Prorrogação · Edição de estreia
Cena ficcional: uma bicicleta põe o fiscal da gravidade a trabalhar. Ilustração criada com ChatGPT; não é um registro da partida.
O lance real
Em 10 de outubro de 2026, a Seleção Brasileira feminina venceu a Argentina por 3 a 1, em amistoso no Beira-Rio, em Porto Alegre. Luany, Geyse e Angelina fizeram os gols brasileiros. Geyse marcou o segundo de bicicleta, após uma cobrança de escanteio. Esse lance é o ponto de partida da estreia de Prorrogação, revista em que uma notícia esportiva abre espaço para a invenção literária.
Fonte: CBF, “Com golaços, Seleção Feminina vence Argentina em amistoso no Beira-Rio”, publicada em 10 de outubro de 2026. Resultado e bicicleta também confirmados pela FIFA.
O fiscal da gravidade
Conto de ficção inspirado no lance real. O fiscal, os diálogos e o encontro com Isaac Newton são inventados.
Horácio entrou no estádio com uma maçã no bolso do paletó. Usava aquela fruta para aferir a gravidade desde que a repartição cortara a verba dos instrumentos. Bastava soltá-la. Quando batia no chão, ele assinava o laudo. Levava outra para casa, porque a mulher reconhecia pelo machucado as que tinham servido ao Estado.
A denúncia chegara durante o café: uma jogadora passara de cabeça para baixo diante de milhares de testemunhas. Havia filmagem. Horácio pediu que a repetissem e, quando a bola entrou, conferiu se ninguém o observara sorrindo.
Mandou cercar um pedaço de ar acima da pequena área. O funcionário encarregado da fita zebrada perguntou onde prendia a outra ponta. Horácio sustentou-a com o dedo até lhe dar cãibra. Ficaram assim algum tempo, respeitando o local da ocorrência.
Soltou a maçã. Ela caiu normalmente. Experimentou do alto de um banco, desconfiado da facilidade. Outra queda exemplar. A gravidade estava em dia; o problema devia ser a interpretação que tinham feito dela.
No gramado, o buraco deixado pela chuteira parecia menor do que merecia. Horácio ajoelhou-se. Tentou enxergar, dali, o caminho que um corpo percorria para dar as costas ao chão. Sentiu uma pontada no joelho e permaneceu abaixado, por prudência científica.
Foi quando um senhor de cabelos compridos lhe ofereceu a mão. Trazia uma casaca escura, sapatos molhados e uma sacola de supermercado. Dentro da sacola havia maçãs melhores que a dele.
— O senhor é da manutenção?
— Newton.
Horácio procurou o nome na relação de terceirizados. O visitante esperou, com a paciência de quem já atravessara trezentos anos para chegar e agora dependia de uma prancheta.
Sentaram-se no banco de reservas. Horácio mostrou a filmagem no celular. Newton pediu que voltasse um pouco. Assistiram juntos ao movimento, cotovelos encostados. O telefone era pequeno, e a peruca do inglês fazia cócegas na orelha do fiscal.
— Isso passa na sua lei? — perguntou Horácio.
Newton acompanhou a bola até a rede com o indicador. Depois quis ver de novo.
O funcionário da fita veio avisar que precisavam fechar. Encontrou os dois inclinados sobre a tela, repetindo o lance. Horácio já identificava o instante exato em que a chuteira encontrava a bola. Mesmo preparado, soltava um riso curto e cutucava Newton com o cotovelo.
Abriu o formulário no campo destinado às providências. A caneta pairou sobre o papel. Newton tirou uma maçã da sacola e a ofereceu ao fiscal, que a guardou para levar à mulher. A sua, amassada pelos testes, ficou sobre o banco.
O laudo pedia a assinatura do responsável. Horácio alisou a folha na coxa. Escreveu o próprio nome, devagar, com a solenidade que dedicava aos poucos documentos de que tinha certeza. Em seguida, arrancou a última página do bloco, ainda limpa, e virou-se para o homem da casaca.
— Seu Isaac, faz um autógrafo aqui? Pode pôr: para Horácio, que esteve presente.