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@acborges há 2 semanas
Público
Existe uma obsessão estranha por personagens “curados”.
Todo mundo quer redenção, arco limpinho, terapia emocional em três atos.
Como se gente interessante só pudesse existir depois de resolvida.

Só que vida real não funciona assim.
E leitura, quando funciona, também não.

Alguns personagens não vêm pra ensinar lição.
Vêm pra mostrar contradição.
Vêm pra errar bonito, repetir padrão, amar mal, fugir quando deveria ficar.
E mesmo assim — ou justamente por isso — grudam na gente.

Talvez o desconforto venha daí.
Personagem honesto espelha coisa que leitor prefere fingir que não faz.
Personagem curado é seguro. Personagem cru é espelho.

Na comédia romântica, isso fica ainda mais evidente.
Nem todo final feliz precisa parecer palestra emocional.
Às vezes o que emociona é ver alguém que não virou exemplo,
mas virou possível.

Livro não é clínica.
Personagem não é projeto de melhora pessoal.
E leitor nenhum precisa sair “melhor” de uma história.
Só mais envolvido.

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