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Desafios de ser uma escritora em época de TikTok

Venho pensando há um tempo em como abordar esse tema de maneira respeitosa e consciente, mas acho que não há um único jeito certo de falar sobre isso.

avatar por B. Leopoldo
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Venho pensando há um tempo em como abordar esse tema de maneira respeitosa e consciente, mas acho que não há um único jeito certo de falar sobre isso. Nos últimos anos, duas correntes muito fortes têm dividido o “mundo literário” e, acredito eu, assim como em todas as outras coisas que são polarizadas, acabamos perdendo a noção e o limite.

De um lado, temos uma bolha enorme – e sólida – crescendo em torno das redes sociais, bolha essa que tem o poder de decidir quais são as obras relevantes e que valem a sua leitura – as que “eles” consideram que não valem, nem chegam a ser mencionadas. São títulos esquecidos. Essa bolha tem como alguns de seus critérios os chamados “tropes” (gatilhos emocionais que prendem sua atenção e despertam sua curiosidade no livro; temas relevantes na atualidade), que podem ser: os inimigos que se tornam amantes, os amigos que se tornam amantes, as cenas de sexo explícito e detalhado, entre outros. Livros que fogem dessas temáticas não têm voz nem vez nas indicações das redes sociais.

Do outro lado, temos um movimento contrário: pessoas que se dizem entendidas de literatura (e podem até ser) que repudiam essas ondas literárias. De acordo com essas pessoas, a literatura atual está emburrecendo os leitores. Livros que não instigam o raciocínio, que entregam tudo de bandeja, que mantêm acesa a expectativa de quando aquele casal que se odeia finalmente vai transar. Dizem que não há mais livros bons sendo escritos e que toda essa onda da literatura contemporânea está fadada a não ser nada além de “livrinhos de TikTok”.

Pois bem. Trago uma pergunta para a qual ainda não encontrei resposta que pareça certa: O que faz um livro ser bom?

Autores como Carla Madeira, Itamar Vieira Junior e outros também têm sido alvos de críticas (e muitas) sobre a qualidade de suas obras, e esses são nomes de extrema relevância na literatura contemporânea. Aparentemente presos em um limbo entre os dois mundos: não são “tropes” de TikTok, mas também não são (para alguns) literatura digna de relevância, seja pela suposta vulgaridade da prosa ou pela falta de profundidade nos temas.

Ponto pacífico é que existem elementos necessários na construção de uma obra, como diálogos bem escritos, alguma profundidade em temas de relevância, concordância verbal e estrutura na história, além de uma construção de personagens bem-feita. Mas, no meio dessa polarização, como saber se o que eu escrevo é apto?

Em época de redes sociais ditando o que consumimos (aqui, falo não somente sobre literatura), é quase impossível pensar por conta própria e encontrar coisas/livros que não estejam dentro dessas bolhas. A própria Amazon oferta aqueles mais falados. As livrarias físicas têm bancas intituladas de “sucessos do TikTok”. Mas e agora? Nem todos os autores querem – ou conseguem – escrever uma prosa lírica logo de cara. E nem todos os autores querem escrever cenas de sexo explícito apenas para vender mais.

É ponto pacífico que nada agrada a todos e que tendências ditam o mercado, mas, falando como alguém que busca gritar minha própria voz nas histórias que escrevo, me pego, inúmeras vezes, vivendo um conflito entre buscar a perfeição aos olhos daqueles que, em minha opinião, têm elitizado a literatura, ou me vender a temas que não fazem parte da minha voz para ter alguma chance.

Há muitos pontos a serem levantados sobre essa questão, como o fato de que números não são sinônimo de qualidade; de que, sim, há alguns “checks” para uma boa obra; e de que, sim, as pessoas estão com preguiça de pensar.

Como leitora, defendo que todos os temas e gêneros podem ser válidos. Leitura não é apenas uma busca de aprendizado. A literatura não tem obrigação de ser nada! Nós podemos ler apenas por diversão histórias que não têm nenhum outro propósito além de entreter. Também podemos buscar os mais profundos conhecimentos em páginas amareladas.

Como escritora, me pergunto quantas vezes vou revisar e revisar meus textos tentando encaixá-los em contextos nos quais nem eu mesma acredito, na busca de ter um lugar, na busca de “ser alguém”.


Publicado originalmente no Substack de B. Leopoldo.

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