
Vol. 1, No. 3, jul./set. 2026 ISSN: 3086-3201
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Literatura Cinema Música
Revista Independente
te vejo nas
entrelinhas
Especial Ensaio: Ancestrais Dançando: Bailando com Vô Vicêncio, de Douglas Sacramento
PÕE NA ESTANTE:
Na Calada da Noite O Andarilho Diário de Bordo de uma Escritora Diletante #leitura2026
Poesia Comp. Musical Conto Resenha Ensaio & mais
18+
O INVENTÁRIO DA LOUCURA
Autores de todo o Brasil + convidado de Portugal Entrevista: Daniel Cesart fala sobre Quadrinhos; Amanda Mota nos apresenta ❝Nas Trincheiras da Alegria❞

O sonho do careta é a realidade do maluco. Raul Seixas 1945-1989





EXPEDIENTE
Editora Responsável: Tamara S. Fawkes MTb/DRT: 6661/BA
Design Editorial e Diagramação: Ilustrações criadas por meio de IA a partir de conceito, direção visual e prompts desenvolvidos por Henrique Brito; Bancos de imagens Cosmos.os e Pinterest; Tamara S. Fawkes, Rafa Mazelli, Henrique Brito | HBStudio
Participaram desta edição os loucos: Allena Batista, Ágape, Amanda Mota [entrevista], Andrezza Lobo, Cassandra Marjani, Cristiano Luis de Marmelo, Daniel Cesart [entrevista], Douglas Sacramento, Eduardo Reghim, Eliane Prado, Henrique Brito, Jefferson de Lira, Júlia Carolina Tavares Queiroz, Juliana Gonçalves, José Sérgio Batista, Kelly Pinheiro, Leonardo Camargo Ferreira, Lu Vieira, M. G. Crave, Mia [ilustração], Marco Simões, Michael Douglas F. Franzão, Michelle Louise Paranhos, Mister Jota, Nasser Dos Chembenes, Otávio Segal de Araújo, Rafa Mazelli, Rodrigo Souza, Roni Pereira, Rute Roberta, Sabrine Fernandes, Samuel Dantas, Sarah Carvalho Brandão, Tamara S. Fawkes, Tanise Sutil, Thainá Toffo, Vitor Hugo O.
Endereço: Dias d’Ávila, Bahia, Brasil E-mail: revistaentrelinhass@gmail.com
IG: @leioentrelinhas Sugira pautas, envie sua opinião, seja anunciante ou parceiro[a].
Revista Independente
te vejo nas entrelinhas
Trimestral Vol. 1, No. 3, jul./set. 2026 ISSN-Online: 3086-3201 Disponível em:
Imagem: O Silêncio dos Inocentes, 1991
www.revistaentrelinhas.com.br
Direitos Autorais: © 2026 Revista Independente te vejo nas entrelinhas. Os textos publicados nesta edição foram devidamente autorizados pelos seus autores e encontram-se registrados no Escritório de Direitos Autorais da Fundação Biblioteca Nacional [em trâmite], para fins de proteção de Direitos Autorais. Esta publicação cumpre com o envio para Depósito Legal, nos termos da Lei nº 10.994/2004.
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.3, jul/set. 2026
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Alice no País das Maravilhas, edição 2003
ÍNDICE
Editorial Poesia Composição Musical Conto: Era uma Vez um Boi e um Carneiro Conto: Um Bom Lugar na Chapada Diamantina Conto: Minha Loucura Real
Conto: O Alto da Loucura Conto: O Menino do Sorriso Bonito Conto: Portões da Loucura Conto: Para um Doido, Outro Conto: Esperança Desesperada Conto: Borderline Conto: Malalél, o Pescador de Deuses
Conto: O Louco Conto: Confissões Conto: Mentes Barulhentas Conto: Hércules de Batom Vermelho Conto: Revelação Conto: Entre Maus Cheiros e Estações Conto: Ar-pago Conto: A Bolinha Amarela
Capa: Amanda Mota nos apresenta❝Nas Trincheiras da Alegria❞ Capa: Daniel Cesart fala sobre Quadrinhos Ensaio: Depois as Loucas Somos Nós?
Capa Especial Ancestrais Dançando: Bailando com Vô Vicêncio
Ensaio: Entre Fachadas e Ausências Ensaio: Sobre a Loucura Ensaio: A Loucura em Nossos Ouvidos Ensaio: O Inventário da Minha Loucura
Resenha Literária A Cereja do Bolo Põe na Estante: Seleção de Obras Nacionais Classificados: buscas, vendas artísticas e recadinhos
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.3, jul/set. 2026
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Editorial
JUL-AGO-SET 2026
SEJA BEM-VINDO[A] À REVISTA entrelinhas
Na entrelinhas você vai encontrar: Literatura, Cinema e Música. De vez em quando, seremos surpreendidos por alguma criação fora da lista oficial de editorias. Convido você, artista independente, de todas as áreas, a participar ativamente clicando nas palavras sublinhadas, pois são links, e conhecer mais sobre os autores de cada obra. Agradeço aos artistas que fizeram parte desta edição. Sem vocês este número não existiria fora do campo das ideias!
Esta edição tem suor e sangue nas linhas que você irá ler a partir de agora. Ainda não sei se realmente estou aqui; escrevendo essas palavras, mas, em todo caso, digo: conheça cada um dos artistas que aceitaram deixar parte de suas almas incutidas nos textos e ilustrações autorais aqui presentes. Este trimestre precisou passar pelo anterior para existir, e por isso, devo dizer que houve muitas, muitas [muitas mesmo!], influências do mundo real, de notícias e de coisas que estavam trancadas dentro de nós. Cada participante é cúmplice — cada leitor, agora não tem jeito, também o é. Desejo que você chegue ao fim destas páginas já liberto de toda amarra social e ponha para fora a sua própria loucura. Estou aqui esperando por você, envie um e-mail, conte sobre a sua insanidade. Não se preocupe: nenhum nome será divulgado.
E caso eu não esteja presa naquela cidadezinha de 400 habitantes, você logo vai saber do que estou falando, eu desejo francamente uma boa leitura, que O Inventário da Loucura seja refúgio e pílula para suas horas!
Entregue-se.
Editora-chefe Tamara S. Fawkes tamarasfawkes@gmail.com
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.3, jul/set. 2026 Pág. 6
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Poesia
Poesia
POESIA INDEPENDENTE
Loucura em 3 atos
Ato 1
Talvez eu tenha de viver escondida
na sombra do que eu um dia fui (ou sonhei ser)
Mas eu não planejava tirar minha vida
Eu só pensava em morrer se algo belo
acontecesse depois
Se meu destino for morar na noite
Então a noite se tornará meu lar
E eu me apegarei ao frio e à penumbra
banhar-me-ei nas águas pratas do luar
E viverei sob os olhos felinos e brilhantes
dos animais noturnos
Ato 2
Eu deixo meus pensamentos passarem por mim
Virem e irem
como ondas passando por uma rocha
A febre da mente é como um mar agitado
as ondas, altas, assustadoras
o horizonte obscuro e desesperador
até que o caos e o terror atingem
um ápice desconhecido
e este momento é apenas para testara sua
coragem
a tempestade se desfaz
e o mar volta à calmaria
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.3, jul/set. 2026
Pág. 8
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Poesia
Ato 3
Eu preciso de químicas para parar a minha mente
E será que eu quero parar a minha mente?
Eu tomo remédios pra minha cabeça
não ir longe demais
E eu não quero ir longe demais?
Eu comecei a me dopar porque eu sentia medo
Medo da morte
Será que se eu vencesse esse medo
Poderia não precisar mais viver sob amarras
Poderia ser senhora da minha própria mente
E eu mesma decidir quando quero que ela vá
longe demais
Quando quero que ela avance alto pelos céus
Ou desça pelas profundezas
Do fundo do mar
Ou do inferno
E não temer o inferno
E saber suportar a ardência das chamas
Até que o fogo me refina o ouro
Até que o fogo me transmute
Até que eu chegue ao lugar onde sempre deveria estar…
Por IG @dancaliricaporsarah
Belém-PA
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Pág. 9
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Poesia
Poesia
Delírio a favor da existência
Basta! Não quero ouvir mais
dos teus disparates
disfarçados de quaisquer artes
medonhas e aprisionantes:
não, hoje quero estar nos montantes,
quero dançar! Quero extravasar
e ser anjo a delirar de tanta brancura!
Quero ser surdo a qualquer movimento
que me detenha, gritar as palavras
do lugar feliz além reencontrado!
A tua voz não me irá parar de nenhum lado
porque neste dia sou som galopante.
Vibro como furacão de borboleta
e para mim deixou de haver meta.
Hoje é a minha catarse, o meu Grito
do Ipiranga,
o meu arregaçar da manga silvestre,
a sensação infinita e mestre de Campos,
o buraco negro para onde vamos morrer.
Por favor, força indolente, afasta-te de mim
– hoje quero viver!
Inspirado na música Abracadabra,
de Lady Gaga
Por Leonardo Camargo Ferreira
Portugal
IG @leodegaia8
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Pág. 10
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Poesia
Insana
O louco é descontrolado.
Não se tem controle sobre nada! Nem o louco...
nem só o louco. Não só, o louco.
De louco todos temos um pouco então?
Conforme diria o poeta?! Que poeta… estamos
em 2026, aqui ninguém fala poesia. Ah que
banal, tão banal que é chato.
Não. Somos todos descontrolados.
Ninguém tem controle de nada, mesmo assim
controlamos tudo! Não me digas que és louco se
tua loucura foi calculada sem danos!
Viver do improvável é loucura disseram, mas me
sinto sã perto de tanta gente controladora. E sim,
lembro bem do caos que o imprevisível opera
sobre mim. Dói. Mas faz parte do meu ser.
Eu apenas não controlo.
Jogar no colo científico é fácil. Resumir ao
controle cerebral… Mas sustente a loucura do
invisível. E voltamos a conversar…
Sim! Eu já fui diagnosticada, não tenho
problemas em falar sobre isso. Mas já tive. Falo,
só pra garantir meu lugar de fala na loucura.
Quem me dera não ter.
Quem me dera controlar... ver tudo de cima!
Eu vejo tudo de dentro.
Aqui a vista é insana. Você não quer ver.
Poesia e ilustração
Por Safie
Blumenau-SC
IG @sabrine.arte
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.3, jul/set. 2026
Pág. 11
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Arquivo M orto
Eu fiz de mim mesma um arquivo
morto.
Não desses organizados, com
etiquetas legíveis e pastas alinhadas
em tons neutros. O meu é caótico —
gavetas emperradas, folhas soltas,
páginas rasgadas que insistem em
reaparecer nos lugares mais
impróprios. Um inventário sem
ordem alfabética, sem lógica, sem
promessa de conclusão.
Se você me pedir para começar pelo
começo, eu não saberei.
Porque há dias em que tudo começa
na mesma manhã em que fui embora
de mim.
E há dias em que começa antes, num
lugar que talvez nem exista mais.
Eu catalogo o que sobra.
Um: a culpa que não me pertence,
mas que eu carrego como se fosse
herança. Ela pesa nos ombros,
escorre pelas costas, se instala na
base da garganta como um nó que
não se desfaz — só aprende a
coexistir com a respiração.
Dois: as versões de mim que eu
abandonei no caminho. A menina
que acreditava que o amor era
suficiente. A que achava que
precisava ser suficiente. A que se
moldava até não sobrar contorno.
Às vezes eu sinto saudade delas.
Às vezes sinto alívio por não
reconhecê-las mais.
Três: o silêncio. Não o confortável,
não o descanso — mas o que grita.
Poesia
Poesia
O que preenche cada espaço entre
uma palavra e outra, exigindo ser
ouvido mesmo quando ninguém está
escutando.
Quatro: a vontade de desaparecer que
não é exatamente morte, mas
também não é vida. É um intervalo.
Um limbo onde existir exige esforço
demais e deixar de existir parece uma
solução simplista demais para algo
que é… mais complexo do que isso.
Cinco: você.
Ou a ideia de você.
Ou o que restou depois que você
atravessou tudo isso e saiu ileso —
enquanto eu fiquei aqui, recolhendo
os cacos como se fossem pistas de
um crime que ninguém pretende
investigar.
Dizem que loucura é perder o
controle.
Eu discordo.
A minha loucura é justamente tentar
controlar demais.
É organizar o caos em listas como
essa, fingindo que nomear as coisas
as torna menos perigosas. Como se
dar forma ao que me atravessa fosse
o suficiente para contê-lo.
Não é.
Nunca é.
Porque entre um item e outro, algo
escapa.
Algo sempre escapa.
Um pensamento que eu não deveria
ter.
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Pág. 12
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Poesia
Uma memória que retorna sem aviso.
Um sentimento que cresce silencioso
até ocupar tudo.
E quando percebo, já estou afogada
de novo.
Mas ainda assim, eu escrevo.
Escrevo como quem nada.
Não porque saiba exatamente para
onde ir, mas porque parar
significaria afundar.
Cada palavra é uma braçada
desajeitada.
Cada frase, um fôlego roubado do
fundo dos pulmões.
Cada texto, uma tentativa — falha,
imperfeita, desesperada — de chegar
à superfície. E às vezes eu chego.
Às vezes eu consigo olhar ao redor e
perceber que ainda existe ar.
Que ainda existe alguma coisa viva
aqui dentro.
Mesmo que seja pequena.
Mesmo que seja frágil.
Mesmo que amanhã tudo volte a
desmoronar.
Se você está lendo isso, talvez esteja
procurando sentido.
Ou talvez só esteja curioso para ver
até onde alguém consegue ir quando
decide expor o próprio abismo.
Eu não tenho respostas.
Só tenho esse inventário incompleto.
Essa coleção de coisas que não sei
resolver, mas que me recuso a
ignorar.
Porque, no fim, talvez seja isso:
Não é sobre curar a loucura.
É sobre aprender a habitá-la sem
desaparecer completamente dentro
dela.
Então, eu deixo aqui, entre uma linha
e outra, tudo o que não coube em
mim.
E, se você prestar atenção, talvez, me
encontre nas entrelinhas.
Por Thainá Toffo
Salvador-BA
IG @thainatoffoescritora
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.3, jul/set. 2026
Pág. 13
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O louco lúcido
O que é a mente senão um mar revolto,
Onde a razão naufraga devagar?
Um grito mudo, no silêncio solto,
Um novo jeito de o mundo enxergar.
Dizem loucura a quem perdeu
o prumo,
Mas quem define onde fica o chão?
Às vezes a alma busca outro rumo,
E foge às grades da compreensão.
São cores vivas no escuro da tela,
Um labirinto que não tem saída.
É a tempestade que se mostra bela,
A dança cega no palco da vida.
Se ser normal é caminhar na linha,
A loucura é o voo, o salto, o vento.
Uma verdade que a razão não tinha,
No caos profundo do pensamento.
A pena rasga a folha como espada,
Vertendo a tinta contra a hipocrisia.
Mas para a turba cega e doutrinada,
A minha voz não passa de heresia.
“É louco!”, gritam os juízes da moral,
Ao verem que a palavra os incendeia.
Pois chamam de delírio e de mal,
O verso livre que desfaz a teia.
Se a lucidez é o ódio disfarçado,
E o “ser normal” é o preconceito hostil,
Aceito com orgulho ser chamado
O maior louco que este mundo viu.
Poesia
Poesia
Por Júlia Carolina Tavares
Queiroz
Itapetininga-SP
IG @poeira.polvora
Poeira & Pólvora | Democratização
da História e Cultura
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.3, jul/set. 2026
Pág. 14
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Poesia
Cacos
Eu sou apenas uma parte,
sou um pedaço em pedaços,
sou só um minúsculo recorte!
Sou como um jarro em pedaços,
que jarro já não mais é!
E nem pedaços posso ser!
Pois não posso ser todos eles,
e nem apenas só um deles!
Sou só um caco tentando ser todo um jarro!
Ou ao menos querendo juntar os pedaços!
Mas nem mesmo um caco consigo ser!
Sou só um caco, que nem caco merece ser
Por Vitor Hugo O.
Maringá-PR
IG @escritosdevitorhugo
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.3, jul/set. 2026
Pág. 15
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Carmesim
Os olhos carmesim me perseguem
Na penumbra... esse olhar repousa
Naquele espelho quebrado
Morto...
Sua essência me invade
O ar pesa em meus pulmões
O sangue pulsa mais forte
Fantasmas me cercam
Vejo o que não é real
Martelando em minha mente
Esse impacto será fatal
Não adianta mais fugir
Dos olhos carmesim
Não há mais para onde ir
Eles vêm atrás de mim
Quero correr
Me arrastar
Gritar
Enlouquecendo estou
Pulmões em desespero
Olhos em tempestade
Meus joelhos beijam o chão
À espera do impacto iminente
O que fui já não importa
Esses olhos carmesim
Finalmente me alcançam…
Poesia
Por Ágape
Rio de Janeiro-RJ
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.3, jul/set. 2026
Pág. 16
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Poesia
Solitude
Não sei se sou um solitário louco
ou um louco solitário.
Da vida tenho de tudo um pouco,
mas, mesmo assim, ainda me sinto
um presidiário.
De manhã, viver é uma linda
brincadeira:
doces, piculas, desenhos… tanta
guloseima.
Nunca imaginei que teria de pular
uma fogueira
para salvar a minha alma, que a vida
queima.
De tarde, os sonhos ganham uma
grande dimensão:
beijo, amizade, consumo, viagem,
sexo…
O amor é realmente verdadeiro
dentro do coração,
embora, muitas vezes, a vida se torne
sem nexo.
De noite, vem a preocupação e o
medo,
misturam-se o sonho, o pesadelo, a
angústia e a aflição.
Sou obrigado a revelar o meu
segredo
e me perco na minha própria ilusão.
Em um raro momento de lucidez,
escolho a solitude;
a solidão não foi feita para mim.
Sou um grande homem de atitude
e ainda encontrarei os meus meios
para chegar ao meu fim.
Por José Sérgio Batista
Salvador-BA
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.3, jul/set. 2026
Pág. 17
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Louco ator
Poesia
Às vezes eu não sei se sou locutor ou um louco ator.
Vivo nesse mundo atuando todos os dias.
Há dias em que sou drama.
Há dias em que sou comédia.
Há dias em que sou um monólogo.
E há dias em que sou um diálogo fantástico
com centenas de pessoas.
Quando tudo termina,
eu penso no que poderia ter feito diferente.
Penso que faltou isso,
que faltou aquilo.
Mas não me preocupo se gostaram.
O que realmente importa
é a alegria de ter vivido aquele momento
e a gratidão por conseguir,
mais uma vez.
Por Marco Simões
Maraú-BA
Doido e atrevido
Há há há
uma risada no meio do silêncio.
Lembrança alegre, o momento feliz.
Esboço um sorriso.
Uma senhora ao lado me olha de
soslaio, para ela sou doido.
Fico sério como todos.
Meu ponto chega e desço do ônibus.
Vejo a senhora, delicadamente
mando-lhe um beijo, agora ela deve
pensar "além de doido é atrevido".
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.3, jul/set. 2026
Pág. 18
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Comp.
Musical
Comp. Musical
MÚSICA INDEPENDENTE
Azimute
Eu já fui normal um dia,
hoje já estou louco, eu já estou louco,
Todas as minhas mesmices,
elas já se foram, elas já se foram,
Agora sou doido igual a todos,
enfim!
Água sobra do copo e cai em mim!
A doutora calou as minhas
normalidades,
Examinou minha insanidade,
Consta na minha receita,
excesso de realidade,
uma grama de sonhos pela eternidade,
Daqui pra frente o que importa em
mim,
Está antes da borda, aperta os
cintos,
não minto,
não finjo mais,
Sinto mais,
pego em sua mão pra te dizer..
E antes que você me escute,
Me empresta o seu azimute,
E encosta o teu norte em mim,
é ótica de uma ponte,
a morte de um belo nome,
E renasce dentro de ti,
Eu já fui normal um dia,
hoje já estou louco, eu já estou louco,
Todas as minhas mesmices,
elas já se foram, elas já se foram,
Agora sou doido igual a todos,
enfim!
Água sobra do copo e cai em mim,
sim,
nao minto,
não finjo mais,
sinto mais,
pego em sua mão pra te dizer..
E antes que você me escute,
Me empresta o seu azimute,
E encosta o teu norte em mim,
é ótica de uma ponte,
a morte de um belo nome,
E renasce dentro de ti,
E antes que você me escute,
Me empresta o seu azimute,
E encosta o teu norte em mim,
é ótica de uma ponte,
a morte de um belo nome,
E renasce dentro de ti,
pra mim, daqui pra frente,
pra mim, de trás pra frente, é o fim
por Rafa Mazelli
Dias d'Ávila-BA
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.3, jul/set. 2026
Pág. 20
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Comp. Musical
MÚSICA INDEPENDENTE
Inventário da Loucura
Eu queria medir o amor que não tem fim
Em toneladas de silêncio
Ou quilômetros de solidão
Mas a loucura não se mede, inclusive a que vem de
mim
E meu amor foi por inteiro, mesmo sendo em vão
Tentei ser o melhor que tinha - a sombra do que sei
Das perdas que vieram antes de eu te cogitar
E, mesmo sem resposta, mesmo sem um porquê
Amor eu sempre quis loucamente te dar
Hoje eu sei que amor não mora onde pode ser
morada
Mas nada me fez deixar de te querer
Pois no meu inventário de loucura, a conta mais
pesada
Nunca foi te perder, foi não conseguir te esquecer
No inventário da loucura minha mente cria o que
não viveu
O amor que nunca pede nada e que nunca se
esqueceu
por Jefferson de Lira
Sumaré-SP
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.3, jul/set. 2026
Pág. 21
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Filarmônica Lyra Popular de Mucugê
Resgate histórico, formação cidadã e valorização
do patrimônio cultural
Imagem: arquivo divulgação
O
processo
de
reconstrução
da
filarmônica ocorreu paralelamente à
criação da Escola de Música Júlio Cézar,
instituição responsável pela formação
dos novos músicos e pela continuidade
do legado do maestro que marcou a
história musical da cidade.
“Sons da Chapada:
Brasilidade da Filarmônica
A Filarmônica Lyra Popular de
Mucugê é uma associação cultural
sem fins lucrativos dedicada à
preservação da tradição das bandas
filarmônicas, à formação musical e à
promoção da inclusão social por
meio da arte e da cultura. Sua origem
remonta ao final do século XIX,
quando a primeira Lyra Popular foi
idealizada e regida pelo maestro Júlio
Cézar de Souza, tornando-se uma
das mais importantes expressões
culturais do município de Mucugê,
na Chapada Diamantina. Com o
passar
dos
anos,
a
instituição
encerrou
suas
atividades,
permanecendo viva na memória da
comunidade e dos admiradores da
tradição filarmônica local.
Lyra Popular de Mucugê”
É uma iniciativa voltada para a formação
musical,
valorização
da
cultura
brasileira e democratização do acesso à
música. O projeto atende crianças,
adolescentes,
jovens
e
adultos,
utilizando a educação musical como
ferramenta
de
desenvolvimento
humano, fortalecimento da identidade
cultural e inclusão social.
Imagem: arquivo divulgação
Em 3 de outubro de 2023, a Lyra
Popular de Mucugê foi resgatada por
iniciativa de músicos, coordenação
do maestro Rodrigo Reis e membros
da sociedade civil comprometidos
com a valorização da cultura musical
do município.
Maestro Responsável: Rodrigo Reis
Presidente: Silas do Prado
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.3, jul/set. 2026
Pág. 22
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Conto

Conto
Por Samuel Dantas
Era uma Vez um Boi e um Carneiro
Ilustração @miats._
Era uma vez um boi e um carneiro, ou melhor, eram duas pessoas, mas vamos dizer que eram dois animais para bem da ficção. Em outras vidas tinham sido cachorros, gatos e até dragões, seres mitológicos, inexistentes, mas entrelaçados por éons. Há tanto tempo que seria mais fácil dizer que conviveram por um único instante, eterno e imensurável. Esse boi e esse carneiro viviam a bater de testa, assim como o fizeram enquanto eram dragões, se entrelaçavam, se enroscavam, se debatiam, mas não se largavam. Viviam a se encontrar e eternamente também desencontrar. O boi dizia ao carneiro: você é muito indecifrável. O carneiro dizia ao boi: você que é muito lerdo. O carneiro sempre foi muito impulsivo, quando queria, ia. O boi era muito passional, quando queria, conquistava. Haviam sido dois gatos de raça até então indefinida [mas que dariam origem aos modernos persas e siameses], filhos da mesma ninhada, mas propositalmente diferentes um do outro em matéria de personalidade. Eram os gatos de um escriba sumério, da época em que escrever era uma tecnologia recém inventada, mas muito rentável. Apesar de pertencerem ao escriba sumério, não eram gatos livres, tinham por obrigação cuidar dos cereais armazenados no Zigurate. Essa tarefa tediosa os fazia viver à revelia. Ora se aconchegavam ora se estapeavam a ponto de perderem tufos e tufos de pelos. O que um dia viria a ser carneiro tinha até sua cauda pontiaguda de tanto o que um dia viria a ser o boi lamber. Já viu, um gato lamber tanto a cauda do irmão a ponto de deformá-la? Pois. Vamos para
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.3, jul/set. 2026 Pág. 24
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Conto
a parte do boi e do carneiro. O boi, também conhecido como o Touro do Céu ou o Touro da Terra na antiguidade, era inseguro e lerdo, como já foi dito. Era lento, gostava de paixão, de boa comida, de segurança. Gostava de pisar no chão e saber onde estava pisando. Desconfiava tanto de si e de seus cascos que chegava por vezes a questionar a solidez do chão que pisava. O carneiro não. O carneiro que na Grécia foi chamado Velo de Ouro ajudou a salvar príncipes e fundar reinos, foi homenageado por Zeus, mas muito antes disso, antes de sequer ser citado nas bíblias como objeto de sacrifício foi confundido, ou melhor: associado à figura do trabalhador, do camponês, rústico, mas essencial para a sociedade em que estava inserido. Não escrevia, não fazia contas, mas sustentava com os seus braços um império inteiro. Era a liderança ativa, a força motora que dava início aos trabalhos. Não à toa, hoje é o signo de Áries no céu. Finalmente ou sem fim, esses dois personagens marcaram mais um encontro nesse texto e podem ser ou estar ao lado do nosso leitor neste exato momento. Não são ninguém em particular, ou mesmo no privado, pois ainda não se decidiram, mesmo através dos éons o que são um do outro, se eternos namorados, eternos arquirrivais, amigos, irmãos, ou simplesmente seres inexistentes um para o outro, assim como são os dragões para a humanidade.
