(05/11/2015)
I
"Remember, remember
The fifth of November
The gunpowder treason and plot:
I know of no reason
The gunpowder treason
Should ever be forgot".
Os nerds, literatos e historiadores de pronto lembrarão-se dos versos.
É sobre um cara, chamado Guy Fawkes, que resolveu explodir o Parlento Inglês com barris de pólvora, séculos atrás.
O ato criminoso foi descoberto a tempo, e o pulha processado e julgado.
Afinal, onde já se viu atentar contra o Parlamento, aquela Instituição sagrada do Poder divididos entre "iguais"?
Dizem que os versos foram feitos por Shakespeare (na verdade, aceita-se mais que é de autor anônimo), e entranharam-se na cultura inglesa. Dia 5 de novembro, até hoje, é dia de fabricar um boneco do Fawkes, amarrá-lo a um poste ou árvore e espancá-lo (tal qual nosso costume de "Malhação do Judas").
Será que as crianças inglesas de hoje então são tão politizadas e conscientes a ponto de compreenderem a razão da existência de tal brincadeira?
II
Outro caso: uma vez, na faculdade , um professor de Teoria Geral do Estado citou o Movimento dos Caras-Pintadas que "derrubou"[SIC] Collor para mostrar como a juventude atual (nos meados da década de 90) era "politizada". Não aguentei, e levantei a mão para dizer que discordava; afinal eu estava lá (minha escola ficava no início da Paulista) e participei ativamente com meus colegas - por três únicos motivos: poder faltar às aulas; a baderna em si; e paquerar. Fui rechaçado por um professor que, à época do acontecimento, encontrava-se a quase três mil quilômetros de distância da marcha, mas tirou suas conclusões pelo que viu por outros meios...
III
Hora de costurar o que obriguei vocês a ler...
Tema-chave: CONHECIMENTO. Todos devem saber que conhecimento é poder. A Igreja Católica mostrou claramente isso na idade média.
Afinal, uma cambada de ignorantes é muito mais fácil de acalmar, manipular, etc.
Uma parte ínfima do conhecimento/poder acabou vazando, e sendo incorporado nas histórias de dormir, nas tradições, na cultura.
Nós, desde o aparecimento (ainda rústico) da mídia, passamos a ter migalhas de conhecimento ao nosso alcance. Jornal, rádio, tv. Panfletos, faixas. Cartazes.
E aí vem o grande problema: a PASSIVIDADE perante a aquisição de conhecimento.
Sentávamos no sofá da sala e absorvíamos tudo o que aquelas pessoas falavam. Afinal, são pessoas famosas, importantes. Por que não confiar no que era dito?
Quem duvidava da veracidade dos grandes veículos de informação? No máximo, escolhia um lado: "a Veja é melhor que a Isto É".
De repente, o boom: de uma hora para outra praticamente todos possuíam conexão com a internet. E, ao mesmo tempo, com uma produção de conhecimento que se expande em caráter exponencial.
O que fazemos?
Mantemo-nos passivos. Compramos as histórias contadas. Deixamo-nos influenciar pela fala mais exaltada de um apresentador.
Já falei em outros textos, e parece que é minha sina incluir também em qualquer outro vindouro: JUSTIÇA é uma coisa. VINGANÇA é outra. E vai de encontro aos princípios básicos que aceitamos para qualquer sociedade.
Eu? Estou extremamente indignado. Afinal, há pouco mais de uma semana, o STF rasgou DESCARADAMENTE a Constituição Federal e a Declaração Universal dos Direitos do Homem ao permitir a aplicação de pena ao réu que ainda está recorrendo - ou seja, sem trânsito em julgado!
In dubiuo, pro pane et circensibus.
Minha indignação não para aí. Há verdadeiras ABERRAÇÕES JURÍDICAS sendo noticiadas diariamente. Mas, como o povo já foi inflamado pelos detentores do Poder-Conhecimento, VIBRAM como quem está acompanhando um jogo de futebol. Aliás, se fosse um jogo de futebol, podem chamar o juiz de ladrão. Não na intenção do crime de furto ou roubo, mas por seguir SUAS PRÓPRIAS REGRAS, mesmo que estejam em total dissonância com o documento mais democrático que tivemos nos últimos tempos: a Constituição Federal.
Algumas alunas perguntaram minha opinião sobre o que está acontecendo atualmente no cenário político.
Em resposta, digo: sinto-me dentro de O Processo, de Kafka. Nada do que a mídia teima em vomitar todos os dias faz sentido. Nada do que o Judiciário faz nesses processos faz sentido.
Como pode fazer sentido uma faixa com o escrito "intervenção militar já! Só o povo tem poder"?
Será que ninguém que tenha vivido na época não consegue ver o quão parecida foi como a mídia inflamou a população contra os "comunistas", e contra a saída de JK do poder para a " Revolução Popular de 1964"?
Amigos, está absolutamente tudo errado.
E não acho que um movimento mais enérgico perante a Presidência da República seja a melhor solução. Sabem por quê? Simples: Porque NEM EU, NEM VOCÊS, NEM NINGUÉM ALÉM DE QUEM ESTÁ LÁ, sabe o que realmente está acontecendo. Cargo de Chefe de Estado não é Big Brother. Andamento processual também não.
Não se enganem. Escolham seus lados. Batam panelas. Aceitem revoluções, ou impeachment. Não importa.
Se nem mais na seriedade da Corte Suprema do Judiciário podemos contar, já estamos em pleno estado de anomia.
E elas são SEMPRE planejadas. E o grupo detentor do poder/conhecimento irá conseguir o que pretende.
Quem sabe, daqui a dois séculos, teremos o dia nacional de malhação do Lula.
Quem sabe sussurraremos algo como "durma, meu filho, ou o Juiz Moro vai pegar você".
Ou quem sabe, algum professor que (para variar) deixou os livros de história de lado em seu preparo acadêmico, dirá à sua turma como foi belo o engajamento de famílias inteiras, vestidas com a bandeira nacional, pedindo coisas estapafúrdias, mas POLITIZADAS, pois participaram da derrocada do Estado Democrático de Direito no Brasil em 2015-2016.
Se Shakespeare talvez tenha feito a canção do Fawkes, talvez tenhamos uma marchinha feita por um MC da vida.
Sinceramente?
Como povo, é o que merecemos.
Alberto Busquets.