Capítulo 06 — Subsolo
“Eu não estou te dizendo não pra você. Mas o meu jogo é aqui. Lá fora, as regras mudam. E eu não jogo fora do tabuleiro.”
Sinto a tensão no meu maxilar relaxar milimetricamente, mas o meu olhar continua fixo em nela, pesado e analítico. A voz calma agora faz sentido; não era um desprezo vazio, era uma negociação de território. O fato dela querer continuar o jogo, mas sob as condições dela e dentro do ambiente onde ela se sente segura, me desperta uma curiosidade sombria.
Wie unverschämt.Ela não quer ser levada, quer ser convencida.
Solto uma risada baixa, um som que vibra no meu peito com uma satisfação que eu não pretendia demonstrar tão cedo. Dou um passo para trás, apenas o suficiente para quebrar a jaula física que eu tinha montado ao redor dela, mas mantenho a dominância da minha postura.
“Então você gosta da adrenalina de ser descoberta” sussurro, meus olhos percorrendo cada centímetro do rosto dela, parando na sua boca ainda inchada. “Gosta de saber que, a qualquer momento, alguém pode puxar aquela cortina e encontrar você exatamente como está agora: nua sob esse brilho prateado e à mercê do que eu decidir fazer.”
Passo a mão pelo meu cabelo, ajustando os fios que ela desalinhou, e volto a me inclinar, apoiando as mãos nos joelhos enquanto a encaro.
“Quer mais privacidade sem sair do Le Masque?” Arqueio uma sobrancelha, um sorriso cínico voltando a desenhar meus lábios. “Este lugar tem salas que fariam esse camarote parecer um jardim de infância, morena. Espaços onde o som da música não chega, mas o som da sua pele contra a minha ecoaria por horas.”
Estendo a mão novamente, mas desta vez espero. Meus dedos ficam a centímetros da sua pele, oferecendo o convite que ela acabou de renegociar.
“Se o seu problema é o "lá fora", eu aceito o seu "aqui dentro". Mas não se engane... mudar de sala não vai mudar o fato de que eu pretendo terminar o que comecei. Na verdade, só vai me dar mais tempo para planejar como eu vou tirar cada gota dessa sua calma até que você esqueça que esse clube sequer existe.”
Meus olhos brilham com uma promessa perigosa.
“Vamos? Ou você vai ficar aí sentada, esperando que eu implore? Porque eu garanto que a minha paciência para negociações tem um limite, e você está perigosamente perto de atingi-lo.”
Observo o movimento que ela faz com uma atenção predatória. Ela não precisou do meu apoio pra levantar; aceitou minha mão apenas para manter o contato, para sustentar o jogo. A forma como ela se levanta, com essa agilidade e força que denunciam um controle absoluto sobre o próprio corpo, me faz apertar o maxilar.
Quando ela desce o vestido prateado, cobrindo aquela nudez que ainda queima na minha memória, sinto uma pontada de possessividade que beira o irracional. Eu queria que ela ficasse ali, exposta, mas a confiança dela ao passar por mim é um desafio que eu não posso ignorar.
“Depois desse orgasmo eu não esperava menos que isso.” Ela diz, e o som da sua voz, agora recuperada, é como um estalo de chicote no silêncio do camarote.
Solto um riso baixo, carregado de uma arrogância sombria, enquanto a sigo de perto, sentindo o perfume do seu desejo ainda impregnado no ar. Minha mão se apoia na base das suas costas, sentindo o relevo das lantejoulas, guiando-a para fora da cortina de veludo.
“Você fala como se já tivesse ganho a guerra, morena” sussurro rente ao seu ouvido, enquanto atravessamos o corredor superior. “Mas o ‘excepcional’ pra mim é apenas o ponto de partida. Se você acha que um orgasmo foi o suficiente para entender do que sou capaz, você está redondamente enganada.”
Paro ao lado de um dos seguranças do clube que vigia a entrada das áreas privadas. Faço um gesto seco com a cabeça e ele imediatamente se afasta, abrindo caminho para uma escadaria de serviço que leva aos níveis inferiores do Le Masque, longe dos olhos curiosos da pista principal.
“O subsolo deste clube tem segredos que combinam muito mais com essa sua falta de calcinha do que um sofá de couro” digo, minha voz descendo um tom, tornando-se uma promessa perigosa.
Paro diante da porta de metal pesado no final da escada, girando a maçaneta e revelando uma sala iluminada apenas por luzes vermelhas profundas, com paredes de pedra exposta, uma única poltrona e um isolamento acústico que transforma a música lá de cima em um batimento cardíaco distante e abafado.
“Entre” ordeno, dando um passo para o lado e indicando o interior da sala com um olhar fixo no dela. “Vamos ver se essa sua calma se mantém quando eu decidir que o seu ‘vício’ não vai ser alimentado apenas com os meus dedos.”
A luz vermelha da sala cai sobre o rosto dela, acentuando cada linha da sua expressão e o brilho desafiador nos seus olhos. O modo como ela entrou, sem hesitar, sem se intimidar com o som da porta de metal se fechando com um estalo seco atrás de nós, me faz querer quebrar cada uma das minhas regras de autocontrole.
Eu dou um passo lento para o centro da sala, retirando o meu paletó e jogando-o sobre uma bancada de mármore lateral sem desviar o olhar do dela. Fico apenas de camisa branca, com as mangas já dobradas, revelando a tensão nos meus antebraços.
“Você parte do princípio que eu estou jogando pra ganhar. Mas a verdade é que eu não me importo de perder a guerra se a batalha for boa…” ela olha diretamente no fundo dos meus olhos quando termina de falar.