Banzaê-BA IG @samuel.dantas50
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.3, jul/set. 2026 Pág. 25
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Conto
Por trás de uma ilustração sempre tem uma história
A ilustração foi pensada como uma representação silenciosa da relação entre as duas figuras do conto. Embora associadas a diferentes símbolos e mitologias ao longo do tempo, o boi e o carneiro aparecem aqui em um momento de pausa, coexistindo no mesmo espaço sem conflito direto.
A composição busca refletir os contrastes presentes em suas personalidades e trajetórias. O boi foi representado de forma mais calma e introspectiva, quase adormecido, em referência à sua natureza ligada ao conforto, à estabilidade e à contemplação. Já o carneiro permanece desperto, olhando à frente, trazendo uma presença mais alerta e ativa.
Mesmo descritos em alguns momentos como rivais, amantes ou forças opostas, os dois personagens são atravessados pela ideia de repetição e reencontro através dos éones, ciclos imensuráveis de tempo em que continuam inevitavelmente ligados um ao outro.
Visualmente, a intenção não era representar uma cena narrativa específica, mas criar a sensação de uma relação antiga demais para ser completamente definida.
Mia é ilustradora e parceira
da entrelinhas. Saiba mais
sobre seu trabalho no Instagram @miats._
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.3, jul/set. 2026 Pág. 26
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Conto
Por Tamara S. Fawkes
Um Bom Lugar na Chapada Diamantina
Imagem: Cosmos.so
*O conteúdo a seguir faz parte do livro EU SOU ONI
Correspondência entre Clara Di Ana e seu amigo D. em janeiro de 2026 editada em 26/06/2026 às 20:07
Querido D., Pois é, voltei. Ah, não finja que te surpreendo, sabemos que não é assim. Sabe do que mais? Eu realmente preciso contar um fato ocorrido há alguns meses, se bem que eu talvez nem esteja aqui escrevendo isso agora, pode ser mais uma ilusão, mais uma fuga. Não importa, eu vou escrever. Como você já sabe, eu e Marcelo estávamos há terríveis 5 anos sem uma viagem sequer em nosso itinerário de vida, o que é muito tempo, concorda? Aquela cidade que você indicou se mostrou uma calma, alegre e necessária surpresa, porém, acredito que desde o começo, ainda na estrada, tudo aquilo começou. Vamos por partes. Eu não sei se você sabe de algo; então, vou lhe contar de todo jeito.
I
Viajamos pela tarde, saímos atrasados e já previ pegar a estrada de noite, rezei que ela estivesse tranquila. O que eu digo a mim mesma e a Marcelo é: o que será, será! E assim foi. Eu não vou dar tantas voltas, mas ainda não quero sair, então, vou me alongar somente na medida certa. Quando a estrada se transformou numa paisagem plana e seca, os carros passaram a diminuir, contei 20 minutos sem nenhuma companhia, tentei reconhecer o caminho, alguns detalhes como os cactos e uma fazenda que da última vez, em janeiro de 2021, paramos e fizemos fotos, mas não os vi. Eu queria uma mudinha, da outra vez deixei para pegar na volta, mudamos o caminho e agora seria a chance, finalmente, mas não foi. Talvez a estrada fosse outra e não havíamos percebido, talvez já estávamos sendo enganados ali. A noite caiu rápido e o céu começou seu show. As estrelas brilhavam chamando minha atenção, a Lua estava linda. Eu tenho um costume desde criança de pôr a cara na janela e ser golpeada pelo vento; fiz isso de olhos fechados, lembrei de viagens que fiz com meu pai, quando íamos juntos e sozinhos para o interior. Ele me orientava a trocar as fitas no rádio sempre que um lado acabava. Quando abri meus olhos, dei de cara com uma bolinha luminosa muito apressada, muito brilhante, muito esquisita. Ela descia infinitamente em posição diagonal, não brilhava com outros tons, outras cores, era apenas branca, ou prateada? — Não, é um ET. Que loucura...
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Conto
II
Resumidamente, as vagas que reservamos num camping foram perdidas, chegamos ao local após o horário de entrada, já era 22h. Onde iríamos dormir? Será que poderíamos encostar e acampar? Voltamos pela estrada principal até chegar na cidade onde tem um pequeno centro, paramos em frente a uma casa com moradores conversando. Por sorte, um deles nos indicou uma hospedagem. Será que foi nesse momento que as coisas desandaram? Agora vem a segunda parte interessante. Nós não íamos até aquele lugar, a cidade estava fora dos nossos planos, ela sequer existia numa lista de possibilidades, então, Marcelo. me acordou dizendo que sabia o que faríamos naquele dia e que você havia solucionado isso para nós. — Olhei no mapa e fica a 20 minutos daqui. Após 10 minutos de asfalto, chegamos a uma entrada discreta, porém do tamanho adequado para dois carros, de terra, o chão estava molhado, algumas poças denunciavam a chuva da noite anterior. Finalmente chegamos a uma placa direcionando-nos à entrada da cidadezinha, o que não esperávamos é que ela fosse uma ladeira de quase 90 graus. — O carro vai embolar, ele não aguenta descer. — Como assim não aguenta descer uma ladeira? — E se descer, não sobe. Vamos voltar como? — Marcelo, meu amor, se a estrada existe, então tem carros subindo e descendo, vamos logo, por favor. Após muita relutância, Marcelo respirou fundo, fez uma oração a algum ser espiritual e tentou controlar aquele monte de ferro com uma mão no freio. De repente uma buzina enlouquecida surgiu, uma gringa sorridente dizendo “bom dia” entre o som do carro e nosso “oie”. — Pode descer! Desce, sim! Ela seguiu pipocando como se o carro fosse um brinquedo levíssimo. Chegamos ao portal da cidade, a descida durou alguns minutos, percebemos que estávamos o tempo todo em cima de uma longa serra e agora adentrávamos uma toca profunda, a cidade estava ali, no centro, circulada pela mata e serras menores, além de grandes pedras que algum dia rolaram. Fizemos umas fotos na ponte feita de pedras que denunciava uma queda d’água e possivelmente algum rio ou cachoeira que poderíamos conhecer. Ao entrar na cidade, logo nos surpreendemos com as casinhas feitas também com pedras, algumas bem coloridas, em tons fluorescentes, outras sem reboco. Uma placa trazia o símbolo de Hermes Trismegisto, o Três Vezes Iniciado, ou seria a Estrela de Salomão? Foi estranho ver aquilo logo em nossos primeiros minutos fora do carro, estávamos em missão de reconhecimento, o lugar já se dizia diferente.
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Conto
Percebemos haver uma rua principal, voltamos ao carro e seguimos por ela, em 5 minutos a cidade acabou, voltamos de ré até poder dar a volta. A cidade era só uma rua central e rodeada por algumas adjacentes. — Agora vamos a pé. Deve ter algo legal por aqui, ao menos é um lugar silencioso, já deu para notar. — Marcelo esticava os braços, estava empolgado pela aventura que ele mesmo encontrou no mapa. A maior parte do que parecia ser comercial estava fechado, já as casas coloridas abriam-se para os passantes, poucos, mas presentes. Portas e janelas estavam sendo abertas para a luz entrar, um “bom dia” aqui e outro ali. Olhares curiosos ou tímidos nos respondiam de volta. Um rapaz passou e nos cumprimentou. Resolvi tomar uma cerveja, era 10h da manhã. Tinha um bar aberto, quando entrei, voltei aos meus 8 ou 9 anos. Era uma típica venda que era bar e que era doceria e que virava ponto de encontro. Tudo junto. Eu vivia comprando cigarros para meu irmão ou trocando garrafas de refrigerante vazias por outras cheias. Um cachorro caramelo estava esticado no centro do estabelecimento, olhei ao redor absorvendo cada detalhe. — Meu Deus, Marcelo, é igualzinho a antigamente. Os bares eram assim. Vendiam farinha, cigarro, cerveja e veneno de rato! Tudo junto. — E tem wi-fi, ó a placa ali. Sim, tem wi-fi. Na verdade, durante todo o passeio, havia sinal de wi-fi, rede de telefonia, não. A próxima cena chegou discreta, e quando vimos, já trazia várias pessoas idosas com roupas brilhando em lantejoulas, bandeiras de um homem com uma flecha no tórax, acho. São Sebastião. Seguimos a procissão e em algum instante todas as pessoas sumiram, se foram, talvez ficamos muito tempo no bar, ou depois, olhando outras coisas e não percebemos a multidão passar, ir embora. Podíamos seguir em frente, fomos. Uma ladeira estreita se apresentou, subimos, de lá avistei construções brancas, um topo que parecia de uma igreja e gigantes eucaliptos com troncos e raízes tão grandes que deveriam estar ali há 200 anos. As construções eram, na verdade, um cemitério. Branco. Assim, no meio de uma ladeira, na sua descida, um cemitério. Os mausoléus enormes, altos, brancos! Que loucura. A paisagem não fazia sentido, e pior, ao lado da igreja e das agora casas de descanso eterno, havia um sítio, assim, tão próximo. — Isso aqui é muito bonito, porém também é bastante estranho, você não acha, Marcelo? — Você anda por uma rua e de repente se depara com um cemitério ao lado de uma igreja, isso é um filme de terror. — O pior é que nada disso faz muito sentido, não estão casando, sabe? Assim como o bar lá atrás, eu diria que ele está nos anos 90, mas tem wi-fi. — Olhe, a procissão voltou, está lá embaixo. — Demos a volta e contornamos a igreja, ela estava aberta, as pessoas se reuniram em frente e recebiam água [benta?] jogada pelo padre. Percebi que não havia portão no cemitério, então, podíamos entrar?
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Conto
Entramos. Lápides de dois séculos. Contei os anos 1889 [sim], 1900, 1945, 1970, 2007, 2026. Eu também não estava preparada para ler lápides em um português tão antigo, e as datas? Alguém nasceu em 1889 e morreu em 1970! Havia muitas lápides assim. Que loucura! — Eu não sei como, mas a procissão se foi outra vez. — Como assim? — Marcelo estava olhando por cima de um grande e alto jazigo, as pessoas haviam sumido outra vez. Um barulho começou, uma espécie de aspirador de pó. — Veja, é aquele rapaz que falou com a gente. — Sim, agora ele aspirava folhas do chão em frente aos jazigos e à casa de Deus. Seguimos em frente, acabamos chegando onde deixamos o carro. — Uma rua principal que percorre a cidade, começamos aqui e terminamos aqui. — Ei, vocês são de onde? — Uma senhorinha que aparentava ser parente dos já falecidos com quase 100 anos nos encurralou numa esquina, muito simpática, não se preocupe. O problema foi que não respondemos, eu simplesmente não sabia se dizia ser de Salvador, do interior ou de onde morava agora, mas a minha feição por aquele passeio se tornou algo muito maior. Meu pensamento foi esmagado por uma sensação certeira de que eu morava… ali. Marcelo respondeu algo, não entendi, não ouvi, foi muito baixo. Ela sorriu para nós dois e fez um sinal como que nos abençoando. — Vai ter almoço, viu? Vocês dois precisam comer. Ali no bar do João tem prato, só precisa disso. — Saiu sorrindo, olhando para trás. Comida grátis? Que inusitado. — Eu quero uma foto aqui. Essa parte parece exatamente com o interior que eu sempre gostei. Bom, agora pensando enquanto te escrevo, acho que pode ter sido aqui onde tudo começou.
III
A comida estava maravilhosa. Não queríamos ir embora, a noite se aproximava e não queríamos ir embora. Achamos um hostel, um lugar antigo, o chão de cimento queimado vermelho, já morei numa casa assim. O dono passou de carro enquanto esperávamos ele aparecer sentados na calçada, parou no meio da rua, desceu, disse que podíamos entrar e nos mostrou um quarto. Disse que voltava logo e foi embora. Assim, rápido. A casa tinha uns graus a menos que a rua, um silêncio ainda maior. Ficamos. O sentimento de estarmos fazendo algo sem planejar, numa certa euforia, nos animou ainda mais. Nós não queríamos ir embora. Tive um sonho, eu estava lendo as lápides durante a noite, de alguma forma dava para enxergar cada letrinha, cuidei de algumas e de jazigos, depois ouvi um chamado, segui pela lateral da igreja e gritei. Uma mulher estava pendurada no topo de uma das árvores de raízes e tronco enormes, antigos, de 200 anos. Uma corda segurava seu pescoço, os braços caíam junto com os longos cabelos no rosto, o vestido que usava estava ensanguentado, os pés ma-
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Dias d'Ávila-BA IG @tsfawkes

Conto
Por Eduardo Reghim
Minha Loucura Real
Foi num belo dia, desses em que a gente resolve sair de casa tentando ser normal e — fazer tudo igual —, que algo meio estranho aconteceu. Eu ia conversando com meus botões, naquela loucura real misturada com a minha lucidez, prestes a atravessar a rua. Havia na mente uma ideia simples e até corriqueira: chegar à padaria e comprar dois, talvez três donuts. O cheiro me guiava feito um GPS. Mas, antes que meu pé tocasse a faixa, surge o inusitado: um miado rasgado, de gato em fuga. Meus pelos se arrepiaram junto com os dele. Nem vi a cor do bichano — mas é certo que meu coração adiantou uns três minutos da minha vida. Acredite, o negócio encrencou ainda mais. Quase no mesmo instante um vulto passou por mim — e, se minha bexiga estivesse cheia, o vexame seria desconcertante. Sei o que você pensou, uma outra hipótese né… mas deixa quieto, não quero perder o apetite. O endemoniado triscou minha perna, por pouco não beijei o asfalto. Latidos secos, brutos, constantes — a cabeça foi a mil, minhas vísceras gelaram. Mal pude recuperar o fôlego, a visão ainda turva, porém, o suficiente para avistar do outro lado da rua, um homem de meia-idade, que se apoiava no muro de uma viela, ofegante. O coitado nem teve chance de pensar: — José, seu fio de uma égua! A mulher vinha logo atrás, vassoura pronta para golpear e uma raiva incandescente no rosto. Por pouco não se chocaram com o gato — ainda fugindo do cachorro. Passaram raspando por mim, que nada compreendia daquela maluques. A vassoura nem me assustou tanto quanto o olhar alucinado daquela
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Conto
Conto
bendita. Até bonita, — mas naquela circunstância… fiz correndo o sinal da cruz. Pensei em tom de lamento: pobre homem. E não acabou, não mesmo. Em simultâneo a aqueles desdobramentos, na direção oposta, me aparece outro vulto: alto, magro, boné, regata surrada — o sujeito corria num estilo Usain Bolt. Me empurrou sem a menor consideração. Caí sentado na calçada, foi vexatório. — Pega ladrão!
O grito veio em seguida. Um guarda, um tanto fora de forma, dois segundos atrasado — sim, eu contei. E aí pensei: isso não é normal. Talvez seja uma loucura controlada por minha lucidez. Ah, beleza… isso também é loucura. Quando dei por mim, Raul Seixas, invisível e quase inaudível, cantava ao fundo. Enquanto eu aguardava minha vez com a doutora Ana Paula. Tenho certeza que depois de uma visão dessas, ela certamente aumentaria a dose daquela porcaria. Me levantei do sofá, silêncio absoluto, só o cosmos girando. Fui direto à adega. Apaguei a luz do quarto. E virei, de uma vez só, minha Clozapina. No fim das contas, terminei no estúdio da CBS Records: eu, Raul, a guitarra — e uns três capetinhas —, surgiu esta canção: — Eu vou ficar… ficar com toda certeza… maluco beleza. Beleza.
Varginha-MG IG @eduardoreghim
Flores Desidratadas Arranjos Feitos à Mão
❝Transformando
flores em memória.❞
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Conto
Por Roni Pereira
O Alto da Loucura
1
Eram sete da manhã em uma rua de Salvador conhecida como “Alto da Loucura”. Carros da Polícia Federal avançavam pelo asfalto esburacado e pelos quebra-molas que surgiam a cada quinze metros, fazendo os veículos sacolejarem sem parar. — Traficantes filhos da puta — disse um policial, todo melado de café.
Ao chegar a um largo, os agentes se dividiram entre três residências. Em uma delas morava Almir, também conhecido como Mister Xota — não perguntem por quê. Um policial bateu à porta. Quando ela se abriu, anunciou: — Senhor Almir da Silva, o senhor precisa nos acompanhar. Está preso. Na casa ao lado, Ricardo era arrastado por agentes da PF enquanto gritava: — VOCÊS ESTÃO MEXENDO COM A PESSOA ERRADA! EU SOU ONI! Os policiais o colocaram na viatura. — EU SOU ONI!!! — Escuta, a gente sabe que você está fingindo — disse uma policial. Mister Xota foi algemado e caminhou sem resistência até outro carro. Do terceiro barraco saiu um homem cabeludo e barbudo, semelhante a Alan Moore. Durante a busca na casa, os agentes encontraram um caderno com mais de mil páginas de anotações. — O que será isso aqui? O caderno estava cheio de rabiscos infantis. — O que é isso, senhor Marcos? — perguntou um agente. — É meu romance eternalista sobre este bairro. Os policiais se entreolharam antes de levá-lo. Sob os mil olhos das casas ao redor, as viaturas se preparavam para partir. Um policial tentou retomar o café. — Não pode esperar até a gente sair desta merda de rua? — disse um colega.
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Conto
2
Dois daqueles mil olhos pertenciam a Gabriel, ex-motorista de ônibus. Depois de ver os amigos sendo levados, perguntou-se o que poderia ter acontecido. Só havia uma coisa em comum entre os três. Esperou algumas horas, andando de um lado para outro dentro do barraco. Ao meio-dia, ligou a TV no telejornal local. Na tela, lia-se: “Três homens são presos suspeitos de fraudar o INSS”. A repórter entrevistava o chefe da operação.
— A falsa insanidade virou uma indústria lucrativa. Esses homens faziam isso há três anos. Há outros como eles. De volta ao estúdio, o apresentador acrescentou:
— Na mesma rua, conhecida como Alto da Loucura, houve uma batida policial contra traficantes... Gabriel desligou a TV. Deitou-se no sofá e folheou Vineland, de Thomas Pynchon. Foi naquele romance que aprendera que se atirar por uma janela era um bom método para ficar longe do banco do motorista para sempre. Chega de asfalto, pensou. Chega de marginal batendo na minha cabeça com uma arma, murmurou, apalpando o crânio. Consultou o saldo no aplicativo e constatou que tinha dinheiro suficiente para sair dali — resultado de três anos de economia. Mas como fazer isso sem levantar suspeitas? A PF aparecia num dia; no seguinte, ele sumia? Se permanecesse ali, porém, estaria fodido. Pegou uma mala e guardou algumas roupas. Ainda assim, não foi embora.
3
Na manhã seguinte, bateram com força à porta. Gabriel empalideceu. — Quem é? — perguntou. Silêncio. — Quem é, porra?! Alguém arrebentou a porta com chutes. Eram homens de boné e chinelo, equipados com armas caras. — Hoje não tem atravessar janela porra nenhuma — disse um deles. — Flamingo quer conversar. Debaixo de socos e pontapés, Gabriel foi enfiado em um carro e levado à casa de Flamingo, na Pituba. Ali havia um escritório, onde o deixaram. — As palhaçadas suas e dos seus amigos ferraram a gente — disse Flamingo, sentado diante de uma mesa coberta de armas, papelotes de cocaína e pedras de crack. — Você sabe disso, né? — Não me pegaram. — Ainda.
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Conto
Flamingo tirou um smartphone do bolso e conectou o YouTube à televisão do escritório. Primeiro, exibiu um vídeo de Mister Xota correndo nu pela rua, abraçando mulheres e apanhando dos maridos ou acompanhantes. Em outro, Ricardo gesticulava em uma praça, dizendo que, “com seus poderes de Oni, poderia levantar os bancos” e “se transfigurar em qualquer coisa”. O terceiro mostrava Marcos, o “Alan Moore” do Alto da Loucura, recitando poemas eróticos para crianças. Por último, apareceram gravações do próprio Gabriel gritando como Tarzan enquanto atravessava uma janela. — Um bairro de pessoas decentes, e vocês cometendo essas imoralidades? — perguntou Flamingo, passando pedras de crack de uma mão para outra. Gabriel suava. Suas mãos tremiam. — E-eu saio de lá! — Por que não saiu antes? — Flamingo largou as pedras e começou a alisar uma arma. — Tarde demais para mudar de ideia. Gabriel levantou as mãos. — Abaixa isso aí — disse Flamingo. — Eu não sou polícia. — Eu sei. — O que não quer dizer que eu não vá ajudar a polícia só desta vez. — O quê?! — Arrumei um advogado para você, Gabriel — afirmou Flamingo. — Amanhã você vai à sede da PF se entregar. — O quê?! Eu não posso fazer isso. Não? — Flamingo segurou a arma. — Conversei com um amigo que é repórter policial. Ele disse que há um mandado de prisão contra você e outros dois moradores do Alto da Loucura. — Pensando bem — disse Gabriel —, eu posso. Estou arrependido. — É isso. Aquele bairro é de pessoas decentes. Não quero porra de polícia incomodando os moradores. — Obrigado pelo advogado? — Três anos fazendo isso. Você deve ter dinheiro para pagar. Gabriel pensou em dizer que não, mas desistiu. Um homem com um revólver .357 nas mãos convence qualquer um.
4
Na manhã seguinte, diante da sede da PF, em Salvador, Gabriel saiu de um carro com seu advogado. Os capangas de Flamingo permaneceram no veículo. Segundo o homem preocupado com a moralidade do bairro, estavam ali para impedir que Gabriel mudasse de ideia durante a viagem. Na delegacia, Gabriel se apresentou:
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Conto
— Meu nome é Gabriel Ferreira. Vim me apresentar... Estou com meu advogado... Os agentes consultaram o sistema e constataram que havia um mandado em aberto contra ele. Outra operação seria realizada para prendê-lo e capturar mais dois moradores do Alto da Loucura. Em seguida, encaminharam-no à cela.
*** Com o tempo, os vídeos do Alan Moore da quebrada viralizaram. Seus poemas eróticos, nos quais as mesmas pessoas estavam sempre transando por causa do caráter eternalista do tempo, fizeram sucesso. Dizem que os rascunhos de seu livro foram publicados e que ele conseguiu dinheiro para pagar o advogado.
