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As rosas brancas que Van Gogh pintou de rosa

Pigmentos desbotados, cartas e áreas protegidas da luz ajudam a investigar cores que a pintura já perdeu.

avatar por Maíra Couto
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Vincent van Gogh, Roses, 1890. Óleo sobre tela, 71 × 90 cm. Gift of Pamela Harriman in memory of W. Averell Harriman, 1991.67.1. Courtesy National Gallery of Art, Washington. Obra e reprodução em domínio público, disponibilizada pelo programa Open Access. As flores hoje esbranquiçadas eram originalmente rosadas.


As rosas de Van Gogh parecem quase brancas na tela conservada pela National Gallery of Art, em Washington. O fundo verde-claro e o vaso amarelado ajudam a reconhecer o buquê. Há, porém, uma informação decisiva no catálogo do museu: as flores eram originalmente cor-de-rosa. O desbotamento alterou uma relação de cores escolhida pelo pintor. Quem observa a reprodução atual encontra também o resultado desse envelhecimento.


A pintura é de 1890 e mede 71 por 90 centímetros. Van Gogh a realizou pouco antes de deixar Saint-Rémy. A camada de tinta era tão espessa que as duas telas de rosas ficaram para secar quando ele partiu, em 16 de maio. Segundo a National Gallery, chegaram a Auvers em junho. A materialidade que retardou o transporte continua importante para entender o que vemos: cada mistura de pigmentos teve uma trajetória própria depois de aplicada.


Em 2015, a exposição Van Gogh: Irises and Roses, do Metropolitan Museum of Art, reuniu os dois buquês de rosas e os dois de íris produzidos naquele período. O museu explicou que o desaparecimento de pigmentos vermelhos sensíveis à luz transformou violetas em azuis e rosas em brancos. A mudança atingiu justamente combinações que organizavam o conjunto: amarelo com violeta, rosa com verde.


A documentação permite acompanhar parte da transformação. As rosas pertencentes ao Met ficaram com a mãe do artista até sua morte, em 1907. Nessa altura, já eram descritas como brancas. Esse registro ajuda a estabelecer um limite cronológico para a perda de cor naquela tela. Convém identificar qual quadro cada documento descreve, pois os dois vasos de rosas pertencem a coleções diferentes e tiveram histórias de exposição distintas.


Outro trabalho do pintor oferece uma pista sobre o procedimento investigativo. Em Daubigny's Garden, estudado pelo Van Gogh Museum, uma conservadora encontrou vestígios de rosa vivo nas bordas protegidas pela moldura. Também havia pontos rosados no verso, onde a preparação atravessara o tecido. A análise de amostras confirmou que a camada de fundo havia desbotado. O museu relaciona a alteração à eosina, um corante vermelho sintético.


Nesse jardim, a proteção contra a luz preservou referências que a superfície exposta já havia perdido. O estudo mostrou ainda que Van Gogh empregou dois tipos de tinta vermelha: algumas rosas desbotaram, outras conservaram a cor. A diferença impede tratar o envelhecimento como uma transformação uniforme. Uma região preservada pode fornecer evidência útil, desde que se verifique a composição e a posição da camada examinada.


Reconstruir digitalmente essas cores exige assumir limites. O Met informa que suas simulações combinaram dados analíticos, documentos e reproduções antigas. Também ressalva que elas oferecem apenas uma noção ampla do aspecto inicial: as gradações dos violetas e dos rosas permanecem desconhecidas. Uma reconstrução precisa trazer essa ressalva junto da imagem, para que o leitor consiga distinguir a obra atual da interpretação produzida pela pesquisa.


Para uma revista interessada em investigação de arte, o caso exige precisão no vocabulário. As fontes consultadas documentam alteração material; elas não apresentam evidência de fraude. A pergunta produtiva é como demonstrar uma cor desaparecida e comunicar o grau de certeza dessa demonstração. Ao olhar novamente o buquê de Washington, vale procurar os vestígios rosados e consultar o catálogo. O branco que hoje chama a atenção pertence à história física da pintura.

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