Mas que raio é Brasilidade? É todo o conjunto de características que definem o "ser
brasileiro", em outras palavras, é o nosso "molho" — manifestado em nosso estilo, em
nosso gingado, na nossa simpatia e no magnetismo que atrai os olhares das culturas mais
rígidas e formais que existem.
Eu sempre achei curiosa a maneira como o nosso país é representado em eventos
internacionais, como em Copas e Olimpíadas. Em meio a um desfile nas Olimpíadas em
que vemos muitos países tentando "farmar aura", surgem alguns malucos que vêm
dançando, pulando e sambando e, imagina só, os brasileiros fazem parte destes. Ali, vemos
sendo apresentada ao mundo uma alegria que contagia, levando até o mais sério na
arquibancada a abrir o sorriso ou, discretamente, balançar a cabeça no ritmo da música. E,
queridos leitores, eu acho isso algo maravilhoso.
Mas, se tem algo que me admira mais do que isso, é o fato de que somos muito mais
conhecidos dessa maneira lá fora do que aqui dentro, na nossa casa, no nosso país. Os
gringos são contagiados por músicas e ritmos que são admirados no exterior, mas que,
muitas vezes, são demonizados aqui dentro.
Hoje em dia, muito do que é produzido por aqui pode até ter uma máscara brasileira, mas
seu corpo é todo formado por elementos importados. Não, isso, de fato, não é o problema!
Mas eu queria muito ver essa brasilidade que é apresentada para os de fora sendo
expressa e consumida aqui dentro.
Às vezes parece que a nossa brasilidade virou coisa do passado, algo que tenta sobreviver
nas entrelinhas da nossa contemporaneidade. Novamente, não é como se não existissem
pessoas produzindo coisas boas aqui dentro do nosso país, mas, às vezes, parece que falta
aquele "molho", que acaba muito obscurecido por aquilo que o mercado pede.
Diante de tudo isso, é impossível não esbarrar no nosso velho e conhecido 'complexo de
vira-lata'. Sabe o que é isso? É quando realmente damos atenção à nossa cultura, mas só
porque um gringo fez uma referência ao nosso molho em seu clipe, vindo até mesmo gravar
aqui, ou porque, como citado anteriormente, nossos jogadores apresentaram nosso gingado
brasileiro lá fora em torneios internacionais.
Isso me leva a uma reflexão amarga: não somos mais um país colonizado, mas sim um país
que procura por um colonizador. Parece que, pra darmos determinado valor ao que é nosso,
precisamos que alguém venha lá de fora e finque sua bandeira por aqui, cantando nossas
músicas com seu sotaque, produzindo seus filmes aqui, mas com aquele toque
"americanizado" (sim, eu sei, do ponto de vista geográfico, nós, brasileiros, também somos
americanos, mas isso é papo pra outra hora).
Mas, para não terminarmos essa conversa de cabeça quente, caro leitor, proponho um
respiro. Feche os olhos por um instante e tente lembrar da última vez que andou pela rua.
Eu tenho a certeza de que, em algum momento, você se deparou com um pequeno boteco
na esquina, topou com um caramelo pela rua, com um vendedor ambulante rodando por aí, ou observou alguém solucionando algum problema com aquele "jeitinho" criativo de o
brasileiro resolver as coisas.
Agora, eu afirmo: essa é a brasilidade, esse é o nosso "molho"
sobrevivendo e se expressando nas entrelinhas da nossa rotina. Por mais que, hoje, nossas
músicas, por exemplo (pelo menos as mais conhecidas), não tenham todo aquele "tempero"
que a nossa música tinha antes, ainda podemos encontrar nossa verdadeira cultura por aí,
se expressando da maneira mais sutil possível. Talvez ela não seja tão observável devido
ao apagamento que sofre quando só consumimos o que vem lá de fora.
Não digo que deveríamos parar de consumir tudo o que não nasce aqui, mas que
poderíamos, de vez em quando, tentar apreciar a boa e velha música brasileira, ou talvez
procurar pela internet por artistas que trazem essa essência em suas letras (que talvez só
se tornem famosos depois de se renderem ao mercado). Não temos só músicas, temos
muitos filmes e muitas séries, inclusive atuais, que são feitas aqui por pessoas daqui.
Agora, se você realmente tem um gosto muito mais voltado pro que é de fora, eu respeito
isso, mas te desafio a observar e tentar contemplar no seu dia a dia, no seu andar pela rua,
tudo aquilo que reafirma que a brasilidade ainda resiste de alguma forma.