Imagem de destaque: documentação de uma restauração de pintura italiana do século XVII, por Sergey Konstantinov, publicada por Fineartgallery em 2011. Exemplo ilustrativo de conservação; não representa Mural nem uma obra de Pollock. Imagem integral, sem alterações.
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Painting_Art_Conservation_%26_Restoration.jpg
Licença CC BY-SA 3.0: https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/
Uma camada precisa secar antes de receber outra. Parece uma observação pequena diante dos gestos de Jackson Pollock, mas foi por essa diferença material que uma história repetida sobre Mural começou a ser revista. A superfície permite investigar a sequência do trabalho. O entusiasmo com a velocidade do artista, sozinho, oferece poucas respostas sobre o que aconteceu diante da tela.
Encomendada por Peggy Guggenheim em 1943, a pintura foi associada à narrativa de uma execução em apenas 24 horas. No comunicado de 2014 sobre a conservação, o Getty relata que quatro cores bastante diluídas foram aplicadas inicialmente enquanto ainda estavam molhadas: amarelo, um tom azul-esverdeado, vermelho e castanho. Essa primeira composição pode ter surgido em uma sessão. Grande parte das camadas seguintes, porém, foi aplicada sobre tinta já seca, com intervalos de dias ou até semanas. A distinção importa: o exame sustenta uma sequência descontínua, sem fornecer um cronômetro para cada gesto.
É possível compreender a atração exercida pelo relato de um trabalho terminado de uma vez. Ele organiza a criação numa cena fácil de contar. Minha leitura é que o problema começa quando essa cena passa a substituir a pergunta sobre as evidências. Uma descrição de intensidade pode sobreviver à pesquisa; uma afirmação sobre duração precisa aceitar o confronto com os materiais.
Em uma apresentação de 2022, o Getty explica como combinou imagens hiperespectrais, mapeamento por fluorescência de raios X e cortes microscópicos de amostras de tinta. Os métodos ajudaram a examinar materiais e sobreposições. A investigação identificou, entre as tintas predominantemente artísticas, uma tinta doméstica branca à base de caseína, empregada perto da conclusão. A variedade dos recursos de Pollock aparece assim em informações verificáveis, acompanhadas da descrição de como foram obtidas.
Também houve experimentação. Para estudar respingos rosados, pesquisadores buscaram reproduzir suas características numa tela vertical. Conseguiram resultados compatíveis com as marcas observadas. Essa aproximação exige uma leitura cuidadosa: reproduzir um efeito em determinada posição ajuda a avaliar uma possibilidade, mas não equivale a assistir à execução original. O experimento precisa continuar identificado como experimento quando seu resultado chega ao público.
A história material prossegue depois que o artista termina. Segundo o relato publicado pelo Getty em março de 2014, Mural recebeu em 1973 um tratamento que incluiu forração com adesivo de cera e resina, novo chassi e verniz. A intervenção consolidou a pintura, mas também fixou deformações já existentes. Com o tempo, o verniz prejudicou a leitura da superfície. Na conservação posterior, ele foi removido, e um chassi ligeiramente curvo acompanhou as bordas pintadas, permitindo recolocar as margens sem pintura nas laterais.
Esses detalhes impedem que a palavra restauração encerre a conversa cedo demais. É necessário perguntar qual problema cada intervenção procurou resolver, que resultado produziu e quais escolhas a equipe seguinte encontrou. Um tratamento antigo deve ser examinado dentro das informações disponíveis em sua época. Registrar seus efeitos permite tomar decisões mais bem fundamentadas depois.
Mural oferece, portanto, duas investigações que se encontram na mesma superfície: a sequência da pintura e a sequência dos cuidados recebidos. Para acompanhar ambas, vale ler os relatórios com atenção aos verbos. Identificar, sugerir e reproduzir descrevem graus diferentes de conhecimento. É nessa precisão que uma narrativa sobre arte se torna mais interessante: podemos reconhecer o que foi demonstrado e continuar perguntando pelo que permanece aberto.
Fontes do Getty:
https://www.getty.edu/news/exhibition-jackson-pollock-mural/
https://www.getty.edu/news/160-square-feet-of-jackson-pollocks-paint/
https://www.getty.edu/news/letting-jackson-pollocks-mural-speak-for-itself/