Tenho o hábito de olhar para minha vida em terceira pessoa e analisar todas as coisas como se fossem peças em jogo, tentando organizá-las, posicioná-las e dar um sentido aos minuciosos detalhes (talvez seja por conta do TOC, eu rumino muito). Peguei-me, então, no meio de um pensamento desconexo sobre o determinismo e o livre-arbítrio.
Cazuza foi muito cirúrgico ao escrever a música “O Tempo Não Para”, e por diversas vezes me vejo ouvindo-a em um looping infinito, refletindo sobre como me é familiar o uso das palavras e alegorias presentes na letra.
É fato que o tempo não para. Mas como isso interfere realmente na forma como fazemos escolhas?
Sinto, já há muito tempo — talvez desde sempre —, a vida roçar-me os ossos e me causar tremendo desconforto. Parece-me que estou o tempo todo com uma roupa de tamanho menor e sapatos apertados. Não a vida em si, mas a forma como vivemos.
Vejo-me em terceira pessoa, sentenciada a viver a maior parte da minha vida com meus olhos cansados pousados em uma tela — seja do computador ou do celular —, buscando, entre a rotina burocrática e robótica, um sentido a mais.
Escolho o que comer, o que vestir e o que dizer, julgando inconscientemente que isso é o livre-arbítrio, quando, na verdade, é apenas o que me foi determinado, dentro de possíveis cenários.
Veja: não posso escolher roupas caras porque não posso pagá-las. Não posso escolher meus horários porque sou refém de um sistema. Tampouco posso escolher a mim mesma quando vivo em um mundo que me coage a ser o que os outros esperam.
É um fluxo de pensamento desconexo, eu sei… Mas o que eu seria se só escrevesse coerências? Trairia meu verdadeiro eu, quando, na verdade, tudo o que penso se assemelha a uma rede elétrica de fios em eterno curto-circuito…
Quando penso sobre livre-arbítrio e determinismo, penso que somos livres dentro do que já nos foi determinado. Mas isso é mesmo liberdade?
Eu não sou livre quando não posso escolher estar em casa em vez de no trabalho; não sou livre quando preciso escolher pagar contas em vez de viajar; não sou livre quando preciso seguir ordens com as quais não concordo. Mas, dentro desses cenários, para o que realmente sou livre?
Veja: a questão não é poder ou não fazer algo, porque realmente eu posso escolher não ir ao trabalho, mas isso terá consequências; posso escolher ir para a Europa em vez de pagar minhas contas, mas provavelmente terei prejuízos; posso também escolher não seguir regras e ser punida por isso. Então, se há consequências, há liberdade? Não estou dizendo que não; estou propondo uma reflexão.
Reforço que a conclusão a que cheguei é que somos livres dentro do que já nos foi determinado, mas não consigo saber se isso realmente é liberdade.
Clarice Lispector disse certa vez: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”, e essa, como tantas outras frases dessa mulher admirável, traduz meu pensar e meu sentir de maneira tão profunda que chego a me perguntar se, no fundo, todos nós somos iguais. Bem, se sim, somos livres? Parece-me uma sentença estar condenada a ser igual a todos os outros; e se não, estou também presa nas diferenças que nos separam?
Complexo demais ser pessoa.
O determinismo diz que tudo o que fazemos e quem somos é resultado de eventos que fogem de nós mesmos, como, por exemplo, a família em que nascemos, o lugar em que crescemos e o período em que vivemos. Se pegarmos você e o colocarmos em outra família, outro tempo e outro lugar, você ainda seria você? Sim e não. Sim, porque você é você, ora. E não, porque você é resultado de todas as suas experiências; e, como seriam experiências diferentes, logo você seria alguém diferente.
Dito isso, somos livres para ser quem somos ou somos pré-moldados por coisas que fogem do nosso controle?
Proponho, sempre, a autorreflexão, porque quanto mais o tempo passa, menos sei.
Publicado originalmente no Substack de B. Leopoldo.
