Sinopse: “O mar é uma pista de dança é poesia que mergulha nas profundezas do oceano para trazer à tona versos que ecoam a imensidão das emoções humanas. Suas poesias, vastas como o mar, misturam o misterioso e o profano, explorando amores, sonhos, temores e ambições com sensibilidade e imaginação. Como uma sereia que canta nas profundezas, convida o leitor a se perder em suas palavras, que fluem como ondas, ora suaves, ora arrebatadoras, transformando o amor e a vida em algo sublime. Esta obra é um convite à dança entre a fantasia e a realidade, um canto que ressoa no fundo da alma, chamando-nos para mergulhar em suas águas poéticas”.
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Meu avô sempre dizia que o ano começa no primeiro surdo. Foi ele quem me ensinou a amar o carnaval e suas ruas abarrotadas de risos.
Durante anos, dancei com uma flor presa no peito, que tinha nome e perfume. Era a porta-bandeira do meu exagero.
Este ano eu fui de abelha sem flor.
O luto perpassado de amarelo berrante, asas de plástico, ferrão improvisado com cartolina, zumbindo pelas esquinas, cantando marchinha:
“Ô jardineiro, prepara o canteiro, que o meu amor anda sumido no meio do cheiro!”
Nos primeiros dias eu procurava a flor. Entre serpentinas e confetes grudados no suor, imaginava que ela podia brotar de trás de qualquer máscara.
Beijei uma Dália elétrica, toda pintada de glitter azul, que falava alto e ria com a cabeça jogada para trás.
Passei a madrugada com uma Orquídea delicada só na aparência, que sabia o nome das próprias pétalas e não tinha medo de desabrochar na cama improvisada do hotel barato.
Teve também uma Margarida distraída, que me ensinou que arrancar pétalas é um jeito antigo demais de decidir.
Mas as flores me pareciam tão murchas. Talvez por excesso de sol, talvez por excesso de mim.
E, ainda assim, em algum momento entre um bloco e outro, percebi que estava feliz porque o meu corpo, finalmente, parava de perguntar onde estava a flor e começava a perguntar onde eu estava.
O carnaval acabou. Saí sem asas. Foi estranho como o silêncio depois do último tambor.
Se fosse marchinha, seria assim:
“Abelha sem colmeia Voando em torno de mim quem perde a primavera descobre que também é jardim.”
querido Papai Noel eu sei que a escola pediu para a gente escolher um presente podia ser boneca cozinha de plástico ou aquelas coisas de menina que todo adulto fala sorrindo como se eu tivesse prometido alguma coisa pra eles antes mesmo de nascer
mas eu queria mesmo era virar super-herói
não de capa (acho que engancha nas quinas da mesa) não de salto alto (minha tia disse que toda mulher precisa aprender) não de sorriso paciente que aguenta tudo igual vi minha mãe engolir ontem quando o mundo dela caiu dentro de uma pia cheia de louça
eu queria poder salvar gente inclusive eu
não quero casar cedo nem carregar bebês antes de carregar meus próprios sonhos não quero limpar o chão dos outros enquanto sujam o meu nome nem quero ser chamada de exagerada quando disser que dói
querido papai noel sei que isso talvez não caiba no trenó me disseram que menina nasce sabendo cuidar mas eu só sei correr rápido e pensar coisas enormes e sentir um fogo bonito no peito quando imagino que posso voar para longe de tudo o que querem que eu seja
se não der pra me dar superpoderes pode me mandar só uma coisa então: um amanhã onde ninguém diga que eu nasci errada
porque eu juro papai noel eu juro que só queria sentir a espada cortando o braço peludo que tentou passar a mão na minha bunda no dia do meu aniversário
eu juro que eu só queria salvar o mundo antes que o mundo me engula.
a Cilene transformou sensações em poemas! agora, época de primavera, bate a saudade da praia, de ouvir o mar (já falei por aqui que sou rainha de dormir ja praia?) e com ela, todos os sentimentos que rebatem feito ressaca.
