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A MALDIÇÃO DA TERCEIRIZAÇÃO DA CULPA

A recusa da auto responsabilidade.

avatar por B. Leopoldo
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Sou naturalmente uma pessoa com uma mente muito introspectiva. Quem convive comigo pode achar isso uma falta de autoconhecimento, já que sou extremamente expansiva e comunicativa; sou extrovertida e engraçada até. Mas minha mente é puramente introspectiva. Passo a maior parte do meu tempo pensando. Sobre o quê? Sobre tudo, principalmente sobre mim mesma.

Penso constantemente no meu agir, no meu falar, no meu produzir, no meu sentir, no meu ser... penso tanto que às vezes me canso de estar dentro da minha própria mente. Mas, nessa onda de pensar e pensar, percebi há um tempo um pequeno padrão vicioso que estava repetindo (assim como muitos outros): a terceirização da culpa.

Como em todos os demais assuntos da minha vida, entrei no meu “casulo do pensamento” para refletir sobre isso. Estou nesse casulo de reflexão há algumas semanas, o que é curioso, porque continuo vivendo minha vida e cumprindo tarefas do dia a dia, mas esse assunto está sempre sentado em sua cadeira, esperando um breve momento de solitude para que eu volte a esculpi-lo como um mármore, até alcançar meu veredito sobre ele. Bom, eis aqui o meu veredito então.

Ponto pacífico é que temos a péssima tendência de culpar as pessoas à nossa volta e o mundo por nossos próprios fracassos. Achamos que o mundo nos deve algo, quando na verdade a verdadeira pergunta deveria ser “como EU posso ser útil ao mundo?”.

Buscamos desenfreadamente a aprovação de outras pessoas, e agimos muitas vezes conforme a vontade de terceiros em busca dessa aprovação, e quando a situação falha, quando ficamos infelizes, quando passam os anos e o arrependimento nos invade, culpamos a influência dos terceiros por tudo isso.

BEM-AVENTURADOS OS QUE RECONHECEM QUE SÃO MASSA DE MANOBRA, PORQUE SÓ ASSIM PODEM SAIR DESSA MANIPULAÇÃO FORJADA SOBRE NOSSAS CABEÇAS.

Sempre há um ou dois que batem no peito para dizer “eu não. Tudo que eu fiz foi porque quis!”. Pobre coitado... não vê mais do que a própria lã. É o mais ignorante dos cordeiros.

De todo modo, fiquei no casulo da reflexão por tempo demais. Não para refletir sobre o assunto em si, porque me parece um conceito extremamente fácil de ser compreendido... mas sim para entender minhas próprias escolhas. Curiosamente, mesmo sendo alguém com consciência de quem sou e de como faço parte de uma massa de manobra (mesmo não querendo), me pego repetindo o mesmo padrão de pensamento sobre isso. Olho os grandes eventos da minha vida e me sinto uma coadjuvante e não a protagonista. Fácil é, demais até, jogar a responsabilidade disso sobre as costas dos outros. Culpamos nossos pais, nossos cônjuges, nossos amigos que nos influenciam... culpamos a Deus, ao universo e até mesmo ao diabo, por coisas que no fundo sabemos que são culpa nossa. Escolhemos ser inertes, escolhemos agir com passividade, escolhemos não escolher.

Em uma das inúmeras palestras da grandiosa professora Lúcia Helena Galvão (já deixo aqui minha recomendação de estudo), ela diz que confundimos a paz com passividade. Ser passivo é não ser reativo a nada, é não ser responsável por nada. Já ser pacífico é aquele que escolhe a paz como modo de viver, e a paz não é a omissão da escolha ou a evitação do combate quando necessário. A paz é, ainda que na turbulência, você se impor e não deixar que nada afete os seus princípios. Porque escolhemos ser passivos ao invés de pacíficos, então? Simples, porque continuamos na busca pela aprovação dos olhos de terceiros.

Não sou fã da pergunta “onde você se vê daqui a cinco anos?”, mas em momentos de grande impasse gosto de fazê-la a mim mesma.

Tão triste é a vida daqueles que seguem discursos como “eu gostaria de ter estudado tal coisa, mas meus pais não quiseram”; “eu gostaria de ter morado no campo, mas meu cônjuge não quis”; “eu gostaria de ter trabalhado com outra coisa, mas minhas contas...”; eu gostaria, eu gostaria, eu gostaria... Daqui a cinco anos, eu não quero continuar repetindo que eu gostaria de ter feito coisas diferentes. Eu quero colher os frutos do que eu escolhi a mim mesma, e não a vida que escolheram para mim.

Não sejamos mais reativos ao que fazem de nós, sejamos aqueles que são ativos perante a vida.

Busco hoje conhecer-me o mais profundamente possível. Me aceitar com minhas falhas e mudá-las por mim, aquelas que eu quiser mudar. Busco conhecer-me para saber quem sou, e ter plena consciência de que tudo que está no mundo está aqui para ser útil a mim e eu devolver essa utilidade. Trago à minha consciência o fato de que a única coisa no mundo que realmente me pertence sou eu mesma, e que é apenas disso que eu devo me ocupar. Um princípio taoista na verdade... “ocupe-se de si mesmo e deixe que os outros sejam o que têm capacidade de ser”.

Visto meus trajes de autoconhecimento, tiro de mim o julgamento e a terceirização da culpa. A minha vida é culpa minha, seja resultado das minhas escolhas ou omissões (que também são escolhas). Logo, escolho escolher, sempre. Reivindico meu direito a escolher a vida que quero ter, sem mais me omitir das escolhas que fazem por mim. Converto-me na minha própria mestra, e sigo na busca da minha individualidade.


Publicado originalmente no Substack de B. Leopoldo.

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