@jennyrugeroni
Público
Eu tenho dois filhos. Um deles já me chamou pelos apelidos mais doidos que se pode imaginar. Vive me abraçando, conta seus segredos, prepara as refeições e me leva para passear de carro quando eu sinto dor. O outro me chama invariavelmente de mãe. É mais comedido nas demonstrações de afeto, paga a faxineira para eu poder descansar, me presenteia com tudo quanto é novidade em eletrodomésticos. Eu amo os dois, incondicionalmente. E aprecio a maneira como cada um demonstra seu amor.
Da mesma forma, penso que não existe somente uma maneira de se conectar com o sagrado. E que Deus está acima de todas as diferenças, compreendendo a ignorância humana, nos amando incondicionalmente.
No Rio, estivemos no Cristo Redentor, um passeio imperdível para quem visita a cidade. Voltando de lá, falamos de visitar o santuário do Zé Pelintra. Então o motorista do Uber colocou uma música evangélica para tocar. Meu filho não deixou barato. Me cutucou e disse: não se esqueça que amanhã é dia da sua Mamãe Oxum. Depois disso, o motorista parou de falar com a gente. É uma pena. Visitando os dois lugares, tive uma sensação de amor, respeito e plenitude. Eu me emociono com um canto gregoriano e choro com os pontos cantados, que trazem ainda os sofrimentos da escravidão, e o senso de união que torna possível resistir e sobreviver. Aquilo que é sagrado para qualquer um de meus irmãos, também é sagrado para mim.
Convivendo com uma mãe evangélica, um pai ateu e uma madrasta católica, aprendi que respeito e bondade não estão limitados a determinados rótulos. E assim como a personagem Cacau Damasceno de "Insubordinada", quando me perguntam por que escolhi a umbanda, respondo que lá eu me sinto acolhida. Que nunca ninguém vai me dizer que eu preciso me casar, ser submissa ou usar esta ou aquela roupa. Que basta fazer o bem, da maneira que eu puder e dentro das minhas condições. Que no final, é isso que Deus quer de nós. É isso o que realmente importa.