quem eu sou?
Como se
pudesse ler minha resposta antes mesmo de eu responder, ele começa a andar de
um lado ao outro, enquanto eu tento encontrar algum sentido para esta conversa
maluca. Por um momento ele me parece tão familiar. Algo naqueles olhos azuis me
fazem ficar desconfortável e sou obrigada a desviar o olhar.
Preciso
encerrar essa angústia o mais rápido possível.
— Olha, não
sei o que tá acontecendo aqui. Eu não te conheço e só estou aqui porque quero
negociar uma passagem para Lapos.
Ele solta
uma risada de canto de boca e se vira em minha direção.
— Você tem
certeza que quer entrar em um navio? Você sabe como você fica em alto mar.
Quase deixo
a minha sacola de viagens cair ao chão. Eu sei exatamente o que me espera assim
que zarparmos, mas como é que ele sabe disso? Eu nunca disse isso em voz alta.
É um dos maiores segredos que guardo. Pelos deuses. Nada disso faz sentido. A
não ser que…
…fosse ele
mesmo naquele sonho.
E ele
realmente me conhece.
Mas como
isso seria possível?
Isso já
está se alongando demais. Nunca me coloquei em uma posição vulnerável assim.
Foco, Lore.
Se a
maldita chave estiver mesmo em Lapos, eu darei um jeito de chegar lá. Eu
consigo outro navio, nem que eu tenha que esperar as chuvas passarem.
— Me
desculpe. Não foi muito cavalheiresco de minha parte. — Ele tira o chapéu e faz
uma mesura com a cabeça. — Me chamo Zarid e será um prazer levá-la até o
continente desértico, se é o que você precisa fazer. Partiremos ao amanhecer.
Seu sorriso
é genuíno pela primeira vez e isso de alguma maneira consegue ser ainda pior. Ele
se despede com uma reverência.
— Até
amanhã. Tente não criar problemas até estar segura em meu navio.
Inconformada
com os acontecimentos, peço para a atendente levar o meu jantar no quarto e me
jogo na cama dura. Bem… pelo menos não vejo nenhuma pulga.
Olhando
para a infame marca em meu pulso, ouço passos vindo no corredor. O reflexo de
anos nas ruas me faz levantar de imediato.
Passos.
Quatro.
Cinco
homens.
Eles param
atrás da minha porta.
Uma
explosão me derruba, pedaços de madeira voam pelos ares.
Sou cercada
por uma dezena de pernas antes de xingar pelo meu azar.
É o dono da
região e seus capangas.
— Não fomos
apresentados, mocinha. Me chamo Gaspar e você tem muitas moedas que não lhe pertencem.
Seu sorriso
é cruel.
Dois dos
brutamontes me erguem pelo braço e um segundo depois todo o meu dia de trabalho
está nas mãos erradas.
Lá se vai a
minha passagem para Lapos.
— Não sei
de onde você surgiu, mas aqui ninguém coleta sem a minha autorização.
Fico em
silêncio. Não posso falar nada de errado.
— Eu
poderia usar uma pessoa como você.
Eu forço um
sorriso.
— Estou
aqui só de passagem. Mas agradeço a oferta.
— Esperta.
Esperta. Gostei de você, garota!
— Não
acredito, Matilde. O que eu falei?
Um Zarid aparece
trançando as pernas ao entrar no quarto.
— Eu falei
pra me esperar no porto. O que você tá fazendo aqui?
Ele se vira
para Gaspar, fazendo uma reverência desajeitada, quase caindo ao chão. Isso é o
suficiente para gargalhadas irromperem.
— Ela é a
minha prima. Seu pai me ordenou que a levasse até o continente desértico. Lá
ela deve aprender a lição sobre pegar o que não lhe pertence. — Ele tira um
saco de moedas de seu bolso e atira a um dos capangas antes de lançar um vômito
branco ao chão. — Isso é o suficiente pelo importuno? Prometo que nunca mais a
verão na vida.
Vários
segundos de silêncio prenunciam que eu talvez não tenha tanta sorte assim. Mas,
com um aceno de cabeça, Gaspar manda que me soltem.
— Nunca
mais quero vê-la por aqui, Capitão. Certifique-se disso.
— Sim,
senhor. — Diz Zarid.
E é assim
que sou arrastada taverna afora pelo rapaz de olhos azuis que, aparentemente,
nem está bêbado.
— Você quer
me largar? — Exijo, tentando me soltar de suas mãos.
— Fique
quieta.
Quem ele
pensa que é para falar assim comigo?
— Você sabe
como o Gaspar pune os seus homens?
Não. É
claro que não. Mas nada deve ser pior do que já sobrevivi.
— É melhor
mesmo que não saiba. Venha. Em meu navio você estará segura.