Salvador-BA
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Conto
Por Cristiano Luis de Marmelo
O Menino do Sorriso Bonito
Imagem: Cosmos.so
14 de Março de 2025, foi quando eu vi o sorriso dele pela primeira vez. Eu tinha recém entrado na empresa. “O menino do sorriso bonito”, era como eu o chamava sempre que a luz do seu rosto invadia meu espaço. Aqueles olhos castanhos nunca encontravam os meus, aquele sorriso nunca se abria para mim. Mesmo assim, eu me derretia. Trabalhávamos em setores diferentes. Quando ele aparecia, as panelas paravam de tilintar, o sistema pneumático parava de soprar, e por um instante, a lua eclipsava o sol. Os curtos cachos escuros daquele anjo pareciam convidar meus dedos para um cafuné. E os lábios. Ah, os lábios. Eu nunca tive vontade de arrancar uma boca com meus dentes antes de conhecê-lo. Meus olhos dançavam uma valsa solitária à sua procura. Durante seis meses foi assim. Então, no dia 20 de setembro de 2025, seu melhor amigo arrumou uma namorada. Seu sorriso, aquele tão exibido, evaporou. Será que uma mulher que acabou de entrar na vida de alguém tem mais valor que uma amizade de anos? Foi o que eu disse. Foi o suficiente. Marejados, vermelhos e um pouco inchados, pela primeira vez, aqueles olhos encontraram os meus. Pela primeira vez, o sorriso dele foi para mim. Meio torto, mas para mim. Começamos a almoçar juntos. Ouvi-lo falar era como ter um violinista tocando uma música só para mim. Não qualquer violinista, um daqueles clássicos, vestidos elegantemente, com a postura ereta e o talento de um ser divino. Mesmo com o seu uniforme empoeirado e seus sapatos sujos, ele era esse violinista. Tocava enquanto seus olhos mergulhavam nos meus. Logo, seus braços já abraçavam meus ombros, sua mão repousava sobre minha coxa, seus dedos acariciavam meu rosto e seus lábios quase tocavam os meus. Ele brincava comigo, como qualquer outro cara hétero faz com seu novo melhor amigo. Durante o expediente, meus olhos não dançavam mais sozinhos. Recebia piscadelas e beijinhos no ar seguidos daquele sorriso que deixava minhas pernas
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Conto
bambas. E quando nossas mãos se tocavam, num ato intencionalmente não intencional, eu ria, ele ria, e eu só não morria de vergonha porque para ele nada era real. Tudo estava perfeito, até que a Jéssica entrou na empresa. Era uma amiga de infância de Fernando. Ele me contou que era apaixonado por ela no colégio. Os dois logo se aproximaram. Eu também me aproximei dela. Ouvi os desabafos de ambos e como um amava o outro, desejava o outro, morria pelo outro e faria tudo pelo outro. Eu, sempre em silêncio, sorria. Foi assim que, aos poucos, um elefante tocando trompete enquanto pedalava seu monociclo invadiu a orquestra do meu violinista. Justo na minha vez de dançar com meu par. Jéssica e eu trabalhávamos no mesmo setor, por vezes um ao lado do outro. Bastou rir de suas piadas. Em uma semana, eu já estava indo à casa dela para fofocar e assistir filmes de terror. Olhos verdes atentos, jeito inquieto. Ela era exatamente como um gato laranja, tanto que seus cabelos compridos tinham esse mesmo tom. Numa dessas noites de cinema, levei um baralho cigano. O sorriso de Jéssica não cabia no rosto. A primeira pergunta, previsível. Eu tirei para ela cinco cartas: o cachorro, o coração, o homem, a cobra e o buquê. Falei que Fernando era um cachorro, e que não queria nada com ela, afinal ele anunciava para os quatro cantos da empresa que conversava com cinco meninas ao mesmo tempo. Falei que o que ele gostava era da atenção que recebia. Ela chorou, brigou com ele, mas Fernando não entendeu. Passaram algumas semanas, mas Jéssica continuava falando dele. Eu entendo. Fernando também vivia me perguntando sobre ela. Decidi que era hora de reunir todos. Como éramos três “amigos” agora, fomos beber juntos. O bar estava cheio e com sorte achamos uma mesa. Três garrafões de cerveja depois, Fernando foi ao banheiro e eu aproveitei para contar a Jéssica o motivo de ele ter escolhido aquele bar. Havia ali uma caloura de psicologia com quem Fernando estava trocando uma ideia. Pobre Jéssica. Pude ver quando seu sorriso morreu e se tornou máscara. Seus olhos curiosos já não queriam mais estar ali e procuravam a saída. Ela deu um fora em Fernando. Ele afogou as mágoas em mais bebida. Me disse que queria ficar porre e capotar o carro. Não deixei. Eu o levei para a casa dele e fui a pé até a minha. Nos dias seguintes, ele se envolveu com mais e mais meninas que eu nem conheço. Fernando queria beber, fumar e transar. Só falava disso. Convidei ele para ir num boteco jogar sinuca comigo e uns colegas. Cada partida era um litrão de Budweiser que secávamos. Ele me olhava e sorria de canto. Eu via os seus olhos entrarem nos meus como as presas de um leão que
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Conto
cravam na jugular de um veado. O carinho nas costas, os tapas na bunda, os dedos no meu queixo. Na décima partida, se despediu da galera e me levou para o carro. Disse que me deixaria em casa, pois era tarde. Meia-noite. No caminho, o silêncio era soberano. Ele trocava a marcha e sua mão raspava na minha coxa. Minha respiração estava pesada e minhas mãos suavam. Quando estacionou o carro, ficamos longos segundos nos encarando. Não consigo lembrar quem avançou primeiro, mas ali, no dia 20 de Março de 2026, demos nosso primeiro beijo. Fernando entrou comigo no apartamento. Assim que a porta se fechou, mais um beijo. Deslizamos pelo chão e pelas paredes enquanto um rastro de roupas ficava pelos corredores. No quarto, ele me jogou na cama. O suor, com cheiro de álcool, molhava os lençois. O vidro embaçado do quarto denunciava o fogo acumulado num ano. As minhas mãos exploravam cada vinco do seu corpo. Os meus pés se embolaram nas pernas dele. Logo, sua língua começou a passear pela minha pele e tudo o que se podia ouvir era o suspiro quase estridente que eu guardava para ele. E então, nos fundimos. Éramos um só corpo se movendo em perfeita sincronia. Os gemidos faziam dueto com o estalar da cama. Ele dormiu comigo. Não tomamos banho, apenas fechamos nossos olhos naquela cama encharcada. Mas, de certa forma, eu me sentia vazio. Eu queria mais. Queria ele dentro de mim. Queria eu dentro dele. Ele só para mim para sempre. Eu me levantei e fui até a cozinha. Tomei um copo de água bem gelado. Fiquei ali parado, em frente a pia, encarando a lua da janela. Ela me olhava como quem já sabia o que eu estava prestes a fazer. Voltei ao quarto. Fiquei parado atrás de Fernando que dormia de lado. A lua não podia me enxergar da janela do quarto, mesmo assim fechei a cortina. Me aproximei devagar dele. Toquei seus cachos com a ponta dos meus dedos, beijei sua testa e sussurrei no ouvido dele que eu o amava muito. E então, rápido como um guepardo, eu o golpeei. Uma, duas, três, quatro facadas. O cheiro de suor se misturou com o cheiro metálico. Ninguém ouviu nada, nem a lua pode ver. Eu não cometeria o mesmo erro de novo. Lambi todo aquele mel que escorria em minhas mãos. O chão, os lençois, as paredes e a cortina ficaram tingidas de um vermelho rubro que era tão bonito quanto o branco do sorriso dele. Eu abri o peito de Fernando e comi, ali mesmo, sentado sobre suas pernas, o coração dele. Depois disso, cortei a ponta do meu dedo indicador, coloquei em sua boca, beijei seus lábios e declarei para as estrelas que, agora sim, éramos um só. Então dormi. Dormi bem, como nunca tinha dormido antes, me sentindo completo.
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Conto
Mas, Seu policial, quando chegar lá na minha casa, não se assuste se por acaso você ver o chão do quarto molhado, é apenas o resultado de um intenso amor de lesmas.
Brusque-SC IG @c_demarmelo
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Minha prática foca no cuidado em todas as fases da vida. Sou especialista no atendimento de crianças e adolescentes, usando toda essa vivência para acolher as complexidades que vêm com o crescimento, trabalhar o desenvolvimento sócio emocional, a ludicidade, as dificuldades de aprendizagem. Com o mesmo olhar, estou presente na psicoterapia de adultos, ajudando em processos de autoconhecimento, mudanças e a coragem de se reinventar e sonhar, em qualquer etapa da vida. Os atendimentos acontecem presencialmente em Ponta Grossa (PR), na Mauá Instituto de Saúde, ou online. O cuidado, o sigilo e o acolhimento permanecem intactos, independente do formato.
O cuidado consigo mesmo passa pela mente.
❝No fim das contas, cuidar do humano é oferecer um espaço para que cada pessoa possa falar, ressignificar sua história e, acima de tudo, se escutar.❞
Eliane T. do Prado Psicóloga, Professora & Escritora CRP 08-08/47049
Imagem: arquivo pessoal
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E-mail:
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Conto
Portões da Loucura
Por Michelle Louise Paranhos
O gin deslizou pela madeira úmida do balcão até parar diante de Pedro. Depois veio o fio grosso de xarope de morango, tingindo tudo de um vermelho que parecia sangue diluído. Refrigerante de limão, a espuma branca por cima. Pedro ouviu balançarem a cabeça. Era desnecessário acrescentar cerejas para alguém já tão ébrio. Mesmo assim, duas frutas pousaram no topo, afundando devagar. — É a saideira — Pedro ouviu dizer. O tom estava entre afirmação e ameaça,
Ilustração criada por meio de AI a partir de conceito, direção visual e prompts desenvolvidos por Henrique Brito
e ele não soube dizer se vinha do barman ou de dentro da própria cabeça. O lounge ficava a poucos passos da Praia do Pepê. Tropical chic, dizia a placa. Intimista, acolhedor. Madeira escura rangendo sob os pés, bancos de vime, costelas-de-adão guardando a entrada como sentinelas que já tinham visto noites demais. No som, Caetano Veloso: "Quando a gente ama, é claro que a gente cuida..." O verso ficou suspenso quando a música morreu. Hora de fechar. Lá fora, o sol brindou a saideira de Pedro. Espalhou sobre o mar seus últimos raios, da mesma cor do drink. Da mesma cor que o mundo ganhava quando ele bebia três dias seguidos. Pedro pescou as cerejas com dedos que não obedeciam direito e murmurou: — Pelo menos isso é doce. O gosto ficou na língua enquanto ele cambaleava para fora. A areia estava fria. Não havia ninguém na praia àquela hora. Só o barulho de mar que parecia cada vez mais longe, como rádio mal sintonizado. Sequer estranhou quando a Kombi 78, amarela, emparelhou com ele. O adesivo “Deus é fiel” estava descascando na lateral, e o motor manteve aquela marcha lenta que não decide se morre ou continua. De fato, estava bêbado demais para notar que o veículo não tinha placa. Ou tinha, mas os números dançavam. A porta lateral correu. Mãos o puxaram para dentro com pressa profissional. Ainda tentando entender, sentiu o braço surgir por trás, travando seu pescoço. O antebraço cheirava a óleo e cigarro. A
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Conto
chave de braço roubou o ar, a luta e o nome da mãe dele. Vendaram Pedro. Os dois homens na frente não trocaram uma palavra. O que dirigia tamborilava no volante no ritmo de “Morro da Paixão”, embora o rádio estivesse desligado. Pedro estava vendado, mas jurava que via a melodia vazando pelas frestas da lataria. Não sabia por quanto tempo rodaram. Minutos? Horas? O tempo, quando se está embriagado pelo “Morro da Paixão”, escorre diferente. Quando ameaçou falar, pedir, entender, a coronhada veio certeira na têmpora. O mundo apagou. Acordou com gosto de ferrugem na boca. Estava num poço. As paredes eram circulares, de pedra antiga, cobertas por um limo esverdeado que pulsava sob a luz mínima. O ar era quente, úmido, carregado de um cheiro de terra remexida e algo mais — algo que lembrou o banheiro do quiosque às 6 da manhã. A ressaca martelou um prego atrás dos olhos. Em qualquer outro dia, aquela dor o deixaria no chão, esperando morrer. Mas não tinha tempo pra isso. Tinha que sair dali. Apertou as palmas contra a pedra. O limo era frio e vivo. Tentou fincar os pés, se erguer. Escorregou e ralou o joelho. O som do corpo batendo no fundo ecoou pra cima, e por um segundo pareceu uma gargalhada. Pulou. As pontas dos dedos roçaram um nada. Era alto demais. O círculo de céu lá em cima era uma moeda cruel, distante. Tentou de novo. Cravou as unhas entre as pedras, puxou o corpo. A pedra cortou. Em segundos os dedos sangravam, listrando o limo de vermelho. O mesmo vermelho do drink. O mesmo vermelho do sol. Não subiu um palmo. O pânico veio como vômito: ácido, incontrolável. — Preciso de ajuda aqui, ok? — A voz saiu rachada, bateu nas paredes e voltou pra ele, menor. — Alguém! Silêncio. Só o ploc, ploc da água pingando em algum lugar que ele não via. Cada gota marcava um segundo. Ou um ano. Ele encostou a testa na pedra e fechou os olhos. A cabeça latejou com força, como se a coronhada tivesse acontecido agora. E então a parede tremeu. Não, a visão tremeu. O limo escorreu e virou areia. A umidade quente virou vento frio com cheiro de maresia, álcool e vômito. O ploc, ploc virou o arrastar das ondas na Praia do Pepê. Pedro nunca esteve no poço. Estava caído de lado na areia, a menos de dez metros do quiosque fechado. As luzes apagadas. Os bancos de vime empilhados. A boca cheia de areia e do gosto das duas cerejas mastigadas. Era a única coisa doce naquela manhã. O resto era sal, bile e um medo que não passava nem com mais um gole. Não houve Kombi 78. Não houve homens calados. Não havia poço. Houve só Pedro, três dias de porre e a cabeça que decidiu cavar fundo demais. Ele se sentou, tremendo.
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Conto
As mãos ainda sangravam, mas não havia pedra. Só as unhas quebradas de tanto arranhar a própria coxa, em algum momento da noite que ele não lembrava. Olhou para o mar. O sol já tinha subido, branco e indiferente. Perdido, afundado não em pedra e lodo, mas nos porões da sua própria mente. Nos porões que ele mesmo trancou, e agora não achava a chave. A saideira nunca acaba quando os Portões da Loucura já se abriram.
Seropédica-RJ IG @michellelouise.paranhos Facebook @ligadossete
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Conto
Por Mister Jota
Para um Doido, Outro
Tertuliano cansou de trabalhar. E como qualquer outro ser humano cansado de trabalhar, teve uma brilhante ideia: — Vou conseguir um atestado de doido! Passou uma semana assistindo todos os filmes que o Goo- gle lhe indicava sobre o assunto, leu muito sobre o tema e até visitou hospícios para conversar com os internos. Parecia um ator de teatro se preparando para o grande papel de sua vida. Com o “personagem” pronto, Tertuliano procurou um psicólogo e o convenceu a encaminhá-lo à um psiquiatra. O psicólogo, macaco velho e tarimbado na profissão, viu que tinha algo errado na loucura daquele paciente e o encaminhou para o maior detector de mentiras que conhecia: o renomado psiquiatra, Doutor Farolino Farense Ferreira.
Tertuliano, que se achava o Einstein dos espertos, já dava seu atestado e até uma futura aposentadoria como certas. Mas como seguro morreu de velho, (nunca entendi a lógica deste ditado mas, como todo mundo fala isso, repeti porque tinha certeza que vocês entenderiam o que eu quis dizer), Tertuliano se aprofundou em seu “personagem” e no dia da consulta caprichou ainda mais. Tomou um porre um dia antes para acordar de ressaca, não penteou o cabelo e não lavou os olhos. Chegou no consultório puxando uma coleira presa a uma lata de sardinha e com um pedaço de bacon atrás da orelha. O psiquiatra o convidou para se sentar e sentou-se em uma cadeira bem a sua frente, ficando com o rosto a centímetros do rosto de Tertuliano. — Bom dia ou boa tarde? — perguntou o psiquiatra. — Depende de sua fome — respondeu Tertuliano. — Esse bacon é defumado? — Claro que sim! Se fosse perfumado não estava atrás da orelha e sim, embaixo do sovaco. — E o cachorro é de que raça? — Coqueiro. — É cachorro ou macaco? — É sardinha. — E porque está na coleira? — Porque não tenho vara de pescar.
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Conto
O psiquiatra anotou as respostas em um papel, enquanto Tertuliano pensava que, com as respostas mais sem sentido que as perguntas, seu atestado estava no papo. — Seu objetivo? – voltou a perguntar o psiquiatra. — Quebrar tudo se não me derem o papel. — Precisa ir ao banheiro? — Agora não. — E para que quer papel? — Para limpar o salão. — Quer um atestado de doido? — Pareço um doido pra você? — Parece que não fala coisa com coisa. — Então eu quero. — E se eu não quiser dar? — Eu quebro tudo! — Então vou te dar um atestado de dançarino de pagode. — Pagode é casa de japonês. O psiquiatra coçou a cabeça, anotou mais coisas no papel e voltou a olhar para Tertuliano bem de perto. — Qual a idade? — Da pedra. — Sexo? — De vez em quando. — Profissão? — Dez. — Dez? — Dez empregado. O psiquiatra pensou um pouco, tirou um papel timbrado do bolso e entregou a Tertuliano. — O senhor me convenceu – falou – aqui está um atestado comprovando sua insanidade mental. Agora só peço que o senhor sente aqui em meu lugar e me dê seus documentos para eu ajeitar a parte burocrática. O psiquiatra saiu e, alguns minutos depois, uma enfermeira entrou e pediu para ver o papel na mão de Tertuliano. — Rapazes – gritou a enfermeira – o paciente para internação é este aqui. Então três homens grandes e fortes, com a farda do sanatório entraram e agarraram Tertuliano, que gritava: — É um engano! Não estou aqui para ser internado! Podem olhar que o papel é só um atestado! — Aqui tem escrito – respondeu a enfermeira – que o senhor Evanilton Souza
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Conto
Sorocaba é um paciente encaminhado para internamento. — Mas meu nome é Tertuliano! Perguntem ao doutor Farolino que ele vai confirmar! Foi ele quem me deu esse atestado! Foi quando um outro homem entrou na sala e falou algo ao ouvido da enfermeira, que caiu na gargalhada. Tertuliano, sem entender, perguntou o motivo do riso e só então a situação foi esclarecida: Tertuliano nunca chegou a ser atendido pelo psiquiatra e sim por um doido que tinha acabado de ser transferido e aguardava na sala o internamento. Doutor Farolino se encontrava no banheiro, vítima de uma diarreia repentina, e o doido, que era doido e não besta, aproveitou que tinha chegado outro doido e, doido para fugir, deixou o doido em seu lugar de doido. E, para não ficar doido de verdade, Tertuliano desistiu de ser doido e, hoje em dia, está feliz em não ser doido e desistiu de querer ser doido para não trabalhar. E para que eu também não fique doido com tanta doidice, estou doido para terminar de contar essa doideira.
Lauro de Freitas-BA IG @contadosdecausos
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Conto Por Safie
Conto
Esperança Desesperada
Eu senti todos os sentimentos… Na carne. Nos ossos. Nas veias. Nos órgãos. Nos fluidos. Nas vísceras. Eu senti… todos os sentimentos. Tem gente que passa por essa vida e nem isso teve. Não chegou na carne. Não rompeu a pele. Não afundou nos ossos. Passaram pela própria existência como turistas dentro de um museu silencioso.
Eu não. Eu fui transformada. … e talvez seja esse o meu maior fracasso. Eu falhei como mulher. Eu falhei como amante. Eu falhei como esposa. Eu falhei como filha. como irmã. como mãe. como empresária. como amiga. como profissional e como cliente. Eu falhei com a classe. Falhei com a beleza.
Ilustração por Safie
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Conto
Falhei com a obediência. Falhei com a dor. com a empatia. Falhei com tudo que esperavam de mim antes mesmo de eu nascer. e ainda assim, sobrevivi. O problema de sobreviver é que o corpo continua lembrando. O corpo lembra da febre. Do toque. Do abandono. O corpo lembra. mesmo quando a memória decide mentir. Há pessoas que acreditam que sentir menos protege. Talvez proteja mesmo. Mas existe uma violência específica em nunca ter rasgado por dentro. Naquela noite, eu desci do barco. eu usava roupa de festa e uma expressão incompatível com celebrações. a areia estava fria. o mar respirava no escuro, como um animal imenso que não dorme. Então eu dancei. Sozinha. o mar balançava tudo lentamente. e pela primeira vez naquela noite, eu entendi uma coisa: falhei com o humano em mim. mas o paradoxo é que talvez tenha sido exatamente isso que me tornou… Humana. Desesperadamente humana. O corpo dela deu um solavanco mas logo uma mão segurou firme a sua... Ela pisou na água. Era noite, e a luz da lua deixava tudo prateado. O barco ficou balançando forte quando ela saiu dele
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Conto
em direção à praia. O sol ainda demoraria a nascer e seu vestido de paetê já estava ensopado com água do mar e areia. Não havia ninguém naquela praia, era estranho mas ela não estava preocupada com nada disso. Era ano novo e ela queria desesperadamente ser feliz. Sentir todos os sentidos pulsando, junto de suas veias. O mundo ao redor girava lento, ela olhava para seus pés dançando sob a areia… o paetê formava pequenas bolhas de brilho no ar onde a lua refletia. Seus músculos moviam-se sem esforço, enquanto seus ouvidos prestavam toda a atenção no som vindo de algum lugar que ela desconhecia. Mas era suave e ao mesmo tempo intenso, rápido e voltava a delicadeza das notas. Ela não sabia o que esperar, apenas se permitiu sentir a vida em sua total imprevisibilidade… Nada de controle, nem pressão, só dança e respiração. Ela para lentamente e encara o mar, o barco ancorado longe. Nunca vira uma noite mais linda... Seus olhos se emocionam. É inevitável. Sua nuca se arrepia, o barco está voltando para a praia. A música segue tocando. Enquanto o barco com um solavanco atraca na areia. Ela prende seus cabelos pra cima, já não se importa mais com nada além de seu próprio conforto e prazer, ninguém iria tirar isso dela naquele momento. Ela estava completamente segura. Amarrou a ponta
do vestido que pingava. Entrou no mar. Subiu no barco. Um sorriso sereno encontrou o dela e ergueu uma taça de um champanhe cor laranja, levemente rosado profundo...
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Conto
A mesa no centro do barco estava cheia de outras frutas, pães,castanhas, geleias e patês… O barco era de madeira simples, com pequenas velas, que
deixava-o extremamente luxuoso. O clima era de um calor confortável. Ela não podia se sentir melhor, colocou um queijo com figo na boca. Fechou os olhos.
Que sensação… aquele sabor era incrível… Abriu os olhos! O que viu não era nada daquilo que ela esperava. Acordou toda molhada de suor, estava
no sofá.
Passou a mão no rosto inchado. Levantou e sentiu o corpo arrepiar com o ar gelado no pijama molhado.
Correu até o banheiro e ligou o aquecedor pequeno, com cheiro de queimado. Fechou a porta rápido.
Tirou a roupa com certo nojo. Deixou no chão mesmo e ligou a água quente. Mal podia esperar pro vapor inundar sua visão e ela poder por mais alguns minutos ignorar a realidade.
Pela janelinha minúscula do banheiro dava pra ver só um cantinho de rua entre os prédios, o sol quase não batia ali, ela não sabia exatamente que horas era do
dia.
Passou a mão pelo espelho embassado, ela nem reconhecia aquele rosto acabado.
– Você vai dar um jeito nisso! Falou ela, enfaticamente e inutilmente pro rosto estranho no espelho.
O trabalho controlava o ritmo da sua vida, não era a vida que ela precisava ter, para sentir o mínimo de dignidade nessa sociedade. O mínimo de tranquilidade pra ser quem ela era. Não podia fazer
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Conto
nada sobre isso.
E era desesperador.
Justamente, porque era incontrolável. Ela era Humana demais, para sustentar esse sistema.
Quem não é?
Blumenau-SC IG @sabrine.arte
❝As nossas mãos traduzem o que está no coração.❞ IG @associacaofibrasdaterra
Produto Artesanal
Feito à Mão
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Conto
Por Tanise R. Sutil
Borderline
Ela guardava o que escrevia como se escondesse dinamites dentro de casa. Por fora, ninguém suspeitava. Seus gestos eram comuns, como ajeitar o cabelo atrás da orelha antes de falar algo importante, ou sorrir facilmente em conversas descontraídas. Havia uma delicadeza encobrindo o incêndio que a consumia por dentro. À noite, quando a casa e o mundo externo silenciavam, finalmente parava de se cobrar. Sentava-se diante da máquina de escrever, uma herança de sua avó, como quem se prostra diante de um altar. Acendia um cigarro, e com os dedos trêmulos discorria a primeira frase. Escrever era o único lugar onde podia quebrar regras e se aventurar sem testemunhas. Ninguém lia o desespero escondido nos versos. Durante o dia, porém, ninguém via a escritora. Via-se somente a mulher no supermercado, no banco; a filha que respondia rapidamente às mensagens de sua mãe, a amiga que lembrava dos aniversários, a esposa que lavava e cozinhava; a mãe assídua nas reuniões da escola. A mulher que se importava com os outros, escutava e compreendia todos que estivessem precisando de atenção. Ela possuía a nobre habilidade de fazer as pessoas se sentirem importantes. Contudo, ninguém imaginava que enquanto isso desaparecia discretamente. Então, nos recônditos de sua biblioteca particular, derramava toda a raiva que aprendera a camuflar em sua sensibilidade e a melancolia vestida de maturidade. Regurgitava a solidão das mulheres que cuidam de tudo e todos enquanto abandonam aos poucos a si mesmas. Ela tinha o hábito estranho de transformar feridas em estruturas poéticas e fazia isso tão bem que seus leitores
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Conto
sempre se questionavam: “De onde vem tanta inspiração?” E ela não sabia responder. Às vezes, sentia que devia abandonar tudo. Não de maneira súbita, mas paulatinamente. Fugir para uma cidade qualquer onde ninguém soubesse seu nome nem de onde vinha, para um lugar onde pudesse existir sem ser filha, esposa, mãe, funcionária; sem pressa, expectativa ou presença. Apenas ela e seus pensamentos. Mas não iria. Havia o amor que não a deixava partir. Estava envolvida demais em tudo, embora não pudesse discernir o que era ou não delírio, ousava continuar acreditando na ternura da vida característica das mulheres que pensam demais, observam demais. As pessoas gostam delas até o momento em que começam a dizer verdades reconhecíveis. E ela sempre acabava dizendo, em suas metáforas, ou nas personagens, fossem elas mães cansadas ou meninas rebeldes. Seu segredo não era o descontentamento, e sim uma fúria sem motivo aparente. Quando chegou a hora de escrever, lembrou-se da moeda, do bebê e da namorada. Pensou em tudo isso e na forma como eles pareciam um tesouro para quem os possuía, no cuidado do outro. E era assim que ela via seus escritos, como se estivesse guardando e protegendo algo valioso, pois para ela tudo aquilo era de valor inestimável, inegociável. E de manhã, tão de repente pensou em desligar a máquina que incessantemente buscava significado em tudo. Levantou-se e foi caminhar, tentando andar sem fazer da rua um cenário para a sua literatura. Tentou conversar com a vizinha sem buscar eu-lírico em seus diálogos. Mas era praticamente impossível prosseguir sua jornada sem observar a própria estrada e tomar notas para a construção de um livro. A escrita era algo que a fazia ser quem era. Ou não ser ninguém. Ou ser tudo o que quisesse ser. Quando a chuva começou a cair, correu de volta para o aconchego de seu lar, onde seu esposo e seus filhos estavam reunidos ao redor de uma caixa antiga encontrada por acaso no armário do sótão. Dentro dela, havia fotografias, bilhetes, receitas escritas à mão e alguns papéis de carta. Sentou-se no meio deles para ler junto. Não havia nada extraordinário no conteúdo. Apenas cartas de amor clichê e uma vida de entrega a experiências únicas em família. Ali então ela chorou. A dona daqueles pertences também escondia incêndios. Era fácil reconhecer. Ela não conhecia a mulher, mas podia jurar que ela também aprendeu a suportar em silêncio e demonstrava amor em atos de cuidado. As receitas quase apagadas transmitiam a imagem de alguém que cozinhava para não desmoronar por dentro, alguém que ria enquanto enterrava suas versões tristes. Secou a lágrima do rosto e permaneceu envolvida o suficiente para que ninguém notasse. Pela primeira vez, imaginou que talvez sua escrita não fosse apenas uma tentativa de sobrevivência individual. Talvez estivesse registrando algo maior.
