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Quem se acha autorizado a revisar o desejo de uma mulher?

Autoria, consentimento e o direito de escolher a própria linguagem

avatar por Miranda Reis
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Há uma diferença decisiva entre revisar uma frase e tentar corrigir o desejo que ela contém. A primeira tarefa pertence ao trabalho editorial. A segunda costuma aparecer disfarçada de cuidado, bom gosto ou proteção, mas quase sempre revela uma disputa de autoridade.

Quando uma mulher escreve sobre desejo, parte da leitura pública tenta transformar a ficção em confissão. A personagem passa a ser tratada como prova biográfica. A escolha de uma palavra vira autorização para investigar a intimidade da autora. O texto deixa de ser recebido como construção literária e passa a ser usado como uma janela que alguém acredita ter o direito de abrir. Editar não deveria significar domesticar. Uma boa edição pergunta se a cena alcança o efeito pretendido, se a linguagem está precisa, se o ritmo sustenta a tensão e se as relações de poder estão inteligíveis. Ela não substitui a intenção da autora por uma versão mais confortável para quem lê.

O consentimento também existe no campo da autoria. Ele aparece na possibilidade de escolher o que revelar, o que inventar, o que deslocar e o que manter fora da página. Uma obra pode ser explícita sem oferecer acesso irrestrito à pessoa que a escreveu. Pode narrar um corpo sem entregar o corpo da autora à curiosidade pública.

O leitor tem o direito de se aproximar, discordar, abandonar o livro ou se reconhecer nele. Não tem o direito de confundir leitura com posse. A crítica literária começa quando considera as escolhas do texto. Ela se perde quando decide que conhece a mulher por trás dele melhor do que a própria mulher.

Talvez a pergunta mais honesta diante de uma cena de desejo não seja “isso aconteceu com você?”, mas “o que esta cena está construindo?”. A mudança parece pequena. Na verdade, ela devolve à autora aquilo que nunca deveria ter sido retirado: o direito de narrar sem ser convertida em evidência.

Este ensaio integra a revista Quem Narra o Desejo? e dialoga com o romance Depois do Décimo Segundo.


Publicado na revista Quem Narra o Desejo? em 11/08/2026 às 08:56.

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