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Romance em Construção

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Confesso que estou me conhecendo melhor enquanto escrevo. Existem momentos de trava, desafios e uma rotina que preciso cumprir para além da escrita, mas, para começar, vamos para uma conversa franca.

Eu ainda não escrevi nada que, de alguma forma, não me atravessasse. Seja pela vivência ou por aquele cutucão que a vida deixa, um incômodo e uma vontade de colocar para fora algo que parece que só vai nos deixar em paz depois de ser expelido. São sensações e epifanias que vêm sem endereço ou cartas marcadas. Já escutei algo a respeito e ainda não me aventurei a sair dessa zona de conforto chamada bagagem. Então, de certa forma, transformo minhas experiências em escrita, ou aquilo que perpassa por mim de alguma maneira.

Delimitando esse ponto, que é a base da minha escrita até o momento, podemos partir para o próximo passo: a história e a motivação por trás dela.

Eu amo um drama. Gosto da sensação quase viciante que me causa colocar em palavras determinadas situações e acompanhar personagens cuja vivência, de alguma maneira, parece acontecer diante de mim. Existe movimento, conflito e decisões que eu posso conduzir para uma reação esperada, mas nem sempre é assim.

Às vezes, durante a construção, descubro uma parede onde não deveria existir uma parede, uma porta que não funciona como imaginei ou uma estrutura que exige uma mudança na planta. E é justamente nesses imprevistos que a obra começa a ganhar vida.

Tenho um eixo que sustenta toda a construção. Podemos chamá-lo de objetivo, conflito central ou fio condutor. É ele que me orienta durante o desenvolvimento da narrativa, mas não é responsável por decidir cada detalhe do que acontece dentro dela.

Os personagens precisam ter espaço para existir, escolher, errar e até mesmo contrariar aquilo que eu havia planejado. Algumas vezes sou eu quem os conduzo; em outras, são eles que me obrigam a voltar à planta e redesenhar alguma coisa.

Eu me permito construir para além do esperado.

Algumas das vivências que tenho ou experiências que vou adquirindo também me ajudam a assentar a fundação desse romance. São materiais que já estavam comigo antes mesmo de eu começar essa obra e que, de alguma maneira, encontro espaço para utilizar na construção.

Quando olhamos para além do objetivo principal de contar essa história, também podemos ver as paredes daquele romance surgirem. Peças que não estavam previstas na planta original aparecem como forma de adaptar a estrutura. Algumas das nossas necessidades diárias também fazem com que o projeto leve mais tempo nessa fase inicial.

A base desse romance é o alicerce dessa casa. Por que você decidiu escrever isso? O que existe nessa ideia que fez você querer construí-la?

Quando colocamos algo que já passamos na escrita, tornamos aquele lugar confortável e até mesmo seguro, deixando a base mais sólida para as paredes. Afinal, você já passou por determinadas situações e sabe como reagir a elas, mesmo que seus personagens não sejam você e não tomem as mesmas decisões.

O fio condutor de início, meio e fim será único e determinante para a narrativa, mas o caminho até lá pode ganhar curvas que não estavam desenhadas na planta.

Os personagens irão viver determinadas situações e você precisa colocar essas paredes em pé para dividir a casa em cômodos e fazer com que ela também seja funcional. Ou seja, a pessoa que for ler precisa saber, pelo menos, do que se trata, conhecer onde cada personagem pisa, onde terá permissão para realizar determinadas ações, com quem irá conviver e quais serão as reações dentro daquele espaço.

Já escutei falarem que, quando se escreve através de recortes de algo maior, a escrita se torna mais fácil e menos suscetível ao erro. Quando a história se reduz a um quarto, uma casa, e não ao bairro inteiro, você tem mais chance de trabalhar focada naquela perspectiva, como se fosse realmente um recorte dentro de algo maior.

Talvez seja por isso que gosto tanto dessa ideia de construção. Eu não preciso erguer uma cidade inteira para contar uma história. Preciso saber onde aquela casa está, quem mora nela, quem entra, quem sai e o que acontece quando essas pessoas dividem o mesmo espaço.

