Diva: Capítulo IX
Admirei-me, chegando, da ausência de convidados, e especialmente da família de D. Matilde.
-- Parece que não esperam ninguém mais -- respondeu-me o criado. -- O senhor mesmo janta na cidade.
Entretanto a casa, cujos reparos haviam completamente terminado, estava preparada como para grande recepção: notava-se em toda ela o ar de festa que expande a fisionomia dos edifícios como a das pessoas, porque os edifícios inspiram a alma daqueles que os habitam.
D. Leocádia veio receber-me.
-- Já sei que está muito curioso de saber o motivo deste jantar?
-- Creio que, apesar de não ser dos mais atilados, já o adivinhei!
-- Deveras! Vamos a ver!
-- É mais uma prova da sua bondade para comigo, e de seus repetidos obséquios...
-- Pois não acertou! Pretendíamos, logo que se acabassem as obras da casa, reunir aqui todas as pessoas da nossa amizade; porém mano José não entende destas coisas, Geraldo é uma criança... E nós queríamos saber a opinião de uma pessoa de gosto... Talvez note alguma coisa que não pareça bem!
Era um pretexto. D. Leocádia repetia a lição que recebera da sobrinha. O império dessa menina era tal que não impunha unicamente obediência às pessoas que a cercavam; obrigava-as a se identificarem com a sua vontade, anulando-se.
Emília apareceu. Na simplicidade extrema de seu trajo ela parecia apenas vestida, tal era o realce de sua beleza nativa, e a sobriedade dos enfeites; entretanto nunca roupas de virgem foram assim avaras de encantos. A beleza não se mostrava, transparecia.
Ela vinha, como sempre, coroada pela régia altivez, que era o gesto de sua formosura; porém nesse dia perpassava-lhe na fronte de ordinário tão límpida uma tênue sombra, de uma mágoa talvez.
Cortejou-me, não fria, mas séria; foi até a janela, e veio depois sentar-se ao piano. Enquanto eu continuava a conversar com D. Leocádia, suas mãos corriam lentamente pelo teclado, que exalava uns arpejos frouxos e dolentes.
D. Leocádia saíra um instante.
O piano calou-se, enfim. Eu vi Emília de pé no meio da sala, hesitando no passo que a devia aproximar de mim:
-- Perdoe-me! disse-me ela.
E a voz com que o disse tinha modulações sublimes.
-- Sei agora quanto o ofendi! Não sabia então quanto lhe devo! Minha tia contou-me...
-- A senhora nada me deve, D. Emília. Estou pago! Já recebi o meu salário. Foi o preço de uma gratidão que tanto a incomodava!
-- Não me diga isso! Seja sempre generoso!
-- Quem deve sou eu. Um doente rico tem à sua disposição todos os médicos e os melhores; mas, para um médico principiante e desconhecido, um doente que paga bem é uma fortuna!
-- Eu mereci estas palavras, porque fui má e injusta... Fui até sem delicadeza!... Mas se lhe confessasse... teria pena de mim!
-- Confessar-me o quê, D. Emília? perguntei comovido.
A tia voltava.
-- Logo!...
Ela articulou essa palavra, já calma e sem o menor vexame, com a voz tão clara, que D. Leocádia devia ter ouvido.
Eu ia de mistério em mistério. Que significava a estranha confidência de Emília? Que exprimia aquele misto de franqueza e reserva, de placidez e emoção?
Depois de jantar fomos correr a chácara.
A amabilidade, ainda cerimoniosa, mas doce, com que Emília me tratava, foi tão sensível que D. Leocádia a notou, apesar da sua constante bonomia.
-- Ah! Já fizeram as pazes? disse-nos a senhora. -- Muito bem!
-- Nunca estivemos mal, minha tia. Não nos conhecíamos; não é verdade? replicou Emília voltando-se para mim.
A maliciosa e gentil menina, que dirigia o passeio, andava de propósito com extrema rapidez para fatigar a tia: afinal o conseguiu.
-- Não posso mais! Estou muito cansada! murmurou D. Leocádia, deixando-se cair num banco de pedra.
Estávamos junto de uma cascatinha, onde tinham arranjado uma gruta, um pequeno lago e outros embelezamentos.
-- Venha ver a cascata! me disse Emília.