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Conto
Naquela noite, as teclas ecoavam pelo cômodo como pequenas marteladas enquanto ela escrevia sobre a senhora, a jovem mãe e a namorada. Todas eram uma só, exclusivamente ela mesma. Quando terminou, foi até a janela e espiou por uma fresta da cortina, do lado de fora o mundo parecia comum. A vizinhança adormecia, um cachorro latia ao longe, um automóvel passava pela rua, ainda assim, tentava flagrar algo fora do lugar. Na noite seguinte continuou escrevendo e permaneceu assim pelos próximos meses. Publicou seus textos com o seu pseudônimo, recebeu e acolheu as críticas e os elogios, se divertiu com as interpretações equivocadas das suas palavras, releu com os olhos de outrem tentando pensar distante do que quis dizer e chegou até ter vontade de rir do que antes fora motivo de dor. Enquanto escrevia para não afundar, ousou acreditar que estaria oferecendo salvação às pessoas que tentavam permanecer na sua própria superfície, outras vezes, sentia que suas palavras não passavam de um grito de socorro de alguém à deriva. Desceu até a cozinha, preparou um café na máquina, passou pelo quarto das crianças, parou em frente a porta do seu quarto, cogitando entrar. Queria ver seu marido, beijá-lo, amá-lo, mas o medo a impediu de ir adiante. Retornou ao escritório, acendeu mais um cigarro e voltou para a máquina de escrever. Passou alguns minutos observando as teclas gastas e o papel aguardando mais palavras. Imaginou cartas nunca entregues, histórias nunca lidas. Sorveu o último gole de café. Naquele momento, ela teve a sensação que há muito não tinha. Sentiu a urgência de viver o presente. Guardou os papéis na gaveta, apagou o cigarro e saiu apressada. Tomou um banho rápido e logo estava em seu quarto, acomodandose ao lado do homem que amava. Por um momento desistiu de querer fugir da realidade. E ali entendeu que tudo o que fazia era esconder em suas frases performáticas o tamanho do estrago causado pelas suas verdades. No fim, restava-lhe escrever, porque escrever significava enlouquecer de maneira socialmente aceita.
Ipaussu-SP IG @tanisutil
Confira as obras da autora clicando aqui.
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Conto
Malalél, o Pescador de Deuses
Por M. G. Crave
Malalél nasceu no bairro da Baixadinha, em Mineiros, Goiás, onde as casas se agacham sobre o cerrado como carcaças cansadas e o vento carrega o cheiro de terra vermelha misturado ao de esgoto a céu aberto. Seu nascimento ocorreu num parto seco, sem choro e sem luz. Quando a parteira, dona Viviane, cortou o cordão com uma faca de pequi, o menino apenas sorriu com suas pálpebras seladas como cascas de ovo. Ao benzê-lo, a água benta ferveu, a vela se apagou e, no peito do bebê, em vez de batidas cardíacas, ecoou o som de um oceano antigo e profundo. Desde o berço, Malalél ouvia dois mundos fundidos em uma toada única: o de cima, com as vozes humanas, e o de baixo, composto pelo roer de entidades que habitavam os porões da realidade. Essas entidades não eram os deuses grandiosos dos mitos antigos, mas as dores vivas da própria cabeça dos homens. Eram divindades secas que se alimentavam e governavam os sentimentos mais sombrios da região: o deus da culpa, o deus da rejeição e o deus do ciúme. Eles operavam por meio de assombros estranhos ao habitual — não lançavam raios, mas distorciam a percepção de suas vítimas, fazendo com que o sofredor revivesse seus piores traumas em um ciclo eterno de agonia materializada em fuligem.
* Aos sete anos, durante uma grande enchente na Baixadinha, Malalél caiu na água suja e afundou. Foi ali, no silêncio do afogamento, que ele selou o Pacto Abissal com O Sifão. A criatura passou a habitar a medula de seus ossos, exigindo que ele atuasse como seu barqueiro. O trato era simples: Malalél usaria sua sensibilidade
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Conto
para rastrear esses deuses famintos e os arrastaria até a goela de lodo do Sifão. Em troca, o fundo do oceano subterrâneo lhe daria o poder de expurgar o sofrimento alheio do seu povo. Contudo, esse trato de sangue cobrava um dízimo violento na matéria. O local exato do abismo onde O Sifão devorava as entidades funcionava como o epicentro de uma fissura na realidade. Sempre que os dentes de basalto da criatura trituravam um deus da dor, ocorria um pequeno desastre imediato na Baixadinha — uma lâmpada estourando, uma falha elétrica de um quarteirão ou uma pequena rachadura no asfalto. O eco do estrago não precisava cruzar o mar para ser imenso: cada mastigação fundia o chão de Mineiros um centímetro a mais para dentro do abismo, secando as cisternas e azedando o leite nos peitos das mães.
* Aos trinta anos, consolidado como o “Sussurrante Cego”, Malalél operava essa pescaria em silêncio. Foi chamado para atender um caminhoneiro do Setor Nova República que definhava sob a influência do deus da ira. Esse deus estranho controlava o sangue do homem, transformando cada faísca de contrariedade em uma fúria homicida. Malalél sentou-se no chão e entoou seu característico Lá bemol grave, manifestando a pinça de sua vontade para arrancar a criatura das vísceras do homem. À medida que puxava, uma fumaça com cheiro de carne queimada brotava dos poros do homem — o rastro físico da divindade sendo expelida. Malalél entregou o deus da ira ao Sifão. No instante exato da abocanhada, um transformador explodiu na rua da Baixadinha, deixando o quarteirão às escuras. As paredes da casa do caminhoneiro suaram um óleo negro, e três poços artesianos no setor Nova República secaram na mesma hora, exalando cheiro de maresia. A quebra da realidade provocada pelo expurgo do deus da ira enfraqueceu as barreiras espirituais do bairro, preparando o terreno para a próxima tragédia. Na seca de setembro, dona Bruna, uma costureira local, faleceu e seu corpo foi cremado em Goiânia. A queima do invólucro físico gerou uma aberração: desprovida de carne, a dor do luto e a negação da própria morte fundiram-se, criando o deus da fome de forma. Essa nova divindade da perda invadiu Lola, uma jovem vizinha, fazendo-a falar com a voz de uma anciã e expelir fuligem acinzentada. Malalél interveio, mas o confronto com um deus nascido do sentimento de uma conhecida foi doloroso. Enquanto puxava a entidade, seus próprios dentes amoleceram e um fio de sangue escorreu por seu queixo. Ao lançar a criatura no abismo, a trituração gerou um estalo seco na sala de Lola que estourou todas as janelas de vidro da casa. Longe dali, na cabeceira do Corguinho, as árvores do cerrado perderam as folhas num único sopro de vento, crestadas pelo bafo frio
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Conto
que subiu do oceano subterrâneo.
* O acúmulo desses exorcismos e as constantes quebras na realidade cobraram seu preço final. Aos cinquenta anos, Malalél mal conseguia separar as duas realidades: seus pés caminhavam pela terra de Mineiros, mas sentiam o lodo do oceano. Os deuses dos sentimentos humanos estavam se tornando raros, pois haviam aprendido a se esconder na carcaça de uma divindade antiga e esquecida que subira do lençol freático para a beira do Corguinho. Era o deus do esquecimento, uma criatura monumental do tamanho da Igreja São Bento, feita de ferro oxidado e com uma boca cheia de anzóis enferrujados que pescava as memórias dos homens, deixando-os vagar como cascas vazias. Malalél entrou na casa abandonada para enfrentá-lo. O deus do esquecimento emitiu uma nota em Dó sustenido que perfurou a espinha do barqueiro. O Sifão rugiu de volta através da boca de Malalél, e o impacto inicial fez o chão da Baixadinha ceder em um pequeno desmoronamento de terra. O pescador usou toda a sua força para arrastar o colosso, mas a linha mística que o conectava à criatura do fundo não suportou a pressão e se rompeu de vez. Náufrago no lodo, indefeso diante do deus do esquecimento, Malalél foi empalado pelos anzóis enferrujados da criatura. Enquanto sangrava no escuro abissal, a voz do Sifão — que ele sempre pensou ser uma aliada silenciosa — ecoou em sua mente como o atrito de placas tectônicas, revelando a fome que sempre o espreitara. O Sifão não queria um servo; queria o banquete que vinha sendo temperado pelo tempo. Ele não era um homem que pescava; Malalél era o próprio Deus da Empatia, a divindade primeira que sentia o peso de cada costureira e caminhoneiro daquela terra. O Sifão o havia quebrado no nascimento para que ele crescesse fraco, e o pacto aos sete anos foi a engorda: ao arrastar as pequenas dores do mundo para o fundo, Malalél as mastigava primeiro, impregnando sua carne divina com o sal de cada pranto alheio. Ele era a isca que engoliu os anzóis. O Deus do Esquecimento não o viera caçar; viera ser o peso que faltava para arrastá-lo de vez para a goela aberta do Sifão. Sabendo que sua própria natureza era o amor que dói pelo outro, Malalél não recuou. Num último surto de sua divindade sangrenta, ele não lutou contra os ganchos; ele agarrou as correntes de ferro do Deus do Esquecimento e cravou-as no próprio peito, puxando o colosso e a si mesmo para a bocarra faminta do Sifão. Se sua sina era sentir tudo, ele sentiria a própria digestão.
* O Sifão fechou os dentes de basalto sobre os dois deuses. Na Baixadinha,
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Conto
o Corguinho parou de correr e o chão estalou num silêncio absoluto. Por doze segundos, o tempo travou em Mineiros: nenhum coração bateu, nenhuma água correu, e o vento prendeu o fôlego.
O corpo físico de Malalél foi encontrado na casa abandonada com os pés cobertos de lodo e as pálpebras abertas, revelando olhos opacos de peixe. Ele foi enterrado na terra vermelha de Mineiros. A fome do Sifão, contudo, não se encerrava com a carne. A consciência de Malalél foi diluída, triturada e misturada ao estômago da criatura. Ele agora era parte do dente que esmaga, parte do lodo que afoga. E na Baixadinha, enquanto a poeira assentava, uma nova criança acaba de nascer com as pálpebras seladas, sorrindo sem chorar, trazendo o som de ondas pesadas no peito. O Sifão continua reinando soberano e intocável nas profundezas, e o fundo do oceano acabou de encontrar o seu mais novo barco.
Mineiros-GO IG @marxwelgomespaula Facebook M. G Crave
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Conto Por Rute Roberta
Conto
O Louco
Imagem: Fragmentado, 2016
Eu estava ali, sentada na sala de espera, aguardando a moça simpática chamar meu nome. Costumo dizer que tenho o olhar periférico, observo tudo, analiso, mesmo quando não parece perceptível, costumo olhar atra- vés, gosto de imaginar o sentido de cada coisa, o local onde foi escolhido colocar. Olhei quadros, a cor da parede, flores, tudo decorado com muito bom gosto, o cantinho do café, convidativo, tudo tão leve que escondia a realidade por detrás das paredes. Cheguei cedo, não era costume, mas, estava ansiosa para consulta, pouco a pouco a sala foi se completando, cada um que ali chegava carregando uma história.
Um detalhe intrigante, ninguém entrava só apenas eu, todos traziam consigo alguma companhia, a mãe, o pai, o filho, a tia, o sobrinho. Comecei a perceber que não eram pessoas comuns, um médico, um advogado, um empresário, um dentista, uma atriz vestida de um personagem que ela amava interpretar. Um moço da marinha sentou ao meu lado, farda alvinha, no peito, todas as condecorações, orgulho de servir a pátria, a mãe o acompanhava, olhar cansado, tristonho, ele falava apressado, precisava ir embora, cumprir a missão que lhe fora dada, não custei a perceber que já fazia muito, um tempo em que ele ainda gozava do juízo perfeito. Caso a caso, uma história diferente de pessoas agora insanas, atormentadas, perdidas entre realidade e ilusão, palavras confusas, gestos aleatórios, impacientes, outros distantes como se ali não estivessem. Eu nunca tinha analisado assim, a loucura nunca me afetou como naquele momento, certamente porque eu sempre vi “o louco” das calçadas, das esquinas, nos CAPS da vida, das ruas, o andarilho, muitas vezes confundido com o sem teto, assim, eles eram distantes da minha realidade, nunca me enxerguei como um deles, nunca foi meu semelhante, vergonhoso admitir, mas, é típico de nós, não se perceber naquele que não nos representa. Dia após dia, nos julgamos melhores, superiores. Ainda que isso seja feito de forma não intencional, comigo, mortal que sou, não era diferente. Agora, sentada, ali, naquela sala, com um grupo social, seleto, com as quais eu costuma-
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Conto
va conviver diariamente, a insanidade me sacudiu, me atingiu como um raio, foi a primeira vez que a olhei de frente e percebi que ela estava ali, ao alcance de qualquer um, independentemente da raça, cor, credo, religião ou posição social. Um a um eles foram atendidos, por psicólogos, psiquiatras, terapeutas, uns saiam animados, outros sequer retornavam pela mesma porta. Assustei-me ao descobrir o porquê, ali também funcionava um hospital onde os casos mais graves careciam de internamento, lógico que a cada vez que a mocinha, que agora, não me parecia tão simpática chamava, meu coração aos pulos torcia para que a porta se abrisse de volta.
Passei pela minha consulta, recebi meu diagnóstico, ouvi os conselhos, peguei minhas receitas, me despedi do médico com um sorriso e atravessei a porta de volta com muito alívio, confesso. Lembro-me que na consulta o médico dissertou sobre a linha que separa o ser socialmente dito normal, daqueles considerados insanos, das dificuldades de perceber a doença, de buscar ajuda, encontrar apoio, da carência do atendimento público e do privilégio de quem podia ser atendido ali. Diferenciou para mim os casos de depressão, ansiedade, as síndromes, os transtornos e suas possíveis causas, herança genética, alterações bioquímicas na produção de neurotransmissores cerebrais, problemas hormonais, abuso de substâncias químicas, desajuste emocional influenciado pelo estilo de vida que podem desencadear na psicose que por tantos anos chamamos erroneamente de loucura. Eu? Do alto do meu egoísmo, comemorei minha volta pra casa, de ter, perto de tantos um diagnóstico tão brando comparado aos demais, possível de se ser tratado, de seguir uma vida naturalmente produtiva, mas, confesso que não é uma tarefa fácil, lutar todos os dias para não sucumbir e atravessar essa linha tão tênue.
Dias d'Ávila-BA IG @rute.roberta
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Um Leitor Sci-Fi
Somos apaixonados por ficção científica e gostamos de falar sobre ela de todas as formas possíveis. Com mais de 7 anos no ar no Instagram, e mais de 200 livros sobre o gênero lidos, estamos com a missão de propagar a ficção científica pelo planeta terra [e marte futuramente rs], além de fomentar a literatura da sci-fi nacional.
É um prazer ter você conosco nessa viagem espacial!
❝A ficção científica nunca foi sobre o futuro, e você agora está acompanhado para abraçar o presente.❞
www.umleitordescifi.com.br contato@umleitordescifi.com.br IG @umleitordescifi
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Imagens: Cosmos.os
Conto
CONFISSÕES
Por Otávio Segal de Araújo
Divino São Lourenço, 10 de junho de 1993 Ao Excelentíssimo Arquiteto do Mundo
Escrevo esta carta para você, Deus. O que espera de mim? O que eu fiz para merecer conviver entre pessoas tão medíocres? A vida se tornou superficial na medida em que compreendo seus mistérios. Sou um homem comum, funcionário público em Divino São Lourenço.
Meu pai me batizou com o nome de Alexandre Gabriel. Estava aí o meu propósito desde o nascimento, ser um representante do Senhor com a missão de defender a humanidade. Ao viver essa vida, entreguei-me às descobertas racionais e de fé, entreguei-me de braços abertos à grande missão de compreender sua presença em espírito, corpo e alma e de materializar seus impulsos e desejos. O mais estranho é que o Senhor se ausentou, mesmo diante de minha grande humanidade, apresentou-me pessoas medíocres e pequenas, que não sabem identificar os próprios pensamentos, não sabem compreender documentos, não se interessam pelo meu saber e não entendem uma palavra do que digo. É estranho... Pensar em viver essa vida sem cumprir minha missão. É enlouquecedor o tamanho do conhecimento que adquiri e por saber demais não consigo me dar bem com pessoas que sabem de menos. Encontro-me com Dona Maria duas vezes por semana. Sua ignorância é risível. Não entende uma palavra do que digo, não tem documentos validados, foi enganada em três casamentos e ainda sonha em resistir às hipocrisias e contradições da vida em sociedade. Explorada até a última gota de suor por seus patrões, mas os defende com unhas e dentes, jurando que eles geraram seus empregos e graças a eles continua sobrevivendo. Não entende um pingo de economia e política, mas vota naqueles que continuam a roubar-lhe os sorrisos e sua energia vital. E até tento lhe explicar: "sem organização e conhecimento, sem a fé e o desenvolvimento espiritual e social, não há sociedade que avance". Ela jura de pé junto que se o Dimas Olegário for eleito, ela consegue se aposentar. Ela ainda não sabe, mas vou negar sua aposentadoria. Como disse, as contradições da sociedade a tornaram tão miserável que ela não tem os documentos para provar sua aposentadoria. Outro exemplo é o Senhor Sodré. Sempre que uma bola cai em seu quintal ele fura e deixa a meninada da rua inconformada. Nesse infortúnio, a meninada sempre dá um jeito de chutar seu portão e jogar lixo em sua casa. Eu o atendi por 30 anos, e sempre lhe disse que não há nada de humano nessa relação dele com os mais jovens. Com o
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Conto
tempo percebi que ele é só mais um no fim da vida que precisará retornar para a terra, pois não conseguiu se desenvolver. Eu sempre lhe explico, que o desapego é mais importante que a lição de moral que ele quer dar para a criançada. O mais engraçado nessa relação é que o apego dele alimenta o meu, e eu o desprezo por isso. O desprezo por ser pequeno e mesquinho, assim como desprezo Dona Maria por ser enganada mais uma vez por Dimas. Eles ainda não sabem, mas sinto-me superior a todos. Sei que ensinaste-me a não julgar. Porém, ao olhar por cima de meus óculos, não sinto pena, nem piedade. Adoeci. Estou consciente que minha missão exige de mim simplicidade e amor, mas isso é demais para meu ego. Não consigo mais lidar comigo e com meus pensamentos. Meu ego matou meu espírito e, hoje, faço o trabalho com asco, desprezo e desgosto. Os mais necessitados são os que mais desprezo. Burros. Infantis. Não sabem política e economia. Cultuam um Deus que lhes rouba o dinheiro. Me surpreende que saibam o próprio nome, pois nem documentos eles têm. Indigentes. Tão certo quanto um mais um são dois, me afoguei nas certezas de que sou o único humano a vagar por essa terra. Todos estão animalizados demais tentando sobreviver ou golpear os inocentes com infinitos males. Não conseguem ver o salva-vidas. O último caso foi interessante. Dimas Olegário, o mais pequeno dentre os humanos, visitou-me em meu trabalho. Questionou-me uma série de coisas que fez-me enlouquecer de verdade. O mais pequeno diante do maior de todos. E mesmo assim, ele se achava superior a mim. Se Dimas Olegário dá-se o direito de se sentir superior a mim, de que adianta a superioridade que o Senhor me deu? Se o Senhor tudo sabe e tudo pode, como o Senhor deu o direito para que Dimas se sentisse maior do que eu? Sinto-me abandonado, largado, perdido entre pilhas de papel e pessoas ignorantes. Desprezo meu trabalho, desprezo meus clientes, desprezo essa cidade pequena em um estado pequeno. Desprezo o Senhor. Toda minha vida dediquei-me a espalhar seus conhecimentos e ajudar os mais necessitados. Esse desprezo é confortável. Dentro dele sinto-me em um trono de luz e grandeza. Sou o mais humano dentre os humanos, o único que parece compreender a grandeza da missão humana. Perco-me muitas vezes em mim, devaneios infindos perpassam pela imaginação do fim do mundo, do fim desses ignorantes, do fim da raça humana em todo seu trevoso esplendor. A maior contradição de todas me enlouqueceu... O grande jogo. Dona Maria, em nosso último encontro, me disse que iria dividir o pouco que tem com sua irmã viúva. Ela não pensa? Disse que a irmã perdeu o marido e que não tem mais ninguém. Mas será que ela não entende que o pouco que tem é nada? Como dividir o nada? Esse jogo é perverso. Deixar seres tão frágeis à luz de suas próprias escolhas. É claro que o sofrimento das duas vai aumentar. E o Senhor, olhando daí de cima, abandonou as duas e me abandonou. Ela ainda teve a audácia de falar: "Seu Alexandre, o senhor sabe muita coisa. Mas nunca aprendeu a gostar das pessoas". Não posso ajudá-las, elas não podem se ajudar e o Senhor nos abandonou.
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Conto
Sei disso desde cedo, mas me entregava à fé. Hoje percebo que o Senhor nunca me amou. Não há provas de que o senhor nos ame. Da mesma forma que não há documentos que provem que Dona Maria é Dona Maria e que ela precisa descansar do trabalho, não há provas de que o Senhor está aqui. Somente há provas do seu jogo perverso e um bolo que Dona Maria me deu, mesmo depois que eu neguei sua aposentadoria. É impossível compreendê-la... Não há nada de especial em ser o que sou, em saber o que sei, em viver o que vivi. Não há nada de especial. Apenas contradições e um ego que se alimenta do espírito. Enlouquecido por tudo que me demonstrou. A vida é um grande jogo. O Senhor? O mais cruel dos arquitetos. Desisto de minha missão. Vejo as estruturas de seu jogo... Fez-me ver as estruturas de minha própria loucura... Dona Maria não tinha os documentos para provar quem era. Eu tinha todos os documentos do mundo. E ainda assim não sei quem me tornei. Em minha loucura, vejo a razão. O desprezo denuncia, o asco demonstra. A minha razão impossibilitou-me de amar. Nunca vou compreender Dona Maria...
Apago, enfim, as luzes. O bolo permanece intocado.
Vitória-ES IG @otaviosegal
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Conto Por Andrezza Lobo
Confissões de uma jovem apaixonada e insegura desesperada Mentes Barulhentas
❝
Sem saber por onde começar, estou recomeçando outra vez. Talvez não tenha ideia de qual caminho isso vai seguir, mas estou seguindo o meu coração. Ok, ok, sabemos que ele não é o melhor conselheiro, mas quem melhor que um coração apaixonado para nos guiar? Provavelmente os caminhos façam curvas, a noite fique um pouco mais fria, a cor do céu mescle seus tons, mas um coração apaixonado sempre será um companheiro fiel em cada passo. Não sei para onde, mas agora estou indo, e espero que em alguma parte desse caminho eu encontre o meu destino. Com amor, Penny :)
Foi o bilhete que encontrei colado na porta da geladeira naquela tarde de 08 de fevereiro, quando voltava da feira. Penélope, ou Penny como era conhecida pelos amigos, é minha amiga de infância, e moramos juntas desde que começamos a faculdade aos 19 anos. Aquela semana parecia tudo normal. Era pré-retorno de férias e estávamos abastecendo a casa para o próximo mês, então fiquei encarregada de ir à feira na quarta-feira, pois todo adulto que se preze sabe a ordem certa da semana para se concluir um bom mercado. Parei cinco minutos após ler aquele bilhete, e torci para que fosse só mais uma das brincadeiras de mal gosto que Penélope costumava fazer, mesmo sentindo que não era. Peguei o telefone e liguei para Otávio, nosso melhor amigo.
— Neves, a Penny passou por aí hoje? — Era como eu o chamava, e tentei não parecer preocupada ao telefone.
— Oi Lú, passou não. Hoje não é dia de feira? — Sim, ele conhece nossa rotina.
— É sim, mas eu é quem fui ao centro, ela tinha umas coisas para terminar. — Ainda mantive a calma. — Já falou com a Lili? Talvez estejam juntas. Está tudo bem? — Ele percebeu, mas
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Conto
continuei tentando não demonstrar. — Está sim, só preciso organizar com ela umas coisas da casa, mas qualquer coisa te aviso quando ela chegar. Beijo Neves. — Desliguei antes que não conseguisse segurar mais. — Está sim, só preciso organizar com ela umas coisas da casa, mas qualquer coisa te aviso quando ela chegar. Beijo Neves. — Desliguei antes que não conseguisse segurar mais. Beleza, eram 16:48 quando cheguei e encontrei o bilhete de Penélope, não podia preocupar ninguém até a manhã do dia seguinte, ela podia estar brincando e aparecer para dormir, ainda tinha muito tempo até o final do dia. Organizei nossas compras depois de higienizar tudo, como sempre faço, e fui terminar o edital que precisava entregar na empresa até sexta, antes que o mala do meu chefe me cobrasse por estar fazendo um trabalho que deveria ser dele, mas a demanda sempre sobrava para mim. A vantagem do home office é não precisar olhar para a cara de gente entojada e filhinho de papai que se acha publicitário todo santo dia, e eu era capaz de brigar até com a minha mãe para não perder esse privilégio que a Hopes me oferecia. Nunca quis trabalhar em agências de grande nome porque sei perfeitamente as coisas sujas que acontecem lá dentro. Meu objetivo profissional sempre foi ser reconhecida pelo meu trabalho, num lugar onde eu ame fazer o que faço, porque o meu trabalho é o que de fato importa. Embora o meu chefe, o senhor Alberto Aguiar, seja um mala, na Hopes eu encontrei exatamente isso. Não tinha muito o que fazer até o dia seguinte para saber notícias reais sobre Penélope, então foquei em fazer as coisas que eu precisava entregar para não pensar demais sobre aquele bilhete, aquele maldito bilhete. Como pode alguém, numa tarde qualquer de quarta-feira, instaurar um caos na mente da pessoa que divide a casa e a vida com ela há tantos anos? Seja lá o que estivesse passando na cabeça daquela garota, eu juro que se for brincadeira, dessa vez não vai ficar assim. Já não me bastava tudo a fazer, ainda teria 24 horas preocupada com Penélope sem dividir esse tormento com mais ninguém. Pode até parecer loucura minha não ligar contando sobre o sumiço, se é que era um, mas eu sabia que se a notícia se alastrasse naquele momento, tudo ao meu redor se tornaria um caos, e não era a primeira vez que Penélope fazia algo do tipo. Eu precisava, mesmo surtando por dentro, esperar. Mergulhei naquele edital como se minha vida dependesse disso [e no fundo dependia], enquanto comia uma torta de frango e queijo brie, minha favorita da padaria da esquina, com uma coca zero bem gelada. As horas passaram que nem percebi, e só me dei conta quando o celular vibrou indicando uma mensagem, que rezei para ser Pe- nélope, mas infelizmente era só seu Alberto querendo saber do edital. “Estamos quase lá, ou precisa de um prazo, Luci? É só me avisar.” Odiava a forma como ele
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Conto
em direção aquele que um dia eu chamei de trabalho, e achei que seria o pontapé inicial para ser uma publicitária feliz, mas que só estava me fazendo entrar em completo estado de inércia, beirando um laudo que, com certeza a minha psicóloga estava pronta para me entregar, esquecendo quem de fato era dona da minha vida e da minha carreira. Ser publicitária era meu sonho, mas ser eu, sem amarras e alguém tentando me podar, é quem de fato eu era e saí de casa pronta para me resgatar.