Depois que os personagens sabem quantos cômodos terão acesso e com quem vão conviver, as relações surgem, os diálogos aparecem e, então, vem o que eu amo: o romance. Um drama trazendo os conflitos dessas relações.

O que é interessante de perceber dentro dessa estrutura, e que aconteceu comigo nesse projeto, é que você pode planejar uma casa de um único pavimento, mas, diante das relações entre os personagens, perceber que alguns deles precisam de mais espaço. Então você retira determinadas figuras da planta original, dá foco a elas e começa a trabalhar em um segundo andar.

Assim, você terá personagens conhecidos, com histórias independentes, mas que você já conhece. Você sabe como são, como vivem e como convivem juntos. Conhece suas particularidades, seus conflitos e até algumas das marcas que carregam. Em um segundo andar, será mais fácil conduzi-los porque o alicerce já existe.

O alicerce já está construído e algumas paredes também, então essa nova parte da obra não começa exatamente do zero. Existe uma estrutura anterior sustentando aquilo que vem depois.

Ainda assim, não significa que será simples. Cada novo andar precisa conversar com o que foi construído abaixo dele, porque uma obra pode até crescer, mas não pode ignorar aquilo que sustenta sua estrutura.

O que vai demorar para cada um, mesmo, será a fase de acabamento. Essa etapa será importante e dará uma nova camada para o livro e, claro, dará vida àquela casa.

O romance, apenas com a história, não será suficiente sem os acabamentos. Cenários, diálogos, revisão e reescrita serão essenciais para que eu tenha certeza de qual parede ficará e qual precisará ser derrubada. Algumas partes precisarão de reforma, outras talvez precisem ser completamente refeitas.

E talvez essa seja uma das partes mais trabalhosas da construção: aceitar que algo que levou horas para ser levantado pode precisar vir abaixo.

Será de extrema importância para todo o projeto que a casa esteja sólida e habitável para não ruir. Aqui também teremos uma ferramenta importante: a criatividade.

Eu gosto de trabalhar esse ponto deixando a minha mente dialogar com os personagens. Eu só sigo escrevendo quando a solução encontrada seja plausível, engraçada ou até mesmo inusitada, como aconteceu aqui nesse livro.

Gosto de estudar determinadas ações e reações para depois pensar como aqueles personagens reagiriam a elas. Às vezes, uma pequena decisão muda completamente a disposição dos cômodos e eu preciso voltar à planta para entender o que aquilo significa para o restante da obra.

Escrever não tem uma fórmula mágica de sucesso que garanta que o projeto seja entregue e concluído dentro do prazo predefinido. A sua vida não obedece a uma única regra, e a sua escrita também não vai obedecer.

Uma obra também não acontece exatamente como imaginamos no primeiro desenho. Existem atrasos, mudanças, materiais que não chegam, paredes que precisam ser refeitas e imprevistos que simplesmente não estavam previstos no orçamento da construção.

Com um livro não é diferente.

A única coisa que eu sei e tenho certeza durante toda essa construção é que o meu processo não é diário, mas a persistência está comigo todos os dias.

Aqueles personagens não me deixam esquecer suas histórias e muito menos os motivos de eles existirem. O objetivo principal precisa ser alcançado. Afinal, a casa precisa ficar pronta.

Mas talvez o mais importante seja entender que uma casa não precisa apenas estar pronta. Ela precisa estar viva.

Precisa ter marcas, janelas, portas, lugares de encontro, espaços de silêncio e, principalmente, alguém que queira entrar.

É isso que espero construir com esse romance.

Eu, como arquiteta da escrita, posso escolher os materiais, desenhar a planta, erguer algumas paredes, derrubar outras e passar horas tentando descobrir onde determinada porta deveria estar.

Mas, no final, quem decide se essa casa se tornou um lugar para ficar é o leitor. Por isso eu escrevo e construo casas.

© 2026 Alessandra Q Giannetti. Este texto é protegido por leis de direitos autorais. A reprodução total ou parcial não é permitida sem a autorização expressa do autor.

Assinatura visual da publicação original de Alessandra Q Giannetti

Publicado originalmente em Epifania poética, no Substack de Alessandra Q Giannetti.

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