tive uma sensação intensa ao ler a Cilene: parecia que aos poucos, se abriam lugares — ou melhor, conchas de sentimentos. eu me senti fazendo parte de um dia daqueles de praia que vamos sem intenção nenhuma, só olhar o mar (e talvez sentir a água batendo no pé e ele afundando com as conchinhas?) no fundo, uma conversa que vira papo, vira aconchego, vira onda.
me surpreendi que não foi só verão gostoso, intenso e feliz: muitos poemas retratam a solidão, o confuso dos sentimentos — aquilo que ainda estamos aprendendo a nomear, a saudade de alguém e ao mesmo tempo, querer novas brisas.
é belo ver como a maresia é poesia e a imensidão dos sentimentos humanos: seja na chuva, no frio, no sol, na ventania: a gente faz nossa própria dança nesse mar. o importante é a gente se permitir desaguar e nunca pedir desculpa por isso, ser intenso dói, mas também é gostoso demais! 凉
recomendo muito pra quem quer quebrar um pouco o olhar dos prédios de concreto e se dar uma chance de sentir pela poesia da Cilene.
Comecei cedo a faxina decidida a pôr ordem em tudo: no armário, nos papéis, nas fotografias, na poeira dos cantos, no chão do quarto. Uma mancha vermelha escorria do assoalho em um pulso próprio.
Fiquei do joelhos e contra-atacamos - éramos um time: eu e o balde, água e sabão. Esfreguei até os nós dos dedos arderem. O líquido pegajoso sumia, mas logo voltava - mais vivo, mais escuro. Substituí os jogadores. Tentamos desinfetante, vinagre, álcool de posto que usava para limpar os espelhos. A cada produto, um breve alívio: o horizonte de uma superfície inócua. Porém, bastava levantar os joelhos e o líquido retornava, insistente, zombando de mim.
Exausta, chorei sobre aquele chão. Minhas lágrimas mal se misturaram ao vermelho plasmático. A mancha não desistia. Meu time sucumbiu. Eu, ali, ajoelhada em prece há horas e a mancha cuspia de volta o que eu tentava apagar.
Deixei-a. Deitei naquele chão, quem sabe se ignorar, ela vai embora. O vermelho, no entanto, escorreu-se rapidamente para todos os cômodos. A mancha estava vencendo, ela me afogaria contente, ali, sem memória de minha posição fetal.
Um jogador que assistia do banco, me ativou uma ideia - completamente desesperada, alucinada, uma última tentativa: um acendedor de velas quebrado na minha cômoda. Convoquei novamente o álcool - definitivamente não era uma partida normal, dava pra substituir as tentativas quantas vezes eu aguentasse. Molhamos a cortina, os lençóis da cama, o abajur, o pufe de crochê feito pela minha bisavó… eu e meu jogador que, esgotado, pediu pra sair. Ah! Mas tinha ainda meia garrafa de Vodka, que não dei conta na noite passada. Substituição! Absolutamente para a sala. Taquei, também, o Gim na cozinha. Obrigada meninos, vocês jogaram muito bem!
A torcida na minha cabeça gritava o nome dele. Era chegada sua hora. Já estava fora da gaveta, no aquecimento, sobre a pia. Acompanhei-o até a porta, na beira do campo. Enquanto ele alongava a cabeça, orientei: “vai com tudo, artilheiro”. Risquei o fósforo.
O fogo subiu em espirais, queimando madeira, paredes, cortinas, lembranças — queimando também a esperança.