Aquela manhã, ao receber o sol de Salvador na cara enquanto caminhava até o Campo da Pólvora, percebi algo esquecido há muito tempo: nenhum lugar no mundo é capaz de decidir o tamanho da minha competência por mim, porque no fim qualquer um pode assumir a minha função, mas ninguém é capaz de ser aquilo que eu sou, de ser de fato, Luciana Belloto.
Salvador-BA IG @_dezzahlobo
Produto Artesanal
Aquele presente especial & feito à mão. Consulte o
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Conto
Por Kelly Pinheiro
Hércules de Batom Vermelho
Cinco horas, o relógio toca justamente quando consigo dormir. Noite longa: a mente não conseguiu desligar; meus olhos ardem com as areias que Morfeu jogou, mas que não foram suficientes para que eu pudesse me entregar em seus braços e passear por mundos mágicos.
Levanto, bato água no rosto, tento alinhar os cabelos, desânimo: faço um rabo de cavalo, passo um batom, um rímel para disfarçar os olhos vermelhos, mas não consigo disfarçar o semblante cansado. Coloco uma roupa básica e saio para mais um dia de trabalho. No ônibus, as pessoas estão quietas hoje, graças a Deus! Penso nas atividades que preciso realizar sem vontade alguma de iniciá-las, mas, como preciso do vil metal, encho-me de coragem para encarar esse leão e aniquilá-lo: imagino-me como uma Hércules de saias e batom vermelho e sigo para minhas tarefas. Cheguei ao trabalho, dou uns tapas em mim mesma e sigo com o sorriso mais aberto possível, simpática, alegre e radiante. Não gosto de externar minha alma, pois ninguém está preparado para lidar com a alma alheia. O dia passa bem: realizo as tarefas necessárias, deixo outras para o dia seguinte, afinal, preciso de um motivo para voltar; almocei, conversei sobre futilidades da vida, me distraí e agora inicio o caminho de volta. As pessoas no ônibus estão tão exaustas quanto estavam pela manhã. Chego em casa e minha mente começa a devanear. Não posso reclamar da vida, mas às vezes a vida cansa. Eu não consigo enxergar o motivo para as coisas. Quando eu era mais jovem, esperava que as coisas fossem diferentes, mas o que eu fiz para as coisas chegarem a esse ponto? E que ponto é esse que tanto me incomoda? Não sei. Será a loucura tomando conta do meu ser? Esse medo do futuro, essa vontade de me amarrar ao presente, essa saudade do passado… São tantos tempos num mesmo instante e tantas sensações sem sentido. Corro para o banheiro: preciso vomitar.
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Conto
O aperto na garganta permanece. Já sei: vou limpar a casa, afinal, como mamãe dizia: a depressão não resiste a uma boa faxina. Lá vou eu com um balde, vassoura, rodo, panos e aqueles produtos que poderiam até me matar. Limpo, limpo, limpo. Lavo, lavo, lavo, e nada ajuda. Penso se pudesse dividir essa angústia com alguém, mas não há, nesse mundo, ninguém capaz de me ajudar. Encolho-me no canto da sala e choro. O soluço chega a ser audível aos transeuntes, mas quem se importa? Nem eu me importo. Decido tomar um banho. Fico sentada, sentindo apenas a água bater no corpo, o pensamento longe, sem pensar, apenas sentir. Relaxo, o choro acaba, o aperto na garganta parece mais suave, mas ainda está lá. Vou para a cama, o sono não vem. Ligo a televisão, coloco num documentário na esperança de adormecer. Cochilo, sono leve e curto e então, o relógio toca.
Cabreúva-SP IG @kcpinheiro17 Conheça também seu site www.kcpinheiro.com.br
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Conto
Por Nasser Dos Chembenes
Imagem: Cosmos.os
Revelação
Este conto é uma versão adaptada de um conto que integra o livro Poder Imortal a ser lançado em breve.
Revelo, com toda a sinceridade que ainda habita a alma, que não existem palavras capazes de abarcar o acontecimento que transformara a minha preciosa vida. A identidade que outrora me definira fora sepultada para sempre, e fui eu próprio quem aceitou esse destino. Quem conhece os mistérios do invisível sabe que um escolhido jamais foge ao caminho que lhe foi traçado. Sempre acreditei que os homens do Eterno carregam sobre os ombros as maiores provações. Se o sofrimento acompanha aqueles que O servem por que razão eu seguiria diferente
rumo? Nunca contemplei a Divindade com os meus olhos, contudo aprendi que o invisível também se manifesta a quem tem fé suficiente para o sentir. Foi essa certeza que sustentou a minha alma quando o médico ergueu lentamente o olhar, permitiu que o silêncio ocupasse o consultório e disse:
— Está doente. As análises eram irrepreensíveis. Os exames contradiziam tudo aquilo que o médico via diante si. Ainda assim, havia no seu olhar uma certeza inquietante, como se pressentisse uma realidade que a ciência era incapaz de alcançar.
— Doutor, como posso estar doente se os exames deram negativos?
Franziu a testa, retirou lentamente os óculos e deixou escapar um suspiro cansado.
— Não sei como explicar. Os seus exames não revelam qualquer anomalia, mas o seu estado preocupa-me. Vou receitar-lhe uma medicação. Não é o procedimento habitual, mas, neste momento, é tudo o que posso fazer.
Cresci a acreditar nas ervas medicinais ensinadas pelos meus ancestrais, homens que buscavam a cura na natureza e na sabedoria invisível. Nunca fui adepto de fármacos, mas o desespero possui uma eloquência que vence as mais antigas convicções. Era muito cedo para que principiasse a visão de um céu cinzento e o sol menos radiante. Ingeri a primeira dose sob o amparo da esperança.
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Conto
Mal contavam-se os segundos nos dedos, o mundo começou a girar. Girava sem cessar, como se tudo à minha volta tivesse perdido o equilíbrio. Sirva de testemunho que o meu corpo perdeu todas as forças, e apenas consegui deitar-me antes de mergulhar num sono profundo.
Quando despertei, compreendi que acordara para um sofrimento ainda maior. As dores espalhavam-se por todo o corpo. Vieram as náuseas. Veio o cansaço. Veio a insónia. Os dias sucediam-se sem o mais pequeno sinal de melhoria. Pelo contrário, cada amanhecer fazia-me sentir que a morte se aproximava mais um passo.
Enquanto padecia, fui constrangido a encarar uma verdade que durante anos sepultara nas regiões mais obscuras da consciência.
A doença não era a única autora do meu tormento.
Durante muito tempo, deixei-me dominar pelos vícios e pelas paixões mundanas. Recebera uma sólida educação espiritual e conhecia a fronteira que separa o bem do mal. Ainda assim por minha própria vontade, escolhi demasiadas vezes o caminho errado. Talvez estivesse apenas a colher aquilo que durante anos semeei.
A dor cresceu e tornou-se insuportável, obrigando-me a voltar aos corredores da medicina.
Depois de ouvir atentamente o relato
dos meus sintomas, o médico permaneceu em silêncio durante largos instantes. Quando, por fim, falou, a hesitação denunciava um homem cuja ciência acabara de encontrar um abismo.
— Sinceramente... nunca encontrei um caso como o seu. Pelos sintomas, tudo indica que está infectado com o vírus.
O pouco que ainda restava do meu mundo começou a ruir.
Aquele vírus não destruía apenas corpos; desfazia famílias, apagava futuros e deixava reduzida a esperança. Diziam que não havia cura.
De forma inesperada, o médico levantou-se em silêncio, preparou uma chávena de chá bem quente e pousou-a diante de mim. Segurei-a entre as mãos. Desde a infância encontrava conforto naquele aroma. Enquanto o vapor me aquecia o rosto, a cabeça tombava, pesada, e os meus olhos seguiam, quase hipnotizados, o movimento circular do líquido, lentamente agitado pela pequena colher.
No fundo escuro do chá, algo começou lentamente a ganhar forma.
Era uma mulher envolta em vestes negras. O capuz ocultava-lhe parte do rosto, deixando apenas entrever uma expressão impossível de decifrar.
Na testa distinguiam-se símbolos estranhos, gravados como se fizessem parte da própria pele.
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Ela abriu lentamente a boca.
Nenhum som foi pronunciado.
Ainda assim, um grito atravessou a minha mente, escapou-me antes que a chávena me abandonasse as mãos.
Instantes depois, ouviu-se o estrondo da porcelana a estilhaçar-se contra o chão.
— Socorro!
O médico ergueu-se em sobressalto, perguntando o que acontecera.
Respirei fundo. Não podia revelar-lhe a verdade. Se lhe falasse da mulher de preto, veria em mim um homem dominado pela loucura.
— Perdoe-me, não é nada não! E-e- eu tenho de ir..
Não podia revelar ao doutor sobre a mulher de preto, diria que estou louco e não falaria mais da minha infecção pelo vírus. Recusaria fazer a análise de sangue e atacaria o meu cérebro. Examiná-lo-ia e mandar-me-ia à psiquiatria. Logo, decidí omitir sobre a mulher enigmática.
Abandonei o consultório convencido de que a doença estava finalmente a destruir a minha mente.
As dores agravaram-se. Passei noites inteiras sem dormir. O mais leve ruído feria-me os sentidos; a luz, outrora sinal de vida, transformara- se numa agressão. O corpo consumia-se lentamente, enquanto a alma naufragava em desconhecidos oceanos.
Apesar de tudo, continuei a cumprir o
Conto
meu ofício. Convenci-me de que a rotina me ajudaria a esquecer o diagnóstico. Iludi-me. A fraqueza agravava-se de dia para dia. O sangue escorria-me pelo nariz. Os lábios inchavam. O cansaço transformava as tarefas mais simples num verdadeiro suplício.
Os colegas olhavam para mim com estranheza. Tinha a certeza de que todos percebiam a minha decadência.
Incapaz de suportar aquela pressão, entrei no gabinete do chefe e apresentei o pedido de demissão.
— Como assim? — perguntou ele, visivelmente surpreendido. — És um dos melhores técnicos desta casa. Se o problema for dinheiro, podemos negociar.
Ia responder quando o meu olhar se desviou.
Estava ali.
A mulher de preto permanecia imóvel, observando-me em absoluto silêncio.
— Ela... ela está aqui...
— Quem? — perguntou o chefe.
Sem conseguir controlar-me, recuei e arranquei-me da sala. Nem sequer voltei para buscar o carro. Corri pelas ruas como um homem perseguido pela própria morte. Quanto mais tentava escapar, mais sentia a sua presença. A dúvida aninhou-se em mim, lado a lado com a insanidade. Talvez a doença estivesse realmente a destruir o meu cérebro. Talvez tudo aquilo não passasse de uma alucina-
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Conto
ção. Sempre que reunia coragem para olhar para trás, ela permanecia onde sempre estivera. À mesma distância. Imóvel, de mãos dadas com o silêncio.
Caminhei durante horas. Pela primeira vez em muitos anos, os meus olhos pousaram sobre o mundo. Via crianças em jogos de sua idade, vendedores absorvidos pelo seu sustento, casais de mãos dadas. À minha volta, a vida florescia em cada rosto e em cada destino; a minha, porém, desfazia-se lentamente, como cinza levada pelo vento.
Por breves instantes, desejei voltar a ser apenas um homem comum. Encontrei duas crianças pelo caminho e ofereci-lhes rebuçados. Os seus sorrisos fizeram-me esquecer o sofrimento por um breve instante.
Quando voltei a erguer os olhos...
Ela.
Estava mais próxima.
As suas vestes negras ondulavam sem que houvesse vento. As unhas eram longas e escuras. Dos pés elevava-se uma névoa que a fazia flutuar acima da terra.
Olhou-me fixamente.
— Segue-me, mortal.
A voz não atravessou pelos meus ouvidos. Ressoou directamente dentro da minha mente.
Tentei resistir. Orei em todas as línguas, orações que o vento levou sem que alcansassem aos céus.
Sem vontade própria, os meus pés
começaram a segui-la.
— Hei! Para onde me levas?
Havia uma melancolia insondável no seu olhar. Lentamente, estendeu o braço e pousou sobre o meu rosto a mão escura.
O meu mundo enegreceu!
A cidade dissolveu-se como um sonho ao romper da manhã. As ruas deram lugar a uma mata densa mergulhada na escuridão. As árvores erguiam-se como catedrais, enquanto o vento vergava o capim alto e os rugidos distantes dos animais percorriam como um cântico antigo, criando tremor profundo no meu ser.
Após longa caminhada, detivemo- nos diante de uma velha casa de madeira, cuja existência parecia ter sido esquecida pelo próprio tempo. Das sombras, gatos selvagens observavam-me com olhos que cintilavam.
A mulher atravessou a porta sem sequer a tocar.
— Entra.
E obedeci.
O interior respirava um tempo que não pertencia aos homens. Peles de animais cobriam as paredes, objectos antigos repousavam as prateleiras e, ao centro da sala, uma grande esfera de cristal emitia um brilho estranho, como se aprisionasse um fragmento do próprio Universo.
Aproximei-me por instinto.
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— Não lhe toques — advertiu ela. — Nem todo o conhecimento está destinado aos homens.
Continuava suspensa no ar.
Durante longos instantes, limitou-se a contemplar-me.
Por fim, falou:
— Foste tu quem me chamou.
As palavras fizeram-me estremecer.
— O desespero abriu o caminho entre o teu mundo e o meu. Julgas que morres por causa de um vírus, mas ignoras a verdadeira natureza.
Continuou:
— Hoje conhecerás a verdade. Além da revelação, mereces uma morte mais digna!
Deslizou até mim, permanecendo suspensa a poucos centímetros do chão.
— Não temas. A morte nem sempre é o fim.
Introduziu lentamente a mão nas dobras da sua veste. Convenci-me de que dali surgiria a foice destinada a ceifar a minha vida. Fechei os olhos e pronunciei a oração mais sincera que alguma vez brotara da minha alma.
Quando os voltei a abrir, não havia qualquer foice.
Nas suas mãos repousava um pequeno saco de tecido.
Despejou o conteúdo num recipiente com água e empurrou-o para junto dos meus pés.
— Despe-te.
— Mas eu…
Conto
— Pshh! Como se atreve a retorquir? Não percebeu o que eu disse? Tire toda a roupa.
Vergonhosamente tirei.
— E a sua cueca?
Tirei-a num instante. Estava completamente nu, a pele sensível ao clima frio.
Com um simples gesto da mão, o recipiente deslizou até parar diante dos meus pés.
— Pegue-o. Banhe-se conforme as minhas instruções:
1.° Entorne duas vezes a água sobre a cabeça.
2.° Humedeça três vezes o ombro esquerdo e direito.
3.° Lave a sua genitália sem que os dedos toquem no ânus. Não acabe a água do recipiente.
4.° Depois da conclusão do banho, não seque o corpo, Deixa que a água repouse sobre a pele, para que o feitiço encontre caminho nos teus poros.
5.° E, por final, lave o seu rosto uma vez com a água de sobra.
Atenção: faça em frente ao espelho.
Assim procedi, depois do banho ritualístico, lavei o meu rosto em frente ao espelho.
Aquilo era impossível. Que sentimento mais aflitivo! O meu rosto não reflectia no espelho. Lágrimas escorreram-me, por mais salgadas que fossem não sentiria o sabor.
Aquele podia ser o banho da morte,
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Conto
Aquele podia ser o banho da morte, para que fosse ao mundo dos mortos sem dor alguma. A mulher disse-me que eu merecia uma morte mais digna. "Mas será que estou morto? Meu Deus, tateio-me, sinto-me vivo. Será que estou morto, será?"
O espelho, de tão embaçado, carecia de um pano sobre ele. Assim o fiz. Limpei-o, precisava de ter o meu reflexo de volta, um homem sem reflexo é um homem morto, despojado da própria alma.
No momento que olhava, soltei um grito pavoroso que emergiu do íntimo da minha essência, porque era ela que eu via no espelho no lugar do meu reflexo.
Olhou para mim com o seu olhar negro, tirou o capuz que encobertava o seu rosto e disse-me:
— Estás curado. Sim, você tinha o vírus mortal, mas era espiritual. Longa vida ao rei, conforme eu disse antes, além da Revelação, você merece uma morte mais digna. Agora, preste atenção, olhe bem na minha testa.
Fitava o espelho, onde o meu reflexo era ela, boquiaberto fiquei quando constatei que naquela região a pele se erguia como cicatrizes, como raízes abrindo caminho sob a terra, uma transmutação que formava uma frase misteriosa.
E disse-me:
— Lê e decifre.
Eu li decifrando:
“Nashtek aknator ukhula Sabeq.”
Maputo-Moçambique
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Conto
Por Allena Batista
Imagens: Cosmos.os; O Grito - Van Gogh ENTRE MAUS CHEIROS E ESTAÇÕES
No trem lotado, acabei de sentir dor na barriga, uma agulhada profunda e dramática. Na verdade, dor DE barriga. Sinto que qualquer mínimo movimento me entregaria ao julgamento dos outros, que nunca tiveram necessidades fisiológicas, nunca urinaram, nunca bocejaram, nunca nasceram, e nem tiveram dor de barriga. No tribunal do trem, eu era um refém. A moça sentada ao lado, de ar confuso, está me olhando com o canto dos olhos… Sou pálida como um palmito, e meus olhos começam a lacrimejar, lágrimas não-transparentes que denunciam o meu fingimento.
Deixo minha transparência ficar visível, sou uma farsa. Aquele momento vira uma eternidade fora do tempo, uma guerra de travesseiros onde não há vencedor. Me agarrei na sensação de efemeridade da situação. Uma hora a sensação passa — pensei. Com a urgência de ir ao banheiro, suo frio e tremo, ansiosa para descer na próxima estação. Até que chega o anúncio: por motivo de acidente com o trem anterior, ficaremos aguardando por mais alguns minutos. Sim, naquele lugar, entre estações. De pernas cruzadas, bem apertadas para passar a dor de barriga, mastigo um chiclete como distração, ouvindo a conversa de estranhos falando sobre o tempo e sobre tudo o que dói na alma.
As contradições que, pela sua simplicidade, revelam-se complexas, como quando sinto frio demais para usar vestido, mas ao mesmo tempo calor demais para usar casaco. A insatisfação com os políticos corruptos, quando nós mesmos fingimos não ver o troco a mais, nos escondendo por baixo da própria pele, o único escon-
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Conto
derijo possível, ou pelo menos, uma mentira sincera.
A saliva desce pesada pela garganta, me lembrando de que tenho um corpo, e que corpo sente. Me sentia pior. Ainda jovem, quantas dores de barriga em situações constrangedoras eu ainda teria? Tive vontade de morrer, ou simplesmente desaparecer. Sinto um cheiro de cocô: era eu! O cheiro se espalha por todos os vagões e eu não minto, pois até fingimentos sinceros tem limites. Assumo de peito aberto que o mau cheiro pertence a mim, morro, pelo tipo de vergonha que me torna ainda mais viva. Nada que nos torne mais humanos do que o mal estar de se assumir vergonhosamente culpada, com todas as contradições que isso carrega. Como quando fico doente e gosto, porque assim posso ser preguiçosa sem culpa.
Mal consigo me mover, nem sequer piscar. A dor de barriga passa. O cheiro vinha de um bebê que estava no vagão ao lado, perto de mim.
O trem é liberado, eu desço na próxima estação e chego em casa como uma anti heroína, assumindo meus defeitos e erros. E maus cheiros.
Campo Grande-MS
IG @@allenabatista allena.escritora@gmail.com Leia mais da autora clicando em www.recantodasletras.com.br
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Por Michael Douglas
Ar-pago
Os joelhos já cansados começavam a ranger enquanto Misael forçava mais o ritmo. Era hoje. Ele iria bater seu recorde pessoal. Dessa vez ele não iria ficar no quase. Sua mente lutava para manter a consciência, e suas coxas gritavam por pausa quando o relógio em seu pulso marcava 4,54 km percorridos, 26 minutos e 35 segundos de movimento.
Seus olhos, que estavam no marcador digital do relógio, foram atraídos por uma criança saindo de trás de uma lixeira de cimento, mas logo eles se arregalaram quando sentiu o pé vacilar em um desnível da calçada.
— Maldito prefeito. — Sussurrava em meio a respiração pesada.
Por muito tempo, Misael não conseguia correr 2 metros, quem dirá o tão sonhado 5 KM que estava almejando em menos de 25 minutos. Porém, com o advento da tecnologia, e o barateamento das invenções quando a China declarou Taiwan como seu polo industrial, fizeram com que o menino que respirava cansado, agora pudesse correr, nadar, e até se arriscar em esportes perigosos.
Mas hoje, a respiração estava pesada.
Pesada demais para o tempo de uso das bolsas de nanotecnologia infladas dentro da sua caixa torácica. — Eu paguei… não é possível... — Praguejou enquanto puxava o ar que
Conto
Imagem: Michael Douglas
teimava em entrar. AirBreath 26, esse era o modelo dos novos pulmões biomecânicos de Misael. A aquisição não foi cara, pode parcelar em 24x e pagar sem perceber, como prometera o vendedor do quiosque do shopping. Mas as letras miúdas, que obviamente Misael não leu, diziam algo que poderia frustrar qualquer comprador.
A partir das 12 horas de uso diárias, o portador daquela tecnologia deveria se manter em repouso, com os batimentos cardíacos no máximo em 70 BPM, ou, pagar uma assinatura em que permitiria o usuário ter uma vida ‘’normal’’, sem limites.
Misael tinha pago. Mas com o aumento da inflação, os créditos que ele depositou, mal deu para aquela corridinha de 30 minutos.
— 30 MINUTOS! Inferno. — Gritou Misael enquanto tentava puxar o ar pelo nariz, apoiando os membros superiores na coxa que pulsava em resposta a tanto esforço físico.
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Conto
— Será que eu nunca vou conseguir correr de maneira decente? Pulmões de merda. Chineses salafrários. Eu sabia que devia ter comprado os pulmões russos.
Quando olhou para o lado, percebeu que estava falando sozinho, e alto. E a mulher com o carrinho de bebê que até então estava andando lentamente, aumentando o ritmo do passo, denunciou isso.
Maneou a cabeça e ouviu algo se mexendo atrás dele.
Seus olhos foram novamente atraídos para aquela criança.
Seus pés estavam descalços, uma blusa gigante cobria seu torso, e ele lutava com uma calça de adulto, dobrada na canela e amarrada na cintura com um barbante.
— O piá? Qualé? Vai ficar me seguindo?
Misael questionou a criaturinha com olhos curiosos que o observava, enquanto sentava e fazia as técnicas respiratórias para baixar os batimentos cardíacos.
Com a popularização das melhorias biotecnológicas, a grande massa aprendeu a se virar com um corpo melhorado, sem a versão paga. Existiam até canais no TakeMovie [finado Youtube], ensinando a baixar os batimentos cardíacos em casa, lubrificar próteses ortopédicas, ou recarregar os ouvidos elétricos em um pote de arroz.
Quando o garoto abriu a boca, uma
espécie de fumaça alaranjada surgiu, tomando todo o espaço entre eles.
— Que merd… — Misael não conseguiu concluir a frase. Seus olhos reviraram, suas mãos apertaram os dedos de forma brutal, e ele viu sua mente ser levada a uma esquina, com uma casa de madeira, bem ao lado de uma mansão de alvenaria.
Era a esquina da casa dele. A de madeira.
— Vem Mi, a gente já está começando! — Gritou a menina de 9 anos, com o cabelo preso em um coque, e uma bola surrada debaixo do braço.
Misael piscou. Abriu os olhos de maneira bizarra tentando entender o que era aquilo que estava acontecendo. Foi quando percebeu seus finos joelhos, sua canela suja, seus pés minúsculos e uma respiração cansada.
— QUÊ? — Ele se olhava, rodando em torno do próprio eixo, tentando entender o que estava acontecendo.
— O que o quê, seu maluco? — A menina teimava em acelerá-lo para voltar a jogar a famosa pelada de rua.
— Júnia? — Os olhos de Misael embaçaram quando as lágrimas tomaram conta de seu globo ocular.
Era Júnia. Irmã mais nova. Que tinha desaparecido quando criança, e Misael nunca mais tinha visto.
‘’Que isso? Tô sonhando?’’ pensou agora com a respiração ainda mais cansada.
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— Hellow? — Júnia beliscou seu nariz.
Esse gesto inocente e infantil, despertou um ataque de riso em Misael, que prontamente abraçou o corpo magrelo da menina.
— Júnia, quanto tempo, onde você estava? Você está igualzinha. Você está igualzinha! — Repetiu a última frase com o semblante franzido.
— Sim cabeção, faz 20 minutos que você está aí, jogado no chão respirando. Ou pelo menos tentando — Respondeu a garota jogando a bola de lado, desistindo da brincadeira.
Misael olhou para o próprio reflexo no vidro do carro estacionado próximo a eles. Ele era uma criança. Ele tinha voltado no tempo?
— Júnia, eu estou sonhando? Eu... — Fechou a boca quando viu do outro lado da rua, um garoto magro, com um sorriso perspicaz no rosto.
— EI, GAROTO! QUE MERDA VOCÊ FEZ? — Gritou Misael com todas as forças que restaram em seus pequenos e frágeis, e até então, orgânicos pulmões.
O grito saiu fino, desengonçado, e isso causou uma espécie de engasgo que resultou em uma dose generosa de uma boa e dolorosa tosse.
Quando se recuperou, seus olhos procuram Júnia. Mas nada encontrou. Seu coração acelerou. Não, de novo não. Não...
— Sim! — O menino estava ao seu lado, a menos de 30 centímetros do
Conto
seu rosto, enquanto olhava com olhos fumegantes.
— Como… como você chegou aqui tão rápido, cadê a Júnia? Quem é você, caramba? — As forças de Misael se encerraram com as perguntas.
