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Emanuelle Nascimento

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LITERÁRIA

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11/0515:15
As Mães que Ficam, As Mães que Partem: Um Ensaio Etno-Poético para o Dia das Mães
por Emanuelle Nascimento
Há mães que partem. Há mães que ficam. Há mães que partem ficando, e outras que ficam partindo aos poucos, como quem some em pedaços sutis, nos gestos que se repetem, no silêncio da cozinha, no olhar perdido no quintal. Mães que são corpo e território. Presença e ausência. Terra e vento.
Nas vielas das periferias brasileiras, nas casas de barro do sertão ou nos apartamentos frios dos centros urbanos, vi mães de todas as formas durante meu trabalho de campo. Umas com os pés inchados, segurando o mundo com uma mão e o filho com a outra. Outras caladas, com rugas fundas, olhos que parecem ter chorado tudo que era possível, mas ainda assim colocam o feijão no fogo. Antropologia me ensinou a escutar. E escutar mães é aprender uma língua antiga, feita de repetição, resistência e reinvenção.
A mãe é a primeira paisagem que habitamos, e talvez por isso nunca mais nos livremos completamente de sua geografia. No ventre, ouvimos seu coração como um tambor ritualístico. Do lado de fora, aprendemos que ela é chão: onde caímos, onde voltamos, onde somos plantados. Ela é a etnografia viva do cotidiano. Está no cheiro do pano de prato, no barulho da panela de pressão, na frase que atravessa gerações: “leva um casaquinho”.
Durante uma observação participante em um hospital público, testemunhei o parto de uma mulher indígena. Ao sair da sala, ela não gritou. Não pediu nada. Apenas olhou o recém-nascido com uma reverência ancestral. A maternidade ali não era performance, era rito. E compreendi o que minha orientadora dizia: “o nascimento não é apenas biológico, é cosmológico”. A mãe não dá só a luz ela religa mundos.
Em outro canto, entre as ruas estreitas de uma comunidade quilombola, entrevistei uma senhora de 86 anos, mãe de 11 filhos. Falava com orgulho, mas não sem dor. Disse que ser mãe é “carregar santo e cruz ao mesmo tempo”. E riu. Uma risada entre dentes, feita de cansaço e fé. Ali, percebi que há mães que são guardiãs da memória coletiva. Suas histórias são arquivos orais, suas práticas são heranças silenciosas. Elas tecem o tecido invisível do social.
Mas nem todas as mães estão. Algumas se vão cedo, como a minha. E mesmo ausente, ela segue sendo presença. Está no modo como arrumo a cama, na forma como falo com Deus, na mania de guardar potes que poderiam ser jogados fora. O corpo da mãe pode partir, mas sua cultura permanece. Ser filha é continuar um ritual interrompido, costurar um vestido com o pano que restou.
Há também aquelas que optam por não ser mães. Mulheres que renegociam seu lugar na estrutura simbólica da maternidade. São olhadas com estranhamento. A sociedade exige que toda mulher seja mãe ou, no mínimo, deseje sê-lo. E isso também é tema para a antropologia: os desvios da norma, os silêncios sociais, os corpos que dizem “não”.
Escrever sobre mães é como caminhar descalça numa estrada de pedras e flores. Não há neutralidade. A antropologia, que sempre buscou a alteridade, encontra na figura materna um espelho invertido: ela é o “outro mais íntimo” de nós. É o campo de pesquisa e o campo afetivo, misturados numa poética da observação.
Neste Dia das Mães, não trago respostas, nem homenagens prontas. Trago perguntas: o que é ser mãe em tempos de pressa? O que resta das mães que partiram? Como acolher as que ficaram para além da data? E por fim, deixo um silêncio. Aquele silêncio denso, cheio de sentidos, que aprendemos a respeitar no campo etnográfico o mesmo que uma mãe faz quando olha o filho dormir e sussurra para Deus que ele tenha um futuro mais leve que o dela.
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