@rafaelaraujoescritor
há 5 meses
Público
O VELHO IPÊ AMARELO
No alto da velha árvore, o ipê brilha à luz do sol.
De repente, uma folha se solta.
Gira pelo ar, lentamente.
Rodopia.
Sussurra nos ouvidos do vento.
Desce, deslizando… em silêncio.
Quase toca o chão, mas cai na vasilha de margarina
onde os pássaros e o cão bebem.
Outra folha cai.
Treme, hesita,
curva-se,
rola leve.
Seu desespero pelo novo é ouvido apenas pelo vento,
que a acaricia.
Ela beija a relva úmida.
Mais uma se desprende.
Brilhando ao sol, dourada.
Essa, o vento guarda.
Como quem busca perdão.
A folha voa,
roda,
gira,
e então encosta no musgo.
E outra, ainda.
Velha, mas também nova.
Cai lentamente,
saboreando cada instante.
Se curva.
Em silêncio.
Descansa no chão entre tantas outras.
O ipê as observa.
Nu.
Mas ainda resplandece.
Mais uma missão cumprida:
as folhas caídas, ouro espalhado,
felicidade que o tempo jamais levará.
Da esquina, surge um menino,
o mesmo da capa amarela, saltitando.
Pisoteia as folhas secas.
Elas voam,
rodopiam,
tremem,
e parecem rir com ele.
Sua mãe o observa,
não tão longe.
O vento brinca em seus cabelos.
As folhas giram,
cintilam,
abraçam a capa amarela
e o menino, radiante.
A mãe, com o sorriso no rosto,
retira do bolso um objeto azul.
Brilha. Estranho. Fascinante.
Ela sorri para o menino,
encantada.
E ele sorri de volta.
E parece que ela captura esse sorriso
no estranho objeto.
Ao fim, as folhas dançam entre os pés dele,
entre o sol e o musgo.
O ipê, nu, resplandece ainda.
O instante é ouro.
O instante é voo.
O instante escorrega entre os dedos.
Rafael Araújo
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