Viu seu leve crânio sendo tombado na grama seca que permeava o meio-fio. Precisava se acalmar. Era tudo um sonho. Tinha que ser.
— Não é um sonho! — A voz fina do garoto ressoou bem próximo dos ouvidos de Misael.
Mas foi em questão de segundos, que Misael agora com os olhos abertos, viu o garoto do outro lado da rua, com a mão na cintura, e uma pergunta nos lábios:
— Você quer achar sua irmã? Talvez você devesse procurar mais próximo de você. Não tão longe. Não tão perto, mas dentro de você. Aí — Batucou a própria cabeça — Na sua mente. O único lugar onde você poderá de fato encontrá-la.
O estranhamento e o torpor de Misael era tanto, que ele nem reparou que a voz soava como se estivesse ao lado dele, mesmo o garoto estando a 5 metros de distância, e falando sem gritar, quase como um sussurro.
— Claro que eu quero, seu maníaco, que é isso? Você me drogou?
Foi com o fechar dos lábios após o questionamento enraivecido, que Misael sentiu os joelhos queimando, a coxa agora adulta latejando, e a mente piscando.
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Conto
Os olhos estatelaram quando o marcador no relógio digital marcava 4.54km, 26 minutos e 36 segundos de movimento.
Toledo-PR
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Conto
Por Juliana Montanari
A BOLINHA AMARELA
Capítulo 2 do livro “As oito mulheres”
A luz da sala de internação é azul cintilante e tênue, deixando uma penumbra nas setes camas da ala feminina. Há mulheres de diferentes idades, algumas reclamam do lugar, outras gemem de dor. Apenas uma está em silêncio, observando as outras. Ela é a mais velha do local. Há 46 anos vive nesta clínica psiquiátrica do interior de São Paulo e já esteve internada mais de 20 vezes nesta mesma ala.
Um barulho de passos apressados surge no corredor e três enfermeiras entram com uma bacia de alumínio, quando Alice, a enfermeira mais experiente da clínica, aproxima-se da maca da mulher até então silenciosa.
— NÃO QUERO CHOQUE!
— Sara, já te expliquei que não temos choque aqui, é o aparelho de medir pressão. Você já conhece e sabe que não vai doer, fique tranquila.
Sara conhece cada mancha das paredes amareladas, sabe exatamente a quantidade de camas, as cores dos lençóis e dos uniformes e o nome de cada enfermeira, mas toda vez que vê um esfigmomanômetro perto de si, nada é mais racional, ela imediatamente se recorda de um trauma antigo que a persegue: os intermináveis e dolorosos choques em sua cabeça como punição às tentativas de fuga.
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Conto
— Sua pressão está alta! A senhora não aprende, Dona Sara? Tentou novamente pular o muro e para piorar, o mais alto!
— É só você me trazer um cigarro, que minha pressão logo volta ao normal, minha querida.
— Mas o cigarro não vai resolver esta sua bacia quebrada. Você não tem mais seus vinte e poucos anos!
— 68 anos e vivíssima neste inferno de lugar.
— Poxa, achei que você gostasse da minha companhia.
— Gosto de você, é a única que me conhece bem. De resto, só angústia.
— Eu volto mais tarde, tente descansar.
— Não esquece do meu cigarro. — disse Sara sorrindo com os dentes podres e amarelos.
Assim que as enfermeiras saíram, o falatório voltou com mais intensidade. Aninha a mais nova da ala, magra, com cabelos pretos de mechas loiras desbotadas e embaraçadas, estava pálida e sob abstinência, clama:
— Preciso de doce, estou com desejo de paçoca. Na verdade, seria ótimo um beijinho, um brigadeiro… Ah e aquela bala rosa…quero umas 50!
— A minha irmã vem me visitar amanhã e sempre traz doces, posso até te dar um, se você me dar sua blusa de frio da Minnie. — Disse Fepa, a japonesa da ala, conhecida por ser uma observadora e negociadora sagaz.
— Não vou dar minha blusa, tá vendo que tem meu nome escrito nela? — Alguém com algum cigarro? - resmungou Sara.
— A Sara Sapata resolveu falar! Estamos zeradas, baby. — respondeu Fepa.
Sara sente uma tristeza tão profunda que não teve forças para dizer mais nada. Este era o motivo de estar ali, aos 22 anos se apaixonou por Clara, era um namoro escondido que foi descoberto da forma mais aterrorizante por seu pai. Toda vez que a chamam de sapatão, ela volta para a recordação do último dia que viu sua amada, do choro desesperador da separação das duas e das chicotadas em suas costas que deixam marcas até hoje em seu corpo de apenas um metro e meio. Antônio, seu pai, não pensou duas vezes e para evitar qualquer tipo de boato, disse que a filha foi estudar no exterior e mandou-a para uma clínica psiquiátrica a mais de 600 km de distância da sua fazenda em Ribeirão Preto. Tudo foi realizado da forma mais rápida possível, impedindo qualquer tipo de movimento de Sara e para garantir o sucesso da sua decisão, pagou um dinheiro expressivo pelo silêncio de todos os envolvidos. 1979, este foi o ano que tudo mudou na vida de Sara. Nunca mais pode sentir o cheiro de terra molhada entrando pela janela do seu quarto, do cheiro de café fresco da Tia Zezé ou simplesmente a sensação
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Conto
Conto
do vento batendo nos seus cabelos ao cavalgar. Ao mesmo tempo que sente a nostalgia da sua vida de classe média alta, também sente raiva do castigo cruel aplicado pelo pai e da complacência da mãe, que até hoje não retribuiu com nenhum gesto de carinho. Sara não tem visitas. Suas duas irmãs mais novas são tolas e bobas o suficiente para acreditar na história inventada. Essa lembrança fez com que ela coçasse seus pulsos.
— Voltei, Sara.
— Alice, pode caprichar na dose para essa mulherada aqui hoje.
— Já já elas se aquietam. Olha o que eu trouxe para você.
— A bolinha amarela. Você lembrou.
— Há certas coisas que curam mais do que remédios. Durma bem, Sara.
Sara fica hipnotizada com a bolinha e imediatamente para de coçar os pulsos que já tinham marcas profundas de automutilação. Apertá-la a deixava mais relaxada, mas o que realmente a acalma é a cor amarela. Tudo que é amarelo a faz sorrir. Girassóis. Gelatina de abacaxi. Relógio de bananas do refeitório. Margarina do café da manhã. Amarelo era a cor do vestido que Clara usava quando se viram pela última vez.
Às dez horas da noite, as luzes se apagaram e os remédios começaram a fazer efeito, deixando a ala hospitalar em um silêncio antes inimaginado. Sonolenta, Sara fala em pensamento:
❝
Clara, minha lua amarela brilhante, tentei ir atrás de você, de novo.
E falhei, me perdoa. Preciso saber se você se tornou professora como tanto me dizia, se ainda anda com seu cavalo Anis e se toda vez que chove, ainda come bolinhos de chuva com canela. Clara, eu não tenho paz. Vejo pessoas e ouço vozes familiares julgando o nosso amor. O tempo todo. Por que é loucura te amar?
São José dos Campos-SP
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Entrevista entrelinhas
Amanda Mota Jornalista, escritora de Nas Trincheiras da Alegria
E aí, Amanda! Se apresente para os nossos leitores, tem muita gente de fora da Bahia lendo nossas páginas.
tão presente em nossa vida, eu mesma sempre amei quando chegava essa época e eu ia para o interior.
Sou jornalista, formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia e pós-graduada em Gestão Pública pela Educamais. Construí minha trajetória profissional ao longo de mais de 20 anos em importantes emissoras de televisão baianas, como a TV Educativa da Bahia e a TV Aratu/SBT. Além da atuação no jornalismo televisivo, também participei de projetos ligados à pesquisa. Fui uma das autoras do livro Tempos de Vargas: o Rádio e o Controle da Informação, obra desenvolvida a partir de um grupo interdisciplinar liderado pelo pesquisador Othon Jambeiro. Minha conexão com a cultura popular e, especialmente, com o forró, também atravessa minha produção audiovisual. Realizei videorreportagens sobre o universo forrozeiro e participei de gravações do podcast ForróCast, entrevistando artistas consagrados e mergulhando ainda mais no ritmo que traduz tão fortemente a identidade nordestina.
A ideia de escrever Nas Trincheiras da Alegria nasceu do desejo de eternizar essas memórias para as futuras gerações. Nasci em Salvador, mas minhas raízes vêm do interior da Bahia. Meus pais nasceram em Santa Teresinha, e foi nesse universo da roça, das tradições juninas e do forró que cresci afetivamente. Passei muitas festas de São João no interior: milho assado na fogueira, a vitrola tocando forró, os fogos iluminando a noite e toda a vizinhança reunida em torno da festa. Essas lembranças me atravessam de forma muito profunda. O livro surgiu justamente dessa vontade de compartilhar não apenas minhas memórias afetivas, mas também os testemunhos de quem vive intensamente o São João — tanto das pessoas que amam e celebram a festa quanto daquelas que trabalham para fazê-la acontecer. É uma forma de preservar a cultura nordestina, suas emoções, seus personagens e suas tradições.
E falando sobre costumes culturais, onde você cresceu os vizinhos espalhavam fogueiras?
Nos conte sobre o seu primeiro livro, de onde veio essa ideia de falar do São João? Ele é um período festivo
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Entrevista entrelinhas
Cresci em Salvador e guardo na memória as fogueiras que os vizinhos costumavam acender durante o período junino. Mesmo assim, a capital baiana ficava silenciosa e até um pouco triste nessa época do ano, principalmente para quem ama viver intensamente o clima do São João. Por isso, sempre que pude, preferi viajar com a família ou os amigos para o interior da Bahia, onde a festa ganha outro significado. É no interior que o São João pulsa de verdade: as ruas enfeitadas, o cheiro de milho e licor, o forró tocando até o amanhecer e aquele sentimento de aconchego que torna tudo ainda mais especial. Essas experiências ajudaram a fortalecer minha conexão afetiva com a cultura nordestina e também inspiraram muito do olhar que levo para os meus projetos e para a escrita.
O que mais te chama atenção nessa época do ano?
O que mais me encanta no período que antecede o São João é justamente a expectativa pela chegada da festa. Existe uma atmosfera diferente no ar: o comércio começa a se enfeitar, as cidades capricham na decoração, as bandeirolas tomam conta das ruas e tudo parece ganhar mais cor e alegria. É um tempo de preparação, de reencontros e de memória afetiva. Ao mesmo tempo em que a ansiedade para o São João chegar toma conta da gente, também surge aquela vontade de que o tempo passe mais devagar, para que possamos aproveitar cada
detalhe dessa celebração tão especial da cultura nordestina.
E as bandas, vejo que você posta vídeos falando sobre várias delas, qual foi a ideia em fazer esse quadro?
Decidi gravar vídeos sobre bandas que tocam o forró das antigas e compartilhar nas redes sociais como uma forma de celebrar e valorizar a nossa cultura nordestina. O forró sempre fez parte da minha história, das minhas memórias e da minha identidade afetiva. Ouvir essas músicas é como revisitar momentos especiais da vida. Existe uma nostalgia muito bonita nesse universo, algo que aquece o coração e nos conecta às nossas raízes, às festas de interior, à família e às tradições que atravessam gerações. Produzir esse conteúdo também é uma maneira de manter viva a essência do forró tradicional e mostrar a força cultural que esse ritmo representa para o Nordeste.
Agora falando do futuro, tem livro novo no forno?
Tem um novo livro no forno e já posso adiantar que ele será voltado para a garotada. Senti vontade de escrever uma obra infantil justamente para aproximar as crianças da nossa cultura nordestina desde cedo. Acredito que é muito importante preservar essas tradições e despertar nos pequenos o interesse pelas nossas raízes, pela música, pelas festas populares, pelos costumes e pelas histórias do Nordeste. É uma forma de manter viva essa heran-
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Entrevista entrelinhas
ça cultural de maneira leve, divertida e afetiva.
Como é a vida de autora independente? Quais as dores e os prazeres que chegam até você?
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A vida de autora independente pode ser bastante solitária. Além do processo de escrita, também precisamos divulgar o nosso trabalho, participar de feiras literárias e, muitas vezes, arcar com os próprios custos para conquistar visibilidade e alcançar novos leitores.
A vida de autora independente pode ser bastante solitária. Além do processo de escrita, também precisamos divulgar o nosso trabalho, participar de feiras literárias e, muitas vezes, arcar com os próprios custos para conquistar visibilidade e alcançar novos leitores.
Uma das formas de driblar esse desafio é justamente fortalecer alianças e participar de coletivos literários, ampliando as vozes e criando redes de apoio entre autores. Acredito muito na força do coletivo como caminho para dar mais espaço e atenção à literatura produzida de forma independente. Faço parte da AJEB — Associação de Jornalistas e Escritoras da Bahia — exatamente por acreditar na importância dessas conexões, das trocas e do fortalecimento mútuo entre mulheres que escrevem, comunicam e preservam a cultura através das palavras.
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Imagem: arquivo pessoal
A seguir, confira a sinopse do livro Nas Trincheiras da
Alegria, de Amanda Mota.
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A importância de Nas Trincheiras da Alegria
A obra gira em torno da preservação e valorização das festas juninas tomando como exemplo as comemorações em seis cidades baianas, explorando memórias pessoais e experiências que moldam essa rica tradição cultural. Editado pela Appris, a obra nos leva a uma jornada ao mundo das tradições juninas e memórias afetivas. O livro é um testemunho e
também um convite para vivenciar essa celebração de perto. O leitor quase dá para sentir o cheiro das delícias gastronômicas e ouvir o ritmo contagiante do forró. Na Bahia, os festejos se espalham pelo estado inteiro, com atrações em todos os 417 municípios, para exemplificar o movimento a autora percorreu os festejos em seis cidades baianas que fazem do Estado nordestino o destino certo para quem quer curtir o arraiá: Santo Antônio de Jesus, Amargosa, Cachoeira, Alagoinhas, Juazeiro e Senhor do Bonfim.
Para falar da festa no meio do ano, a autora mergulhou profundamente no universo das festividades juninas, ouvindo diversas vozes que ajudam a manter viva essa tradição. Em um esforço de pesquisa amplo e detalhado, foram realizadas entrevistas com gestores culturais, produtores de eventos, historiadores, pesquisadores e entusiastas dos festejos juninos. O objetivo foi compreender não apenas a riqueza cultural dessa celebração, mas também os desafios enfrentados para sua preservação e reinvenção ao longo dos anos.
Os gestores culturais ofereceram uma visão estratégica sobre a organização das festas, desde a captação de recursos até a curadoria artística. Produtores de eventos compartilharam os bastidores, revelando a importância da valorização dos artistas locais. Já os historiadores e pesquisadores trouxeram uma perspectiva sobre a evolução dos festejos, destacando influências, transformações e elementos característicos que fazem do São João uma manifestação única no Brasil. Por fim, os entusiastas e participantes relataram memórias afetivas, vivências e o impacto que essas festividades têm em suas vidas e comunidades.
Essa coletânea de vozes compõe um panorama rico e detalhado, permitindo ao leitor uma imersão nas tradições, emoções e desafios que permeiam o São João. Cada entrevista contribui para um olhar mais abrangente sobre essa celebração que, mais do que uma festa, é um patrimônio cultural vivo e dinâmico.
Um livro sobre São João é fundamental para a valorização da cultura nordestina, pois preserva e difunde as tradições dessa festa tão significativa.
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O São João não é apenas uma celebração religiosa em homenagem ao santo católico, mas também um momento de grande expressão cultural, com elementos como forró, comidas típicas e fogueiras.
A importância desse tipo de obra se dá em vários aspectos porque reforça o orgulho e o reconhecimento das raízes culturais da região com a valorização da identidade nordestina; ajuda novas gerações a compreenderem a riqueza da festa e sua importância histórica e social e permite que pessoas de outras regiões e quiçá de outros países conheçam melhor o São João, fomentando o turismo e o interesse pela cultura nordestina.
Compre agora clicando aqui ou na imagem. Siga Amanda no Instagram @amanditamota
Imagem: reprodução
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Entrevista entrelinhas
Daniel Cesart
Ilustrador e quadrinista baiano
Revista entrelinhas: Vamos lá, como a cultura de Salvador influencia suas obras?
Influencia 100%, tudo que faço tem como base minha vivência em Salvador e Bahia. Sempre coloco algo nos diálogos ou subtexto, que é de Salvador.
Inclusive eu te conheci na Bienal do Livro da Bahia em abril passado, você me orientou como encontrar Hugo Canuto, outro quadrinista baiano. As bienais já são um território conhecido ou você ainda se surpreende com a exposição e contato com tantos leitores e potenciais futuros leitores que te encontram? Conte aí o que você acha disso tudo.
Bienais e feiras, já são um lugar conhecido, mas ainda me surpreendo quando vejo tantos leitores interessados em quadrinhos e literatura. E, ainda rola um susto positivo quando alguém me reconhece ou pede autógrafo.
Durante a premiação do troféu HQMIX de 2025, você mencionou que aquela noite foi um momento de “diversidade, ocupação e resistência”. Poderia detalhar o que esse reconhecimento representa para a cena de quadrinhos baiana e para você como artista?
A maioria das premiações de
Imagem: arquivo pessoal
quadrinhos, ainda são do Sul e Sudeste, e boa parte dessas premiações vão para pessoas dessas duas regiões. O HQmix se tornou uma premiação diversa, celebrando quadrinhos de todos os lugares e descentralizando, isso para a cena baiana é muito importante porque podemos sonhar e ocupar espaços que até então não nos eram cedidos.
E de onde veio essa vontade de contar histórias abordando o dia a dia do soteropolitano, é possível ouvir falar do 2 de Julho, do famoso cravinho, por exemplo, sem esquecer o “palavriado” que você mantém nas falas. O texto também costuma ser seu?
Gosto de falar da cultura daqui de Salvador, sou bairrista, rs. Em Depois da Última, Paralelos e nas tiras do Cuscuz Surpresa trago minhas vivências e essência, principalmente daqui do bairro da Liberdade. Já existem muitas histórias sobre muitas outras coisas, mas poucas sobre a vida soteropolitana, é isso que gosto de trazer em minhas hqs.
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Entrevista entrelinhas
As tiras do Cuscuz Surpresa são escritas por mim e por Helô, escrevemos juntos, já Depois da Última e Paralelos, é 100% meu.
Como funciona para você a escolha da técnica para um determinado trabalho em quadrinho, por exemplo, li o primeiro episódio de Paralelos, o “Movimento”, como foi a escolha neste caso?
Cada obra tem identidade própria, quando estou escrevendo e começando a esboçar, vou pensando o que fica melhor para aquele trabalho. O traço de paralelos é totalmente diferente do traço de A Última Revolta Malê, tudo vai de acordo com a temática, com o que vai ser passado.
Também vi que você está dando aulas de quadrinhos na Biblioteca Central, além de lá, existe outra forma de ser seu aluno?
Esse é meu primeiro curso com uma extensão maior, são 6 aulas, cada uma aborda uma etapa do processo de produção de uma história em quadrinhos. Está sendo muito reconfortante dar essas aulas. Espero ter mais turmas e também levar esse curso para outras cidades.
No caso, para quem for de Salvador, é
só mandar mensagem para Fundação Pedro Calmon, dizendo que tem interesse no curso e perguntando se vão ter outras turmas, eles topando, eu já estou pronto.
Bom, e para 2026, ainda devemos esperar mais trabalhos seus?
Acabei de lançar A Última Revolta Malê, mas um trabalho em parceria com Anderson Shon. Esse ano vai ser de trabalhar a divulgação dessa hq, mas talvez venham mais dois projetos até o final do ano.
Gostou? Você pode acompanhar o trabalho e adquirir as obras de Daniel Cesart através do IG @danielcesart Saiba mais clicando aqui.
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Ensaio
Ensaio
PENSAMENTO INDEPENDENTE
Depois as loucas somos nós? Por Lu Vieira, Timbaúba-PE Professora, mediadora de leitura e escritora neidevieirasilva@hotmail.com
Existe uma história de luta e dor que precisa ser compartilhada quando falamos sobre o dia 18 de maio, data que marca o Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Mais do que uma efeméride, este dia simboliza a resistência de quem acredita em um mundo sem manicômios, onde o cuidado em saúde mental aconteça com dignidade, escuta, respeito e liberdade. É sobre essa história que queremos refletir.
Em 2026, celebramos os 25 anos da Lei da Reforma Psiquiátrica [Lei nº 10.216/2001], uma conquista histórica que enfrentou o modelo manicomial e reafirmou a importância do cuidado humanizado em saúde mental. No entanto, é fundamental lembrar que, durante muitos anos, os manicômios também funcionaram como instrumentos de controle social sobre os corpos femininos.
Prontuários de mulheres internadas no Hospital Nacional de Alienados e no Sanatório Pinel revelam diagnósticos sustentados por comportamentos considerados inadequados aos padrões patriarcais da época. Mulheres foram confinadas por serem independentes, por amarem quem suas famílias não
aceitavam, por desobedecerem, por expressarem seus desejos, por serem criativas, por falarem sobre seus sentimentos e saberes ou, simplesmente, por não se enquadrarem no modelo de feminilidade imposto pelos opressores patriarcais.
❞ ❝
Quantas mulheres foram chamadas de loucas apenas por recusarem o silêncio?
A violência manicomial dialoga profundamente com as estruturas do poder patriarcal. Compreender esses mecanismos é também produzir resistência. A perseguição sofrida por Nise da Silveira talvez tenha ido além das divergências políticas. Em um ambiente hostil às ideias produzidas por mulheres, ela revolucionou o tratamento psiquiátrico ao defender práticas mais humanizadas, incorporando a psicologia junguiana e valorizando a expressão do inconsciente por meio da arte e da criatividade.
Sua luta pela transformação da saúde mental foi, também, uma luta pela liberdade.
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Ensaio
❝
Lutar contra os manicômios é lutar contra todas as formas de aprisionamento dos corpos e das subjetividades femininas. É defender o direito de existir, sentir, criar e falar sem que a diferença seja transformada em doença. Porque, no fim das contas, quando uma sociedade insiste em silenciar mulheres que desafiam normas e poderes estabelecidos, a pergunta permanece: quem são, de fato, as loucas?
❞
"É necessário se espantar, se indignar e se contagiar, só assim é possível mudar a realidade" Nise da Silveira
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ANCESTRAIS DANÇANDO: BAILANDO COM VÔ VICÊNCIO
Por Douglas Sacramento, Salvador-BA Professor, pesquisador e crítico literário douglas.ariston.18@gmail.com
I
Tudo começou no mestrado. Na época, eu pesquisava Toni Morrison e Conceição Evaristo. No primeiro capítulo, tentava analisar, por meio dos romances Amada (Companhia das Letras, 2007) e Becos da Memória (Pallas, 2017), a relação entre morte e ancestralidade nas duas escritoras. Como explicar, em Amada, por exemplo, a aparição da personagem no início do romance de forma fantasmática e, posteriormente, sua materialização como uma jovem com comportamento de bebê? Algo ali fugia à minha compreensão. Eu sabia que a resposta estava nos conhecimentos sobre ancestralidade compartilhados e transmitidos pelas religiões de matrizes africanas.
Nesse período, meu ex-namorado, hoje meu irmão de santo, era filho de uma casa localizada na região do Engenho Velho de Brotas. Pedi um jogo, pois achava que a resposta estava no Candomblé e também porque sentia que algo estranho estava acontecendo – talvez por estar abordando um tema tão complexo, imaginava que aquilo pudesse afetar minha vida. Cheguei ao terreiro por demandas acadêmicas e acabei virando filho da casa. Com base nos ensinamentos de minha mãe de
santo – Mãe Vanilda De Xangô, mais conhecida como Mãe Obá – aprendi a construir a resposta para a pergunta que martelava no mestrado e ampliá-la no doutorado. Portanto, não existe pesquisa sobre Candomblé sem um Douglas Sacramento fora do terreiro. Foi lá que aprendi e entendi que morte não é o fim, que existe uma relação concomitante e de trocas entre este plano e o outro, e que o Orixá é vivo em minha vida. Tudo isso transpassa minha escrita, pois a morte é um tema que me acompanha desde o nascimento – aconselho a leitura do início da minha tese.
Assim, o trabalho final de doutoramento teve como tema a figura do ancestral – no Candomblé de Nação Ketu, chamado Egungun. Um diálogo muito forte com a morte, pois o ancestral é aquele que fez a passagem, mas continua sendo cultuado pelas comunidades-terreiro. Num segmento do Candomblé de Nação Iorubá, o Lésè Égùn, esse ancestral retorna à sua comunidade, ao barracão, dançando e se comunicando em dias festivos. Para além desse ramo, nos Candomblés de Lésè Òrìsà existe uma parte do terreiro reservada aos ancestrais da casa. Ou seja, o ancestral é uma constante e tem presença ativa dentro da comunidade.
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Percebendo que esse era meu ponto de partida, comecei a ler e procurar livros escritos por autores e autoras negros e negras no Brasil. Eu ainda estava no mestrado – já na reta final – quando elaborei o projeto de tese que submeti a alguns processos seletivos. Ao longo dos quatro anos seguintes, ocorreram inúmeras mudanças na quantidade de romances e autores que eu queria trabalhar. Afinal, as orientações também servem para ampliar as dúvidas do pesquisador e organizar a bagunça mental que envolve a escrita de um texto longo e o desenvolvimento de uma pesquisa de fôlego. Ao final, defini o corpus com cinco romances: Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo; Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves; Bará, de Miriam Alves; Torto Arado, de Itamar Vieira Junior; e Um corpo à deriva: dança, de Edimilson de Almeida Pereira.
II
Um dos romances que analisei foi Ponciá Vicêncio (Pallas, 2017), da escritora mineira Conceição Evaristo. Autora e pesquisadora da área de literatura, Doutora em Literatura Comparada pela UFF, Conceição Evaristo cunhou o conceito de escrevivência, que consiste nesse alinhavado entre memórias individuais e coletivas presentes nas obras de mulheres negras. Para conceituá-lo, a autora escreve o ensaio “Da grafia- desenho de minha mãe, um dos lugares de nascimento de minha escrita”, no qual explana sua relação com a escrita e a leitura, tendo como ponto de partida
Ensaio
as mulheres que estavam ao seu redor: sua mãe, suas tias, o diário, a lista de roupas das mulheres que lavavam roupa de ganho e os desenhos no barro – brincadeira feita por sua mãe para entreter os filhos. Ao final do ensaio, a autora explana: “A nossa escrevivência não pode ser lida como história de ‘ninar os da casa-grande’, e sim para incomodá-los em seus sonos injustos” (2007, p. 21).
