Sou o cerrado
Cerrado,
Esse solo seco, árido
Arde solo...
Dos olhos,
Nascentes dos quais
Brotam lágrimas
Quentes, salobras
Triste, triste...
Nos sonhos,
Aninhados bichos
Com fome,
À espera de comida
A vida, a vida
E então,
Consumido pelas chamas
Jaz o cerrado,
Triste, triste...
A mãe que volta
Ao ninho e encontra
A vida morta,
Ou nem encontra
Apenas sabe...
Sente ou, ao contrário disso
Nem sente...
Vazio, ausência, oco...
E então, chove.
Um dia chove...
E eu te esperei
A chuva veio
Lavou, levou, livrou,
Matou...
Mas um matar, de viver
Matou a sede,
Matou a morte...
A chuva veio
E em meio às cinzas...
A vida nascente...
E as lágrimas,
São de recomeço.
Olho para dentro
E o que estava
Cerrado, se abre
E verde... e cor e flor
A vida se rende
Inteira, de uma inteireza
Que só a vida é capaz
E canta e dança e passaros...
O cerrado se veste
De vida, por todas as janelas
Escancaradas.
E me lembro da dor,
Do fogo da morte
E sorrio chorando
Sou rio...
Com a mesma alma
Que o cerrado...
Nada Floresce sem chuva...
Nada, sem amor