Ela não recua.
"’Perder a guerra’, morena” Repito a frase, minha voz saindo como um sussurro profundo e rouco que ecoa nas paredes de pedra. “Você fala como se fosse dona do tabuleiro. Mas quem hierarquia esse espaço aqui? Eu. Quem decide o ritmo? Eu. A sua rendição não é uma meta política, morena. É um fato que você já selou ao aceitar o meu convite aqui para cá.”
Caminho em sua direção, diminuindo o espaço até que eu possa sentir o calor que emana do corpo dela, o mesmo calor que eu senti nos meus dedos há poucos minutos. Paro a uma distância que a faz erguer o queixo para sustentar o meu olhar.
“O problema de focar apenas na "batalha" é que você ignora quem está comandando o campo. Eu não sou um soldado em busca de diversão. Eu sou o estrategista que garante que, no final da noite, você não vai apenas se lembrar desse momento... você vai precisar dele para conseguir respirar.”
Minha mão sobe, lenta e deliberada, e eu traço a linha do pescoço dela com o polegar, sentindo a pulsação ainda errática sob a sua pele.
“Você diz que não se importa de perder. Ótimo. Porque eu pretendo te fazer perder tudo. Sua calma, sua pose, e essa sua ideia de que pode sair daqui sem levar a minha marca.” solto uma risada sombria, carregada de uma promessa que faria qualquer outra mulher recuar.
Me inclino, deixando meus lábios roçarem a orelha dela, onde o calor é mais intenso.
“Eu vou te mostrar que o meu conceito de ‘bom’ é algo que a sua imaginação sequer começou a processar.”
Seguro cintura dela com uma força possessiva, puxando seu corpo contra o meu de forma brusca, querendo que ela sinta a rigidez do meu desejo contra o seu ventre. Ela continua me encarando com um olhar insolente.
“O que você vai fazer agora, já que a guerra está perdida? Vai continuar me encarando com esse orgulho ferido ou vai admitir que essa sua ‘batalha’ está prestes a se tornar a sua maior derrota... e que você mal pode esperar por isso?”
“A maior derrota eu ainda não sei, mas que eu mal posso esperar…”
Sinto um solavanco no peito, uma descarga de adrenalina tem tudo a ver com o perigo que ela representa. A forma como ela diz isso, de maneira lânguida, quase sussurrada, é o combustível final da minha paciência. Ela está me entregando as chaves do castelo dela com um sorriso de deboche, e eu pretendo derrubar cada uma dessas muralhas.
“Você não faz ideia do perigo que corre ao admitir isso. Porque agora eu sei que você não é só atrevida. Você é voraz. E voracidade em doses erradas... é o começo de um vício do qual nem eu vou conseguir te livrar.” respondo, minha voz saindo tão profunda que parece vibrar nas paredes de pedra da sala.
Me aproximo dela com uma lentidão predatória. Minha mão sobe, o polegar pressionando o lábio inferior dela com força suficiente para revelar a umidade e o calor da sua boca.
Meus olhos, agora escuros como uma tempestade, fixam-se nos dela, devorando cada detalhe da sua expressão sob a luz vermelha.
“Se você mal pode esperar, morena, eu vou garantir que cada segundo dessa espera tenha sido uma tortura necessária.”
Subitamente, seguro nuca dela com uma das mãos, os dedos se enroscando nos fios do seu cabelo com uma possessividade que não admite protestos, enquanto a outra mão desce pela sua coluna com uma firmeza que a puxa para mais perto de mim. O tecido do vestido desliza contra o meu corpo, e eu sinto o calor da pele dela como se houvesse eletricidade entre nós.
“Você quer a batalha? Pois aqui estão as minhas armas.” Sussurro rente aos lábios dela, antes de tomar a sua boca novamente, mas desta vez não há nada de exploratório. É um ataque.
Empurrei ela contra a parede de pedra fria, sentindo o contraste do mineral gelado contra as suas costas e o calor febril que emana dela. Minha perna se encaixa entre as dela, forçando o seu vestido a subir novamente, expondo a sua nudez ao ar condicionado da sala.
“Eu não vou te dar um orgasmo dessa vez” rosno contra o pescoço dela, onde mordo o tendão pulsante. “Eu vou te dar uma necessidade. Vou fazer você desejar que eu não pare nunca mais, até que esse seu ‘não se importar de perder’ se transforme em um pedido desesperado para eu te dominar por completo.”
Desço minha mão livre para a base do seu ventre, sentindo o traço de pelos e a umidade que prova que ela está tão pronta quanto eu para o que vem a seguir.
“Me diz... você ainda consegue manter essa sua pose de quem não se importa, ou o seu corpo já está pronto para admitir que essa derrota vai ser a melhor coisa que já aconteceu com você?”
“Eu estou pronta pra admitir quando for a hora, mas as expectativas estão altíssimas.” Eu fecho os olhos involuntariamente quando sinto seus lábios no meu ouvido.
O som da voz dela, esse sussurro carregado de uma honestidade faminta, desestabiliza a última barreira da minha civilidade. Não há deboche no tom dela agora, apenas uma confissão de desejo que me atinge com mais força do que qualquer provocação.Ela elevou a aposta, e no meu mundo, quando as expectativas são altas, a entrega precisa ser absoluta.
“Ótimo” respondo, minha voz saindo tão rouca que é quase um som gutural. “Porque eu não trabalho com nada que não seja o topo. Se suas expectativas estão altas, morena, prepare-se para o choque de realidade... porque eu vou superá-las de um jeito que vai fazer esse seu corpo tremer por dias.”
╰┈➤ Glossário
Wie unverschämt.— Que atrevida.