Do lado de fora, os vizinhos viam apenas uma casa em chamas. Por dentro, era o meu coração que ardia, e, infelizmente, ainda escorria em meus seios, incapaz de se limpar, condenado a sangrar para sempre. Perdi outra vez. —————————————— Cilene Resende @seria.uma.sereia
todo dia acordava, tomava café, amarrava o cabelo, calçava o tênis, passava pelo mesmo portão que rangia arrancava uma florzinha azul da trepadeira que disfarçava o muro descascado, cumprimentava o senhor do chapéu que nunca responde e seguia para o parque
bom dia, dormiu bem? quais são os planos para hoje? vai dar certo. Já deu to com saudade te amo
amava esse caminho ele era só meu, ninguém sabia eu era só dele, ninguém sabia
mas um dia a rua estava fechada placa amarela, fita vermelha, nenhum caminho e o amor não soube para onde ir
danças como quem teme o chão ainda que flertes com o abismo enquanto giro no compasso de um peito exposto, com a pele pronta com o ventre disposto à vertigem dois pra lá e dois pra cá,
quente, úmida, úmida, quente,
como febre suando meu corpo conduzido pela sua mão coletora de gotas que percorrem o escorregador de minha coluna arrepios com o som do ritmo secreto do nosso beijo aflora o desejo de uma coreografia antiga
danças como quem teme o chão ainda que flertes com o abismo enquanto giro no compasso de um peito exposto, com a pele pronta com o ventre disposto à vertigem dois pra lá e dois pra cá,
quente, úmida, úmida, quente,
como febre suando meu corpo conduzido pela sua mão coletora de gotas que percorrem o escorregador de minha coluna arrepio com o som do ritmo secreto do nosso beijo aflora o desejo de uma coreografia antiga
gemes, no entanto, hesitas hesitas, no entanto, gemes
seria o carma da bailarina, confiar sua vida a quem não sabe dançar?
Ela tocou a taça no queixo porque precisava do toque. O vinho tingia o cristal como um presságio. Os olhos dele, mesmo do outro lado da tela, tiravam suas roupas com mais precisão do que mãos ousadas. “Você sempre me põe alguma vontade”, ele dissera. “Qual a de hoje?”, ela provocara, já imaginando que leria uma boa resposta no calor que subia pelas coxas.
A mensagem chegou como um sussurro que atravessava o vidro: “Começa com mergulhar os dedos na tua taça, depois na tua boca, te olhando os olhos de muito perto.”
Ela sentiu a boca se entreabrir, não pela surpresa, mas pela antecipação. O dedo úmido do vinho poderia ter sido dele, roçando seu lábio inferior, empurrando devagar para dentro, como quem oferece um segredo para ser guardado entre dentes e saliva.
“Essa carinha de reação é bem como pensei a sua boca mesmo”, ele completou.
Ela respondeu com um “hmmmm”, mas seu corpo inteiro falava outras línguas, outras urgências.
E então ele afundou mais fundo nas palavras: “Se viesse um gemidinho assim, iriam também outros dois dedos na tua boceta, sem tirar os da tua boca e ainda te olhando os olhos de muito perto.”
A cena se desenhava perfeita em sua mente — os olhos fixos, os dedos orquestrando uma dança entre lábios e carne pulsante. Ela respondeu com um arrepio e uma confissão: “que cena perfeita.”
E ele seguiu, sabendo que já não havia como parar e nem queria recuar: “Os dedos todos e os olhos todos continuariam, até você gozar. Sem outro toque, sem mais proximidade do que estar perto, te olhando e tocando a boca e a boceta por dentro.”
Ela adorou a maldade dessa ideia, mas desafiou: “Será que consegue? Ficar longe?”
“Consigo”, ele disse. “A visão do teu corpo a essa curta distância e os teus movimentos… Eu seria capaz de te olhar assim muito tempo. Mas nem acho que seria preciso tanto tempo até você gozar.”
“Não, não seria”, ela admitiu mais rapidamente do que deveria.
E ele concluiu como quem sela um feitiço: “O movimento do teu quadril, bicando nos meus dedos. Aqui, só a construção da cena me põe vontade de um gozo. Imaginar também o teu corpo ao ler, aumenta minha vontade.”
Ela fechou os olhos, imaginou o tamanho e a dureza da vontade, sendo empurrada para dentro de si.
E isso arruinou qualquer chance de um minuto a mais. Gozou com força e vazio. Sem vergonha e sem pele. Ali mesmo, entre letras, vinho e desejo teleguiado.