Portanto, um romance escrevivente, ao retratar uma personagem, não deixa de lado suas memórias individuais, mas as articula com vivências de outras mulheres negras que passam ou passaram pelo mesmo. A escrevivência mescla escrita e vivência do povo negro, constituindo o modus operandi de uma literatura negro-brasileira.
Ponciá Vicêncio tem como foco a personagem que dá nome ao romance. Acompanhamos sua trajetória da infância à fase adulta, mas algo sempre acontece nas entrelinhas. Desde a infância, Ponciá mantém uma relação muito estreita com seu avô, Vô Vicêncio, a ponto de imitá-lo e, por meio do barro, fazer um boneco desse homem que sequer conheceu, sabendo dele apenas por histórias contadas pela sua família.
Há uma herança a ser cumprida e concretizada, presente na relação entre Ponciá e seu avô. Mas aqui, neste ensaio, vou focar em outra dimensão desse vínculo. Ao sair do campo, da fazenda que ainda mantinha sua família submetida a um regime violento e sem direito à terra, a protagonista decide ir para a cidade. No início do romance, cu-
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Ensaio
jo passado é apresentado ao leitor por meio de flashback, encontramos uma personagem marcada pelo sabotamento mental[1]. Existem apagões que a fazem mergulhar no passado, situação agravada pelas violências sofridas nas mãos do marido.
Nos dias em que ficou no povoado, à espera do trem, por várias vezes sentiu o vazio, a ausência de si própria. Caía meio morta, desfalecida, vivendo, porém, o mundo ao redor, mas não se situando, não se sentindo. As pessoas não se assustavam com o desfalecimento de Ponciá. Ela ia e vinha de suas ausências, nenhum pavor, nenhuma estranheza dos outros ela percebia (Evaristo, 2017, p. 55).
Existem muitas leituras possíveis para esse adoecimento psicológico vivido pela protagonista: o afastamento da família após a saída do campo para a cidade, as violências sofridas e as mortes simbólicas que ocorrem em sua trajetória – afinal, Ponciá é uma personagem que sofreu sucessivos abortos; nenhum filho vingou. Mas, esses sintomas também estão relacionados ao cumprimento da herança. Algo que que está além da medicina, pois a questão é ancestral. Borrando as fronteiras entre o empírico e o sensível, a ancestralidade é apresentada como uma constante. Quando se aproxima a necessidade de resolução, surge um chamado que afeta o corpo e a mente.
[...] O que fazer agora? Perdera o elo com os vivos e com os mortos seus. O que valia agora o barraco? Quem ela levaria
ali para dentro? Que pessoas vivas ou mortas? Correu lá no fundo da casa, no seu quarto de empregada, e tirou o homem-barro de dentro da trouxa. [...] Ouviu murmúrios, lamentos e risos... Era Vô Vicêncio. Apurou os ouvidos e respirou fundo. Não, ela não tinha perdido o contato com os mortos. E era sinal de que encontraria a mãe dos irmãos vivos (Evaristo, 2017, p. 64-65).
O que poderia ser classificado como loucura ganha aqui outros traços. A humanização proporcionada por Conceição Evaristo à sua personagem – mulher negra e periférica – perpassa também a relação com o ancestral, o culto aos familiares que já não estão neste plano e o retorno ao campo para que aquilo que precisa ser resolvido finalmente aconteça. Esses caminhos, que não seguem uma pragmática moderna e cartesiana, são invocados quando pensamos a estreita relação entre vivos e mortos nas comunidades negras e de terreiro, temática que também aparece em outros romances analisados em minha tese de doutorado.
❝
A morte não é fim. O ancestral é vivo, cultuado e ativo em sua comunidade.
❞
[1] A pesquisadora Roberta de Araújo Lantyer Duarte (2019), em sua dissertação de mestrado sobre a referida obra, denomina esses momentos
de apagão do presente vivenciados pela
protagonista como “vazio”, oriundo do
sofrimento psíquico de Ponciá.
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Ensaio
Entre fachadas e ausências
Por Henrique Brito, Salvador-BA Professor, designer editorial e escritor chmbrito@gmail.com
Sempre admirei a cidade em que vivo há mais de cinquenta anos. Não é uma admiração genérica: é pelas ruas, pelas fachadas antigas, pelo movimento irregular do centro histórico e, sobretudo, pelas figuras que deram corpo e voz a Salvador.
Ainda hoje, volto ao centro pelo menos uma vez por semana. Caminho pela Carlos Gomes, atravesso a Avenida Sete, sigo até o Pelourinho. Paro para tomar um cravinho, licor artesanal feito à base de cachaça, cravo-da-índia, mel e limão, e retorno para casa com a sensação de ter me alimentado, não de comida, mas de memória.
Foi ali que vivi boa parte da minha juventude. Estudei no Instituto de Música da Universidade Católica do Salvador (IMUCSal), um prédio antigo, imponente. Dentro dele, havia um salão nobre com piano de cauda, acessado por uma escada de madeira com degraus forrados com tapete vermelho, um auditório em dois pavimentos e, no andar superior, um órgão que, quando tocado, se espalhava pela rua, como se a cidade inteira pudesse ouvi-lo. Nos fundos, o pavilhão Ney Braga, com salas de aula; no pátio, um portão que dava acesso à rua do Sodré, uma rua estreita e longa que, até certo ponto, nos levava à liberdade. Nos intervalos e ao fim das aulas era ali que o dia realmente
começava. Os bares funcionavam como extensão das salas de aula: cerveja gelada, conversa alta, risos fáceis. O ponto mais frequente era o Bar Dois de Fevereiro, nome dado pelo dono em homenagem a Iemanjá e à data do seu aniversário. Antônio era uma figura forte, sempre disponível para todos; soube, anos mais tarde, que foi preso, por ter cometido um crime, vindo a falecer em pouco tempo.
❝
Ao lado do Instituto, o bar de Constantino oferecia outra experiência, mais silenciosa, quase doméstica. Um casal de idosos conduzia o espaço com a calma de quem recebe visitas em casa. Ali, não éramos clientes; éramos quase parte da mobília afetiva daquele lugar.
❞
Aquela rua guarda mais do que movimento: guarda camadas de tempo. Nela está a casa onde viveu o pai de Castro Alves e onde o poeta faleceu, mais tarde transformada no Colégio Ipiranga, ponto de passagem de jovens em busca de futuro. Na parte baixa, da rua, o Museu de Arte Sacra, instalado num antigo convento, com peças dos séculos XVI ao XIX. Mas o que mais me interessava não era o que a rua foi cialmente; era o que ela fazia com a
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Ensaio
gente. Eu caminhava sem pressa por aquele centro sempre em ebulição. Na Praça da Piedade, o espaço nunca era neutro: havia vozes, disputas, encontros. Ali, os Poetas na Praça recitavam versos de Castro Alves, Gregório de Matos e tantos outros. Não era apenas literatura; era ocupação, presença, a cidade dizendo que ainda estava viva.
Recentemente, em uma dessas caminhadas, parei em frente ao antigo prédio do Instituto e não o reconheci. Janelas tapadas com tijolos, fachada descaracterizada. No térreo, duas lojas: uma de acessórios de decoração, outra de capas de celular. O som do órgão deu lugar ao toque de notificação.
É fácil falar em preservação quando se pensa apenas em prédios e fachadas. Mas isso é pouco. Uma cidade não se sustenta só de pedra e cal. O que precisa ser preservado é o modo como ela nos atravessa, como molda nossos hábitos, nossas lembranças, nossa forma de estar no mundo.
A cidade também se revela nos personagens que habitam suas ruas. A Mulher de Roxo, figura misteriosa, vestia-se com um hábito que mais lembrava o de uma freira e permanecia todos os dias em frente à loja Sloper e às Duas Américas, na Rua Chile. Floripes circulava pela Carlos Gomes, onde passava rebolando e cantando, vestido com roupas coloridas e extravagantes, até morrer assassinado de forma brutal, desfilando sua identidade sem pedir licença. Na Praça da Piedade, o mágico Mister Christoff, com seu fraque gasto e cartola de papel-celofane, transformava
truques simples em pequenos instantes de encanto. E, no semáforo da Carlos Gomes com a Rua do Cabeça, o guarda de trânsito Pelé convertia o gesto técnico em performance. Eram eles que davam rosto à cidade.
Porque uma cidade começa a desaparecer muito antes de suas paredes caírem. Ela se perde quando deixa de ser vivida e, principalmente, quando deixa de ser lembrada.
O IMUCSal tem suas origens em 1897, quando ainda se chamava Conservatório de Música da Bahia e funcionava como anexo da Escola de Belas Artes. Em 1917, passou a se chamar Instituto de Música da Bahia e, mais tarde, sob a articulação de Maria Dulce Calmon de Bittencourt Pinto de Almeida, foi incorporado à Universidade Católica, em 1969. Instalado na Carlos Gomes, o IMUCSal tornou-se, ao longo do tempo, referência no ensino e na resistência da música clássica e popular no centro da cidade.
Ali também funcionaram cursos de Educação Artística, com habilitação em Desenho, Artes Plásticas, Teatro e Musicoterapia. O abandono pela UCSal e a deterioração do prédio expõem o pouco valor que instituições e poder público atribuem ao patrimônio urbano.
Esse descaso contrasta com outras experiências. A antiga Casa de Orações dos Jesuítas, também na Rua Carlos Gomes, foi restaurada e hoje abriga o Centro Cultural da Caixa Econômica Federal. Outro exemplo é o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB), instalado na Rua das Vas-
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souras, que se tornou um dos principais espaços culturais da cidade após a recuperação do edifício.
Também foi anunciado que a mesma instituição ocupará o antigo Liceu de Artes e Ofícios da Bahia, o Palacete Saldanha, no Pelourinho, transformando-o na nova unidade da Caixa Cultural Salvador.
Mas, enquanto alguns edifícios são recuperados, outros desaparecem. O casarão do século XIX, que abrigou o antigo Clube Cruz Vermelha, fundado em 1884, onde aconteceram os primeiros bailes de carnaval de Salvador e hoje sedia a Fundação João Fernandes da Cunha, será demolido para a construção da Estação Campo Grande do metrô. Com ele, não se perde apenas um espaço físico, mas um acervo, uma história, uma presença.
Recentemente, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) autorizou o aterramento técnico dos restos arqueológicos do antigo Teatro São João, considerado o primeiro teatro da cidade. Os vestígios, encontrados durante as obras de requalificação da Praça Castro Alves, em frente ao Palácio dos Esportes, revelaram partes da fachada e das escadarias do edifício, construído em 1812.
A medida permite que a estrutura, soterrada após um incêndio em 1923, seja preservada e incorporada ao projeto urbano. Resta saber se preservar, nesse caso, não é apenas uma forma mais discreta de esconder.
Quando um prédio histórico cai, não é só
Ensaio
parede que vai ao chão.
❝
Ocupar a cidade também é preservar sua memória. Quando nos omitimos, ela deixa de ser vivida e passa a ser apenas cenário.
❞
A Mulher de Roxo, Salvador-BA; fonte:
METRO 1
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Ensaio
Sobre a Loucura
Por Sarah Carvalho Brandão, Belém-PA Livreira, escritora, bacharel em Direito sarahbrandaokjm@gmail.com
É domingo à noite e o sentimento generalizado das pessoas entre 20 e 30 anos é o desânimo. Nas redes sociais, viralizam vídeos e posts de pessoas se sentindo extremamente melancólicas e ansiosas quando o fim de semana está acabando, o período “livre” está se esgotando, logo vai chegar de novo a segunda-feira. Eles atribuem essa dor ao fato de a rotina de uma semana sem feriados ser extenuante: veja bem, estamos no capitalismo tardio, então a maioria das pessoas trabalha longas horas, em ambientes hostis, só tem um dia de folga e são constantemente cobrados por metas, por resultados. E nunca houve tantas pessoas com adoecimento mental: no Brasil, só em 2025, mais de 500.000 pessoas [segundo noticiado pelo G1] foram afastadas do trabalho por problemas de saúde mental.
Uma coisa que, até algumas décadas atrás, era considerada rara, e objeto de desconfiança, se tornou extremamente comum: o uso de remédios controlados, consultas frequentes em psiquiatria, diagnósticos de transtornos sérios como bipolaridade e esquizofrenia. Em um grupo de amigos ou colegas de trabalho, o incomum é encontrar quem NÃO esteja usando alguma droga prescrita, como antidepressivos e estabilizadores de humor, fora o uso velado de drogas
para aumentar a produtividade e a performance, como o excesso de cafeína, anabolizantes, estimulantes e outras substâncias, legais ou não. O ponto a chegar aqui é: essas pessoas não são consideradas loucas. A loucura, pelo olhar da sociedade, não está dentro das pessoas economicamente ativas, que consomem e frequentam eventos sociais, não importa quão mentalmente adoecidas ou dependentes de químicas elas sejam. A loucura mora em outro lugar.
Então, quem é o louco?
A loucura, na história ocidental, foi retratada sob um ponto de vista religioso: a pessoa que tinha comportamentos, falas ou sintomas atípicos só poderia estar possuída por algum demônio. O indivíduo, cuja organização psíquica [ou que possuía deformidades físicas] era diferente, não encontraria uma utilidade em um mundo onde todos tinham seus papéis sociais muito bem descritos: os homens se tornariam trabalhadores [se não fossem nobres, herdeiros] e provedores do lar, e as mulheres seriam obrigatoriamente esposas e mães. Quem não tivesse condições de exercer esses papéis, independente de ter realmente alguma doença ou não, era o louco, a louca. Nesse tipo de caso, a pessoa poderia ser isolada da sociedade,
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presa, ou em casos mais extremos, acusada de bruxaria e condenada a uma pena de morte.
Mas alguns podem dizer que o cenário medieval é muito extremo, que a medicina e a psiquiatria avançaram. Mas olhemos para o histórico dos hospitais psiquiátricos, os ditos “manicômios”. Já na idade moderna, como documentado pelos relatos de Freud e Jung, no início da psicanálise haviam espaços, instituições, onde os loucos eram internados, por sintomas como ataques de pânico, melancolia, fala desorganizada, obsessões, vícios. E eram tratados com técnicas que hoje são eticamente questionáveis, a maioria sem fazer o paciente melhorar.
Nesse cenário, apesar de todas as críticas cabíveis e necessárias à psicanálise, os seus criadores fizeram algo inédito: sentaram e passaram a ouvir o que aquele, ou aquela, louco[a] tinha a dizer, por mais confuso e demorado que fosse, no início. Quando Freud começou a aplicar a técnica da Associação Livre, ele percebeu que a maioria das mulheres que eram internadas em manicômios por “histeria”, tinham falas e relatos que levavam a experiências traumáticas, especialmente no campo da sexualidade. Pela primeira vez, a medicina começou a pensar que a loucura, ou os sintomas de adoecimento mental não eram uma condição intrínseca de um ser humano “quebrado”, mas poderia ser uma consequência de fatos da vida, então o louco poderia tornar-se são, e o são
Ensaio
poderia tornar-se louco, dependendo das condições a que fosse submetido.
No entanto, mesmo assim, uma grande quantidade de pacientes submetidos à psicoterapia ou à psicanálise não melhoraram, não eram considerados “curados”. Os que eram considerados curados eram aqueles que conseguiam se reinserir na sociedade, que conseguiam ter uma profissão, que conseguiam conviver em sociedade de forma “pacífica”. Mas muitos, mesmo convivendo em sociedade, continuavam apresentando sintomas de ansiedade, depressão, as chamadas “neuroses”. Em O Mal-Estar da Civilização, Freud chega a algumas conclusões perigosamente pessimistas sobre o bem-estar mental: ele começa a se questionar se é possível o ser humano, um animal que deveria viver uma vida natural, livre e sem amarras sociais, ser plenamente feliz em uma sociedade cheia de regras, cheia de controles. Ele questiona se a sociedade “civilizada”, não é ela própria que adoece o ser humano. Então nós chegamos em um outro tipo de loucura, aquela que é considerada ainda mais grave e incurável no século XXI: o louco que não se adequa aos papéis sociais. O louco que não é um trabalhador formal, a louca que não é esposa e mãe, os loucos que não consomem carne animal ou pior ainda, os loucos que abandonaram a vida urbana e foram para o campo, plantar a própria comida.Essas pessoas eram [e são]vistas como loucas pelo simples fato de se recusarem a ver o mundo da forma “normal”, da forma
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que todo o resto da sociedade vê. A nossa geração cresceu sob um controle social tão grande que até a escolha de profissões, a faculdade que você prestaria, poderia fazer você ser rotulado: “você vai cursar Filosofia, Artes? Você é maluco”. Ou pior ainda, aquele que acreditava já possuir o conhecimento e o dom necessário para se tornar o que sonhava e não ia entrar numa instituição de ensino formal, aquele que queria ser artista. Esse era o mais louco ainda, “quem vai viver de arte? Arte não põe comida na mesa”. As pessoas argumentavam que os jovens não deveriam sonhar em viver de arte, literatura ou poesia porque isso não traria um retorno financeiro, mas havia um outro motivo velado: isso não traria status social.
O artista, o escritor e o poeta, que não fosse extremamente famoso e bem- sucedido, não estaria “contribuindo” para a sociedade, como faz o médico, o advogado, o engenheiro. E o fato irônico é que a maioria das pessoas que dedicam a vida às profissões “sérias” e são engenheiros e médicos, usam uma parte do seu dinheiro para consumir ou produzir arte em alguma forma: são muito fãs de algum músico, escrevem poemas em um perfil anônimo nas redes sociais. Mas eles só podem viver a arte na sua folga: eles devem diligentemente esperar as suas férias para visitar Paris e conhecer o Museu do Louvre, do qual não vão se lembrar muito pois não vão ficar lá dentro por muitas horas. A arte é um luxo: uma recompensa que o cidadão alcança
DEPOIS de ter “contribuído” para a estrutura social se manter de pé. E esse cidadão assim vive por anos, contando os anos, não vendo a hora de chegar o dia em que poderá se aposentar.
Enquanto isso, algumas pessoas, ou por excesso de coragem, ou porque não tiveram outra opção, decidem que a arte não é uma recompensa dopaminérgica para dias de folga: eles querem ser artistas agora, nem que isso signifique ficar muito tempo sem dinheiro. Talvez eles tenham desistido de se tornar um “cidadão respeitável que ganha quatro mil cruzeiros por mês”, como disse Raul Seixas, afinal a meritocracia é uma mentira e não tem vaga para todo mundo. Talvez eles tenham concordado com o discurso do professor de A Sociedade dos Poetas Mortos, quando ele disse “A Medicina, o Direito, a Administração, e a Engenharia são objetivos nobres, necessários para manter a vida. Mas a poesia, a beleza e o romance são as coisas pelas quais vale a pena estar vivo”.
❝Para algumas pessoas, a arte
não é uma atividade trivial ou profissional, mas sim, uma necessidade urgente e agonizante, talvez o único bote salva-vidas existente. ❞
Mesmo assim, o cantor de rua que estende o chapéu na praça, esperando receber algumas moedas, é chamado de louco, afinal ele não tem casa, carro e carreira. Ele não tem “futuro”.
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❝
O contrário do louco é o “cidadão normal”: aquele que trabalha, consome, sai com a família aos fins de semana. Só que ficou cada dia mais difícil se tornar o cidadão normal porque chegamos em um estágio do Capitalismo em que o excesso de trabalho e produtividade não consegue acompanhar o custo de vida.
❞
Mesmo o mais disciplinado dos soldados ainda não consegue comprar uma casa, não planeja mais ter filhos [são caros demais] e corre o risco de sofrer o pior cenário de todos: a mente parar. Se a mente do proletário adoece e, que Deus o livre, ele chegar a um burnout, ele facilmente pode ser substituído por outro trabalhador. O homem “normal” vive à espreita do medo de acabar caindo na Ala dos Loucos, pois o esgotamento mental é um diagnóstico sério, pode levar meses para se recuperar, ou nunca se recuperar totalmente. O que será do cidadão civilizado se ele não conseguir mais trabalhar, se ele não produzir? Se ele não é médico ou advogado, quem ele é?
Um dos livros mais vendidos de filosofia, que, bem a calhar, é bem curto em número de páginas, é o A Sociedade do Cansaço, de Byung Chul-Han.
Nessa breve obra, de grande sucesso, o autor sul-coreano defendeu que, no atual estágio do capitalismo, o homem não é só explorado pelo capital, ele mesmo se explora: ele precisa se tornar
Ensaio
empreendedor de si mesmo, ele precisa estar sempre produzindo, criando, fazendo, num eterno looping de positividade. O ser humano não tem o direito de apenas existir, sua existência não é gratuita sobre a face da Terra, ele precisa mostrar serviço. Só que o corpo humano tem limites, e por isso uma grande quantidade de pessoas passou pelo burnout, e milhões precisam de medicamentos e drogas para manter esse nível, cada vez mais alto, de produtividade. Todos temem sucumbir à loucura. Não teve saída: a sociedade do cansaço é enlouquecedora.
Apesar de todas essas coisas serem publicamente discutidas, e terem sido buscadas algumas soluções políticas, nós ainda vivemos na corda bamba. As estruturas econômicas e sociais que mantêm bilhões de pessoas no limiar da loucura, mas que rejeitam e excluem os que tentam fugir dela [loucos!], permanecem intocadas.
Esse estado das coisas leva a pensar que a loucura pode ser um conjunto de sintomas, um adoecimento, ou simplesmente qualquer coisa que seja dissidente, dissonante. A loucura pode depender do ponto de vista. Em O Alienista, de Machado de Assis, lá em 1882, o protagonista primeiro pensa que os loucos são os diferentes. Daí ele percebe que a maioria das pessoas tem alguma “esquisitice”, e ele passa a acreditar que os loucos são os “sãos”, os controlados. No final, o próprio médico se considera o único louco, o próprio dono do poder e da autoridade estatal é o único que merece ser internado. Há
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dois séculos, Machado de Assis talvez já tenha nos dado a chave para entender o que é a loucura. A loucura e a sanidade são definidas por quem detém as regras do jogo.
❝
A Medicina, o Direito, a Administração, e a Engenharia são objetivos nobres, necessários para manter a vida. Mas a poesia, a beleza e o romance são as coisas pelas quais vale a pena estar vivo.
❞
Referências:
BRASIL TEM MAIS DE 546 MIL AFASTAMENTOS POR SAÚDE MENTAL EM 2025, G1. Disponível em:
https://g1.globo.com/trabalho-e-carreira/noticia/ 2026/01/26/brasil-tem-mais-de-546-mil- afastamentos-por-saude-mental-em-2025-e- bate-recorde-pela-segunda-vez-em-10-anos.
FREUD, Sigmund. O Mal-estar na Civilização.
1930
A SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS, de Peter Weir, 1989.
MACHADO DE ASSIS, O ALIENISTA, 1882.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. O Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Boitempo, 2010.
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A LOUCURA EM NOSSOS OUVIDOS
Por Rodrigo Souza, Salvador-BA Contador, escritor mail.rodrigosouza@gmail.com
Eu recomendo fortemente que você ouça ao ler este texto as músicas: Metamorfose ambulante”, “Maluco Beleza” ou “Sociedade Alternativa”.
“ (...) Mas se não puder, cale essa boca, Pedro! E deixa eu viver minha loucura”
Eu, fã declarado de Raul Seixas desde que era só um menino ouvindo música dos discos de vinil do pai, nunca entendi completamente a complexidade daquilo que Raul cantava. Ainda assim, me encantava a maneira sinuosa e nem sempre tão facilmente compreensível com que ele enxergava o mundo [e para além do mundo].
Eu o compreendia dentro das minhas próprias incompreensões. Esta música de Raul, inclusive, já foi ponto de origem para um conto que escrevi há alguns anos.
Ao longo do tempo, outros cantores me surpreenderam com suas canções “estranhas”, jogos de palavras, ideias que pareciam fora do lugar, mas que numa nova escuta ou dedicando um pouco mais de atenção, mostravam mensagens que, aos poucos, se tornaram parte de muito daquilo que hoje eu compreendo como arte.
Quem trabalha com escrita, e/ou com criação nas suas mais diversas formas, hora ou outra se depara com a verdade deste mundo: não existe arte sem loucura, ou pelo menos aquilo que a
sociedade considera fora de um padrão de normalidade. Todo artista tem dentro de si um pouco dessa característica, pois o próprio ato de criar está ligado a fugir da realidade. Ou pelo menos abandoná-la pelo tempo que for possível.
A loucura, neste caso, pode não estar ligada apenas a confrontar a sanidade ou a verdade do universo, como Raul costumava fazer sempre, como pode ser visto/lido/ouvido em “Metamorfose ambulante”, “Maluco Beleza” ou “Sociedade Alternativa”.
Podemos falar também dos artistas que optaram por bater de frente com padrões estéticos, normativos ou históricos.
Cito aqui Rita Lee, que com irreverência tratou de comportamento, sexualidade e feminilidade, e Zéu Britto, um excelente artista baianoa que brinca com o nonsense numa aura surrealista cultural e performática, como se o carnaval pudesse ser um sentimento, ou uma forma de interpretação, cheia de cores e sons, quase psicodélico. E se eu me atrever a mudar um pouco a playlist, posso ainda visitar Clarice Falcão, que sempre me atingiu de forma muito deli-
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cada e certeira falando de saúde mental [ou a falta dela], com tiradas inteligentes mescladas com sentimentos — tanto os que são comuns no cotidiano quanto aqueles que pensamos “nossa, só eu sinto isso aqui. É muita loucura”. Clarice vem mostrar que não é, ou, ainda que seja, todos temos um pouco de loucura em nós.
