Em Depois do Décimo Segundo, o desejo não avança por uma linha reta. Uma palavra aproxima, um gesto interrompe, e a mesma pessoa que abriu a porta pode fechá-la antes do passo seguinte. A mudança não apaga o que aconteceu minutos antes; ela altera o que ainda pode acontecer.
A cena ganha verdade quando o recuo produz uma ação concreta. Alguém afasta a mão, muda de assunto ou pede tempo. A outra pessoa então precisa escolher entre escutar e insistir. É nessa resposta, e não numa declaração bonita sobre liberdade, que o consentimento se torna visível.
Miranda Reis trabalha com personagens que escrevem, fotografam e enfrentam interpretações alheias sobre seus corpos. Dar a elas o direito de mudar de ideia preserva a tensão do encontro e impede que o enredo trate desejo como dívida. O que começou continua importante, embora já não determine o próximo gesto.
Texto da revista Quem Narra o Desejo?, em diálogo com Depois do Décimo Segundo.