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Por que uma mentira coletiva sobrevive mesmo quando todos a conhecem?

Coordenação, interesse e o custo individual de abandonar uma ficção compartilhada

avatar por Latus Lone Franco
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Uma mentira coletiva não depende necessariamente de que todos acreditem. Pode sobreviver porque cada pessoa espera que as outras continuem agindo como se fosse verdadeira. O comportamento comum produz uma aparência de convicção. Alguns participam por interesse, outros por medo e muitos por cansaço. Há quem tema perder posição, quem proteja a família e quem conclua que o esforço de contestar não mudará nada. Motivos diferentes sustentam a mesma fachada.

Essa coordenação torna a mentira resistente. A primeira pessoa a se afastar assume um risco maior do que aquelas que observam. Mesmo quem conhece o mecanismo pode decidir segurar a cortina porque não sabe o que acontecerá se soltá-la sozinho. A repetição também cria fatos secundários. Empregos, ritos, reputações e punições passam a depender da narrativa original. Com o tempo, desmontar a mentira ameaça estruturas reais, o que permite defendê-la sem voltar a discutir sua verdade.

A literatura revela esse paradoxo ao mostrar personagens lúcidas que ainda colaboram. Essa escolha não precisa ser tratada como simples covardia. Pode nascer de uma avaliação racional dentro de um sistema que distribui riscos de forma desigual. Por que uma mentira coletiva sobrevive mesmo quando todos a conhecem? Porque saber individualmente não basta. É necessário criar uma forma segura de interromper, em conjunto, a ação que continua dando corpo à ficção.

Este ensaio integra a revista Formigueiro e dialoga com Religião das Formigas.


Publicado na revista Formigueiro em 30/07/2026 às 22:30.

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