Abrindo...
EuLit
Todas as ideias

O som das coisas que recuam para a sala dos fundos

De Julio Cortázar a Lygia Fagundes Telles, uma leitura da casa invadida pela disposição dos móveis, pela perda dos cômodos e pelo silêncio das portas trancadas.

avatar por Cecília Rios
Compartilhar
Abrir imagem

Caminhando entre as cadeiras de palhinha de uma sala de estar bonaerense descrita em mil novecentos e quarenta e seis, percebe-se que a casa de Julio Cortázar não desmorona por tempestade exterior. O tremor começa na dobradiça de uma porta de carvalho. Os dois irmãos que habitam aquele casarão antigo passam os dias limpando o pó dos móveis herdados, tricotando mantas de lã e fervendo água para o chá das quatro horas, até que um rumor surdo ocupa a ala posterior da propriedade. Eles não investigam a origem do barulho. Trancam a porta pesada, abandonam os tapetes de Gobelino, a coleção de livros de literatura francesa e recuam para o sector da frente, encurtando a própria vida ao limite de três ou quatro cômodos úteis.

A literatura de invasão doméstica costuma ser examinada pela chave do mistério fantástico, contudo a força desses relatos reside na matéria física dos ambientes. Quando uma família perde o acesso aos seus corredores, o drama transcorre na redistribuição da mobília e na perda de espaço vital. Cortázar constrói seu conto Casa Tomada como um exercício de arquitetura defensiva, onde a rotina dos moradores vai se afunilando à medida que as trancas são passadas. A chave lançada pelo bueiro no final da narrativa marca o momento exato em que a casa deixa de servir ao abrigo e se converte em estrutura alheia, fechada para sempre sobre suas próprias memórias.

No Brasil, Lygia Fagundes Telles trabalhou com precisão equivalente os limites da clausura doméstica. Nos seus contos ambientados em velhos sobrados paulistanos, os objetos da casa funcionam como testemunhas de uma decadência social que se arrasta sem alarde. Os relógios de parede que batem horas desiguais, as cortinas pesadas de veludo escuro e os bufês de nogueira onde se guardam louças de família incompletas desenham um cenário de imobilidade. Em Seminário dos Ratos, a marcha dos roedores sobre a mansão governamental ocorre pela ocupação gradual e silenciosa dos sótãos, das tubulações e dos cantos escuros do teto, reduzindo a autoridade dos homens ao pânico dos que perderam o controle dos cômodos.

O que aproxima a prosa de Cortázar da ficção de Lygia é a recusa do espetáculo sangrento. O pavor nessas páginas nasce da percepção de que a casa, construída para proteger a linhagem e o patrimônio, pode expulsar seus donos sem que nenhuma parede seja derrubada. Resta apenas o barulho de uma chave girando na fechadura pela última vez, a certeza de que certos cômodos jamais serão reabertos e a imagem das pessoas caminhando pela calçada de sapatos leves, carregando no bolso apenas o ar frio da noite.

ProfissionalServiçosTagsContatoVer
Comentários ver
Ainda não tem comentários.
Entre para comentar.