Escrevo como alguém que não está sozinha sob a luz do holofote. Falo, hoje, sobre o chamado que sussurra em meu ouvido nos momentos menos convenientes.
Quando ela chama, eu simplesmente me levanto e vou. Obedeço. Aprendi, ao longo dos anos, que ignorar sua voz é matar minha inspiração.
Ontem me despi de toda materialidade. Tirei do meu corpo tudo que não fosse minha própria matéria orgânica. Deitei-me na escuridão e, em quase uma oração — talvez até inconsciente —, pedi que ela viesse.
Hoje, fui arrancada da cama pela manhã, com sua voz tão familiar sussurrando todas as suas ideias em meus ouvidos.
Mas afinal, somos realmente organismos diferentes? Ou uma relação simbiótica que nos torna unos?
Ou será que é só uma outra vertente de mim mesma?
“E eu sei?”, respondeu Lispector, quando questionada do porquê ainda escrevia.
Clarice, eu também não sei. Mas imagino que isso seja mais eu do que eu mesma. E, se eu tiver me aproximado da resposta em algum momento, foi quando Rainer Maria Rilke disse, em uma de suas cartas: “O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar — ninguém. Não há senão um caminho: procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever?”.
Sim, eu morreria. Morreria em vida. Padeceria em profunda desconexão com meu mais profundo eu e me tornaria apenas um produto, resultado triturado de alguém que morreu em si mesma.
Não há distinção quando falo como Bianca ou quando falo como meus personagens. Afinal, não são eles apenas vertentes de mim? Partes de mim que arranham meu cérebro e meu coração, incansáveis, pedindo que eu conte suas histórias. Às vezes sou eu que as conto. Às vezes, são eles.
De todo modo, quando sou chamada, não me resguardo o direito de ignorar. Me levanto e vou. Porque, se eu não for, essa será a morte da minha criatividade e, como eu te disse, Clarice, respondendo à pergunta de Rilke: eu morreria se me fosse vedado o direito de escrever.
Publicado originalmente no Substack de B. Leopoldo.