Ela acorda, e sua criança desperta com todo vigor.
O acordar é sempre uma novidade, prenhe de histórias que poderão surpreender.
Ainda guarda a leveza da infância, enquanto a mulher a envolve como couraça — protegendo-a e, ao mesmo tempo, escondendo-a do mundo.
Penso que, quase sempre, é a criança quem salva a mulher de sua própria perdição. A vida pode ser muito complicada quando levada tão a sério. Nessas horas, a criança, ainda viva, dita as regras do dia. Mas, na maior parte do tempo, ela sequer é convidada a entrar. Fica de longe, observando os acontecimentos e imaginando como tudo seria mais simples se houvesse um pouco mais de humor ou de desprendimento.
A mulher insiste em ser a adulta da relação. Toma sozinha todas as decisões, nem sempre aquelas que sua alma escolheria.
A criança calou-se por muito tempo. Ficou presa num mundo sério demais, pouco interessante. Lentamente, a mulher, ocupada com seus tantos papéis, quase se esqueceu dela.
Até que, um dia, a criança chorou bem alto.
Fez-se ouvir de um modo impossível de ignorar.
Seus gritos de liberdade ecoaram dentro dela, e a mulher verteu em poesia.
Versos e prosa poética derramaram-se em linhas infinitas. Aos poucos, as palavras encontraram lugar, e ela também.
De repente, a criança surgiu outra vez. Não para substituir a mulher, mas para caminhar ao lado dela.
Ao escrever, a mulher descobriu que ainda sabia brincar.
Lidar com as palavras era como encaixar brinquedos, inventar mundos, dar nome ao que antes parecia indizível. A escrita devolveu-lhe um espaço que julgava perdido.
Hoje, convivem melhor.
A mulher continua enfrentando as exigências da vida adulta.
Mas a criança já não fica do lado de fora.
Quando o mundo pesa, ela reaparece.
Lembra a mulher de sonhar.
De imaginar.
De escrever.
Talvez seja por isso que ela nunca mais tenha se sentido sozinha.