Acompanhei-a até a margem do tanque; ficávamos a alguns passos apenas de D. Leocádia, porém o rumor das águas que latiam entre as rochas abafavas nossas palavras. Emília esteve a brincar, com umas flores aquáticas que vegetavam nas fendas, saltando de pedra em pedra. Eu vi-a oscilar sobre uma ponta de rochedo coberto de musgos e batido pelas águas.
De repente voltou-se:
-- O senhor me julga muito ingrata?
-- Eu, D. Emília?
-- Oh! Não negue! Eu sinto!... Pois enganou-se! O que eu sou... Talvez não lhe saiba dizer...
Ela abaixou os olhos para os borbotões de espuma que se esfrolavam a seus pés.
-- Sou... um espírito que duvida, um coração que vacila!
Eu não compreendia; estava surpreso.
-- Esta gratidão que eu lhe consagro há três anos -- continuou ela -- tem sido a minha única alegria!
-- Como é possível, D. Emília? Não acredito!...
-- Pois creia! Tenho uma testemunha...
-- Qual?
-- Conhece?...
-- A minha carta!...
Ela passara rápida pelos meus olhos a carta que eu tinha escrito ao pai logo depois do seu restabelecimento.
-- Está assim amarrotada... Não sabe por quê? É ela que envolve os cabelos de minha mãe!
Emudecemos ambos. O papel desapareceu outra vez; tinha-o escondido no seio. Passado um instante Emília falou de novo, mas absorta, como se falara consigo mesma num recolho íntimo:
-- Não acredito no amor!... Alguma coisa me diz que não amarei nunca!... Entretanto o coração sente... tem necessidade de uma afeição criada por ele só, e que não venha do sangue. Há uma porção d'alma que pertence à família e vive nela, como as raízes desta planta, no seio da terra que a produz... Mas a outra porção, essa é nossa unicamente e também precisa de sentir e viver! Não é assim?
-- Deus quis que fosse assim, para que a humanidade existisse.
-- Deus quis... Mas por que me pôs ele n'alma esta dúvida cruel?... Tenho dezessete anos, e já me sinto órfã das minhas esperanças!
-- A senhora, D. Emília? Que lhe falta? Espírito, formosura e riqueza, tudo que o mundo admira...
-- Eu quisera não ser admirada, mas...
Ela hesitou e reprimiu a palavra que ia pronunciar.
-- Não falemos nisso. Já lhe disse que não acredito em paixões. Durante o ano que passou, esperdicei por aí, por essas reuniões, meus sonhos, minhas alegrias, minha alma! Sabe o que eu trazia? A desilusão!... Quando entrava em mim não achava senão uma lembrança doce e pura... Era a minha boa gratidão, o reconhecimento que eu lhe votava... E não sabia tudo ainda... Não tinha ainda aqui como agora suas lágrimas!...
-- Obrigado, D. Emília!
-- Oh! Não me agradeça!... Escute-me! Essa gratidão, esse sentimento bom e puro, era uma coisa minha, oculta e desconhecida, que eu dedicava no silêncio de minha alma à sua memória... porém não ao senhor!
-- Ah!
-- Do senhor, eu tinha medo, quando o via. Tinha medo que me arrancasse também do espírito mais essa doce ilusão. Desculpe-me: eu não o conhecia então. Duvidava...
-- Mas por que motivo? Percebeu alguma vez em mim a menor intenção de abusar?...
-- Nunca!... Era uma coisa que não estava em mim! Um temor vago e indefinível... Parecia-me que o hálito de sua primeira palavra vinha murchar em minha alma a única flor de sentimento que brotara nela... E eu defendia-me afastando-o... Naquela noite... não o entendi... Disse aquelas más palavras... Perdoe-me! Eu também sofri... Sofri mais porque elas não eram vingança, não. Gemidos, sim, de quem tanto perdia!...
Fui eu então, eu insultado e escarnecido, que pedi a essa mulher o perdão de minha vingança.
A tarde caía. A solidão começava a encher-se de sombras, de perfumes, de eloqüentes silêncios. Emília sorveu com delícias esse respiro dos campos na hora do crepúsculo.
-- Que linda tarde!... murmurou. -- Aqui... parece-me que eu poderia crer... Mas lá!...
Seu lábio desfolhou um triste sorriso.
-- Vamos, Mila! disse D. Leocádia.
-- Sim, minha tia.
Ela estendeu-me entre as rendas de seu lenço a ponta dos dedos que eu apertei de leve.
-- Seja meu amigo!
E desceu como um silfo, voando sobre as pedras da cascata.