A lista segue crescente e se expandirmos para outras mídias, as referências não param de chegar. Na atuação, nas artes plásticas, na própria escrita, sempre haverá aqueles que terão sua originalidade comparada ou rotulada como insanidade. A criatividade é um processo que muitos tentam normatizar, mas não há um método capaz de mapear e conduzir as pessoas ao seu próprio processo criativo, justamente por isso: é algo próprio do ser, aquilo que as pessoas têm dentro de si ou que desejam trazer para este mundo. É subjetivo. E o que seria a sanidade senão só mais um rótulo que não se sustenta diante da arte?
Quem trabalha com escrita, e/ou com criação nas suas mais diversas formas, hora ou outra se depara com a verdade deste mundo: não existe arte sem loucura [...] ❝
❞
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O Inventário da Minha Loucura
Por Eliane Prado, Ponta Grossa-PR Escritora, psicóloga CRP 08-08/47049 eliprado.elianeprado@gmail.com
Fazer um balanço da minha loucura é, na verdade, dizer que a linha entre sanidade e “desvio” não é rígida, ela é tênue. E, honestamente, reconhecer que estou em pedaços é a coisa mais humana que sei fazer.
Estou falando aqui com "O Alienista”, de Machado de Assis, ou melhor, respondendo.
Não confio nos critérios de outras pessoas. Mas nas minhas, essas eu entendo, mas todas essas regras externas, esses rótulos que tentam me impor? Quem decide o que é “demais” afinal? Quem tem o direito de dizer que estou transbordando? Em que ponto um pensamento deixa de ser apenas um pensamento e se transforma em evidência de “desvio” Pensamentos são apenas pensamentos, certo? Mas, assim que alguém precisa impor a lei, de repente, essa pessoa se transforma em outra. Há algo profundamente perturbador nessa fronteira invisível. Não se apresenta como uma lei escrita no papel, mas sim como um daqueles acordos tácitos em que todos caem, silencioso e, no fundo, meio violento.
Escrevo porque não consigo não escrever, ainda resta algo em mim que as palavras nunca conseguem expressar completamente minha forma de resistir, ou talvez seja apenas o sintoma mais refinado de algo que não consegue encontrar seu lugar. Ainda assim, sinto como se houvesse sempre uma ordem me observando. Não uma pessoa,
exatamente, mais como um olhar disperso que habita cada expectativa, cada norma, todas aquelas pequenas correções cotidianas.
Há uma lógica que está sempre tentando me organizar, como se a vida real pudesse se encaixar em categorias perfeitas e permanentes. Mas escrevo desde sempre. Escrevo o que transborda. Escrevo porque algo em mim se recusa a ficar quieto, algo se impõe, busca forma. Escrever não é sobre se encaixar; é sobre encontrar a linguagem, sobre criar uma maneira de existir quando nada mais se encaixa. É assim que eu escapo porque não me encaixo, e não me encaixar não é uma falha.
É a prova de que estou aqui. Fazer um inventário da minha loucura não é sobre listar sintomas ou esperar por uma cura. É sobre enxergar padrões em como me fragmento, rastreando os pedaços que se recusam a se alinhar. Eu me encontro nas lacunas: a hesitação que interrompe a fala, o pensamento que retorna, sem ser convidado; a repetição que não consigo controlar. Há algo em mim que fala antes de mim, e sim, isso desestabiliza as coisas. O que chamam de loucura não é um “excesso” é apenas a parte de mim que não consigo contro-
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lar, a parte que nenhum sistema consegue abarcar.
A linha entre “são” e “insano” está sempre mudando, movendo-se o suficiente para manter uma ordem instável, um esforço trêmulo para rotular tudo, o que, no fim, apenas revela o quão frágeis as coisas realmente são. Não sou eu que sou a desajustada. É um mundo que sempre exige que eu me mantenha íntegra, sempre fingindo que a continuidade é possível. Mas as pessoas se despedaçam. O tempo todo. Talvez o verdadeiro desvio seja agir como se não nos despedaçássemos.
Imagine se todos fossem observados com o mesmo escrutínio, se cada contradição fosse registrada, cada pensamento aleatório fosse anotado. Quantos ainda estariam “dentro”? Quem sequer manteria a fronteira de pé? Se realmente expuséssemos cada contradição, esses muros desmoronariam. E então teríamos que admitir que a loucura não é a exceção,é apenas outra maneira de ser humano. Ou talvez o “interior” só exista porque precisamos acreditar que existe; é uma ficção que todos mantemos porque temos medo de admitir que todos temos nossas falhas. O que chamamos de normalidade é apenas um acordo coletivo para esconder as fraturas.
Então, continuo escrevendo. Não para me organizar, mas para ouvir as partes de mim que não se encaixam. Sempre escrevi sobre o que transborda, o que não consegue se espremer nessas narrativas organizadas e oficiais.
Catálogo meus excessos, as rupturas na minha continuidade, às ideias que se recusam a obedecer à lógica dominante. Porque, honestamente, há algo brutal nessa vontade de normalizar tudo.
Normalizar muitas vezes significa silenciar, apagar as pequenas mudanças e desvios que podem ser, na verdade, as únicas maneiras que temos de nos expressar. Toda tentativa de isolar algo tem um preço, o que torna cada um de nós único desaparece. Minha escrita, então, é minha resistência a esse apagamento, uma recusa em abrir mão daquilo que não pode ser simplificado ou reduzido. Às vezes me pergunto se a “sanidade” é apenas uma adaptação bem-sucedida a um mundo que espera tão pouco. Admitir que sou feita de pedaços é arriscado, mas parece mais próximo do que realmente significa ser humana.
Não sou inteira. Não sou estável. Na maioria dos dias, nem mesmo sou transparente para mim mesma. E se minha loucura não for um erro a ser corrigido, mas uma espécie de linguagem, uma maneira de dizer o que a narrativa normal nunca contempla, o que continua a irromper mesmo quando o mundo implora por silêncio? No fim, meu inventário não me organiza em nada. Ele apenas me desfaz nos lugares certos. E acho que é aí que finalmente começo a existir: exatamente no ponto em que deixo de me encaixar.
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Ensaio
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A linha entre “são” e “insano” está sempre mudando, movendo-se o suficiente para manter uma ordem instável, um esforço trêmulo para rotular tudo, o que, no fim, apenas revela o quão frágeis as coisas realmente são.
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Quem é que viu agora meter todos os doidos dentro da mesma casa?
Machado de Assis, O Alienista ❞
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Imagem: arquivo pessoal
O Poeira & Pólvora é um portal independente e colaborativo focado na democratização do acesso à informação nas áreas de História e Cultura. O projeto nasce com o propósito de romper os muros acadêmicos e as bolhas editoriais, transformando o conhecimento técnico em um patrimônio verdadeiramente público, acessível e dinâmico.
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Liberdade é conhecimento. Conhecimento é Liberdade
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O portal está estruturado para oferecer uma experiência rica e diversificada de leitura e produção textual:
Artigos e Análises Históricas: Textos informativos e críticos sobre eventos históricos, patrimônio, artes e sociedade, escritos com linguagem fluida e envolvente.
"A Tinta é Sua!": Uma seção de escrita livre e colaborativa voltada para a literatura independente. É o espaço onde os leitores e colaboradores publicam contos (como o conto de estreia "Iguana"), crônicas, poesias e ensaios autorais.
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Por ser um projeto 100% independente, gratuito e coletivo, o Poeira e Pólvora se apoia na construção de uma comunidade ativa. O crescimento do portal se dá de forma orgânica por meio da leitura compartilhada, do engajamento nas redes sociais e da colaboração direta de novos criadores de conteúdo. Acesse o portal aqui e nosso Instagram @poeira. polvora aqui.
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Resenha Literária

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Resenha Literária
Retomada Indígena
O livro “Retomada Indígena” de Nandjavi Ñande Ja’u é um retrato histórico de décadas de trajetória e perspectiva sobre os povos indígenas brasileiros. Desafiando as próprias convenções de gênero literário, o livro, escrito durante a maratona de escrita do Kindle Direct Publishing 2026, não possui clara caracterização, sendo ora escrito como crônica, ora como narrativa, ora como adaptação livre da história. O livro se dedica a explorar a cultura, costumes e desafios desses povos, não como ponto de exploração, mas como um glossário rico, mergulhando de cabeça e nos convidando.
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Algo que me deixou admirada enquanto lia é que o livro não se dedica a ensinar quem está lendo. Não que o livro não seja político e cheio de informações que valem a pena serem abordadas, mas esse não é o livro para quem quer informações de mãos beijadas, se você não entende um termo, pesquise, não compreendeu uma tradição? Pesquise. “Retomada Indígena” se preocupa mais em explorar os ricos personagens enquanto eles experienciam acontecimentos, sobrevivem aos massacres e tentativas de dominação.
O livro perpassa conceitos interessantes com relação à cultura indígena e algumas das crenças encontradas há algumas centenas de anos. Minha parte favorita provavelmente foi lá no início do livro, quando, após a derrocada de um inimigo, há a ideia de consumi-lo, para evitar que seu conhecimento e sua força sejam soltos, sendo a melhor opção absorvê-los, uma clara alusão à antropofagia, mesmo que não seja explicitamente caracterizado por esse termo, nem é necessário, o narrador confia que nós vamos entender.
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Gosto de como, de certa forma, o próprio livro é um grande banquete para quem busca não só entender mais sobre a história daqueles que estabeleceram muito do que temos de Brasil, antes que fosse o Brasil. O livro tem uma exploração que soa natural, nunca cedendo à escrita exotificante em que livros sobre indígenas, especialmente os escritos no Brasil, caem.
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Resenha Literária
Se pararmos para comparar, “Retomada Indígena” se aproxima da escrita descritiva e, algumas vezes, discursiva, de Ailton Krenak, mesmo que tenha uma personalidade muito própria. As histórias são tecidas de uma perspectiva bastante específica, rítmica e, apesar do livro não contar com nenhum diálogo, ainda é uma leitura leve e fluida, contando com descrições altamente visuais e poéticas, sem perder o fio da meada ou cair numa escrita abstrata, tudo no livro é muito palpável, especialmente para quem já tem noção da trajetória indígena.
Me surpreendi positivamente com a escrita já que, ao invés de trazer excessivas explicações e justificativas, o texto se empenha em nos mergulhar nessa narrativa, deixando em alta estima as ideias, conceitos, crenças e observações desses povos sobre o mundo. Me encantou como o texto não parece se esforçar para trazer fatos históricos concretos e já documentados, com nomes e títulos e as já conhecidas figuras históricas.
Não, em seus próprios termos, Ñande Ja’u retoma a narrativa a partir do ponto de vista interior, trazendo uma perspectiva particular. A utilização de uma crendice vinda da raíz africana, a relação de Exu com o tempo, é um ponto-chave do livro, na minha opinião, porque a mistura de tempos e momentos, as quebras na narrativa, a retomada e abandono de temas, tudo constrói essa tecitura de realidade que soa como uma espiral, tudo acontece ao mesmo tempo e não existem términos ou inícios, cada ato ainda se parece com uma continuação do anterior, mesmo que também introduza novas coisas ou, quando retoma, também subverta e oferte novas facetas ao que já foi visto.
A oralidade tem um papel importante no livro e isso é óbvio desde o início da narrativa já que essa é uma herança viva até os dias de hoje no Brasil, desde a manga com leite até o nadar depois do almoço ou os remédios caseiros, a oralidade como manutenção da memória é uma recorrente característica do povo brasileiro e isso surgiu com os indígenas e escravizados, foi o que os protegeu até certo ponto, durante muitas décadas e é muito especial como essa oralidade é empregada e valorizada.
Imagens: Cosmos.os
Ailton Krenak
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Resenha Literária
Em suma, “Retomada Indígena” é uma obra que se propõe a algo bem mais interessante do que recontar a experiência indígena brasileira no passado, é uma amálgama de tempos que se costura e descostura em 68 páginas e nos dá um panorama de passado, presente e futuro e como essas pessoas são resilientes, em como a cultura, a mistura, o sincretismo podem ser maiores que a conquista. Não é exatamente o meu tipo favorito de leitura, mas, mesmo assim, consegui me sentir muito interessada e aprendi coisas que não sabia que precisava saber. É literatura com um propósito e mostrando que não há a necessidade de ensinar e, sim, relembrar. Essa é nossa história e precisa ser contada.
❝
Essa é nossa história e precisa ser contada.
❞
Por Cassandra Marjani IG @autoracerejahoax
Escritora e graduanda de BI em Artes na UFBA, Salvador-BA
❝Nasce o Sol a dois de julho; Brilha mais que no primeiro; É sinal que neste
dia; Até o Sol, até o Sol é brasileiro❞ Maria Felipa, Maria Quitéria e Joana Angélica
Ailton Krenak
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Resenha Literária
O Andarilho
“O Andarilho”, do autor Eduardo Reghim, é uma ficção contemporânea que aborda diversas nuances presentes na vida humana. O livro nos faz caminhar pela visão melancólica de Stefano, um homem misterioso, que lida com a culpa por um grande erro cometido no passado, juntamente às suas consequências.
entrelinhas
A narrativa começa nos dando a possibilidade de entrar em sua mente e participar dos vários estágios e estados que o personagem experimenta. Através de saltos temporais, somos levados ao desenrolar dos aspectos que o nortearam até o momento de um encontro verdadeiramente singular. De início, o prólogo já me prendeu ao mostrar o contraste entre a vida e a morte, além da curiosidade de como tudo iria se desenvolver.
Nesse texto, a figura se apresenta ao protagonista em uma alusão à crença de que, no momento derradeiro, “a vida passa diante dos nossos olhos como em um filme”. No diálogo que se segue, somos apresentados à profundidade do desespero, que muitas vezes nos leva a desejar o descanso. Aquele que leva os suicidas a enxergar a dama da morte como a melhor companheira. Em “O Andarilho”, a escrita mais formal e mesmo um tanto poética nos pede calma. Uma calma que se faz necessária para entender as dores e culpas do personagem.
Aos poucos, a narrativa se transforma em uma descoberta dos caminhos trilhados pelo protagonista até seu encontro com a mulher que será fruto do seu amor e mesmo o caminho para expiação dos pecados que o perseguem. Um ritmo que nos exige atenção e vontade de aproveitar cada palavra, cada pequeno detalhe narrado e mesmo os que ficam meio escondidos. Tudo se desenrolando em um enredo capaz de nos levar de bom grado ao engano. Por fim, “O Andarilho” é uma reflexão sobre as escolhas que fazemos na vida. Embora seja uma história curta, me trouxe uma carga muito grande ao expor o conceito de família, amizades, amores e como o personagem lida com seus desejos e frustrações.
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Resenha Literária
Um livro que, embora curto, tem a profundidade necessária para nos levar a ponderar sobre os percursos que escolhemos e para onde seremos guiados ao longo da vida.
❝
Por Amina S.
❞
Bacharel em Arquitetura e Urbanismo pela Unijorge, escritora e leitora de ficção. Amante da literatura e toda a sua riqueza, Salvador-BA
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A Cereja do Bolo
Por Cassandra Marjani

A Cereja do Bolo
A Cereja do Bolo
Por Cassandra Marjani
Ingmar Bergman em seu famoso filme Persona, de 1966, 一 que, sim, possui um nome em português que em nada se relaciona com o real conteúdo do filme 一 buscou a disruptura do mundo exterior para que todos os estímulos fossem cessados antes que seu filme começasse de fato. Isso em 1966, importante salientar. A famosa “dream sequence” inclui desde o abate de uma vaca, até um pênis ereto e bastante sangue. Uma verdadeira catarse que provoca os sentidos, causando uma espécie de “reset”. E tudo o que consegui sentir enquanto assistia isso foi uma confusão tremenda e um pensamento não saia da minha cabeça: quão grande era o pau naquela tela de cinema? Porque, Deus, as pessoas devem ter ficado embasbacadas no longínquo ano de 1966.
E digo tudo isso porquê vivemos um momento sombrio, com contas, estímulos e desgraças acontecendo a torto e a direito enquanto tentamos encontrar algum tipo paz em nossas pausas, em nossas disrupturas. Mas,
IG @autoracerejahoax Escritora e graduanda
de BI em Artes na UFBA,
Salvador-BA
quão disruptor é esquecer as horas no Instagram? Por vezes, para não enlouquecer, me vejo buscando todo e qualquer tipo de escape, contanto que não me leve à morte. Mas, me pergunto: será mesmo que ainda não enlouqueci?
Observo a quantidade de horas que fico exposta ao meu celular como se ele fosse uma bomba atômica e nem mesmo sei o que tanto fiz nele ao fim do dia, porque metade do que me mostram nas redes sociais é lixo. Por vezes, esqueço de coisas sabidas, palavras, texturas, nomes, qual a sensação da serotonina… Sabe? O quão bem estou indo em minha empreitada de não ser consumida pela loucura? O quão bem você está indo? Se for sincera, não me culpo, nem nenhum de nós, com olheiras profundas, bocas escuras por conta do cigarro ou dentes manchados de café. É possível não ser assim? É como se estivéssemos constantemente entre um bebê tossindo uma bomba atômica. O mais trágico é que estamos vivendo em tempos de bomba atômica , isso é uma loucura
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.3, jul/set. 2026 Pág. 122
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de verdade. O que sinto é que a qualquer momento posso acordar com uma ogiva acertando meu terreno e fico me perguntando quem vai pagar pelo meu prejuízo, porque reconstruir uma casa pós- bombardeio com certeza não deve ser barato, mas estou divagando… Minha tese é, e fique atento, essa é A Cereja do Bolo, se Bergman buscava o estímulo extremo para trazer catarse, o que acontece hoje é o estímulo extremo para nos tornar passivos, deslizadores de tela sem qualquer senso crítico, bom, nem perto disso. Me pergunto porque ainda vejo o feed do Instagram, porque ainda discuto no Twitter e por qual motivo ainda entro em grupos de Whatsapp.
A resposta mais simples é: escape.
É o que buscamos. O que queremos. O que eu mataria para conquistar; escapar é necessário. Talvez a única forma de não cair na toca do coelho, é voltando para a lição de casa, sentindo as flores e deixando o mesmo sol que sua a pele, a secar. O escape pode não ser a solução, mas Ingmar Bergman sabia que o escape é o maior vício humano.
Só que… O que acontece quando o escape não é o suficiente? Pensei nisso depois de ver Sorria 2 [2024] e O Iluminado [1980], filmes que mostram seus dois protagonistas buscando esse escape e eu como grande fã de terror, me peguei bastante reflexiva. No segundo filme de Sorria, a protagonista é uma
A Cereja do Bolo
mulher cheia de traumas e questões internas que ela tenta esconder através do trabalho e da busca por performar um bem estar que não é real, mas após ser atingida por uma maldição, ela é confrontada por todos eles. Mesmo depois de muito fugir, a protagonista, Skye Riley, entende que não dá pra fugir da própria mente.
Algo similar acontece com Jack, do filme O Iluminado, após passar por diversos problemas com álcool que eventualmente o levaram a cometer um crime — não vou dizer qual, toma vergonha e assiste esse clássico —, o Jack acha de bom tom se isolar com sua família num hotel durante a nevasca, muito porque pagava bem e ele precisava, mas especialmente por uma necessidade de escape. Uma necessidade quase fisiológica de se afastar da realidade e se esquecer dos próprios problemas. O problema é que isolado da civilização, o único lugar possível para habitar era a mente dele e digamos que não era um lugar fácil de ocupar.
O mesmo acontece com a Skye do segundo filme da franquia Sorria, traumatizada após a morte de seu noivo, ela é afetada por uma maldição demoníaca, mas sabe o que a leva a morte? Seus traumas, seus medos e o que chamam de fear of missing out, o medo de perder algum detalhe, de ser abandonada. A personagem enlouquece no lado oposto de Jack, ela se autodestrói ao precisar lidar consigo mesma, enquanto Jack destroça sua própria família.
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.3, jul/set. 2026 Pág. 123
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A Cereja do Bolo
O escape é necessário, eu digo por experiência própria, após uma semana inteira em crise de ansiedade por causa de dinheiro, faturas e salário, tudo o que quero é chegar no domingo e poder assistir o besteirol Todo Mundo em Pânico e escapar um pouco de mim mesma. Penso que, retomando a pergunta do início do nosso papinho gostoso, acho sim possível manter-se são em pleno ano de 2026, mas, por vezes, precisamos dar uma de Ingmar Bergman e colocar um enorme pau na nossa cara. Ou, para os menos radicais, dar uma volta no parque.
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Sombras com Rosto
de Alexandra Ferreira
Autora portuguesa apresenta ficção histórica acompanhando gerações.
“Sombras com Rosto” é um romance ambientado num momento marcante da história de Portugal, ligado à Revolução dos Cravos. A narrativa mostra como esse acontecimento influenciou profundamente a vida das pessoas, separando destinos e moldando relações.
A história acompanha diferentes gerações e, em particular, duas mulheres cujas vidas seguem caminhos distintos, mas que acabam por se cruzar através das emoções, das escolhas e da paixão.
❝Uma revolução atípica que ditou o destino de um povo e a separação de dois amantes, cujo amor puro imortalizou-se nas sombras de um passado sempre presente.❞
Imagem: arquivo pessoal
Compre aqui.
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PÕE NA ESTANTE PÕE NA ESTANTE
Na Calada da Noite
Por José Sérgio Batista
"Na Calada da Noite" é, predominantemente, uma obra de poesias. A noite e seus elementos, a natureza, o amor, a alegria, a tristeza, a solidão, o escapismo e o silêncio são abraçados pela poesia de modo envolvente e criativo. Desse contato, surgem desabafos, reflexões e a certeza de que “o amor transcende todas as formas”. No final, o autor nos brinda com seis maravilhosos textos em prosa: contos e crônicas.
#poesia Clique aqui e saiba mais.
A SOLIDÃO DA LOUCURA E A LOUCURA DA SOLIDÃO
Por João Batista de Souza
A SOLIDÃO DA LOUCURA E A LOUCURA DA SOLIDÃO é um exercício de ficção e realidade, de maneira a convidar o leitor à reflexão sobre esses dois temas que envolvem sentimentos tão significativos para nós humanos. O propósito do autor é analisar os dois aspectos de uma forma literária a partir de reflexão crítica, mas com leveza e abrindo possibilidades que fiquem por conta do próprio leitor e suas experiências.
#poesia Clique aqui e saiba mais.
Diário de Bordo de uma escritora diletante
Por Michelle Louise Paranhos
Diário de Bordo de uma escritora diletante é um compilado de crônicas, contos, prosas poéticas e muito mais. Comemorativa, a obra serve também como guia e inspiração, feito o diário de bordo de capitães que ousaram se lançar no mar bravio da escrita criativa.
#miscelânea #coletânea #crônica Clique aqui e saiba
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PÕE NA ESTANTE PÕE NA ESTANTE
A Guerreira Iorubá
Por Betânia Paz
A famosa escritora brasileira Bela Akanke, que vive na Alemanha, retorna a Bom Jesus da Lapa, interior da Bahia, para receber uma homenagem. Ao chegar à cidade, tomada pelas memórias dolorosas da infância no quilombola de Rio das Rãs, foge para o sítio onde vivera com seus bisavós. Lá, relembra quando ela implorou a Ioiô, seu bisavô, para ler um livro que ganhara: O Pequeno Príncipe.
#ficçãodeépoca #ficçãocontemporânea Clique aqui e saiba mais.
Olhar Dourado
Por Roberta Silva
Paulo Chaves era o tipo de homem que não se apegava a detalhes, não era de sua personalidade notar algo. Até que uma colega de mesa o faz mudar. E seu olhar ganha outra cor.
#romântico Clique aqui e leia.
Revista Literária O Autômato
Por Allan F. F. Gouveia
Foi em 2020, no auge do isolamento social, que um grupo de escritores independentes se conheceu no mundo digital, compartilhando o interesse pela literatura. Sem muitas alternativas devido à pandemia, escrever histórias foi uma das maneiras de não somente passarmos o tempo, mas também de sobrevivermos da forma mais leve possível ao momento em que o mundo se encontrava.
#coletânea Clique aqui e leia.
Quer seu livro aqui? Confira o Mídia Kit ao final desta edição.
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Classificados entrelinhas: buscas, vendas artísticas e recadinhos
A livraria Carvalho é um projeto de guarda da memória de uma família de leitores, incentivo à economia circular e difusão da cultura de forma mais acessível e sustentável. Trabalhamos com comércio de livros seminovos e usados, a partir de uma curadoria de qualidade e ética no conteúdo das obras. Queremos ser um espaço não apenas de mercado, mas também de propagação da transformação por meio da arte da Literatura.
Para quem gosta de ler livros usados, tenho muitos títulos dos anos 80 em diante, beem retrô. Mas desta vez trago duas "bíblias": O Céu e O Inferno, de Allan Kardec, edição 2009, por R$35 e Sunrise Good News Bible, edição 2004, em inglês, por R$120. Ambos incluem o envio.
Eu gosto de desenhar coisas que possuem uma estética fofa e delicada, ao mesmo tempo que busco representar a vida de uma forma sombria e melancólica em meus mangás, utilizando um sombreamento dramático e carregado pelo uso de hachuras.
Whatsapp: 71 99170- 8188
Não utilizo IA.
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Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.3, jul/set. 2026 Pág. 128
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Fim
Caça-palavras
Na vertical:
01. Te Vejo nas (...); Revista Independente.
Na horizontal:
01. Clarice (...); Autora de "A Hora da Estrela".
02. Vincent (...); Pintor pós-impressionista.
03. Aquilo que se opõe ao que é palpável e perceptível. Sem forma material.
04. O Show de (...); Filme com Jim Carrey.
05. Movimento artístico e literário, referenciado por Salvador Dalí e René Magritte.
06. (...) Bonham Carter; Atriz de "Alice no País das Maravilhas", de 2010.
07. (...) Falcão; Cantora que lançou o álbum "Monomania", em 2013.
08. Algo ou alguém que foge do padrão convencional.
09. Ator australiano que interpretou o Coringa em 2008.
10. Cantora brasileira, interprete de "Ovelha Negra" e "Lança Perfume"
11. Cantor baiano, interprete de "Gitã" e "Maluco Beleza"
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.3, jul/set. 2026 Pág. 129
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Fim
Histórias Independentes
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Pág. 130
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol. 1, No.3, jul./set. 2026
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