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@tibianchini há 1 ano
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O Caso de Paixão Mal-Correspondida do Mecânico pela Dondoca Dona da Loja de Carros Antigos

Oba! Vi que agora os textos podem ter até 5 mil caracteres... Então dá pra postar muita coisa que eu não conseguia...

Não vou conseguir mais postar todos os dias... Mas quero aproveitar pra postar um texto engraçadinho (quem quem conhece carros antigos vai se deliciar).

O Caso de Paixão Mal-Correspondida do Mecânico pela Dondoca Dona da Loja de Carros Antigos

Amo-te. Quando passas por aqui, a abanar o rabo
Do teu Cadillac rubro – a seduzir-me qual um diabo
Ou qual um anjo louro a levar-me ao céu;
Ao ir-e-vir, sempre num bólido diverso,
A inspirar-me cânticos de amor, e versos,
A passar em alto giro, e a cantar pneu:
Vejo-te voltando num Corcel.

Sim, amo-te!... E sou mais que um reles amante:
Quando por mim passas dando gás na Variant
Eu compreendo os teus anseios de menina:
De alçar-se a um sonho de aventura bem maior;
Chegar ao êxtase a bordo de um Simca-Chambord
Ao ansiar que te apertem a buzina:
Volta você, pilotando uma Belina.

Mas nem me dá bola: espia-me pelo espelho
Retrovisor do teu Mustang vermelho,
Como a mostrar-me que não és para um qualquer;
E, ao voltar das festas dentro de um Róis-Róis,
Me deixas claro a distância entre nós;
Me mostras tudo o que eu desejo em uma mulher.
Manhã seguinte, me apareces num Bell’Air.

Ah, como sofro! É um sentimento tão raro
Que, ao esnobar-me às rédeas do teu Camaro,
Me fazes sofrer, e o sofrer é mais que a morte;
O meu sofrer sucumbe a um ronco de motor
Pois é impossível que se padeça de amor
Sem que a vida não nos reserve melhor sorte.
Não obstante, passas batido num Escort.

Oh, sim, eu sofro! E por sentir-me tão só,
Eu te desejo, quando vais num Marajó,
Como eu desejo um romance casual!
No teu Aero-Willis de bancos de couro,
Beijar-te e acariciar teus cabelos d’ouro,
Mostrar que amo-te mais do que qualquer mortal!...
Mas vens e quase me atropelas com um Landau.

Se um Gordini passa, eu penso: “É você!”
Numa Brasília, uma TL ou DKV,
E isto basta a disparar-me o coração;
Mas, se me olhasses, de dentro de um Mawerick,
Se me sorrisses, minha mágoa iria a pique,
Se me chamasses, se me olhasses, mas, não...
Lá vem você, guiando um Zé-do-Caixão.

“Meu Deus, eu a amo, e sempre irei amá-la!”
Exclamo eu, ao ver-te dentro d’um Impala
A acelerar e desprezar-me à distância;
Mas eis que ouço um grande estrondo, e olho a rua
E vejo vir, depois de instantes, uma perua,
Uma perua que destrói tua arrogância:
Te vejo vir numa perua da ambulância.

Me desprezaste demais; amei-te um dia,
Quando à minha frente acelerava um Kharmann-Ghia,
Mas por não ter visto o Scania na direção contrária,
E por pisar demais no da direita,
Foste além do meu amor, e ora deita
Nos fundos d’uma Veraneio funerária.
(Otária!)

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